Aprendendo a “mandar”: o ensino da variabilidade de mandos

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Você já parou para pensar como seria a sua vida se você não soubesse fazer pedidos ou dar ordens? Ou como seria se você não tivesse o repertório de fazer perguntas quando precisasse de alguma informação? Em resumo, você não dominaria o repertório do mando, um dos operantes verbais de acordo com a classificação de Skinner (1957). O mando é o operante que as pessoas emitem quando dão ordens, fazem pedidos, formulam perguntas, dão conselhos, e mencionam os reforçadores dos quais estão privadas. Se eu digo: “Você pode me dar um copo de água, por favor?”, eu estou especificando, na minha fala, qual é o reforçador do qual eu estou privada (água).

Os mandos são operantes verbais extremamente necessários para que possamos interagir com o ambiente à nossa volta, de diversas maneiras. O repertório de mandos é construído à medida que um operante verbal é emitido (sob controle de alguma privação ou estimulação aversiva), de modo que esse operante seja seguido de uma dada consequência específica, reforçadora na nossa história de contingências. Eu, por exemplo, aprendi desde criança que a palavra “doce” ou a sentença “Posso comer um doce?” me dá acesso a esses estímulos altamente reforçadores. Portanto, é provável que eu diga a mesma coisa quando estiver com vontade de comer doces – para que eu possa obter o mesmo tipo de reforçador que obtive das outras vezes.

            Parece fácil, não é mesmo? Desde criança você aprende o que e como você deve falar para que a privação seja saciada ou a estimulação aversiva seja retirada, por meio de um reforçador específico. Para crianças de desenvolvimento atípico, no entanto, não é tão fácil assim – como, por exemplo, crianças autistas. O Transtorno do Espectro Autista tem como características déficits na comunicação e interação social, déficits na comunicação verbal e não verbal, e padrões restritos e repetitivos de comportamento motor ou verbal (isto é, pouca variação dos movimentos motores e/ou do comportamento verbal vocal ou não vocal).

Em outras palavras, isto significa que: a) crianças autistas têm mais dificuldade no desenvolvimento do repertório de mandos, em comparação com as crianças de desenvolvimento típico; e b) o repertório de mandos é limitado e repetitivo. Isto não é muito interessante porque, assim como todos os outros comportamentos operantes, o comportamento verbal também se beneficia da variabilidade comportamental. Se eu me comporto verbalmente de maneira repetitiva, eu diminuo as chances de conseguir o que eu quero ou preciso.

            A pergunta que não quer calar neste momento é: como desenvolver esse repertório e ensinar variabilidade de mando a crianças autistas? Como a Análise do Comportamento pode contribuir neste sentido? Muitos pesquisadores se dispuseram a responder essas perguntas, e a literatura sugere algumas estratégias que podem ser utilizadas. Algumas delas são o treino discriminativo (para que a variabilidade de mandos fique sob controle de alguns estímulos discriminativos específicos), e a contingência de reforçamento lag (contingência que requer que as respostas sejam diferentes das n anteriores para que sejam reforçadas).

Em um estudo publicado em 2016, os autores Brodhead, Higbee, Gerencser e Akers tinham três objetivos: a) estabelecer controle discriminativo da variabilidade de mandos; b) avaliar a eficácia do esquema de reforçamento lag na variabilidade de mandos; c) avaliar se a variabilidade de mandos pode continuar ocorrendo na presença de um estímulo discriminativo quando todos os mandos (até os repetitivos) são reforçados.

Participaram do estudo três crianças autistas de 4 a 5 anos de idade. As sessões eram compostas, basicamente, por dois elementos: o primeiro deles era o placemat, um papel laminado com borda colorida que ficava em frente ao participante, e a cor da borda dependia da condição experimental em vigor (daqui pra frente, o placemat será definido apenas como estímulo visual). O segundo elemento era o mand frame, uma resposta vocal incluindo um sujeito, um verbo e um substantivo correspondente a um item comestível; por exemplo, “Eu quero um biscoito”. Um mand frame diferente seria uma resposta que incluísse algum elemento diferente (tal como o nome do pesquisador ou a palavra “por favor”, por exemplo). A quantidade de mandos emitidos (mandos-padrão ou mandos diferenciados) era registrada a cada sessão.

