Tentando emagrecer?! A análise do comportamento te ensina como resistir às tentações.

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Você já deve ter vivido um dia em que mal acordou e já saiu, engoliu qualquer coisa no almoço e está morrendo de fome enquanto espera chegar o ônibus para voltar à casa, quando passa alguém vendendo salgadinho sabor isopor com corante. Nessa situação, é comum entrar no dilema: “Compro o salgadinho e diminuo minha expectativa de vida, ou continuo com fome até chegar em casa para jantar?”. E o que aconteceu? O salgadinho venceu! Arrependido, você percebe que gastou dinheiro com um salgadinho horrível e continua com fome (agora com sede também) e jura que nunca mais vai fazer isso, até estar em outra situação parecida e… fazer igual. Este curioso fato chamou atenção de alguns analistas do comportamento, que se perguntaram: O que será que afeta a nossa capacidade de esperar, e como podemos favorecer comportamentos de autocontrole?

Antes de responder a essa pergunta, é preciso entender como a análise do comportamento compreende um conceito que usamos bastante no nosso dia-a-dia: o autocontrole. O autocontrole é geralmente empregado cotidianamente para designar a capacidade de um indivíduo dominar os seus impulsos, suas vontades. Já na análise do comportamento, é entendido como um processo complexo que se caracteriza como uma situação de conflito, na qual dois (ou mais) comportamentos diferentes podem ser emitidos, cada um ocasionando uma consequência distinta, cujas propriedades podem variar quanto à temporalidade, magnitude e natureza. Analistas do comportamento defendem que o controle do nosso próprio comportamento acontece do mesmo modo que o controle do comportamento dos outros: com a manipulação de variáveis do ambiente, que influenciarão na probabilidade da emissão de determinada resposta (ou seja, a partir da emissão de uma resposta que alterará a probabilidade da ocorrência de outra).

Pelo fato do autocontrole começar a ser desenvolvido quando somos ainda crianças, grande parte das pesquisas realizadas sobre o tema são feitas com essa população. Para ilustrar o fenômeno, vamos falar rapidamente de um teste clássico utilizado para avaliar o autocontrole dos pequenos, que foi reproduzido em diferentes condições, e ficou bastante famoso na internet: “The Marshmallow Test”. As reações das crianças à esse teste são as mais diversas (e as mais fofinhas!). Segue o link de do vídeo para você acompanhar o raciocínio: https://www.youtube.com/watch?v=QX_oy9614HQ

Esse teste foi inicialmente proposto e trabalhado sistematicamente pela equipe coordenada pelo prof. Walter Mischel, no fim da década de 60. Porém, diferente da proposta, o teste que viralizou com o vídeo não seguiu um procedimento padronizado, com o devido controle e a manipulação de variáveis específicas (já que não tinha o caráter de uma pesquisa científica). Ainda assim, tornou-se bastante conhecido por ilustrar bem como se dá o autocontrole das crianças, e sua repercussão aumentou as discussões sobre esse comportamento e sobre a importância de pesquisar formas de desenvolvê-lo ainda na infância. Atentando-se a este fato, pesquisadores da PUC de São Paulo investigaram algumas variáveis potencialmente influentes sobre o comportamento de autocontrole em crianças sob uma perspectiva analítico-comportamental (Bernardes & Micheletto, 2015).

O experimento teve como objetivo avaliar os efeitos do controle social sobre o comportamento de autocontrole em crianças de 6 e 7 anos do Ensino Fundamental de uma escola da rede pública. Os participantes foram alocados em três condições experimentais, cujo procedimento era bastante semelhante ao do The Marshmallow Test, com algumas diferenças entre os grupos estabelecidos. É importante dizer que, antes de começar o procedimento, as crianças experimentavam o prêmio que ganhariam com a participação, que era um Kinder-ovo® (isso mesmo, um Kinder-ovo®!!!) e respondiam ao pesquisador se preferiam ganhar um ou dois doces. Todas disseram que preferiam ganhar dois (Claro).

