Auxiliando vítimas de violência doméstica a partir de uma abordagem contextual

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A violência doméstica constitui um grande problema não só no Brasil, mas em diversos países no mundo. Com relação aos dados de violência contra a mulher perpetrada por homens, parceiros e/ou ex-parceiros, estima-se a morte de mais de 5.600 mulheres por ano no Brasil, o equivalente a uma morte a cada 1,5 horas. São dados bastante alarmantes, não? Mas a situação é ainda pior! Os números de violência contra a mulher aumentam muito mais quando se leva em consideração formas não letais, e inclusive não físicas de violência, como impedir o uso de determinada roupa, de sair com determinadas pessoas, e de expressar suas opiniões sobre determinado assunto.

Uma crítica às “noções psicologizantes ou individualistas” do comportamento humano que se relaciona com essa temática é que o problema da violência contra a mulher não depende apenas da análise do comportamento dos dois indivíduos que se relacionam, mas do ambiente mais abrangente que está presente, como os contextos sociais, políticos, históricos e econômicos vigentes, uma vez que eles podem oferecem condições para que as violências sejam naturalizadas e/ou reforçadas. Pensando nisso, dois pesquisadores, um australiano e uma brasileira, se juntaram para escrever sobre a violência contra a mulher cometida por homens nas sociedades ocidentais, analisando como esses contextos mais amplos podem oferecer condições para que esses comportamentos de violência aconteçam, e como análises mais amplas podem ser inseridas na análise do comportamento, a qual possui uma tradição em análises individuais.

Bernard Guerin e Marcela Ortolan listaram alguns comportamentos comumente observados nos casos de violência doméstica, a partir da revisão de pesquisas sobre o tema. Essa primeira estratégia permitiu investigar as contingências que podem estar envolvidas nesses episódios, ou seja, quais contextos podem facilitar ou permitir a ocorrência de tais comportamentos.  O uso de abusos econômicos, de coerção ou ameaças, intimidação e abuso emocional são alguns dos exemplos de comportamentos presentes nos estudos. Entretanto, em vez de analisar cada comportamento envolvido nessas categorias, os autores comentam sobre a utilidade de ensinar as mulheres a analisar tais comportamentos de maneira funcional, ou seja, levando em consideração quais os efeitos desses comportamentos na vida da mulher.

Veja um exemplo: a proibição da mulher de arranjar ou manter um emprego, a retenção do dinheiro ganho por uma mulher, e impedir que a mulher tenha acesso à conta conjunta do casal são todas topografias diferentes, embora as funções possam ser semelhantes, como um maior monitoramento de suas atividades (uma vez que ela terá que pedir dinheiro para o parceiro para fazer compras, sair com amigos, etc.), diminuir o rol de contatos sociais da parceira, e inclusive utilizar o dinheiro de maneira contingente a consecução de determinados comportamentos, como “ser uma boa esposa”.

Na análise dos contextos cujos comportamentos de violência costumam ocorrer, cinco funções foram elencadas: ações diretas (uso de intervenções diretas na mulher ou em seus recursos, de modo a obter o controle), a manipulação de contextos ou o estabelecimento de situações para a ação (modificar o acesso aos recursos ou contextos que possibilitam o acesso a tais recursos), estratégias de segredo/sigilo, estratégias de monitoramento, e estratégias de construções verbais.

Impedir que a mulher tenha acesso à conta conjunta do casal é um exemplo de uma ação direta. A manipulação dos contextos pode ocorrer, por exemplo, ao impedir a mulher de ler um livro que possa conter construções verbais distintas das que o marido endossa (e.g. “mulheres podem ser independentes”). Se o parceiro consegue fazer a parceira mandar fotos de nudez para ele, por exemplo, essas fotos podem ser utilizadas para conseguir que a mulher faça outras coisas para o parceiro, se a observância (compliance) se tornar contingente à promessa de não divulgar essas fotos.

As estratégias de construções verbais são extremamente poderosas, uma vez que, após o estabelecimento de determinada relação verbal, o parceiro não precisa estar presente para afetar os comportamentos futuros da mulher: o marido pode se utilizar do ciúme, que é inclusive algo valorizado socialmente (em alguns contextos e em certa medida), para justificar abusos, como não a deixar sair com suas amigas, impedir a participação dela em festas da empresa onde trabalha, etc. Assim, a mulher pode se sentir culpada se sair, o que atua como uma forma de controle, mesmo sem o parceiro precisar estar presente para dizer que sentirá ciúmes da mulher. Desse modo, é importante focalizar também nas fontes sociais de controle do comportamento, para que as intervenções sejam mais efetivas.

A análise elencou também os possíveis ganhos obtidos a partir das estratégias de controle, como o ganho de determinados recursos (e.g., dinheiro, sexo), a atenção (lembrando que para conseguir algo da mulher, é preciso que ela ouça o que o parceiro fala, o veja, etc.), e a evitação do controle por outros (se eu restrinjo o acesso da minha parceira a amigos e colegas de trabalho, por exemplo, eu serei uma fonte maior de acesso a reforçadores e, portanto, terei maior controle sobre ela).

Em muitos casos, comportamentos aparentemente inócuos ou socialmente aceitáveis (e reforçados) podem progredir para formas violentas. Veja um exemplo: se oferecer para lidar com as contas da casa ou se oferecer para escolher os programas que o casal fará no fim de semana pode ser visto como uma gentileza e uma forma de agrado. Entretanto, isso pode ser também utilizado para controlar cada vez mais os recursos que a parceira tem disponível. Por isso é imprescindível analisar funcionalmente os comportamentos, uma vez que uma mesma topografia pode servir para a obtenção de consequências bastante distintas. Esse ponto é importante, porque também nos mostra que, se a violência começar de maneira “branda”, pode ser difícil identificá-la nessa fase. É importante deixar claro que o oferecimento para lidar com as contas, para escolher os programas do casal, e outros comportamentos semelhantes (ou não) nem sempre serão utilizados de maneira a diminuir os recursos disponíveis da mulher, ou agredi-la de outra forma. Deve-se observar as consequências desses comportamentos para identificá-los como comportamentos abusivos ou não.

Por fim, como é que os ambientes mais amplos, sociais, históricos, políticos e econômicos se relacionam com o que acontece entre um casal? A maioria das estratégias utilizadas pelos agressores não seriam possíveis sem a aceitação social de determinados comportamentos e de privilégios diferenciais, como o “dever” dos homens de serem responsáveis pelas finanças do casal, a aceitação do ciúme como uma prova de amor, e a manutenção dos segredos entre um casal. O homem considerado violento não nasceu assim e não criou as condições presentes na sociedade. Ele simplesmente se engaja nas estratégias que aprendeu, as quais só ocorrem porque os contextos sociais e políticos mais amplos permitem. Desse modo, as lutas dos movimentos feministas, como as tentativas de diminuir as desigualdades entre os homens e as mulheres auxiliam na diminuição da violência doméstica, porque elas trabalham para modificar esses contextos mais amplos que possibilitam que as contingências individuais atuem.

Vemos, portanto, que a análise do comportamento, junto com as ciências sociais (mas não restrito às duas), podem ser aliadas na luta por um mundo menos violento. Quer fazer parte disso?! Leia o estudo e saiba mais:

 Guerin, B., & de Oliveira Ortolan, M. (2017). Analyzing domestic violence behaviors in their contexts: Violence as a continuation of social strategies by other means. Behavior and Social Issues, 26, 5-26.

Créditos da Imagem: http://remut.blogspot.com.br/2015/07/tarauaca-oficina-de-capacitacao-para.html

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

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