            Nas condições de linha de base, todos os mandos eram reforçados, independente de qual estímulo visual estivesse na frente do participante. Em seguida, foram feitas as sessões de script training, ou seja, as sessões nas quais seria treinado o uso de determinados scripts a depender do treino em questão. Nas sessões de variar, o estímulo visual era verde e continha quatro ou cinco (a depender do participante) scripts de mando, ou seja, quatro ou cinco mand frames (modelos de mando) que deveriam ser emitidos para que o participante fosse pudesse ter acesso ao item comestível que havia especificado no seu mando (à frente do participante, havia três itens comestíveis disponíveis, identificados como preferidos por meio de uma avalição de preferência feita com cada participante). O esquema de reforçamento era lag 2: as primeiras duas respostas da sessão eram reforçadas (desde que elas fossem diferentes uma da outra) e, a partir de então, só seriam reforçadas as respostas que diferissem das duas primeiras. Nas sessões de não variar, o estímulo visual era vermelho e continha os mesmos scripts do estímulo visual verde. No entanto, apenas o uso de um dos modelos de mando era reforçado, ou seja, os participantes foram expostos a uma contingência de repetição.

            Na sequência, foram realizadas sessões sem os scripts, mas as outras manipulações permaneceram: esquema de reforçamento lag 2 na presença do estímulo visual verde, e contingência de repetição na presença do estímulo visual vermelho. Por fim, foram realizadas sessões só com os estímulos visuais verde e vermelho (sem scripts e sem contingências específicas de reforçamento), com o objetivo de verificar se o controle discriminativo pelos estímulos visuais permanecia (ou seja, variabilidade na presença do estímulo visual verde e repetição na presença do estímulo visual vermelho) mesmo quando todos os tipos de mando eram reforçados Também foram feitos testes de generalização e manutenção como última condição experimental.

            Os resultados sugeriram que, de forma geral, os participantes ficaram sob controle discriminativo dos estímulos visuais e o uso de scripts também se mostrou eficaz. Desse modo, o controle discriminativo parece ser um caminho interessante para ensinar variabilidade de respostas a crianças com autismo, uma vez que a variabilidade é importante socialmente, mas nem sempre é reforçada pela comunidade verbal. Então, é interessante fazer com que essa variabilidade esteja sob controle de algum outro estímulo (visual, por exemplo, como foi o caso dos placemats nesse estudo).

Em suma, o estudo demonstrou uma aplicação com sucesso de um treino de discriminação e um procedimento de script-fading para produzir variabilidade de mandos em crianças autistas. O estudo também proporcionou suporte para a eficácia do esquema de reforçamento lag para esta população. Por fim, este foi o primeiro estudo a demonstrar que a variabilidade de mandos pode estar sob controle discriminativo e persistir por um longo tempo em alguns casos, mesmo sem as condições que ensinaram os participantes a responder de um jeito ou de outro (isto é, variando ou não seus mandos).

Para saber mais:

Brodhead, M. T., Higbee, T. S., Gerencser, K. R., & Akers, J. S. (2016). The use of a discrimination-training procedure to teach mand variability to children with autism. Journal of Applied Behavior Analysis, 49, 1-15.

Outras referências consultadas:

Skinner, B. F. (1978). Comportamento Verbal (M. P. Villalobos, trad.). São Paulo: Cultrix (Obra publicada originalmente em 1957).

Texto escrito por Mariana Quessada Macca, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos e bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) no LECH – Laboratório de Estudos do Comportamento Humano – UFSCar, e atualmente, bolsista BEPE (Fapesp) na Utah State University.

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