Uma relação interessante: Os meios de comunicação de massa e os consumidores de notícias

djenane

Em tempos de questionamentos quanto à influência dos grandes e poucos conglomerados de produção e propagação de notícias (grande mídia) sobre os comportamentos das pessoas em relação à atual conjuntura social e política brasileira, deparei-me com o artigo de Wilhite e Houmanfar (2015), no qual realizam uma análise dos meios de comunicação de massa e seus efeitos sobre a cultura norte-americana, trazendo elementos que poderiam subsidiar a compreensão, por analogia, da realidade brasileira.

            Utilizou-se um referencial interdisciplinar para compreender aspectos importantes sobre como a mídia, através dos comportamentos das pessoas que elaboram e divulgam os produtos jornalísticos (com destaque para notícias em telejornais, no rádio e na imprensa), pode influenciar o comportamento dos consumidores destes produtos jornalísticos, tanto no sentido dos comportamentos verbais nos quais os consumidores se engajam (por exemplo, o que se fala sobre um tema) quanto determinando práticas culturais[i] (por exemplo, várias pessoas assistindo, recorrentemente, a um telejornal que veicula notícias tendenciosas). O produto acumulado de certa prática cultural pode resultar num problema social se produzir prejuízos ao meio-ambiente, à cultura, ou aos indivíduos.

Objetivista ou advocatório são duas categorias gerais de classificação do modo como o conteúdo das notícias e de artigos jornalísticos pode ser apresentado, de acordo com a literatura sobre comunicação e jornalismo de massa. Em linhas gerais, numa notícia apresentada de acordo com um quadro de referência objetivista, os dois lados de uma questão são apresentados produzindo equilíbrio no relato, prevalece a apresentação de evidências ou informações baseadas em evidências e o leitor é encorajado a elaborar suas próprias conclusões. Por outro lado, no modo advocatório, apresenta-se um único lado de uma questão, há inclusão de opiniões e informação anedótica em vez de evidências, e de conclusões em vez de argumentos.

Tanto a literatura dos meios de comunicação de massa quanto a analítico-comportamental apontam para o efeito do modo como uma notícia é apresentada sobre o comportamento dos consumidores das notícias. A propagação de notícias com informações baseadas em evidências, ligadas a um enquadre objetivista, é considerada mínima nos produtos jornalísticos produzidos pela grande mídia, sendo as notícias enviesadas as mais comuns. Como há indícios de que o consumidor médio dos meios de comunicação de massa, nos EUA, não esteja qualificado para realizar análises sofisticadas das notícias, considerando, por exemplo, o contexto ou as questões de fundo envolvidas, a propagação de notícias enviesadas torna-se particularmente preocupante.

Análises em diferentes níveis foram realizadas. No nível de análise da metacontingência[ii], caracterizada por um todo coeso de relações entre eventos ambientais e comportamentais, em que práticas culturais podem ser selecionadas (Wilhite & Houmanfar, 2015), encontramos intrincadas relações entre três processos seletivos: um de produção do produto agregado, realizado no contexto organizacional; outro de entrada em contato e de ação em relação ao produto agregado, realizado pelos consumidores; e o terceiro em que os comportamentos dos consumidores retroagem sobre o nível organizacional (ver Wilhite & Houmanfar, 2015, pp. 95-96).

Assim, por exemplo, diante de uma pauta com as histórias disponíveis para serem noticiadas (evento antecedente), um diretor de jornalismo de uma organização da mídia convoca os editores de jornalismo e arte/fotografia, por exemplo, e comunica a pauta (comportamento). Os editores, conjuntamente, decidem sobre as histórias que serão noticiadas (comportamentos sociais entrelaçados[iii]); a decisão é o evento consequente para o comportamento do diretor e, também, o evento antecedente para os comportamentos dos chefes de reportagem, jornalistas e revisores atuarem (indicando o entrelaçamento de vários comportamentos). Chefes de reportagem, jornalistas e revisores são comunicados da pauta definida e realizam uma série de ações (pesquisas, entrevistas, leituras, escritas) que, depois de alguns outros desdobramentos, produzirão a notícia pronta para ser veiculada (o produto agregado resultante). Os consumidores, ao escolherem que noticiário televisivo assistir, ou que jornal comprar, produzem dados de consumo que são computados e analisados pelos líderes das organizações de mídia. Esse feedback torna-se elemento capaz de influenciar a tomada de decisões dos líderes das organizações de mídia, assim como afetar a produção de regras organizacionais, que podem levar a um produto agregado modificado.

Num outro nível de análise, em que se busca mostrar possíveis efeitos dos comportamentos dos consumidores sobre a tomada de decisões pelo pessoal da mídia, há a interação entre metacontingência e macrocontingência[iv]. Por um lado, temos a organização de mídia, com suas regras, tendências, comportamentos sociais entrelaçados; o produto agregado (a notícia) e os comportamentos dos consumidores; e o feedback dos consumidores retroagindo sobre a organização (metacontingência). Por outro, temos os comportamentos não entrelaçados dos consumidores de notícias produzindo um resultado acumulado comum, os índices de audiência (macrocontingência), que afetam as decisões do pessoal da mídia e podem levar a um produto agregado modificado (por exemplo, um outro enquadre na apresentação das notícias). Assim, num dos casos analisados, uma organização que adotava, inicialmente, um enquadre mais objetivista, modificou-o, rapidamente, para advocatório com viés republicano. Em outro caso, uma organização que adotava, inicialmente, um enquadre mais objetivista, modificou-o, em poucos anos, para advocatório democrata. Neste segundo caso, eventos ocasionais de difusão de notícias de caráter advocatório-democrata foram selecionados pelos consumidores com sua audiência e o resultado acumulado da ação dos consumidores (aumento na audiência), funcionou como um feedback para os líderes da empresa, além de fatores correlatos (aumento nas receitas), podem ter produzido mudanças nas regras organizacionais (orientações dos líderes quanto ao que valorizar na produção da notícia) e nos comportamentos sociais entrelaçados (tomada de decisão coletiva) do pessoal daquela organização, que culminaram na apresentação de um produto agregado final modificado (o novo enquadre, com viés democrata, das notícias). Segundo Wilhite e Haumanfar (2015),

