O paradigma de equivalência de estímulos precisa de ajustes?

equiv-diagram

O paradigma de equivalência de estímulos é um dos modelos mais bem consolidados da Análise do Comportamento, pois ele oferece critérios operacionais para que seja verificado se um conjunto de relações condicionais explicitamente treinadas são reflexivas, simétricas e transitivas. Ou seja, após serem treinadas as seguintes relações:

  • Se A então B
  • Se B então C

As relações poderão ser reflexivas:

  • Se A então A
  • Se B então B
  • Se C então C

As relações poderão ser simétricas:

  • Se B então A
  • Se C então B

E as relações poderão ser transitivas:

  • Se A então C
  • Se C então A

O As propriedades reflexivas, simétricas e transitivas são testadas em extinção. Isso significa que as respostas às relações reflexivas, simétricas e transitivas não produzem as consequências diferenciais que haviam fortalecido o responder durante o treino. Por este motivo, é dito essas novas relações são “emergentes”.

O termo “emergente” descreve especificamente as possíveis extensões comportamentais que podem derivar de uma história de reforçamento. Ademais, a emergência dessas propriedades serve para indicar o estabelecimento de classes de equivalência. Mas será que as relações reflexivas, simétricas e transitivas são os únicos tipos possíveis de comportamentos emergentes que resultam do estabelecimento de classes de equivalência? Para Carol Pilgrim (e outros antes dela) a resposta é não.

Em um artigo recentemente publicado no European Journal of Behavior Analysis, a pesquisadora listou uma série de estudos que comprovaram a existência de relações emergentes que são claramente produtos da formação de classes de equivalência, mas que não podem ser descritos em termos de reflexividade, simetria e transitividade. Curiosamente, casos como esses são bastante comuns na literatura da área desde o estudo seminal publicado por Murray Sidman em 1971, mas têm ganhado pouca atenção dos pesquisadores desde então.

Uma situação onde esses outros tipos de desempenhos emergentes são observados decorre de treinos nos quais um reforçador X1 é empregado para estabelecer as relações condicionais A1B1 e B1C1 e o reforçador X2 é empregado para estabelecer as relações condicionais A2B2 e B2C2. Nessas condições pode ser possível observar que, além das relações reflexivas (A1A1, B1B1, C1C1, A2A2, B2C2 e C2C2), simétricas (B1A1, B2A2, C1B1 e C2B2) e transitivas (A1C1, C1A1, A2C2 e C2A2), um participante será capaz de relacionar a imagem de X1 aos estímulos A1, B1 e C1 (X1A1, X1B1, X1C1, A1X1, B1X1 e C1X1) e a imagem de X2 aos estímulos A2, B2 e C2 (X2A2, X2B2, X2C2, A2X2, B2X2 e C2X2). É evidente que esses desempenhos que envolvem X1 e X2 entram na categoria de relações “emergentes”. Estas, porém, são impossíveis de serem descritas como sendo relações reflexivas, simétricas e transitivas, porque estão para além das relações entre estímulos antecedentes.

Então, haveria alguma coisa errada com esses critérios? Devemos excluí-los de nossas pesquisas?

Na realidade, não. Esses critérios operacionais, segundo Pilgrim, foram bastante importantes para a consolidação da área e ainda são as ferramentas mais seguras para diferenciar qualitativamente os desempenhos que decorrem da formação de classes de equivalência de outros tipos de desempenhos que são modelados por outros tipos de histórias de reforçamento. Porém, perseverar na busca pela emergência de relações reflexivas, simétricas e transitivas seria insistir em captar apenas uma pequena parte de um fenômeno que tem se mostrado mais amplo. A solução para este problema não é nova, de tal modo que a pesquisadora retomou algumas considerações que há muitos anos haviam sido feitas por Murray Sidman. Segue alguns dos pontos levantados por Sidman, com os quais Pilgrim parece concordar integralmente:

  • Reflexividade, simetria e transitividade são apenas nomes que foram arbitrariamente atribuídos a alguns tipos de relações emergentes.
  • Relações reflexivas, simétricas e transitivas são desempenhos que resultam da formação de classes de equivalência e não são classes de equivalência propriamente ditas.

Mas o acúmulo de dados tem mostrado que as relações de equivalência podem envolver todas as unidades comportamentais que são interligadas no âmbito de contingências de reforçamento. Para dar maiores esclarecimentos, precisaremos destrinchar um pouco mais as características de um treino hipotético com os reforçadores X1 e X2 que foi apresentado acima:

As relações A1B1 e B1C1 estabelecem ocasião para que as respostas produzam o reforçador X1, não X2. Paralelamente, as relações A2B2 e B2C2 estabelecem ocasião para que as respostas produzam o reforçador X2, não X1. Essas relações são contingências porque os reforçadores não serão apresentados se uma resposta não ocorrer, ou se resposta for emitida diante das relações A1B2 ou B1C2. Agora repare que, relações reflexivas, simétricas, transitivas e ainda outras relações emergentes envolvendo as imagens de X1 e X2 são combinações entre as unidades comportamentais que compuseram cada uma das contingências de reforço. Isso leva a concluir que as relações de equivalência se originam no âmbito dessas contingências e envolvem as unidades comportamentais que as compõem. Tal conclusão é importante não somente porque ela assenta o processo de formação de classes de equivalência em princípios comportamentais, mas também porque dela é possível concluir que quaisquer pares emergentes envolvendo as unidades comportamentais que participam de uma contingência de reforço são resultados do processo de formação de classes de equivalência.

Para concluir, a questão discutida no artigo de Carol Pilgrim não é nova na área. Mas, no presente cenário, os dados de pesquisas recentes têm mostrado sistematicamente a existência de desempenhos emergentes que resultam da formação de classes de equivalência, mas que não podem ser classificados nos termos de reflexividade, simetria e transitividade. É possível que dados de novos estudos tornem ainda mais evidente a validade e utilidade de uma definição mais ampla do fenômeno.

 

Leia o texto na íntegra para conhecer a discussão e os novos dados:

 

Pilgrim, C. (2016). Considering definitions of stimulus equivalence. European Journal of Behavior Analysis, 17(1), 105-114. doi: 10.1080/15021149.2016.1156312

 

Fonte da imagem: http://acelab.qwriting.qc.cuny.edu/research/equivalence-based-instruction/

 

Escrito por Marcelo V. Silveira

Pós-Doutorando

Bolsista PNPD-CNPq

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