Injustiça e desigualdade: uma coisa não é a outra?

Estudo de revisão põe em xeque pesquisas sobre aversão à desigualdade

imagem cesar

Pesquisas que sugerem a existência de uma universal “aversão à desigualdade” [inequality aversion]* em humanos estão erradas, e isso se deve a uma equivocada identificação entre desigualdade e injustiça. Esse é o argumento central do estudo de Christina Starmans, Mark Sheskin e Paul Bloom, da Yale University, publicado recentemente pela Nature Human Behaviour.

Os autores iniciam comentando estudos recentes sobre a enorme desigualdade de renda mundo afora, a exemplo do alardeado relatório da Oxfam, segundo o qual as 8 pessoas mais ricas do mundo concentrariam riqueza equivalente àquela das 50% mais pobres. A preocupação com o assunto se reflete na popularidade de obras dedicadas à investigação de fatores envolvidos com a origem e a ascensão da desigualdade econômica, como o best-seller de Thomas Piketty, O capital no século XXI.

Desigualdade também tem sido tema de estudos em laboratório, com dados indicando que, desde muito cedo, humanos demonstrariam preferência por distribuições igualitárias – algo já verificado em nações diversas (p. 2). Apesar disso, em pesquisas acerca de percepções sobre a distribuição de riqueza no mundo, as pessoas tendem a preferir distribuições desiguais, tendência aferida em sujeitos de diferentes países, e de lados opostos do espectro político.

O que poderia explicar esse aparente paradoxo? A chave da questão parece estar na incorreta identificação entre desigualdade e injustiça. De acordo com os autores, não há qualquer evidência empírica que sustente a existência de uma universal “aversão à desigualdade” em humanos, sendo o senso de justiça [fairness] e de injustiça [unfairness] o fator decisivo:

“. . . a percepção de que há uma preferência por igualdade surge de um foco indevido em circunstâncias especiais, muitas vezes estudadas em laboratório, onde coincidem desigualdade e injustiça. Na maioria das situações, entretanto, incluindo aquelas que envolvem distribuições de riqueza do mundo real, as preocupações das pessoas com respeito à justiça levam-nas a favorecer distribuições desiguais” (p. 2).

A confusão entre desigualdade e injustiça ocorreria em função do modo como os experimentos têm sido conduzidos. Por um lado, vários estudos com crianças mostram uma preferência significativa por distribuições igualitárias de um dado bem, quando aqueles que recebem tal bem são apresentados como indistinguíveis entre si em termos de mérito ou necessidade. Por outro lado, em estudos semelhantes nos quais os que recebem os bens distribuídos são apresentados com certas diferenças entre si, verifica-se a preferência por distribuições desiguais.

Por exemplo, em estudos nos quais crianças são requisitadas a distribuir recursos entre indivíduos que trabalharam mais e outros que trabalharam menos, há uma preferência pela distribuição desigual: mais aos que trabalharam mais, e menos aos que trabalharam menos. Semelhantemente, a preferência pela distribuição desigual também se verificou em estudos nos quais fantoches demonstraram auxílio a outro fantoche, ou quando demonstraram alguma conduta antissocial, com mais recursos alocados para os primeiros, e menos para os segundos. Há ainda evidências indicando que se a alocação de recursos for randômica (via sorteio, por exemplo), distribuições desiguais não são consideradas injustas. Em suma, todos os dados arrolados convergem no sentido de que não haveria equivalência entre as noções de desigualdade e injustiça.

Desse modo, estudos que não estabelecem distinções significativas entre os personagens a receber os bens distribuídos não seriam capazes de captar o fator decisivo para a preferência expressada pelos sujeitos, pois, nesse caso, os resultados “são consistentes tanto com a preferência por igualdade como com a preferência por justiça, porque os estudos são projetados de tal modo que o resultado igual seja também o justo. Isso ocorre porque os destinatários são indistinguíveis em relação a necessidade e mérito” (p. 3).

Os autores ponderam que há fatores de preferência pela desigualdade não envolvidos com uma preferência por justiça, a exemplo do egoísmo e da crença de que algum nível de desigualdade seria necessário para que haja mobilidade social. Ademais, é feito um alerta sobre como as conclusões devem ser lidas com cautela por aqueles apressados à extrapolação para contextos complexos:

“Tal como acontece com a maioria das afirmações psicológicas deste tipo, nossa proposta tem, no máximo, apenas implicações indiretas para a política pública. Mesmo se o indivíduo médio deseja uma sociedade um tanto desigual, pode-se argumentar que as pessoas estão equivocadas no que querem. Talvez as pessoas realmente estariam melhor em uma sociedade perfeitamente igual – elas simplesmente não sabem disso. Além disso, mesmo que se presuma que as pessoas estão corretas em seus desejos por uma sociedade com alguma diversidade econômica (ainda que não tanto quanto a que temos atualmente), isso não nos diz como alcançar tal sociedade. É perfeitamente coerente ser a favor da redução da desigualdade, mas contra certos planos para redistribuição” (p. 5).

Para mais detalhes sobre as conclusões elaboradas pelos autores, bem como sobre os estudos em que se baseiam, leia o artigo na íntegra, que pode ser acessado gratuitamente por aqui: https://www.nature.com/articles/s41562-017-0082

Referência:
Starmans, C., Sheskin, M. & Bloom, P. (2017) Why people prefer unequal societies. Nature Human Behaviour, 1, 1-7. doi: 10.1038/s41562-017-0082

Fonte da imagem: https://thebestadvicesofar.files.wordpress.com/2015/07/not-fair.jpg

* Na literatura especializada, é possível encontrar tanto a expressão “aversão à desigualdade” como a expressão “aversão à iniquidade”. Optou-se por traduzir “inequality” como “desigualdade” para evitar a confusão com injustiça, que é comumente associada à palavra iniquidade (vide verbete 2 do Priberam: https://www.priberam.pt/dlpo/iniquidade, e verbete 3 do Michaelis: http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=iniquidade), e também à sua equivalente em inglês, iniquity (vide verbete 1 do Merriam-Webster: https://www.merriam-webster.com/dictionary/iniquity).

Postado por César Antonio Alves da Rocha, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

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