Como retardar o efeito do envelhecimento na memória temporal?

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“Hoje me levantei e depois tomei o café da manhã, em seguida fui para o laboratório. Antes de tomar o café fui ao banheiro. Só posso voltar para casa depois de terminar esse post para o Boletim Behaviorista”. – Lembrar da ordem em que os eventos da nossa vida acontecem pode parecer algo extremamente simples e trivial. Entretanto, a grande frequência com que esse tipo de comportamento acontece mascara sua complexidade. A falta de um registro sistemático e crenças em uma “memória ora prodigiosa, ora incapaz” distorcem muitas vezes nossas descrições sobre o lembrar.

É possível encontrar definições sobre o que é a memória temporal considerando a perspectiva da psicologia cognitiva como a habilidade de “codificar” e “recuperar” o tempo e a ordem dos eventos passados de maneira precisa. Numa interpretação analítico-comportamental, recorremos a instâncias de controle de estímulos para entender como recordamos e descrevemos a ordem de ocorrência dos eventos. A Teoria das Molduras Relacionais (RFT) é uma explicação recente para a cognição e linguagem observada nos seres humanos. Por meio dessa explicação, podemos entender desde linguagens rudimentares, até investigar comportamentos humanos bastante complexos. Um destes comportamentos complexos é dar sentido à nossa experiência prévia, podendo descrever a ordem em que os eventos passados ocorreram.

Pode não ser óbvio, mas toda nossa relação com o tempo (seja ele passado ou futuro) é amplamente verbal. O único momento que nós podemos experienciar, diretamente, é o momento presente. O que existe de não arbitrário, isto é, não definido por convenções sociais, nas relações temporais é meramente a mudança ou passagem do tempo. O que experimentamos é a sensação de que um momento sucede o outro. Essa mudança é sempre unidirecional, sentida de um “agora” para um “novo agora”, nunca de um “agora” para um “antigo agora”. Exceto verbalmente, somos incapazes de reviver diretamente o passado. Ordenar esse tempo em um continuum é algo muito abstrato. Graças a sensação da passagem de tempo, aprendemos a utilizar termos relacionais temporais (como antes e depois) e podemos tratar verbalmente o tempo. Esses termos ganham funções que nos permitem organizar nossas descrições, ou seja, nos comportar verbalmente sobre o tempo, o que nos permite ter lembranças do passado (ordenar estes eventos) e também imaginar e planejar sobre o futuro. Para a RFT tudo isso é comportamento verbal, explicado por meio das respostas relacionais derivadas.

Uma das certezas que temos sobre o lembrar é que com o avanço da idade, as pessoas, em geral, ficam menos precisas em descrever organizadamente as atividades que foram realizadas no passado. Temos a impressão que, em determinado momento, somos capazes de lembrar a ordem de todos os fatos sem dificuldade, mas passando de uma certa idade, mesmo as lembranças mais simples ficam bem árduas. O estudo que iremos apresentar neste post investigou o responder relacional temporal. Pesquisadores irlandeses expuseram jovens adultos e idosos a tarefas que avaliavam a capacidade de lembrar a ordem em que eventos recentes ocorreram.

A tarefa experimental foi realizada por 23 idosos (média de 63 anos) e 23 jovens adultos (média de 19 anos). Inicialmente, os participantes observavam a apresentação sucessiva de duas formas geométricas (por exemplo, um quadrado e depois um círculo) na tela do computador por um segundo, com um segundo de intervalo entre elas. Depois por quatro segundos, eram apresentadas duas imagens com as palavras ANTES ou DEPOIS entre elas. Se essa relação estivesse correta (por exemplo, a imagem da esquerda [um quadrado] houvesse aparecido antes da imagem à direita [um círculo]), os participantes deveriam apertar uma tecla, contudo, se estivesse errada, deveriam esperar os quatro segundos sem apertar nada. Quando respondiam (ou não respondiam) adequadamente, ou seja, de acordo com a ordem na qual os estímulos foram apresentados, a palavra “Correto” era apresentada, do contrário, era apresentada a palavra “Errado”. Os pesquisadores apresentavam relações que correspondiam ao que os participantes tinham observado, ou mesmo relações totalmente diferentes, e dessa forma avaliavam a precisão dos dois diferentes grupos em lembrar a ordem de apresentação das formas geométricas. Eles foram expostos primeiro a um treino exatamente como a tarefa descrita para familiarização com a tarefa e só depois da observação de uma precisão alta, foram expostos a novas tentativas, correspondendo a um teste, ou seja, sem apresentação das consequências.

