Auxiliando vítimas de violência doméstica a partir de uma abordagem contextual

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A violência doméstica constitui um grande problema não só no Brasil, mas em diversos países no mundo. Com relação aos dados de violência contra a mulher perpetrada por homens, parceiros e/ou ex-parceiros, estima-se a morte de mais de 5.600 mulheres por ano no Brasil, o equivalente a uma morte a cada 1,5 horas. São dados bastante alarmantes, não? Mas a situação é ainda pior! Os números de violência contra a mulher aumentam muito mais quando se leva em consideração formas não letais, e inclusive não físicas de violência, como impedir o uso de determinada roupa, de sair com determinadas pessoas, e de expressar suas opiniões sobre determinado assunto.

Uma crítica às “noções psicologizantes ou individualistas” do comportamento humano que se relaciona com essa temática é que o problema da violência contra a mulher não depende apenas da análise do comportamento dos dois indivíduos que se relacionam, mas do ambiente mais abrangente que está presente, como os contextos sociais, políticos, históricos e econômicos vigentes, uma vez que eles podem oferecem condições para que as violências sejam naturalizadas e/ou reforçadas. Pensando nisso, dois pesquisadores, um australiano e uma brasileira, se juntaram para escrever sobre a violência contra a mulher cometida por homens nas sociedades ocidentais, analisando como esses contextos mais amplos podem oferecer condições para que esses comportamentos de violência aconteçam, e como análises mais amplas podem ser inseridas na análise do comportamento, a qual possui uma tradição em análises individuais.

Bernard Guerin e Marcela Ortolan listaram alguns comportamentos comumente observados nos casos de violência doméstica, a partir da revisão de pesquisas sobre o tema. Essa primeira estratégia permitiu investigar as contingências que podem estar envolvidas nesses episódios, ou seja, quais contextos podem facilitar ou permitir a ocorrência de tais comportamentos.  O uso de abusos econômicos, de coerção ou ameaças, intimidação e abuso emocional são alguns dos exemplos de comportamentos presentes nos estudos. Entretanto, em vez de analisar cada comportamento envolvido nessas categorias, os autores comentam sobre a utilidade de ensinar as mulheres a analisar tais comportamentos de maneira funcional, ou seja, levando em consideração quais os efeitos desses comportamentos na vida da mulher.

Veja um exemplo: a proibição da mulher de arranjar ou manter um emprego, a retenção do dinheiro ganho por uma mulher, e impedir que a mulher tenha acesso à conta conjunta do casal são todas topografias diferentes, embora as funções possam ser semelhantes, como um maior monitoramento de suas atividades (uma vez que ela terá que pedir dinheiro para o parceiro para fazer compras, sair com amigos, etc.), diminuir o rol de contatos sociais da parceira, e inclusive utilizar o dinheiro de maneira contingente a consecução de determinados comportamentos, como “ser uma boa esposa”.

Na análise dos contextos cujos comportamentos de violência costumam ocorrer, cinco funções foram elencadas: ações diretas (uso de intervenções diretas na mulher ou em seus recursos, de modo a obter o controle), a manipulação de contextos ou o estabelecimento de situações para a ação (modificar o acesso aos recursos ou contextos que possibilitam o acesso a tais recursos), estratégias de segredo/sigilo, estratégias de monitoramento, e estratégias de construções verbais.

Impedir que a mulher tenha acesso à conta conjunta do casal é um exemplo de uma ação direta. A manipulação dos contextos pode ocorrer, por exemplo, ao impedir a mulher de ler um livro que possa conter construções verbais distintas das que o marido endossa (e.g. “mulheres podem ser independentes”). Se o parceiro consegue fazer a parceira mandar fotos de nudez para ele, por exemplo, essas fotos podem ser utilizadas para conseguir que a mulher faça outras coisas para o parceiro, se a observância (compliance) se tornar contingente à promessa de não divulgar essas fotos.

