Diga-me o que pensas e te direi o que hás aprendido

Pesquisadores encontram forma rápida e fácil de avaliar a história de vida de um indivíduo

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Você, que estuda análise do comportamento, já deve ter ouvido uma porção de vezes que “temos que analisar a história de vida dos indivíduos” para entender suas escolhas, problemas e comportamentos de maneira geral. Apesar de concordar com isso, parece impossível conhecer, de fato, a história de vida de um indivíduo (com exceção, talvez, de animais criados em laboratório desde o nascimento).

Isso não significa que não podemos fazer análises funcionais úteis e que se apliquem à vida de um indivíduo, mas sim que precisamos encontrar formas efetivas de inferir histórias de reforçamento que nos auxiliem a realizar análises mais precisas e, portanto, aumentar a probabilidade de poder modificar um comportamento quando desejado e/ou necessário. Pensando nisso, Aoife Cartwright e seus colegas, de três universidades da Irlanda (Maynooth University, University of Essex e National University of Ireland) planejaram um experimento com o intuito de avaliar a presença de relações verbais “naturais” (ou seja, não estabelecidas experimentalmente) relativas à estereótipos de gênero em estudantes da Universidade de Maynooth.

Para isso, a autora e seus colegas utilizaram uma modificação de um instrumento chamado FAST (Function Acquisition Speed Test), que se baseia na taxa de aquisição de respostas consistentes ou não com a história de vida presumida de um indivíduo. Por exemplo, na cultura brasileira, de maneira geral, estudos têm mostrado que aprendemos estereótipos de gênero relativos ao que seria apropriado às mulheres, como ser carinhosa, gentil e emocional.  Do mesmo modo, aprendemos que homens devem ser dominantes, não-emocionais e competitivos. Assim, relacionar a palavra “mulher” com “emocional” seria uma resposta consistente com nossa história de vida, ao passo que relacioná-la com a palavra “competitiva” seria considerado inconsistente.

Sem utilizar instruções, este instrumento modela a resposta dos participantes ao reforçar respostas consideradas consistentes com a história de vida em um bloco, e inconsistentes em outro bloco, de modo que a diferença na taxa de aquisição de respostas seja um indicador da história de vida do participante.

Com relação ao estudo, os 30 participantes recrutados (15 mulheres e 15 homens) respondiam inicialmente a dois questionários de autorrelato, um sobre sexismo e misoginia (repulsa às mulheres e/ou ao que é considerado feminino), e o outro sobre heteronormatividade (padrão de sexualidade compulsório que dita que a heterossexualidade é a única orientação sexual saudável e, portanto, marginaliza outras expressões de gênero e orientações sexuais). Em seguida, o FAST era aplicado: os participantes eram expostos a um bloco de tentativas de prática, com estímulos considerados neutros, para aprender a realizar a tarefa. Depois, realizavam dois blocos de teste, sendo reforçados (“correto”) sempre que apertarem um botão específico diante das palavras “homem” ou “masculino” com as palavras “dominante”, “não-emocional”, “competitivo” e “agressivo” nas tentativas consideradas consistentes com os estereótipos de gênero, o mesmo ocorrendo com as palavras “mulher” ou “feminino” e os traços “carinhosa”, “gentil”, “emocional” e “bitchy¹”. No bloco de tentativas inconsistente com os estereótipos de gênero, respostas relacionando “homem” e “masculino” com os traços considerados femininos eram reforçadas, assim como as tentativas relacionando “mulher” e “feminino” com os traços considerados masculinos. Respostas consideradas incorretas (e.g. relacionar “mulher” com “agressivo” em um bloco consistente com os estereótipos de gênero) também eram consequenciadas com a mensagem “errado”, assim como a ausência de resposta após de 3 segundos do início de uma tentativa.

Por fim, os participantes realizavam outro instrumento, chamado de IAT (Implicit Association Test), que funciona de maneira semelhante ao FAST (ou seja, os participantes respondem de maneira consistente com a história de vida presumida em alguns blocos, e inconsistente em outros), mas são instruídos a responder de determinada forma (e rapidamente às relações), e a consequenciação ocorre somente após a emissão de respostas incorretas, de modo que o participante tem que responder como instruído para seguir para a próxima tentativa. Este instrumento tem sido utilizado na literatura há anos, e foi utilizado no experimento como forma de corroborar os resultados do FAST.

Os resultados mostraram que, de fato, 29 dos 30 participantes mostraram uma taxa mais rápida de aprendizagem de respostas consistentes com os estereótipos de gênero, com relação às respostas inconsistentes com tais estereótipos. O IAT confirmou estes resultados, mostrando que 27 dos 28 que completaram o instrumento também apresentaram menores latências de resposta nas tentativas consistentes com os estereótipos de gênero do que nas tentativas inconsistentes.

Os dados do instrumento de autorrelato não se correlacionaram com o IAT e o FAST: nos dois questionários, os participantes relatavam níveis inferiores de sexismo e de heteronormatividade. Entretanto, pesquisas mostram que as correlações tendem a ocorrer com temas que não sejam socialmente sensíveis, como preconceitos, opiniões políticas e religião.

Em resumo, essa pesquisa foi a primeira a mostrar a utilidade do FAST para o estudo de relações verbais pré-experimentais, especialmente porque este instrumento é fácil de se utilizar e de rápida aplicação (menos de 5 minutos!). Falta analisar, por exemplo, se este instrumento prediz discriminação verbal ou física. Ficou interessado?

 

¹ adjetivo utilizado para descrever um indivíduo que faz prontamente comentários maliciosos e maldosos.

 

O estudo: Cartwright, A., Roche, B., Gogarty, M., O’Reilly, & Stewart, I. (2016). Using a modified Function Acquisition Speed Test (FAST) for assessing implicit gender stereotypes. The Psychological Record, 66, 223-233.

 

Fonte da imagem: http://www.thebakerorange.com/news/2015/oct/27/downfall-gender-stereotypes/

 

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

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