É Melhor Prevenir do que Remediar

foto flavia

Como já nos mostrou Sidman, a coerção tem diversas implicações, muitas delas desastrosas. Milhares de pessoas sofrem os efeitos da punição e se comportam fugindo ou se esquivando de algum evento aversivo. Se olharmos ao nosso redor podemos perceber como a estimulação aversiva é comum e como diante dela pessoas desenvolvem problemas e transtornos mentais, muitas delas chegando ao ponto de tirar suas próprias vidas. Diante desse cenário tão desanimador a Análise do Comportamento poderá nos ajudar? Felizmente pesquisadores preocupados com nosso futuro nos mostram que a chave pode ser a prevenção!

Um dos principais estudiosos do tema prevenção sob a ótica da Análise do Comportamento é Anthony Biglan (que para a nossa alegria esteve no Encontro da ABPMC do ano passado). Em 2015 ele publicou o livro “The Nurture Effect[1]: Como a ciência do comportamento humano pode melhorar nossas vidas e nosso mundo”. O livro foi escrito com base em seus quarenta anos de experiência na área da ciência comportamental e da prevenção, sendo uma leitura inspiradora e obrigatória para interessados no tema. Em termos bem gerais o livro defende a ideia de que uma “nurturing society” seria fundamental para tornar pessoas mais felizes e saudáveis, sendo esse o modo ideal para se prevenir toda a diversidade de comportamentos-problema que podem surgir ao longo da vida de alguém. No decorrer do livro ele evidencia a importância da promoção e do reforçamento de comportamentos pró-sociais, que dizem respeito à cooperação e a trabalhar para o bem-estar dos outros, desde o mais cedo possível.  Ao mesmo tempo, é necessário diminuir as condições sociais e biológicas consideradas tóxicas, que possam influenciar de maneira negativa no desenvolvimento humano. O trabalho nessa área, portanto, consiste em auxiliar as famílias, escolas e comunidade a se tornarem um ambiente “nurturing”, tornando possível um mundo em que haja bem-estar para todos.

Em seu mais recente artigo (2016), Biglan discute o objetivo da prevenção e a importância de que o conhecimento adquirido sobre o bem-estar humano seja mesmo colocado em prática, e para isso ele retoma a ideia de um ambiente “nurturing”. A prevenção teria como foco o desenvolvimento de ambientes que prevenissem múltiplos problemas, além de estimular comportamentos pró-sociais, que beneficiam a sociedade como um todo. Os ambientes “nurturing” reduziriam condições biológicas e psicológicas tóxicas, como a coerção; produziriam o desenvolvimento e manutenção de comportamentos pró-sociais, uma vez que eles seriam reforçados; além de encorajarem famílias e escolas a reduzirem possíveis fatores de risco para comportamentos-problema. Em resumo, a ideia que ele traz é que para diminuirmos a ocorrência dos comportamentos-problema, precisamos, antes, aumentar o número desses ambientes “nurturing”.

O autor também discute a implementação e avaliação de estratégias de prevenção. Tais estratégias são compostas por vigilância, garantindo que os dados a respeito do bem-estar sejam acurados para justificar e tornar as intervenções mais eficazes; implementação de programas que sejam baseados em evidências, constantemente avaliados e disseminados; políticas públicas que contribuam com o bem-estar humano, como aquelas que diminuem a desigualdade econômica e social; e a utilização de recursos midiáticos, uma vez que possuem grande potencial para afetar um alto número de pessoas. Por fim, o autor conclui o texto discutindo como vários comportamentos-problema podem ter a mesma origem – o ambiente. Assim, num panorama da ciência da prevenção o desenvolvimento de ambientes “nurturing” poderia prevenir tais problemas e, assim como os demais programas, o desenvolvimento desses ambientes poderia ser avaliado em termos de eficácia (o aumento desses ambientes precisa estar diretamente relacionado com a diminuição de comportamentos-problema).

Um problema grave e que apresenta frequência maior a cada ano é o suicídio. São realizadas muitas pesquisas epidemiológicas, verificando em que condições (gênero, idade, nível socioeconômico, estado civil) o suicídio é mais frequente, identificando, assim, possíveis fatores de risco. Ao longo dos anos ficou clara a importância de se pensar, também, em termos de prevenção do comportamento suicida de modo geral: ideação suicida, tentativas de suicídio, suicídio. Ela pode ser feita em vários níveis, desde a prevenção de tentativas de suicídio no caso de pessoas com importantes fatores de risco, com ideação suicida ou que já tenham tentado, até a prevenção no sentido de que comportamentos relacionados ao suicídio nem cheguem a ocorrer.

O pesquisador da área de suicídio De Leo (2002) discute a dificuldade de realizar pesquisas de prevenção do suicídio, por diversas razões, mas principalmente pelo fato de se tratar de um fenômeno complexo e multideterminado. O autor relata que estratégias que tenham como foco a população em geral podem ser utilizadas, pois afetam um número maior de pessoas e podem interferir em outras condições problemáticas, que podem estar associadas a comportamentos suicidas (isolamento social, baixa qualidade de vida, desemprego).

Embora Biglan não fale especificamente sobre a prevenção do suicídio, ele dá indicações ao longo de seus textos de como todos aqueles ambientes tóxicos podem ocasionar diversos comportamentos-problema que podem preceder os comportamentos suicidas, e como a promoção de ambientes “nurturing” atuariam na sua prevenção. É claro que nossas intervenções precisam atingir pessoas que já apresentaram ideação suicida ou que já tentaram o suicídio, mas pelo que foi discutido vocês podem imaginar como intervenções ambientais precoces são um caminho promissor. Nós sabemos que na maior parte do tempo nos deparamos com comportamentos-problema que precisam ser de alguma forma “remediados”, mas não podemos perder de vista que as coisas seriam mais fáceis caso esses problemas fossem prevenidos.

Para saber mais:

Biglan, A. (2016) The ultimate goal of prevention and the larger context for translation. Prevention Science. 1-9. Advance online publication. doi: 10.1007/s11121-016-0635-6

Recuperado de:  https://link.springer.com/article/10.1007/s11121-016-0635-6

Outras referências utilizadas:

Biglan, A. (2015) The Nurture Effect: How the science of human behavior can improve our lives and our world. New Harbinger Publications, Inc: Oakland

de Leo, D. (2002). Why are we not getting any closer to preventing suicide? British Journal of Psychiatry, 181, 372–74.

Créditos da imagem: https://fems.org.br/Fotos/foto_20140708121455.jpg

Texto escrito por Flávia C. Figel, especialista em Terapia Analítico-Comportamental e mestranda do Laboratório de Estudos Básicos e Aplicados em Análise do Comportamento da USP- RP.

[1] A palavra nurture pode ter diversos significados na língua inglesa, incluindo nutrir, alimentar e estimular; o termo nurturing environment refere-se a ambientes capazes de prover o necessário para o desenvolvimento e bem-estar dos indivíduos. Neste texto vou manter o termo no inglês, para preservar seu significado.

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