As estratégias de construções verbais são extremamente poderosas, uma vez que, após o estabelecimento de determinada relação verbal, o parceiro não precisa estar presente para afetar os comportamentos futuros da mulher: o marido pode se utilizar do ciúme, que é inclusive algo valorizado socialmente (em alguns contextos e em certa medida), para justificar abusos, como não a deixar sair com suas amigas, impedir a participação dela em festas da empresa onde trabalha, etc. Assim, a mulher pode se sentir culpada se sair, o que atua como uma forma de controle, mesmo sem o parceiro precisar estar presente para dizer que sentirá ciúmes da mulher. Desse modo, é importante focalizar também nas fontes sociais de controle do comportamento, para que as intervenções sejam mais efetivas.

A análise elencou também os possíveis ganhos obtidos a partir das estratégias de controle, como o ganho de determinados recursos (e.g., dinheiro, sexo), a atenção (lembrando que para conseguir algo da mulher, é preciso que ela ouça o que o parceiro fala, o veja, etc.), e a evitação do controle por outros (se eu restrinjo o acesso da minha parceira a amigos e colegas de trabalho, por exemplo, eu serei uma fonte maior de acesso a reforçadores e, portanto, terei maior controle sobre ela).

Em muitos casos, comportamentos aparentemente inócuos ou socialmente aceitáveis (e reforçados) podem progredir para formas violentas. Veja um exemplo: se oferecer para lidar com as contas da casa ou se oferecer para escolher os programas que o casal fará no fim de semana pode ser visto como uma gentileza e uma forma de agrado. Entretanto, isso pode ser também utilizado para controlar cada vez mais os recursos que a parceira tem disponível. Por isso é imprescindível analisar funcionalmente os comportamentos, uma vez que uma mesma topografia pode servir para a obtenção de consequências bastante distintas. Esse ponto é importante, porque também nos mostra que, se a violência começar de maneira “branda”, pode ser difícil identificá-la nessa fase. É importante deixar claro que o oferecimento para lidar com as contas, para escolher os programas do casal, e outros comportamentos semelhantes (ou não) nem sempre serão utilizados de maneira a diminuir os recursos disponíveis da mulher, ou agredi-la de outra forma. Deve-se observar as consequências desses comportamentos para identificá-los como comportamentos abusivos ou não.

Por fim, como é que os ambientes mais amplos, sociais, históricos, políticos e econômicos se relacionam com o que acontece entre um casal? A maioria das estratégias utilizadas pelos agressores não seriam possíveis sem a aceitação social de determinados comportamentos e de privilégios diferenciais, como o “dever” dos homens de serem responsáveis pelas finanças do casal, a aceitação do ciúme como uma prova de amor, e a manutenção dos segredos entre um casal. O homem considerado violento não nasceu assim e não criou as condições presentes na sociedade. Ele simplesmente se engaja nas estratégias que aprendeu, as quais só ocorrem porque os contextos sociais e políticos mais amplos permitem. Desse modo, as lutas dos movimentos feministas, como as tentativas de diminuir as desigualdades entre os homens e as mulheres auxiliam na diminuição da violência doméstica, porque elas trabalham para modificar esses contextos mais amplos que possibilitam que as contingências individuais atuem.

Vemos, portanto, que a análise do comportamento, junto com as ciências sociais (mas não restrito às duas), podem ser aliadas na luta por um mundo menos violento. Quer fazer parte disso?! Leia o estudo e saiba mais:

 Guerin, B., & de Oliveira Ortolan, M. (2017). Analyzing domestic violence behaviors in their contexts: Violence as a continuation of social strategies by other means. Behavior and Social Issues, 26, 5-26.

Créditos da Imagem: http://remut.blogspot.com.br/2015/07/tarauaca-oficina-de-capacitacao-para.html

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

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Como fazer seu cãozinho parar de latir quando está sozinho em casa, sem puni-lo?

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Alguns cães latem muito quando os seus donos saem de casa e os deixam sozinhos. Isso pode ser um grande problema! O cãozinho pode incomodar os vizinhos, não deixando que ouçam a televisão, conversem, leiam um livro, etc., e ficar tão nervoso, chegando a rasgar as almofadas, morder o sofá e/ou roer o canto da mesa.