 

existe uma relação entre o aumento de crenças político-partidárias entre o público americano e o aumento no estilo de jornalismo advocatório, em particular nas redes de notícias a cabo, e as pessoas que consomem esses produtos de notícias tendenciosas são também aquelas que votam para eleger os representantes políticos (p. 105),

 

o que ilustra parte dos efeitos danosos do tipo de jornalismo advocatório (potencial problema social), principalmente quando concentrado nas mãos de poucas organizações produtoras e difusoras de notícias, como mencionamos anteriormente. Entendo que seja de interesse geral que o enquadre objetivista prevaleça, pois permite aos consumidores de notícias engajarem-se em comportamentos verbais e não verbais de forma mais autônoma (os próprios consumidores analisam os argumentos e chegam a conclusões) e sob controle de variáveis relevantes (fatos, evidências, argumentos baseados em evidências) para os temas em questão.

Visando reduzir o tipo de influência tendenciosa descrito pelo jornalismo advocatório e seus efeitos perniciosos, e indo além das pesquisas mais tradicionais no campo da relação entre os produtos jornalísticos e os comportamentos dos consumidores, as autoras consideraram o contexto da metacontingência para indicar pontos de intervenção capazes de produzir mudanças no modo como o pessoal que trabalha na grande mídia seleciona e apresenta os conteúdos noticiados.

Como as práticas dos consumidores retroagem sobre o meio organizacional e suas regras afetam as decisões do pessoal da mídia e os produtos agregados decorrentes, produzir mudanças nestas práticas é um caminho possível de ser tentado, ainda que difícil de ser executado. Outra possiblidade de intervenção é atuar sobre os comportamentos dos líderes organizacionais, oferecendo, por exemplo, reconhecimento social para a adoção do enquadre objetivista ou mesmo incentivos fiscais para o fomento de práticas organizacionais ligadas à produção de notícias baseadas em evidências. É possível também intervir no meio cultural, mais amplamente, através da elaboração e implantação de leis de fomento à adoção do enquadre objetivista, ou de prescrição de multas por adoção do enquadre advocatório.

A produção de notícias compostas por informações unilaterais e carentes de evidências ou fatos pode trazer prejuízos sociais. O estudo de Wilhite e Haumanfar (2015) aponta para o potencial das análises comportamentais para compreender e enfrentar tais problemas a partir da análise da realidade norte-americana. E aqui no Brasil, será que encontraríamos a mesma relação entre a defesa de certas crenças e o enquadre jornalístico advocatório? Que papel as variáveis histórico-culturais desempenham neste contexto? Tendo feito uma apresentação rudimentar do modelo proposto por Wilhite e Haumanfar (2015), deixo para o leitor a tarefa de realizar a analogia proposta na introdução deste texto e a de elaborar suas conclusões.

 

Quer saber mais? Leia:

Wilhite, C.J., & Houmanfar, R. (2015). Mass News Media and American Culture: An Interdisciplinary Approach. Behavior and Social Issues, 24, 88-110.

 

Postado por: Djenane Brasil da Conceição, Professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

 

[i] Práticas culturais envolvem a realização repetida de comportamentos semelhantes, na forma ou nos resultados produzidos por sua prática, por um grande número de pessoas (Malott & Glenn, 2006, parafraseadas por Wilhite & Houmanfar, 2015, p. 95). Exemplos seriam: o altear as sobrancelhas quando se cruza o olhar com o de outra pessoa, ou andar de bicicleta no trajeto casa-trabalho, que reduz a emissão de gases poluentes.

[ii] Wilhite e Houmanfar (2015) adotam uma conceituação de metacontigência bastante recente, que incorpora reformulações anteriormente realizadas sobre o conceito original proposto por Gleen na década de 1980, e propõem alguns ajustes.

[iii] Comportamentos sociais entrelaçados, sócio-IBs, e comportamentos entrelaçados, IBs, são os termos utilizado por Houmanfar, Rodrigues e Ward, em 2010, para substituir o termo contingências sociais entrelaçadas, IBCs, da definição de metacontingência de Glenn e Mallot, de 2004, argumentando que comportamentos são selecionados e não contingências. Segundo Glenn e Mallot (2004, citados por  Wilhite & Houmanfar, 2015), define-se metacontigência como “contingências comportamentais entrelaçadas (IBCs), seu produto agregado e seu sistema receptor” (p. 95).

[iv]Macrocontingência descreve a relação entre comportamentos recorrentes e semelhantes de várias pessoas, que não constituem um todo coeso, e o produto acumulado destes comportamentos (Wilhite & Houmanfar, 2015, p. 96).

 

Fonte da imagem: http://www.theverge.com/2015/10/25/9457247/the-simpsons-al-jean-interview

 

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