Como fazer seu cãozinho parar de latir quando está sozinho em casa, sem puni-lo?

imagem josi

Alguns cães latem muito quando os seus donos saem de casa e os deixam sozinhos. Isso pode ser um grande problema! O cãozinho pode incomodar os vizinhos, não deixando que ouçam a televisão, conversem, leiam um livro, etc., e ficar tão nervoso, chegando a rasgar as almofadas, morder o sofá e/ou roer o canto da mesa.

Se você está passando por isso, há algumas medidas que podem ser tomadas para evitar ou interromper os latidos do seu cão. Dentre elas, estão as que buscam descobrir os motivos dos latidos. Por exemplo, o cão pode latir somente quando passam pessoas perto de casa, para alertar sobre um possível intruso, por passar pouco tempo com seu dono, por se sentir sozinho, entre outros motivos. No primeiro caso, evita-se que o cão lata ao colocá-lo em um quarto e fechar as cortinas. No segundo caso, aumentar o tempo que você passa com ele e/ou exercitá-lo mais pode resolver.

Algumas pessoas optam por colocar no cão o colar de citronela, que quando capta a vibração do latido borrifa uma quantidade do líquido no focinho, ou o colar de choque no pescoço. Pode-se considerar que esse tipo de método é punitivo, ou seja, toda vez que ele late, ocorre uma consequência punitiva (borrifo ou choque). No entanto, isso é questionável eticamente. Além disso, há o risco de gerar efeitos colaterais, desencadeando outros comportamentos, como tremor, agressividade, dor, entre outros, e não ensina comportamentos alternativos.

Outra opção é, por exemplo, dar reforço para o seu cãozinho quando ele não está latindo, aumentando, assim, a frequência de outros comportamentos e diminuindo os latidos. Foi isso que Alexandra Protopopova, Dmitri Kisten e Clive Wynne, pesquisadores dos Estados Unidos, fizeram. Eles realizaram dois experimentos em que conseguiram diminuir a frequência de latidos de cães quando seus donos saiam de casa, sem precisar punir esse comportamento. Eles utilizaram um procedimento denominado na psicologia como “Reforço Diferencial de Outros Comportamentos” (DRO), que é muito usado em pesquisas com seres humanos. O DRO é um procedimento em que o reforço (por exemplo, um pestisco) é apresentado apenas após um intervalo de tempo sem ocorrer nenhum comportamento indesejado (por exemplo, latidos).

No Experimento 1 participaram cinco cães que latiam quando eram deixados sozinhos em casa: Ruby, Nina, Darby, Bruce e Sully. Foi utilizado um delineamento de reversão ABAB, em que “A” é a Fase Linha de base e “B” a Fase Tratamento. Todas as sessões foram conduzidas na casa de cada cãozinho, sem seus donos estarem presentes. Na Linha de base (A) foi medida a frequência de latidos, sem entrega do reforço. Com base nessa frequência, foi programado o intervalo de tempo entre a entrega dos petiscos durante o Tratamento. No Tratamento era realizado o DRO, e havia um equipamento que liberava petiscos quando o experimentador o acionava. Quando o DRO era programado para, por exemplo, cinco segundos, o petisco era apresentado depois de intervalos de cinco segundos sem o cão latir.

Será que o procedimento deu certo? Sim! Os resultados indicaram que a utilização do DRO fez diminuir a frequência do número de latidos para três dos cinco cães: Ruby, Nina e Darby. A média do número de latidos entre todos os cachorros foi de 9,69 latidos por minuto nas sessões de Linha de base, e de 3,79 latidos por minuto nas sessões de Tratamento. Como os intervalos do DRO eram muito curtos no Experimento 1 e os cães recebiam alimentos entre cinco e 23 segundos na Fase Tratamento, os pesquisadores realizaram o Experimento 2, que aumentou gradualmente o intervalo do DRO, para que os cães ingerissem menos comida e continuassem a manter a baixa frequência de latidos.

Participaram do Experimento 2 os cães que diminuíram a frequência de latidos no Experimento 1: Ruby, Nina e Darby. A única diferença do Experimento 1 para o 2 foi que o intervalo do DRO era dobrado após o cão atingir um critério determinado pelos experimentadores, por exemplo, iniciava com 5s, depois passava para 10s, 20s, 40s, e 80s, 160s, 320, 640s…. Ou seja, o petisco era entregue sempre depois do final do intervalo determinado apenas se o cão não tivesse latido.

Os resultados desse procedimento foram positivos! Eles indicaram que mesmo quando o intervalo era maior, os três cães apresentaram baixa frequência de latidos. Diante desses resultados, pode-se verificar que a utilização do reforço é promissora para resolver o caso de cãozinhos barulhentos. No entanto, os pesquisadores comentaram que uma das limitações do estudo foi que o pesquisador gravava manualmente os latidos, e permanecia dentro da casa do cachorro, aspecto que pode ter interferido nos resultados. Outra questão é que no dia-a-dia os donos não ficam em casa para monitorar os cães. Portanto, seria interessante a utilização de um equipamento totalmente autônomo. Eles também comentaram que é importante investigar a motivação por trás do latido excessivo.

Diante de todas essas sugestões, podemos chegar à conclusão que há muito ainda o que ser pesquisado com os cães, e que os procedimentos que utilizam reforço podem ser menos estressantes para os cãozinhos pararem de se comportar de modo indesejado e aprenderem outros comportamentos. O que você achou da pesquisa e das conclusões? O que você faz quando seu cãozinho não para de latir, quando morde suas coisas, ou estraga as plantas?

Quer saber mais?

Consulte o artigo:

Protopopova, A., Kisten, D., & Wynne, C. (2016). Evaluating a humane alternative to the bark collar: Automated differential reinforcement of not barking in a home-alone setting. Journal of Applied Behavior Analysis, 49(4), 1–10. doi:10.1002/jaba.334

Escrito por Josiane Maria Donadeli, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos.

Créditos da imagem: https://www.johndog.com.br/wp-content/uploads/2015/11/cao-latindo.jpg

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