Na primeira condição, as crianças eram deixadas sozinhas na sala, e o experimentador explicava que elas participariam de uma brincadeira na qual deveriam ficar sozinhas em uma sala (que tinha uma mesa com o doce, uma cadeira e um sino) por um tempo e até que ele voltasse. Caso quisessem chamá-lo antes do tempo determinado pelo próprio experimentador (que eram 15 minutos), bastava tocar o sino. Se a criança o tocasse, ganharia o Kinder-ovo® que estava em cima da mesa. Mas, se esperasse o experimentador voltar, ganharia aquele e mais um doce pela participação.

Outras duas condições experimentais foram programadas com a mesma tarefa da condição “sozinho”. A única diferença é que, em cada uma dessas condições, houve a manipulação de uma variável específica a fim de estabelecer um “controle social” sobre o comportamento das crianças. Em uma condição, as crianças recebiam um fantoche para lhe fazer companhia na sala e atuar como possível ouvinte. Já na outra não haviam fantoches, porém as crianças ficavam em duplas e cada criança ganharia seu próprio doce. No entanto, se apenas uma tocasse o sino, as duas ganhariam só um Kinder-ovo® (É triste, mas a vida que segue).

O experimento foi filmado e os registros foram estudados pelos pesquisadores que, além de querer saber quais crianças esperariam o experimentador retornar, tinham interesse em observar o número e o tipo de respostas que seriam emitidas pelas crianças no período de espera. As respostas registradas foram classificadas em 14 categorias, que variavam entre tipos de respostas motoras e verbais. Os resultados mostraram que as crianças que esperaram menos tempo foram as da condição “sozinho”. Apenas na condição “fantoche” todas as crianças esperaram o experimentador retornar. Na condição “duplas”, uma criança de uma das duplas não quis esperar até o retorno do experimentador e tocou o sino sozinha, contrária à decisão da sua dupla (que ficou #chateada).

Em todos os grupos, os participantes que mais emitiram respostas por minuto foram os mesmos que esperaram mais tempo. Entre as condições, a que teve mais respostas por minuto foi “duplas”, seguida de “fantoche” e, por fim, da condição “sozinho”. A relação entre a taxa de emissão de respostas e o tempo de espera em cada condição foi diretamente proporcional. Isso ficou mais evidente nas condições dupla e fantoche, que tinham controle social planejado. Os dados sobre as respostas revelaram que a resposta com maior taxa de emissão não foi igual para todas as crianças dentro de um mesmo grupo experimental. Na condição “duplas”, a variabilidade das respostas foi maior que nas outras duas condições, tal como o tempo de espera, o que indica que talvez haja uma relação entre o número e a variabilidade de respostas emitidas e o autocontrole.

Os resultados desse estudo podem contribuir para o arranjo de ambientes e a elaboração de técnicas que favoreçam o autocontrole em crianças e também em adultos. Enquanto isso não acontece, aí vão algumas dicas nossas do que você pode fazer quando estiver com fome e alguém aparecer na sua frente com aquele salgadinho cheirando chulé:

  • Virar para o lado e comentar com um estranho sobre como está o clima hoje, ou
  • Chamar o crush para conversar inbox e torcer por um milagre, e quem sabe até
  • Responder as mensagens de boa tarde que recebeu no grupo da família no whatsapp (e essa é boa porque deve ter mensagem acumulada pra responder).

Mas só não fica paradão encarando o salgadinho! Comportando-se de forma diversa você aumenta suas chances de conseguir se controlar para poder chegar em casa e jantar o que está te esperando: Uma saladinha que sua mãe fez para você enquanto está te visitando, e que é a primeira refeição decente que você fará desde quando saiu de casa.

Para saber mais:

Bernardes, L. A. & Micheletto, N. (2015). O que acontece durante o período de espera? Contribuições para o estudo do autocontrole. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 11(1), 1-14.

Crédito das imagens: http://www.saladaetudodebom.com.br/wp-content/uploads/2016/07/Salada-pra-crian%C3%A7a.-Ai-1-676×383.jpg e

http://bierburger.com.br/wp-content/uploads/2015/12/batata-smile-miniatura.jpg

 

Texto escrito por Tais Francine de Rezende, graduanda em Psicologia e mestranda em Gerontologia pela Universidade Federal de São Carlos. É membro do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH) da UFSCar e do grupo de pesquisa e extensão ProVive do Departamento de Gerontologia da UFSCar

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