Se você está passando por isso, há algumas medidas que podem ser tomadas para evitar ou interromper os latidos do seu cão. Dentre elas, estão as que buscam descobrir os motivos dos latidos. Por exemplo, o cão pode latir somente quando passam pessoas perto de casa, para alertar sobre um possível intruso, por passar pouco tempo com seu dono, por se sentir sozinho, entre outros motivos. No primeiro caso, evita-se que o cão lata ao colocá-lo em um quarto e fechar as cortinas. No segundo caso, aumentar o tempo que você passa com ele e/ou exercitá-lo mais pode resolver.

Algumas pessoas optam por colocar no cão o colar de citronela, que quando capta a vibração do latido borrifa uma quantidade do líquido no focinho, ou o colar de choque no pescoço. Pode-se considerar que esse tipo de método é punitivo, ou seja, toda vez que ele late, ocorre uma consequência punitiva (borrifo ou choque). No entanto, isso é questionável eticamente. Além disso, há o risco de gerar efeitos colaterais, desencadeando outros comportamentos, como tremor, agressividade, dor, entre outros, e não ensina comportamentos alternativos.

Outra opção é, por exemplo, dar reforço para o seu cãozinho quando ele não está latindo, aumentando, assim, a frequência de outros comportamentos e diminuindo os latidos. Foi isso que Alexandra Protopopova, Dmitri Kisten e Clive Wynne, pesquisadores dos Estados Unidos, fizeram. Eles realizaram dois experimentos em que conseguiram diminuir a frequência de latidos de cães quando seus donos saiam de casa, sem precisar punir esse comportamento. Eles utilizaram um procedimento denominado na psicologia como “Reforço Diferencial de Outros Comportamentos” (DRO), que é muito usado em pesquisas com seres humanos. O DRO é um procedimento em que o reforço (por exemplo, um pestisco) é apresentado apenas após um intervalo de tempo sem ocorrer nenhum comportamento indesejado (por exemplo, latidos).

No Experimento 1 participaram cinco cães que latiam quando eram deixados sozinhos em casa: Ruby, Nina, Darby, Bruce e Sully. Foi utilizado um delineamento de reversão ABAB, em que “A” é a Fase Linha de base e “B” a Fase Tratamento. Todas as sessões foram conduzidas na casa de cada cãozinho, sem seus donos estarem presentes. Na Linha de base (A) foi medida a frequência de latidos, sem entrega do reforço. Com base nessa frequência, foi programado o intervalo de tempo entre a entrega dos petiscos durante o Tratamento. No Tratamento era realizado o DRO, e havia um equipamento que liberava petiscos quando o experimentador o acionava. Quando o DRO era programado para, por exemplo, cinco segundos, o petisco era apresentado depois de intervalos de cinco segundos sem o cão latir.

Será que o procedimento deu certo? Sim! Os resultados indicaram que a utilização do DRO fez diminuir a frequência do número de latidos para três dos cinco cães: Ruby, Nina e Darby. A média do número de latidos entre todos os cachorros foi de 9,69 latidos por minuto nas sessões de Linha de base, e de 3,79 latidos por minuto nas sessões de Tratamento. Como os intervalos do DRO eram muito curtos no Experimento 1 e os cães recebiam alimentos entre cinco e 23 segundos na Fase Tratamento, os pesquisadores realizaram o Experimento 2, que aumentou gradualmente o intervalo do DRO, para que os cães ingerissem menos comida e continuassem a manter a baixa frequência de latidos.

Participaram do Experimento 2 os cães que diminuíram a frequência de latidos no Experimento 1: Ruby, Nina e Darby. A única diferença do Experimento 1 para o 2 foi que o intervalo do DRO era dobrado após o cão atingir um critério determinado pelos experimentadores, por exemplo, iniciava com 5s, depois passava para 10s, 20s, 40s, e 80s, 160s, 320, 640s…. Ou seja, o petisco era entregue sempre depois do final do intervalo determinado apenas se o cão não tivesse latido.

