Tipo, como fazer para, tipo, parar de falar “tipo”?

Certa vez eu estava apresentando um seminário na faculdade e percebi que meus amigos começaram a se entreolhar e dar risada. Na hora não achei que era nada comigo, afinal, sempre fiz parte da turma do fundão e dar risada baixinho durante as aulas não era nada fora do normal! Ao fim do seminário, eles vieram falar comigo e, rindo, disseram que haviam contado quantas vezes eu falei “tipo” durante a apresentação. Tipo assim, o número foi assustador (não vou contar)! Me lembro de ter ouvido a notícia com bastante surpresa. Eu nunca percebi que falava tanto essa palavra. A partir desse momento passei a me policiar e aos poucos consegui eliminar esse vício de linguagem.
Vícios de linguagem como esses e outros comportamentos repetitivos podem ser relativamente comuns durante apresentações em público. É o que popularmente chamamos de um tipo de “tique nervoso”. Cientificamente são chamados de “pausas preenchidas”. Como isso pode acontecer com muitas pessoas e pode atrapalhar muito, os pesquisadores Claire Spieler e Raymond Miltenberger, da Universidade do Sul da Flórida resolveram testar um método para diminuir a ocorrência desses comportamentos indesejados.
Resultados de estudos prévio levantaram a discussão sobre se apenas identificar a ocorrência desses tiques seria suficiente para diminuí-los (como no meu caso) ou se o treino de comportamentos alternativos aos tiques seriam parte essencial da intervenção. Pesquisas anteriores mostraram que as duas intervenções em conjunto são eficazes. Agora, Claire e Raymond testaram se apenas a sinalização da ocorrência desses comportamentos poderia diminuí-los.
Na pesquisa, os comportamentos alvos de intervenção foram pausas preenchidas (hummm, éeee, uhhhh), uso da palavar “tipo” fora de contexto e estalos com a língua. Participaram do estudo quatro estudantes universitários. Eles fizeram uma pequena apresentação oral, apenas para o experimentador, e foram selecionados porque apresentavam algum desses comportamentos, pelo menos, duas vezes por minuto (nesse momento eles não sabiam o propósito da pesquisa). Na fase de intervenção foram adotados três procedimentos. Primeiro, o experimentador conversava individualmente com o participante sobre quais seriam os comportamentos alvos de intervenção. Em seguida, o experimentador mostrava a filmagem da apresentação feita anteriormente, indicando a ocorrência dos comportamentos-alvo. Por último, o participante fazia uma nova apresentação (que ele tinha 10 minutos para preparar). Nessa apresentação, o participante deveria levantar a mão todas as vezes que percebesse a ocorrência do comportamento alvo. O experimentador faria o mesmo. Se o participante não conseguisse identificar todas as vezes, faria uma nova apresentação (do mesmo tema). Isso ocorria até que ele fosse capaz de identificar todas as ocorrências ou se ele não apresentasse melhora no desempenho ao longo das apresentações. Então, o participante fazia mais uma apresentação, sem sinalização dos comportamentos-alvo (nem por ele, nem pelo experimentador), para ver se a intervenção tinha dado certo. Se nessa apresentação ocorresse uma diminuição menor do que 80% na ocorrência dos comportamentos alvo, em comparação com a primeira sessão, o procedimento era repetido. Caso a diminuição fosse maior que 80%, o participante fazia uma nova apresentação, com um tema diferente, para uma plateia de cinco pessoas.
E não é que a intervenção deu certo! Todos os participantes diminuíram a ocorrência dos comportamentos-alvo, inclusive quando apresentaram para a plateia maior! Os próprios pesquisadores, porém, afirmaram que é importante entender por que esses comportamentos ocorrem, para evitar que eles surjam novamente, assim como medir o quão duradouro é o efeito dessa intervenção. No meu caso, a frequência dos “tipos” diminuiu com a ajudinha dos meus amigos, mas depois de tantos anos, será que meus tipos realmente foram eliminados? Acho que preciso de uma nova contagem.

Quer saber mais? Leia o artigo original:
Spieler, C., & Miltenberger, R. (2017). Using awareness training to decrease nervous habits during public speaking. Journal of Applied Behavior Analysis, 50(1), 38–47.

Créditos da imagem: http://vivianrauh.com.br/a/wp-content/uploads/2016/07/criança-com-medo-de-falar-em-público.jpg

Texto escrito por Natalia M. Aggio, pós-doutoranda no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos.

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