Devo ou não confiar? A importância das expressões afetivas dos pais para os bebês

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Uma criança de 2 anos está sentada em um carrinho de supermercado quando um desconhecido se aproxima e pergunta “você está sendo a ajudante da mamãe?”. A criança imediatamente olha para sua mãe, a qual reconhece seu colega de trabalho e balança sua cabeça afirmativamente enquanto sorri de volta para a filha. A criança sorri e responde para o desconhecido “sim, estou arrumando as frutas”.

O apelo a um valor evolutivo deste comportamento, chamado por pesquisadores da psicologia do desenvolvimento de “referenciamento social”, é quase intuitivo. As chances de evitarmos situações perigosas seguindo dicas afetivas de nossos cuidadores sobre como responder em contextos novos é bastante grande.

De modo geral, dar uma conferida em como alguém em quem se confia age em relação a um contexto novo é uma resposta bastante comum entre nós humanos, e que apresentamos desde muito cedo. Crianças de 6 meses já são capazes de olhar para seus pais quando são confrontados com eventos inesperados e não familiares e respondem a estes eventos baseados em dicas afetivas dos pais.

Esse fenômeno tem sido estudado por psicólogos do desenvolvimento com crianças que apresentam desenvolvimento típico. Uma das estratégias tradicionalmente utilizadas é expor os bebês a situações novas, como colocá-los sobre um “abismo visual” (i.e., superfície com suporte transparente, criando a impressão de uma queda). Os resultados mostram que quando os bebês observam estímulos afetivos positivos dos pais do outro lado do abismo, ficam mais propensos a cruzá-lo, em comparação com a condição em que são expostas a de estímulos afetivos negativos.

Uma das explicações tradicionais para o referenciamento social descreve-o como um processo no qual o sujeito utiliza a interpretação de outra pessoa, com relação a uma dada situação, para formular sua própria interpretação. Mas seria possível uma compreensão alternativa para esse fenômeno, de caráter comportamental? Buscando responder a essa questão, Jaime A. DeQuinzio, Claire L. Poulson, Dawn B. Townsend e Bridget A. Taylor, discutem, em um artigo publicado em 2016, a compreensão do referenciamento social como uma classe operante estabelecida por meio de processos básicos de reforçamento (discriminação de estímulos e reforçamento diferencial). Essa compreensão, comprometida com a possibilidade de previsão e controle do fenômeno, permite o delineamento de procedimentos para seu ensino, especialmente para indivíduos que apresentam déficits neste quesito, como é o caso de indivíduos com autismo.

De acordo com os autores, os elos dessa cadeia comportamental correspondente ao “referenciamento social” seriam: a) a resposta da criança de olhar para um adulto de referência diante de um evento ambíguo, a qual seria reforçada pelo acesso a um reforçador condicionado (os estímulos afetivos demonstrados pelo adulto), e b) a resposta de se aproximar ou se afastar do evento ambíguo, sendo reforçado positivamente (aproximar-se de um objeto ou pessoa agradável) ou negativamente (afastar-se de um objeto ou pessoa fonte de estimulação aversiva). Os estímulos afetivos fornecidos pelo adulto de referência são o contexto para o segundo link da cadeia comportamental do referenciamento social, já que passam a ser estímulos discriminativos (para respostas de se aproximar ou de se afastar) em situações futuras que a criança se defronte com um estímulo ambíguo.