Os resultados desse procedimento foram positivos! Eles indicaram que mesmo quando o intervalo era maior, os três cães apresentaram baixa frequência de latidos. Diante desses resultados, pode-se verificar que a utilização do reforço é promissora para resolver o caso de cãozinhos barulhentos. No entanto, os pesquisadores comentaram que uma das limitações do estudo foi que o pesquisador gravava manualmente os latidos, e permanecia dentro da casa do cachorro, aspecto que pode ter interferido nos resultados. Outra questão é que no dia-a-dia os donos não ficam em casa para monitorar os cães. Portanto, seria interessante a utilização de um equipamento totalmente autônomo. Eles também comentaram que é importante investigar a motivação por trás do latido excessivo.

Diante de todas essas sugestões, podemos chegar à conclusão que há muito ainda o que ser pesquisado com os cães, e que os procedimentos que utilizam reforço podem ser menos estressantes para os cãozinhos pararem de se comportar de modo indesejado e aprenderem outros comportamentos. O que você achou da pesquisa e das conclusões? O que você faz quando seu cãozinho não para de latir, quando morde suas coisas, ou estraga as plantas?

Quer saber mais?

Consulte o artigo:

Protopopova, A., Kisten, D., & Wynne, C. (2016). Evaluating a humane alternative to the bark collar: Automated differential reinforcement of not barking in a home-alone setting. Journal of Applied Behavior Analysis, 49(4), 1–10. doi:10.1002/jaba.334

Escrito por Josiane Maria Donadeli, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos.

Créditos da imagem: https://www.johndog.com.br/wp-content/uploads/2015/11/cao-latindo.jpg

Tutorial sobre como entender suas reações ao levar o famoso “gelo”: Entendendo melhor particularidades da extinção

imagem texto natalia biscassi

 

Você com certeza já deve ter visto esse tipo de imagem circulando pela internet. Especialmente em ocasião de términos de relacionamentos, a lembrança e o compartilhamento delas passam a ser muito frequentes. A frase em si pode parecer clichê, mas tem tudo a ver com o artigo sobre o qual falaremos hoje.

Quando suspendemos o reforço para determinado comportamento, estamos aplicando o que chamamos de extinção operante. O produto final disso é a redução da frequência de resposta do indivíduo. As recomendações gerais dos analistas do comportamento sempre seguem no sentido de evitar o uso da punição e utilizar a extinção em seu lugar, pois, em tese, a extinção não possui os efeitos aversivos da punição.

Mas então, como explicar todas aquelas as sensações ruins que sentimos quando, por exemplo, deixamos de receber a atenção que anteriormente era tão presente? Por que choramos, nos sentimos tristes, e às vezes com raiva diante da ausência de reforço, reações típicas também de situações punitivas? Para comportamentos anteriormente reforçados, Bravin e Gimenes (2013) vem nos dizer que a extinção possui subprodutos aversivos.

Os autores organizaram em seu artigo três categorias de evidências do possível efeito aversivo da extinção: 1) evidências funcionais; 2) evidências topográficas e estruturais, e 3) evidências biológicas. As maiores evidências funcionais de propriedades aversivas da extinção advêm de estudos cujas configurações experimentais admitem um estímulo sinalizador de quando a extinção ocorrerá. O indivíduo responde a este estímulo, de modo a adiar o período de extinção. É o que se pode ver no estudo de Wagner (1963), que dividiu ratos em dois grupos, um experimental, em que som e período de extinção foram emparelhados, e um grupo-controle, em que foram apresentados os mesmos estímulos, mas sem emparelhamento. A caixa experimental em que os animais eram colocados possuía uma divisória e, caso o rato apresentasse o comportamento de cruzar a divisória, ele poderia desligar o som que era seguido de extinção, evitando-a. Dentre os dois grupos, o que teve menor latência de resposta para tal comportamento foi o grupo experimental, que tinha emparelhado períodos de ausência de reforço com o som.

