Yoga e vídeos?! Seria essa uma boa combinação?

 

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Yoga é um sistema que envolve práticas corporais e de meditação que buscam aumentar o bem-estar integral da pessoa. Dentre as práticas corporais, existem posturas que o aprendiz precisa executar.

O estudo que iremos descrever apostou no ensino de três posturas de Yoga com a utilização de vídeos como instrumento para a aplicação do procedimento de correção. As posturas escolhidas foram as tradicionais: postura da árvore, do cachorro e do guerreiro.

Ficou curioso para saber quais são elas? Nós também!! Por isso, criamos um quadro com as imagens para te ajudar!! Veja…

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Dois estudantes universitários com 21 e 24 anos, Bill e Tom, interessados em aprender Yoga participaram do estudo. Apesar de interessados, eles nunca haviam praticado antes. Como repertório inicial, foram ensinadas as três posturas tradicionais de Yoga, ilustradas acima, com a ajuda de instrutores especializados.

Em seguida, na fase de Linha de Base, os participantes eram filmados por diversos ângulos, enquanto praticavam as posturas aprendidas, e deveriam repetir por três vezes cada uma delas. Após as filmagens, havia duas propostas de intervenção utilizando, como ferramenta principal, os vídeos gravados durante a Linha de Base.

O objetivo do estudo era comparar a eficácia das duas intervenções na prática específica de Yoga, sendo a primeira a Auto-avaliação via vídeo e a segunda o Vídeo feedback com a presença do pesquisador.

A primeira intervenção realizada foi a Auto-avaliação. Os participantes assistiram aos seus próprios vídeos e aprenderam a pontuar suas posturas com a ajuda dos pesquisadores. Para isto, eles utilizaram um roteiro próprio. O passo seguinte, após aprender a pontuar, era assistir aos demais vídeos deles mesmos e realizar novas pontuações, mas agora, sozinhos e sem ajuda. Em seguida, ainda sozinhos, eles praticavam as posturas novamente, e isto era filmado para gerar novos vídeos. Então, como último passo deste procedimento, eles assistiram aos novos vídeos e pontuaram suas posturas.

Para Bill, houve o aumento da porcentagem de acertos dos passos para a execução das três posturas já com a primeira intervenção, a Auto-avaliação via vídeo. Sucesso!!! E para Tom, houve este aumento para duas posturas, sendo que, apenas para a postura do cachorro, foi necessária a segunda intervenção, ou seja, o Vídeo feedback com a ajuda do pesquisador.

E como isto ocorreu? A postura foi praticada pelo participante e filmada pelo pesquisador que apresentava feedback verbal para cada passo durante a execução. Logo após, os vídeos foram assistidos e avaliados, passo a passo, por ambos, participante e pesquisador juntos. Ou seja, nesta proposta de intervenção, o pesquisador se fez presente durante todo o tempo, tanto no momento de praticar as posturas quanto para assistir aos vídeos e pontuá-los.

Os autores finalizaram o artigo destacando que este foi o primeiro trabalho que utilizou a Auto-avaliação com o uso de vídeos na prática específica das posturas de Yoga. Eles afirmaram que a Auto-avaliação foi muito eficaz para melhorar o desempenho da execução das posturas, apontando duas questões relevantes. Uma delas é a evidência de que as pessoas podem avaliar seus próprios desempenhos e fazer correções para melhorá-los, e a segunda, é a sugestão de que esta pode ser uma alternativa mais econômica, se comparada ao uso de vídeos junto aos treinadores, que é uma prática comum entre os esportistas.

Obviamente, outras pesquisas devem ser feitas, incluindo outros esportes. Mas, por hora, parece que a aprendizagem por meio de “auto vídeos” é uma possibilidade promissora, já que permite o treino discriminativo das propriedades sutis dos movimentos realizados e, assim, pode-se aprender a identificar os erros de execução e corrigi-los, sem que um instrutor esteja presente ao longo do treinamento inteiro.

Gostou da ideia? Consegue pensar sobre novas possibilidades para o uso destas mesmas intervenções em outros ambientes e para outros repertórios? Para facilitar, comece identificando alguns processos comportamentais envolvidos, como por exemplo, modelação, modelagem, uso de regras e autorregras, dentre outros.

Você pode buscar o artigo original, caso ainda esteja curioso!!!

Downs, H. E., Miltenberger, R., Biedronski, J. & Witherspoon, L. (2015). The effects of video self-evaluation on skill acquisition with yoga postures. Journal of Applied Behavior Analysis. 48 (4), 930-935.

