“Mas eu me mordo de ciúme!” Como a intensidade do ciúme pode interferir na formação de classes de equivalência

Esta pesquisa mostrou que o nível de ciúme pode interferir na formação de classes de estímulos equivalentes quando se utiliza o nome do parceiro

magali

Você é uma pessoa ciumenta? Difícil responder a essa pergunta não é mesmo? Isto porque para o analista do comportamento é preciso descrever qual conjunto de operantes e respondentes está sendo nomeado de ciúme. Agora, vamos supor que o nome de seu (sua) namorado (a) estivesse “juntinho” com o nome de um desconhecido do sexo oposto…sentiu um certo mal-estar agora? É sabido que pessoas consideradas ciumentas tem muita dificuldade em lidar com situações que envolvam a aproximação do parceiro a uma pessoa do sexo que lhe atrai. É como na música da banda Ultraje a Rigor, muito tocada nos anos 80, em que o sujeito usa a expressão extrema “mas eu me mordo de ciúme!”  E o nome do parceiro, também teria tal efeito?

Como já descrito em posts anteriores, alguns procedimentos podem fazer com que estímulos sem nenhuma similaridade física façam parte da mesma classe e se tornem equivalentes, ou seja, substituíveis. No entanto, quando o estímulo adotado no procedimento já possui um significado emocional devido a uma história pré-experimental, há maior resistência em formar relações de equivalência dependendo dos demais estímulos da classe. Normalmente, isto ocorre quando há conflito com o significado de outro estímulo da classe a ser estabelecida. Vamos dar um exemplo: pessoas que sofrem de ansiedade possivelmente terão muita dificuldade em formar classes de equivalência contendo as palavras “falar em público” e “relaxado”. Indo nesta direção, o que aconteceria se pessoas ciumentas e heterossexuais fossem submetidas a um procedimento visando a formação de classes de equivalência contendo o nome de seu parceiro e o nome de alguém desconhecido do sexo oposto?

Foi esta pergunta que motivou a pesquisa conduzida por Verônica Haydu da Universidade Estadual de Londrina e demais colaboradores. Dezessete estudantes universitários foram treinados a formar quatro classes de estímulos com quatro membros contendo nomes de pessoas dos sexos feminino e masculino e desenhos abstratos. Os estímulos do grupo A e o do grupo D eram nomes de homens ou mulheres (sempre alternando, ou seja, quando o estímulo A era nome de mulher, o estímulo D era o nome de um homem) e os estímulos do grupo B e C eram desenhos abstratos. Todos os nomes eram de pessoas desconhecidas, com exceção de uma das classes (A1B1C1D1), na qual havia o nome do (a) namorado (a) do participante (A1) e o nome de uma pessoa desconhecida do sexo oposto (D1) (isto foi verificado antes). Além disto, eles tinham que preencher um instrumento denominado Escala de Ciúme Romântico, que possibilitava obter o nível de ciúme de cada participante como leve, moderado ou intenso.

Os resultados obtidos foram muito interessantes e confirmaram as hipóteses! Os participantes que, de acordo com a escala utilizada, apresentavam menor grau de ciúme, tiveram uma porcentagem de acertos mais alta nos testes de equivalência. Considerando o teste global, dos sete participantes que não atingiram os critérios, quatro tiveram um escore de ciúme moderado, e três com ciúme intenso. No entanto, quando se considera somente o teste da relação A1D1 (que continha o nome do parceiro e de um desconhecido), dos cinco participantes que não formaram as classes previstas no procedimento, três deles apresentaram escores de ciúme intenso. Outro dado interessante destacado pelos pesquisadores é que foi possível constatar um tempo de reação maior, ou seja, os participantes demoravam mais para responder, quando a escolha envolvia a relação A1D1.

Esta pesquisa sugere que o envolvimento afetivo do participante pode ter interferido na formação de relações de equivalência. Isto nos leva a refletir sobre alguns pontos. Primeiramente, como destacado pelos pesquisadores, isso reforça que existem diferentes graus de relacionamento entre os estímulos da classe, pois a função de alguns desses estímulos pode gerar situações de conflito e, com isso, impedir que se tornem equivalentes. Outro aspecto interessante é que somente o nome do (a) namorado (a) foi capaz de impedir a emergência da relação de equivalência, possivelmente porque esta eliciaria respondentes que fazem parte do ciúme. Todos sabem o quanto o excesso de ciúme pode ocasionar problemas em um relacionamento. Assim, são muito úteis estudos como este, que ajudam a identificar as variáveis presentes neste contexto e que geram sofrimento ao indivíduo.

E você, também “se morde de ciúme” ou passaria no teste equivalência? Pense bem…

Quer mais detalhes sobre a pesquisa? Leia:

 

Haydu, V. B., Gaça, L. B., Cognetti, N. P., Costa, C. E., & Tomanari, G. Y. (2015). Equivalência de estímulos e ciúme: Efeito de história pré-experimental. Psicologia: Reflexão e Crítica, 28(3), 490-499. doi: 10.1590/1678-7153.201528308

 

Escrito por Silvana Lopes dos Santos

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos

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