Verdade ou consequência? Um doce pelo seu pensamento!

melina

Será que mentir é uma tarefa simples? Você acha que toda criança é sempre sincera? Você já se perguntou quando começamos a mentir?

Vou começar o post de hoje com uma breve historinha…

Certa vez eu estava fazendo um estudo com uma menininha de uns 3 anos. Ela estava sentada no meu colo enquanto eu lia um livro infantil para ela. Eu senti um cheiro estranho num dado momento, mas eu não podia parar de ler (iria acabar com o procedimento… tudo pela Ciência!). Assim que terminamos a leitura, eu perguntei para ela: “Você usa fralda, Lori?”. Ela, muito orgulhosa, me respondeu: “Não, eu sou uma mocinha! Eu não uso mais fralda”. Daí eu perguntei (já sabendo a resposta, por motivos tragicômicos e óbvios): “E você fez xixi?”, e ela respondeu, sem pestanejar: ”Fiz”. E a vida seguiu feliz (para alguns…).

 

Por que será que nossa amiguinha não mentiu nesta ocasião? Não falou que havia um “acidente”, ou algo do gênero, imaginando que eu poderia ficar chateada com a situação? Você já reparou que parece que crianças muito pequenas não conseguem mentir? Por que será que isso acontece? Será isso mais uma evidência a favor daquela famosa frase de Rousseau: “o homem nasce bom, a sociedade o corrompe”?

 

Para começarmos a pensar sobre isso é preciso considerar que mentir não é um comportamento simples. Mentir envolve uma série de habilidades, incluindo ser capaz de imaginar/prever o que seu interlocutor gostaria de ouvir numa determinada ocasião. Em outras palavras, o que seria adequado dizer, tomando a perspectiva do outro, ao invés da sua própria. Esse tipo de capacidade, de se comportar de acordo com o que o outro espera de você, é um campo de estudo chamado “Teoria da Mente” (ToM- Theory of Mind, em inglês).

 

Dentro deste campo, um grupo de pesquisadores chineses investigaram como um treinamento de ToM pode fazer com que crianças, tão sinceras quanto a nossa amiguinha da história, começassem a mentir. O que eles fizeram? Recrutaram cerca de 40 crianças de 3 anos e as dividiram em dois grupos: um experimental e um controle. Todas elas passaram pela seguinte tarefa, que se parece com um jogo: Havia dois jogadores, dois copos e um doce. O doce era escondido em um dos copos por um dos jogadores, sem o outro ver. Se o outro jogador descobrisse em qual dos copos estava o doce, era o ganhador, e podia ficar com o doce. Caso contrário, o primeiro jogador que seria o ganhador e ficaria com o doce. Neste contexto, a criança sempre era o jogador que escondia o doce, e o experimentador, o outro jogador que deveria adivinhar em qual copo ele estava. Entretanto, antes de escolher o copo, o experimentador perguntava para a criança em qual copo o doce estava. O que vocês imaginam que as crianças respondiam??? Se você pensou que elas falavam a verdade, acertou! Antes do treinamento, todas elas respondiam a verdade, em todas as 10 tentativas, e consequentemente, ficavam sem os doces.

 

Após essa tarefa inicial, que foi feita com todas as crianças, os grupos experimental e controle começaram a ser introduzidos em suas respectivas tarefas. O grupo experimental foi submetido a um treinamento de ToM, que consistia em realizar tarefas de falsa crença com a apresentação de feedbacks. Nesse tipo de tarefa é apresentada para a criança, por exemplo, uma caixa de giz de cera, e daí pergunta-se o que ela pensa que tem ali dentro. Mostra-se que o conteúdo da caixa é qualquer outro que não seja o sugerido pela embalagem (velinhas de aniversário, por exemplo), então, pergunta-se para a criança:

  1. a) se alguém que não tinha visto o que havia dentro da caixa saberia o que estava ali dentro;
  2. b) o que ela tinha respondido originalmente, antes da caixa ser aberta;
  3. c) o que alguém, que não tinha visto o conteúdo da caixa, iria pensar que havia ali dentro.

A criança deveria responder adequadamente à essas três perguntas, e para cada resposta correta, o experimentador apresentava um feedback como: “Muito bem. Antes de abrir a caixa ele pensava que havia giz de cera dentro dela”. E para cada resposta incorreta, dizia algo como: “Não, você não está certo(a). Antes de abrir a caixa ele pensava que havia giz de cera dentro dela”.

 

O grupo controle era submetido a tarefas piagetianas de conservação. Por exemplo, quando se coloca a mesma quantidade de um líquido em dois recipientes iguais, e pergunta-se para a criança qual dos dois tem mais. Ela responde que são iguais. Daí, na frente da criança você troca um dos recipientes por um mais fino e comprido, despeja o líquido neste novo recipiente, e pergunta novamente para a criança, qual dos dois recipientes têm mais líquido, e desta vez ela responde que há mais nesse segundo recipiente. Os pesquisadores acreditavam que tarefas desse gênero envolvem conceitos físicos, e portanto, não deveriam afetar comportamentos que envolvam habilidades sociais, por isso eram as tarefas do grupo controle.

 

Depois de seis dias consecutivos com esses diferentes treinos, todas as crianças voltaram a realizar o primeiro jogo, com os copos e o doce. E daí o resultado muito legal: as crianças que foram submetidas ao treinamento de ToM começaram a mentir! E esse efeito foi persistente por vários dias jogando o mesmo jogo, e mesmo 25 dias após a última sessão. As crianças do grupo controle aprenderam a mentir só depois de várias rodadas do jogo, e mentiram menos que as do grupo experimental.

 

Mas por que mentir pode ser considerado legal? O primeiro ponto é que mentir pode ser um comportamento adequado em algumas ocasiões (como quando você ganha um presente que você não gosta, e não quer chatear a pessoa que te deu). Segundo que, como nós vimos, ser capaz de falar uma mentira indica o desenvolvimento das habilidades sociais e verbais da criança, significa que ela é capaz de entender as similaridades e as diferenças entre sua própria perspectiva e a perspectiva do seu interlocutor. E, respondendo à pergunta do título, os pesquisadores de desenvolvimento apontam que em torno dos 4 anos de idade as crianças começam a desenvolver naturalmente essas habilidades, e começam a ser capazes de mentir.

 

Por fim, é importante ressaltar que a Teoria da Mente tem sido associada, tipicamente, com o desenvolvimento de comportamentos pró-sociais, de interações interpessoais e de popularidade entre pares, e que essas habilidades pró-sociais reduziriam a tendência das crianças de mentirem indiscriminadamente, uma vez que a mentira não é tipicamente associada como um comportamento pró-social. Entretanto, estudos como este nos mostram que quando o assunto é comportamento social, as coisas não são tão simples assim, e que a Teoria da Mente pode, sim, estar muito relacionada com o desenvolvimento de comportamentos complexos como é o de mentir.

O que você achou desse estudo? Ficou curioso? Leia o original e vamos discutir! 🙂

 

Ding, X. P, Wellman, H. M., Wang, Y., Fu, G., & Lee, K. (2015). Theory-of-Mind Training Causes Honest Young Children to Lie. Psychological Science, 2, 1-10.

 

Fonte da imagem: http://psychtutor.weebly.com/special-educational-needs.html

 

Postado por Melina Vaz, bióloga, aprendendo a ser psicóloga sem treinamento de ToM, doutoranda do Programa de Psicobiologia da USP, e interessada em mentiras sinceras.

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