Para o Boletim Behaviorista, o texto foi escrito por Cristiane Alves, professora efetiva do curso de Psicologia da Universidade Federal de Goiás (UFG) – Regional Catalão, e atualmente, doutoranda no Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sob orientação do professor Dr. Júlio César Coelho De Rose.

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Ga-Ga-ooh-la-la! Lady Gaga, música e o ensino dos Operantes Verbais

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Bom dia classe! Hoje vamos falar sobre Operantes Verbais, diz a professora Paloma, em sala de aula. Em seguida, ela liga seu Datashow, coloca seus slides e pronto, a aula começa com uma looooonga explicação sobre o tema. No meio do caminho, Marcio, aluno que ouve atentamente cada palavra de Paloma, começa a se perguntar: Oi? Mando? Tato? Ecoico? Nossa… hum… E, apesar do empenho de Paloma em trazer exemplos e retomar todos os operantes a cada pergunta dos alunos, Marcio continua boiando … Então, Marcio pensa novamente, existiria outra forma de falar sobre os operantes verbais?

De acordo com Benjamin N. Witts, Icha Arief e Emily Hutter, existe. Esses pesquisadores descreveram em artigo publicado na revista The Analysis of Verbal Behavior um exercício realizado em sala de aula em que dois alunos analisaram a canção da cantora Lady Gaga (Sim, a badalada!) “Applause” a partir da definição de Skinner sobre os operantes verbais e seus subtipos. Os operantes verbais e seus subtipos, segundo Skinner (1957), podem referir-se à descrição de variáveis controladoras antecedentes e consequentes de respostas verbais emitidas por um falante e podem ser categorizados, por exemplo, como mando, ecóico, intraverbal, tato, entre outros.

Vamos relembrar algumas dessas categorias? Para isso, vamos nos basear, além de Skinner (1957), em Passos (2003) e Barros (2003), que apresentaram textos com exemplos muito interessantes.

O mando é o operante verbal pelo qual damos ordens (- Leia esse texto!), fazemos pedidos (- Você me empresta seu carro?), identificamos reforços necessitados pelas pessoas (- Quer que pegue o apagador?), fazemos perguntas, damos conselhos e avisos, pedimos a atenção de alguém, etc. Assim, o mando é emitido sob privação ou estimulação aversiva e é seguido por uma consequência reforçadora referente à tais eventos. Ou seja, as respostas verbais, vocais ou motoras são controladas por eventos encobertos, ligados a estados motivacionais ou afetivos e mantidas por consequências que devem imediatamente ser seguidas de mudanças no ambiente relacionadas aos estados privados da pessoa.

O tato é o operante verbal presente, por exemplo, quando nomeamos pessoas, eventos, objetos, ou seja, é por meio do tato que descrevemos diferentes aspectos dos ambientes externo e interno à nossa pele, como quando dizemos “Este risoto é de frango” ou “eu me chamo Vivian”.  Assim, o tato é controlado por estímulos discriminativos não-verbais, sendo consequenciado por reforço generalizado.

O ecóico é operante verbal pelo qual uma mãe, por exemplo, pede para seu filho repetir uma palavra que ela acabou de ouvir, como “Mamãe”.  Assim, o ecóico é controlado por estímulos discriminativos sonoros e a resposta é vocal e ocasiona uma consequência social. Ocorre aí uma correspondência formal, ou seja, devem soar muito parecidos o que a mãe diz e o que o filho repete.

O intraverbal é o operante verbal pelo qual dizemos para uma criança a conta “2 vezes 2 é igual a…” e a criança diz “quatro!”, ou quando fazemos uma conexão entre as palavras xícara e pires. Há, assim, o controle por um estímulo discriminativo verbal auditivo ou visual e que é estabelecido por reforço generalizado, não havendo correspondência formal nem ponto a ponto entre o estímulo discriminativo e a resposta verbal.

Agora que relembramos os conceitos, vamos retomar o estudo. Para fazer a classificação, os pesquisadores selecionaram versos da música como linhas individuais, combinações de linhas, seções das canções e combinações de canções e solicitaram aos alunos a realização da análise. Por exemplo, na linha 1 do verso 1: “I stand here waiting for you to bang the gong” (algo como “Eu estou aqui esperando por você para bater o gongo”), foram identificadas propriedades metafóricas.

As extensões metafóricas foram entendidas como tatos estendidos, que é quando certa propriedade de um estímulo que não é aquela sobre a qual a comunidade verbal, tipicamente, fornece o reforço depois que o comportamento verbal é emitido, funciona como estímulo discriminativo que controla a emissão de um determinado operante.