Estudos como os de Daly e McCroskery (1973) e Adelman e Maatsch (1956), por exemplo, também indicam sujeitos experimentais que otimizaram seu desempenho, apresentando latências menores de resposta no aprendizado e na realização da tarefa, para evitar situações de não-reforçamento diante de respostas previamente reforçadas, em comparação com grupos controle e grupos que continuavam a ser reforçados. Quanto mais rápido os sujeitos experimentais respondiam, maior era a frequência de evitação da extinção de comportamentos previamente reforçados, indicando assim uma propriedade aversiva deste tipo de contingência.

Para exemplificar as descobertas destes estudos, imagine que está conversando com seu ou sua crush e que, sempre que ele ou ela dá indícios de que vai se ausentar, respondendo com frases curtas, você se comporta de modo a postergar ou evitar a situação de ausência. Nesse contexto, as frases curtas são estímulos sinalizadores de um período de extinção, em que por mais que você mande mensagens, a pessoa não vai responder dentro de determinado período.

Topograficamente falando, a extinção possui efeitos sobre um espectro mais amplo de respostas do que somente as que vinham sendo reforçadas, isto é, os estímulos emparelhados com extinção também apresentam efeitos sobre os indivíduos. Tal efeito é um sinal de aversividade, análogo ao efeito de estímulos que adquirem propriedades aversivas quando emparelhados com os estímulos punitivos em si. Comportamentos ditos “emocionais”, igualmente, são observados diante de situações de ausência de reforço, bem como de punição: ratos defecam, urinam, tornam-se agressivos e ativos, além de apresentar comportamento de choro durante o desenvolvimento dos estudos. Com seres humanos não é muito diferente: é muito comum ver reações emocionais quando não se tem mais à disposição algo que anteriormente constituía um estímulo reforçador.

Isso é muito claro especialmente em relação à utilização da internet. Nos tempos atuais, a internet é um recurso tecnológico altamente reforçador. Porém, em alguns momentos falha e, por certo tempo, há ausência de resposta aos comandos. Em geral, pouco tempo depois (às vezes alguns dias, às vezes, dentro de poucos minutos ou horas) o serviço retorna após a realização de reparos. Esse período de ausência de respostas já é o suficiente para causar uma grande reação emocional em muitas pessoas, com grande grau de irritabilidade, tristeza, inclusive, eu conheço até pessoas que choram. A topografia da resposta dita “emocional”, então, é muito similar em casos de extinção de comportamentos anteriormente reforçados e casos de punição propriamente ditos. A função de cada processo, no entanto, é distinta e cada um possui propriedades e desdobramentos também diferentes, porém acabam apresentando algumas similaridades em se tratando de topografia de comportamentos “emocionais” devido a certo grau de aversividade comum.

Quanto às evidências biológicas, infere-se o potencial aversivo da extinção, pois há ativação de mecanismos biológicos da mesma maneira que estímulos aversivos (por exemplo, se “queimar” ou ser humilhado publicamente) o fazem: mobilizam o sistema cerebral defensivo, envolvendo neurotransmissores relacionados às reações de luta e fuga. Medo, ansiedade e frustração são reações mediadas pelos mesmos processos neurais que fazem parte do sistema defensivo.

Postas todas essas considerações, devemos repensar o uso da extinção, quando este for necessário, e seus efeitos de acordo com as variáveis envolvidas na situação.   Além disso, mais estudos devem ser desenvolvidos para avançar a discussão, que por muito tempo foi deixada de lado, como se esta parte da ciência do comportamento já estivesse resolvida. Para fins práticos, ainda, o ideal é que se ensinem novos comportamentos, incompatíveis com os comportamentos indesejados antigos, e se evite o uso tanto da extinção quanto da punição devido aos seus efeitos colaterais negativos. Voltando ao exemplo inicial, reforçar comportamentos englobados no que se define por autocuidado e amor próprio seria uma maneira de minimizar os efeitos aversivos de ausência de reforço do(a) parceiro(a) ou, ainda, a depender do contexto (relações abusivas e/ou de dependência emocional, por exemplo), fazer com que a pessoa não necessite mais da relação estabelecida e não veja o término como sendo algo aversivo.

