Tutorial sobre como entender suas reações ao levar o famoso “gelo”: Entendendo melhor particularidades da extinção

imagem texto natalia biscassi

 

Você com certeza já deve ter visto esse tipo de imagem circulando pela internet. Especialmente em ocasião de términos de relacionamentos, a lembrança e o compartilhamento delas passam a ser muito frequentes. A frase em si pode parecer clichê, mas tem tudo a ver com o artigo sobre o qual falaremos hoje.

Quando suspendemos o reforço para determinado comportamento, estamos aplicando o que chamamos de extinção operante. O produto final disso é a redução da frequência de resposta do indivíduo. As recomendações gerais dos analistas do comportamento sempre seguem no sentido de evitar o uso da punição e utilizar a extinção em seu lugar, pois, em tese, a extinção não possui os efeitos aversivos da punição.

Mas então, como explicar todas aquelas as sensações ruins que sentimos quando, por exemplo, deixamos de receber a atenção que anteriormente era tão presente? Por que choramos, nos sentimos tristes, e às vezes com raiva diante da ausência de reforço, reações típicas também de situações punitivas? Para comportamentos anteriormente reforçados, Bravin e Gimenes (2013) vem nos dizer que a extinção possui subprodutos aversivos.

Os autores organizaram em seu artigo três categorias de evidências do possível efeito aversivo da extinção: 1) evidências funcionais; 2) evidências topográficas e estruturais, e 3) evidências biológicas. As maiores evidências funcionais de propriedades aversivas da extinção advêm de estudos cujas configurações experimentais admitem um estímulo sinalizador de quando a extinção ocorrerá. O indivíduo responde a este estímulo, de modo a adiar o período de extinção. É o que se pode ver no estudo de Wagner (1963), que dividiu ratos em dois grupos, um experimental, em que som e período de extinção foram emparelhados, e um grupo-controle, em que foram apresentados os mesmos estímulos, mas sem emparelhamento. A caixa experimental em que os animais eram colocados possuía uma divisória e, caso o rato apresentasse o comportamento de cruzar a divisória, ele poderia desligar o som que era seguido de extinção, evitando-a. Dentre os dois grupos, o que teve menor latência de resposta para tal comportamento foi o grupo experimental, que tinha emparelhado períodos de ausência de reforço com o som.

Estudos como os de Daly e McCroskery (1973) e Adelman e Maatsch (1956), por exemplo, também indicam sujeitos experimentais que otimizaram seu desempenho, apresentando latências menores de resposta no aprendizado e na realização da tarefa, para evitar situações de não-reforçamento diante de respostas previamente reforçadas, em comparação com grupos controle e grupos que continuavam a ser reforçados. Quanto mais rápido os sujeitos experimentais respondiam, maior era a frequência de evitação da extinção de comportamentos previamente reforçados, indicando assim uma propriedade aversiva deste tipo de contingência.

Para exemplificar as descobertas destes estudos, imagine que está conversando com seu ou sua crush e que, sempre que ele ou ela dá indícios de que vai se ausentar, respondendo com frases curtas, você se comporta de modo a postergar ou evitar a situação de ausência. Nesse contexto, as frases curtas são estímulos sinalizadores de um período de extinção, em que por mais que você mande mensagens, a pessoa não vai responder dentro de determinado período.

Topograficamente falando, a extinção possui efeitos sobre um espectro mais amplo de respostas do que somente as que vinham sendo reforçadas, isto é, os estímulos emparelhados com extinção também apresentam efeitos sobre os indivíduos. Tal efeito é um sinal de aversividade, análogo ao efeito de estímulos que adquirem propriedades aversivas quando emparelhados com os estímulos punitivos em si. Comportamentos ditos “emocionais”, igualmente, são observados diante de situações de ausência de reforço, bem como de punição: ratos defecam, urinam, tornam-se agressivos e ativos, além de apresentar comportamento de choro durante o desenvolvimento dos estudos. Com seres humanos não é muito diferente: é muito comum ver reações emocionais quando não se tem mais à disposição algo que anteriormente constituía um estímulo reforçador.

Isso é muito claro especialmente em relação à utilização da internet. Nos tempos atuais, a internet é um recurso tecnológico altamente reforçador. Porém, em alguns momentos falha e, por certo tempo, há ausência de resposta aos comandos. Em geral, pouco tempo depois (às vezes alguns dias, às vezes, dentro de poucos minutos ou horas) o serviço retorna após a realização de reparos. Esse período de ausência de respostas já é o suficiente para causar uma grande reação emocional em muitas pessoas, com grande grau de irritabilidade, tristeza, inclusive, eu conheço até pessoas que choram. A topografia da resposta dita “emocional”, então, é muito similar em casos de extinção de comportamentos anteriormente reforçados e casos de punição propriamente ditos. A função de cada processo, no entanto, é distinta e cada um possui propriedades e desdobramentos também diferentes, porém acabam apresentando algumas similaridades em se tratando de topografia de comportamentos “emocionais” devido a certo grau de aversividade comum.

Quanto às evidências biológicas, infere-se o potencial aversivo da extinção, pois há ativação de mecanismos biológicos da mesma maneira que estímulos aversivos (por exemplo, se “queimar” ou ser humilhado publicamente) o fazem: mobilizam o sistema cerebral defensivo, envolvendo neurotransmissores relacionados às reações de luta e fuga. Medo, ansiedade e frustração são reações mediadas pelos mesmos processos neurais que fazem parte do sistema defensivo.

Postas todas essas considerações, devemos repensar o uso da extinção, quando este for necessário, e seus efeitos de acordo com as variáveis envolvidas na situação.   Além disso, mais estudos devem ser desenvolvidos para avançar a discussão, que por muito tempo foi deixada de lado, como se esta parte da ciência do comportamento já estivesse resolvida. Para fins práticos, ainda, o ideal é que se ensinem novos comportamentos, incompatíveis com os comportamentos indesejados antigos, e se evite o uso tanto da extinção quanto da punição devido aos seus efeitos colaterais negativos. Voltando ao exemplo inicial, reforçar comportamentos englobados no que se define por autocuidado e amor próprio seria uma maneira de minimizar os efeitos aversivos de ausência de reforço do(a) parceiro(a) ou, ainda, a depender do contexto (relações abusivas e/ou de dependência emocional, por exemplo), fazer com que a pessoa não necessite mais da relação estabelecida e não veja o término como sendo algo aversivo.

Para saber mais:

Bravin, A. A., & Gimenes, L. S. (2013). Propriedade aversiva da extinção operante de comportamentos positivamente reforçados. Acta comportamentalia, 21(1), 120-133.

Outras referências utilizadas:

Adelman, H. M., & Maatsch, J. L. (1956). Learning and extinction based upon frustration, food reward, and exploratory tendency. Journal of Experimental Psychology, 52(5), 311-315.

Daly, H. B., & McCroskery, J. H. (1973). Acquisition of a bar-press response to escape frustrative nonreward and reduced reward. Journal of Experimental Psychology, 98(1), 109-112.

Créditos da imagem (posteriormente editada): https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/564x/c1/ee/9c/c1ee9c22ee04d712a00fdd8cb16f4441.jpg

Texto escrito por Natália Biscassi, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos. É membro do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH) da UFSCar e realiza pesquisas no Laboratório de Psicologia da Aprendizagem (LPA).

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