Uma das novidades dessa perspectiva em relação à abordagem cognitiva tradicional é que na compreensão comportamental, nenhuma habilidade inata referente à interpretação das emoções do adulto de referência se faz necessária. Para comprovar esta hipótese, Gewirtz e Peláez-Nogueras (1992) demonstraram que faces e gestos de 20 mães para seus bebês (com idades entre 9 e 12 meses), considerados inicialmente neutros (i.e., sem conteúdo afetivo explícito) poderiam ser estabelecidos como sinalizadores de situações prazerosas ou aversivas, de modo a produzir respostas de aproximação ou evitação da criança diante de eventos ambíguos. Neste estudo, os pesquisadores apresentavam brinquedos cobertos por panos brancos e suas mães mantinham posturas que eram inicialmente neutras (mãos apoiadas nas bochechas e punho no nariz). Para dez participantes a postura de punho no nariz sinalizava que tentar alcançar o brinquedo escondido seria seguido de reforçamento (tocava-se uma música), e mãos nas bochechas sinalizava que tentar alcançar o brinquedo escondido seria seguido de punição (um barulho muito alto). Para a outra metade de crianças, as funções das posturas foram invertidas, punho no nariz sinalizava punição e mãos nas bochechas sinalizava reforçamento. O resultado encontrado foi impressionante, já que todas as crianças aprenderam a se aproximar do brinquedo escondido na presença de posturas maternas que sinalizavam reforçamento, e ficavam menos propensas a alcançar o brinquedo escondido na presença da postura que sinalizava punição. Este estudo corroborou a proposta operante de que as respostas envolvidas no fenômeno do referenciamento social são aprendidas.

Embora uma análise operante do referenciamento social tenha sido apresentada há pelo menos 15 anos (Gewirtz & Peláez-Nogueras, 1992), poucas pesquisas na área têm utilizado essa compreensão para desenvolver procedimentos que ajudem a melhorar os déficits nesse comportamento em crianças com autismo. Segundo DeQuinzio e colaboradores (2016), o único estudo realizado, até então, visando demonstrar que crianças com autismo podem aprender ambos os elos da cadeia comportamental do referenciamento social, foi o de Brim e colaboradores em 2009. E apresentou muito promissores! Nesse estudo, primeiramente as crianças deveriam se engajar em respostas de observação (se orientar para a face do pesquisador) na presença do estímulo ambíguo. Em uma tarefa de imitação motora, por exemplo, os vídeos com os modelos para a imitação apareciam de cabeça para baixo, ou com o adulto vestindo máscaras de animais. O pesquisador podia apresentar dois estímulos discriminativos afetivos: um sorriso com aceno de cabeça, ou franzia a testa e negava com a cabeça. Na presença de sorriso, completar a tarefa produzia reforço, na presença de franzir a testa interromper a tarefa (colocar o vídeo de lado) produzia reforço. Os quatro participantes aprenderam a se engajar em respostas de observação das dicas afetivas do pesquisador quando estímulos ambíguos estavam presentes. Esses achados são muitos animadores, e trazem esperanças para o ensino de respostas sociais desta natureza para indivíduos que não as apresentam no curso natural de seu desenvolvimento infantil.

Considerando que crianças com autismo comumente falham em se orientar para estímulos sociais e expressões faciais, perdem a oportunidade de observar estímulos afetivos de outros, e por sua vez, não experimentam contingências de reforçamento e de punição para estabelecer estes estímulos afetivos como discriminativos. Ao mesmo tempo, interações sociais envolvem eventos complexos, que são compostos por muitos estímulos em conjunto, e é sabido que crianças com autismo exibem tipicamente repertórios comportamentais sob controle de estímulos restrito. Nesse sentido, uma direção para pesquisas futuras seria avaliar procedimentos para redução do controle de estímulos restrito em relação à estimulação social complexa, pela incorporação de respostas de observação diferencial, por exemplo, pelo treino de discriminação afetiva.

Outra possibilidade considerada pelos autores é de que a consequência última da cadeia comportamental do referenciamento social – a interação social com o pai/mãe – pode não funcionar como reforçador devido aos déficits sociais da criança. Neste caso, a resposta de observação não será fortalecida e não haverá sequer oportunidade para que ela responda ao link 2 da cadeia comportamental, isto é, a aproximação ou evitação do evento ambíguo baseado nas dicas afetivas do adulto. Deste modo, pesquisas que busquem estabelecer esses estímulos como reforçadores condicionados podem se mostrar de grande valor para o ensino do referenciamento social.

Para saber mais:

DeQuinzio, J.A., Pouson, C.L., Townsend, D.B., & Taylor, B.A. (2016). Social Referencing and Children with Autism, Behavior Analyst, p.319-331

Texto escrito por Carolina Coury Silveira de Almeida e Henrique Pompermaier, os dois mestres e doutorandos em Psicologia, no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Ambos são bolsistas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo no LECH – Laboratório de Estudos do Comportamento Humano -UFSCar.

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