Assim, o gongo foi identificado com duas possíveis interpretações: (1) o gongo sinaliza o fim da carreira de Gaga, referindo-se à programas de TV que ao som de um gongo os competidores musicais são eliminados, e (2) ele sinaliza o começo pois em muitas culturas o gongo sinaliza o início de algum evento.

Também foram analisadas as linhas 3 e 4 do verso 1: “If only fame had an I.V., baby could I bear. Being away from you, I found the vein, put it in here” (algo como: Se apenas a fama tivesse um I.V., baby, eu poderia suportar. Estando longe de você, encontrei a veia, coloque aqui). Nessas linhas os pesquisadores identificaram os operantes verbais tato, intraverbal e também um mando. Gaga afirma que encontrou a veia, um tato, enquanto a referência a uma veia também atua como um intraverbal para a referência ao I.V., o medicamento intravenoso. O mando seria o pedido para colocar o medicamento.

O estudo segue com apresentação de análises de outros trechos da canção. Não há muitos detalhes que descrevem como foram feitas as análises, a leitura das frases e como chegaram a concordância das classificações. Apesar disso, os autores apontaram algumas questões que merecem atenção e devem sofrer ajustes nos próximos estudos que forem realizados.

O trabalho se limitou a participação de apenas dois alunos que passaram várias semanas analisando e reanalisando as letras com a ajuda do professor. Em sala de aula, o número de alunos é bem maior, o tempo para a realização das atividades não é tão longo e a disponibilidade do professor nem sempre é tão grande assim.

Há a necessidade de avaliar o efeito que as interpretações baseadas nas letras de canções têm sobre a compreensão do aluno, com a realização de pré e pós-testes entre grupos com e sem o exercício de análise de canções para avaliar se a técnica é útil para refinar a compreensão do estudante sobre a taxonomia de comportamentos verbais.

A análise foi limitada, considerou apenas os conceitos de operantes verbais, não ampliando para outros temas da Análise do Comportamento, como comportamento não-verbal, e também apresentou caráter especulativo, já que não tinham acesso direto às condições originais sob as quais a canção foi produzida.

Além disso, os autores sugerem que a escolha da música deve ser mais compatível com o gosto do aluno, uma vez que os alunos do estudo não gostavam tanto de Lady Gaga, entretanto essa escolha deve ser feita sob a supervisão do professor, pois a música deve permitir e fornecer a mínima oportunidade para a análise dos operantes verbais acontecer.

Longe de debater se a música de Lady Gaga é de fato boa ou não, os dados permitem a observação de uma forma bastante criativa de estratégia de ensino sobre o tema operantes verbais.  Mesmo não sendo uma estratégia revolucionária, afinal, conforme os próprios autores ela já é usada em outras áreas, é interessante notar que através dela, os alunos puderam identificar diversos operantes verbais e seus subtipos, incluindo alguns poucos tratados por estudos da área como a metonímia e extensões de tatos.

Tanto para os pesquisadores quanto para Skinner (1957), aprender operantes verbais requer extenso estudo e prática, por isso, pensar em estratégias mais interessantes pode tornar aprendizado mais agradável para Marcio (lembram dele?).

Quer saber mais detalhes sobre o estudo? Leia:

Witts, B. N.; Arief, I. & Hutter,E. (2016). Using a Verbal Analysis of Lady Gaga’s Applause as a Classroom Exercise for Teaching Verbal Behavior.  The of Analysis Verbal Behavior, 32,78–91.

Outras DICAS:

Outras referências consultadas:

Barros, R. S. (2003). Uma introdução ao comportamento verbal. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva5(1), 73-82.

Hübner, M. M. C. (2012). Operantes Verbais de Skinner: Definição e identificação na clínica e no cotidiano. Anais I Congresso Brasileiro de Terapia por Contigências. Disponível em: http://www.congressobrasileirotcr.com.br/resumos/cursos/martha.pdf

Passos, M. L. R. F. (2003). A análise funcional do comportamento verbal em Verbal Behavior (1957) de B. F. Skinner. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva5(2), 195-213.

Skinner, B.F. (1957). Verbal behavior. New York: Appleton-Century-Crofts.

Fonte da imagem: http://www.univalenews.com/?p=4710

 

Escrito por Vivian Bonani de Souza Girotti, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Docente da Faculdade de Tecnologia, Ciências e Educação – FATECE. E agora, mãe do Theo!