Para saber mais:

Bravin, A. A., & Gimenes, L. S. (2013). Propriedade aversiva da extinção operante de comportamentos positivamente reforçados. Acta comportamentalia, 21(1), 120-133.

Outras referências utilizadas:

Adelman, H. M., & Maatsch, J. L. (1956). Learning and extinction based upon frustration, food reward, and exploratory tendency. Journal of Experimental Psychology, 52(5), 311-315.

Daly, H. B., & McCroskery, J. H. (1973). Acquisition of a bar-press response to escape frustrative nonreward and reduced reward. Journal of Experimental Psychology, 98(1), 109-112.

Créditos da imagem (posteriormente editada): https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/564x/c1/ee/9c/c1ee9c22ee04d712a00fdd8cb16f4441.jpg

Texto escrito por Natália Biscassi, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos. É membro do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH) da UFSCar e realiza pesquisas no Laboratório de Psicologia da Aprendizagem (LPA).

É Melhor Prevenir do que Remediar

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Como já nos mostrou Sidman, a coerção tem diversas implicações, muitas delas desastrosas. Milhares de pessoas sofrem os efeitos da punição e se comportam fugindo ou se esquivando de algum evento aversivo. Se olharmos ao nosso redor podemos perceber como a estimulação aversiva é comum e como diante dela pessoas desenvolvem problemas e transtornos mentais, muitas delas chegando ao ponto de tirar suas próprias vidas. Diante desse cenário tão desanimador a Análise do Comportamento poderá nos ajudar? Felizmente pesquisadores preocupados com nosso futuro nos mostram que a chave pode ser a prevenção!

Um dos principais estudiosos do tema prevenção sob a ótica da Análise do Comportamento é Anthony Biglan (que para a nossa alegria esteve no Encontro da ABPMC do ano passado). Em 2015 ele publicou o livro “The Nurture Effect[1]: Como a ciência do comportamento humano pode melhorar nossas vidas e nosso mundo”. O livro foi escrito com base em seus quarenta anos de experiência na área da ciência comportamental e da prevenção, sendo uma leitura inspiradora e obrigatória para interessados no tema. Em termos bem gerais o livro defende a ideia de que uma “nurturing society” seria fundamental para tornar pessoas mais felizes e saudáveis, sendo esse o modo ideal para se prevenir toda a diversidade de comportamentos-problema que podem surgir ao longo da vida de alguém. No decorrer do livro ele evidencia a importância da promoção e do reforçamento de comportamentos pró-sociais, que dizem respeito à cooperação e a trabalhar para o bem-estar dos outros, desde o mais cedo possível.  Ao mesmo tempo, é necessário diminuir as condições sociais e biológicas consideradas tóxicas, que possam influenciar de maneira negativa no desenvolvimento humano. O trabalho nessa área, portanto, consiste em auxiliar as famílias, escolas e comunidade a se tornarem um ambiente “nurturing”, tornando possível um mundo em que haja bem-estar para todos.

Em seu mais recente artigo (2016), Biglan discute o objetivo da prevenção e a importância de que o conhecimento adquirido sobre o bem-estar humano seja mesmo colocado em prática, e para isso ele retoma a ideia de um ambiente “nurturing”. A prevenção teria como foco o desenvolvimento de ambientes que prevenissem múltiplos problemas, além de estimular comportamentos pró-sociais, que beneficiam a sociedade como um todo. Os ambientes “nurturing” reduziriam condições biológicas e psicológicas tóxicas, como a coerção; produziriam o desenvolvimento e manutenção de comportamentos pró-sociais, uma vez que eles seriam reforçados; além de encorajarem famílias e escolas a reduzirem possíveis fatores de risco para comportamentos-problema. Em resumo, a ideia que ele traz é que para diminuirmos a ocorrência dos comportamentos-problema, precisamos, antes, aumentar o número desses ambientes “nurturing”.