Os resultados mostraram que o número de tentativas necessárias para a aprendizagem dos blocos de treino foi muito maior para os idosos quando comparados aos participantes jovens, especialmente nas tarefas que incluíam o termo “depois” (22 dos jovens aprenderam as tarefas com poucas tentativas enquanto apenas oito idosos demonstraram desempenho semelhante). Esse efeito do “depois” foi repetido nos testes críticos em que houve diferenças mínimas, entre os dois grupos, nas tentativas que apresentavam o “antes” (precisão dos jovens de 98% e dos idosos de 97%), e uma diferença considerável para o “depois” (precisão dos jovens de 94% e dos idosos de 87%).

É válido ressaltar que muitos idosos foram eliminados ainda na etapa de treino por não terem atingido o critério mínimo, o que pode ter enviesado a amostra deste grupo. Independente disso, os idosos mostraram uma precisão menor nos testes e também respondiam de maneira mais lenta. A dificuldade em responder às tarefas com o termo “depois” pode destacar uma dificuldade específica em responder a pares de estímulos apresentados em uma ordem diferente (por exemplo, no início da tarefa aparecia “um círculo” e um segundo depois “um quadrado”, e na avaliação desta tentativa era apresentado “um quadrado e depois um círculo”). Isso pode destacar um declínio da fluência e flexibilidade do responder relacional[1], o que têm sido comprovado em outros estudos. Outra hipótese potencial para explicar as dificuldades encontradas pelos participantes idosos é que eles deveriam lembrar das formas geométricas apresentadas (para evitar responder incorretamente a estímulos distratores), e também da ordem em que eles apareciam. Outros estudos já demonstraram que, quando as tarefas requerem atenção simultânea a duas ou mais características contextuais, idosos apresentam maiores dificuldades para recordar, como foi observado nesse estudo. Uma dificuldade adicional pode ter sido a restrição de quatro segundos para responder ou não responder.

Está bem estabelecido na literatura que com o envelhecimento algumas tarefas cognitivas são mais desafiadoras. Os dados dessa pesquisa destacam esse fato. Apesar do destaque para as dificuldades dos idosos, mesmo os participantes mais jovens apresentaram algum nível de dificuldade. O ponto mais importante destas pesquisas, por outro lado, é permitir que intervenções sejam desenvolvidas e que o repertório tanto de jovens quanto de idosos possa ser cada vez mais ampliado. Estudos recentes na RFT mostraram um desenvolvimento robusto de habilidades cognitivas de crianças em testes padronizados a partir de tarefas de treino de flexibilidade do responder relacional derivado. É possível que instrumentos semelhantes, se desenvolvidos, permitam resultados eficazes com um treino de respostas relacionais temporais, constituindo uma intervenção para melhorar nossa “memória”, ou seja, o comportamento de lembrar. Os idosos que foram capazes de passar pela etapa de treino foram quase tão bem quanto os jovens (mesmo com cerca de 40 anos ou mais de diferença de idade entre eles) Como se trata de um repertório aprendido, a prática e exercício constante da “memória” pode ser a chave para a manutenção de um repertório adequado mesmo em idade avançada.

 

Crédito da foto: http://www.nowmaste.com.br/wp-content/uploads/2015/12/Time-Management11.jpg?0c7b14

Para saber mais:

McGreal, C., Hylan, J., O´Hora, D., & Hogan, M. (2016) Mutual entailment of temporal relations in younger and older adults: Reversing order judgments. The Psychological Record, 66, 419-428.

Texto escrito por João Henrique de Almeida, doutor em Psicologia, professor voluntário e pesquisador associado no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista de pós-doutorado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo no LECH – Laboratório de Estudos do Comportamento Humano – UFSCar.

[1] Chamamos o responder relacional de flexível quando é possível observar prontamente a reversibilidade nas descrições independente da ordem que os fatos aconteceram e de forma coerente.

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