O autor também discute a implementação e avaliação de estratégias de prevenção. Tais estratégias são compostas por vigilância, garantindo que os dados a respeito do bem-estar sejam acurados para justificar e tornar as intervenções mais eficazes; implementação de programas que sejam baseados em evidências, constantemente avaliados e disseminados; políticas públicas que contribuam com o bem-estar humano, como aquelas que diminuem a desigualdade econômica e social; e a utilização de recursos midiáticos, uma vez que possuem grande potencial para afetar um alto número de pessoas. Por fim, o autor conclui o texto discutindo como vários comportamentos-problema podem ter a mesma origem – o ambiente. Assim, num panorama da ciência da prevenção o desenvolvimento de ambientes “nurturing” poderia prevenir tais problemas e, assim como os demais programas, o desenvolvimento desses ambientes poderia ser avaliado em termos de eficácia (o aumento desses ambientes precisa estar diretamente relacionado com a diminuição de comportamentos-problema).

Um problema grave e que apresenta frequência maior a cada ano é o suicídio. São realizadas muitas pesquisas epidemiológicas, verificando em que condições (gênero, idade, nível socioeconômico, estado civil) o suicídio é mais frequente, identificando, assim, possíveis fatores de risco. Ao longo dos anos ficou clara a importância de se pensar, também, em termos de prevenção do comportamento suicida de modo geral: ideação suicida, tentativas de suicídio, suicídio. Ela pode ser feita em vários níveis, desde a prevenção de tentativas de suicídio no caso de pessoas com importantes fatores de risco, com ideação suicida ou que já tenham tentado, até a prevenção no sentido de que comportamentos relacionados ao suicídio nem cheguem a ocorrer.

O pesquisador da área de suicídio De Leo (2002) discute a dificuldade de realizar pesquisas de prevenção do suicídio, por diversas razões, mas principalmente pelo fato de se tratar de um fenômeno complexo e multideterminado. O autor relata que estratégias que tenham como foco a população em geral podem ser utilizadas, pois afetam um número maior de pessoas e podem interferir em outras condições problemáticas, que podem estar associadas a comportamentos suicidas (isolamento social, baixa qualidade de vida, desemprego).

Embora Biglan não fale especificamente sobre a prevenção do suicídio, ele dá indicações ao longo de seus textos de como todos aqueles ambientes tóxicos podem ocasionar diversos comportamentos-problema que podem preceder os comportamentos suicidas, e como a promoção de ambientes “nurturing” atuariam na sua prevenção. É claro que nossas intervenções precisam atingir pessoas que já apresentaram ideação suicida ou que já tentaram o suicídio, mas pelo que foi discutido vocês podem imaginar como intervenções ambientais precoces são um caminho promissor. Nós sabemos que na maior parte do tempo nos deparamos com comportamentos-problema que precisam ser de alguma forma “remediados”, mas não podemos perder de vista que as coisas seriam mais fáceis caso esses problemas fossem prevenidos.

Para saber mais:

Biglan, A. (2016) The ultimate goal of prevention and the larger context for translation. Prevention Science. 1-9. Advance online publication. doi: 10.1007/s11121-016-0635-6

Recuperado de:  https://link.springer.com/article/10.1007/s11121-016-0635-6

Outras referências utilizadas:

Biglan, A. (2015) The Nurture Effect: How the science of human behavior can improve our lives and our world. New Harbinger Publications, Inc: Oakland

de Leo, D. (2002). Why are we not getting any closer to preventing suicide? British Journal of Psychiatry, 181, 372–74.

Créditos da imagem: https://fems.org.br/Fotos/foto_20140708121455.jpg

Texto escrito por Flávia C. Figel, especialista em Terapia Analítico-Comportamental e mestranda do Laboratório de Estudos Básicos e Aplicados em Análise do Comportamento da USP- RP.

[1] A palavra nurture pode ter diversos significados na língua inglesa, incluindo nutrir, alimentar e estimular; o termo nurturing environment refere-se a ambientes capazes de prover o necessário para o desenvolvimento e bem-estar dos indivíduos. Neste texto vou manter o termo no inglês, para preservar seu significado.