Se organizar direitinho, todo mundo coopera!

texto melina maio

Você que já fez algum trabalho voluntário durante a sua vida, certamente já ouviu aquela clássica pergunta: “Mas porque você está fazendo isso se você não está ganhando nada?”. Todos nós sabemos da importância do trabalho voluntário em nossa sociedade, e que muitas ONGs são capazes de promover modificações reais nas condições de vida de várias pessoas. Como analistas do comportamento, também sabemos que os comportamentos continuam sendo emitidos ao longo do tempo porque são reforçados. Considerando essas coisas, vocês já pararam para pensar o que faz com que os voluntários continuem a exercer suas funções “sem ganhar nada para isso”?

A partir de contribuições da Psicologia Social, sabemos que a presença de trabalhos voluntários aumenta o bem-estar em uma comunidade e que, para o indivíduo voluntário os benefícios são, por exemplo, aumento na satisfação com a vida, diminuição da mortalidade e melhor saúde física e mental. Entretanto, para entender melhor porque alguém se dispõe a trabalhar “sem receber nada em troca”, é preciso fazer uma descrição mais precisa sobre o que mantém este comportamento, “em behaviorês,” uma descrição funcional das variáveis envolvidas no comportamento dos voluntários. Três pesquisadoras da Universidade de começaram a fazer isso e elaboraram uma extensa revisão sobre o assunto sob a perspectiva da análise do comportamento, abordando esses comportamentos cooperativos organizados em trabalhos voluntários, tanto em um nível individual quanto cultural.

O voluntariado é geralmente entendido como uma atividade fora das contingências governamentais, na qual está implicado algum esforço e gasto de tempo. Uma tentativa de definição comportamental do voluntariado sugere que se trata de qualquer comportamento emitido por uma pessoa que seja reforçado pela promoção e/ou aumento das condições reforçadoras para outras pessoas, que não estejam pessoal, profissional ou judicialmente relacionadas a quem o promoveu.

A topografia do comportamento de um voluntário vai depender do contexto no qual esse comportamento ocorre. O comportamento voluntário pode ser um comportamento solitário (como por exemplo, os voluntários do CVV – Centro de Valorização da Vida, que passam horas sozinhos em plantões, aguardando ligações de pessoas que se sentem solitárias e/ou estão pensando em tirar a própria vida), ou pode refletir um padrão de comportamento coletivo (como os voluntários do TETO – uma organização internacional presente na América Latina e Caribe, que trabalha pela defesa dos direitos de pessoas que vivem nas favelas mais precárias; seus voluntários constroem, em conjunto, moradias mais dignas para esta população). Mas, como já sabemos, apenas descrever a topografia de um comportamento não nos auxilia a entender suas relações funcionais.

Em nível individual, o comportamento voluntário pode começar a ser analisado por meio das nossas queridas contingências de três termos. Geralmente, na história de reforçamento dos voluntários, o comportamento colaborativo foi seguido de atenção social. Assim, o operante “colaborar em um trabalho voluntário” pode surgir por meio de operações estabelecedoras bem conhecidas, como a privação de atenção social (neste caso o comportamento seria mantido por reforçamento positivo). Atenção social e reconhecimento público estão entre os principais reforçadores positivos do trabalho voluntário. Entretanto, é possível também que alguém convide uma pessoa a se voluntariar, e que esta pessoa aceite o convite para evitar um mau julgamento por parte da primeira (neste caso o comportamento seria emitido por reforçamento negativo). Uma infinidade de reforçadores positivos e negativos entra em jogo a depender do contexto do trabalho voluntário em si. E ainda, o comportamento de se voluntariar pode ser aprendido por modelação, ao observar outras pessoas sendo voluntárias. Considerando que se trata de um comportamento complexo, é razoável esperar que, quando indivíduos se voluntariam, seus comportamentos não sejam controlados por apenas um reforçador em particular ou por nenhum esquema intermitente isolado.

É preciso ainda considerar que o comportamento verbal tem papel muito importante em comportamentos pró-sociais e cooperativos, como é o de ser voluntário. O indivíduo pode se tornar voluntário ficando sob controle de uma auto-regra: “Ser voluntário é ser uma boa pessoa”, e se comportar em função desta regra. Desta forma, a consequência de ser um voluntário é se considerar uma boa pessoa, o que já é reforçador em si mesmo para a pessoa que elaborou esta auto-regra. Mas como a pessoa em questão pode ter criado esta regra? Podemos imaginar que a palavra “voluntário”, ao longo da vida desta pessoa, tenha assumido uma posição equivalente à palavra “bom”, daí ela achar que sendo voluntária ela está sendo uma boa pessoa. Além disso, nós sabemos que estímulos verbais também podem funcionar como reforçadores em si mesmos, quando certo estímulo é recorrentemente pareado com consequências reforçadoras, como pode ser o caso, novamente, da palavra “bom”. Assim, podemos entender que o comportamento voluntário é multiplamente controlado e mantido por uma combinação de relações verbais e sociais.

Em nível social, o trabalho voluntário pode ser entendido por macrocontingências, que são caracterizadas como a relação entre os comportamentos de todas as pessoas engajadas em uma determinada prática cultural e seu produto agregado (as alterações ambientais produzidas por esta prática). Em termos de macrocontingências, é possível analisar quantos indivíduos estão engajados no mesmo comportamento voluntário, a despeito das diferentes funções e contingências às quais cada um está submetido individualmente. Ao longo do tempo, o efeito do comportamento desses indivíduos pode ser medido e seu impacto social avaliado.

O comportamento de voluntariar-se pode ser entendido também por meio da ideia de cooperação. Sob esta ótica é possível descrevê-lo como um comportamento que traz benefícios coletivos para os indivíduos e para os grupos, emitido quando (para produzir reforçadores, ou remover estímulos aversivos) dois ou mais indivíduos dependem do comportamento de ambos. Partindo do conceito de cooperação, as autoras sugerem que é possível estudar o comportamento cooperativo de maneira empírica, por meio dos procedimentos presentes na literatura sobre cooperação, como os dilemas dos prisioneiros, dos bens públicos, e dos bens comuns, descritos pela Teoria dos Jogos.

Em termos de aplicações práticas, é preciso considerar que, ainda que os voluntários não sejam pagos, as ONGs e demais associações que possuem voluntários gastam vários recursos no recrutamento, treinamento e manutenção dos voluntários. Uma das maiores dificuldades dessas organizações é justamente manter os mesmos voluntários ao longo do tempo e conseguir formar uma equipe de trabalho mais estável e experiente, e, consequentemente, oferecer um serviço mais eficiente para as suas comunidades. É neste ponto que as autoras defendem que se trata de uma oportunidade para os analistas do comportamento aplicarem os princípios básicos da nossa ciência para promoverem o trabalho voluntário nas organizações e criar mudanças positivas, tanto em nível pessoal quanto social, além de relatarem também que este é um campo de estudo muito pouco explorado pelos analistas do comportamento e que trabalhos empíricos sobre o assunto serão muito bem-vindos. Então, partiu começar um grupo de pesquisa sobre isso!?! Algum voluntário? o/

O assunto despertou sua curiosidade? Recomendo muito a leitura do artigo original:

Brayko, C. A., Houmanfar, H. A., & Guezzi, E. L. (2016). Organized cooperation: A behavioral perspective on volunteerism. Behavior and Social Issues, 25, 77-98.

Se você quiser conhecer também as organizações voluntárias citadas no texto, aqui estão seus sites:

http://www.cvv.org.br/

http://www.techo.org/paises/brasil/

Fonte da imagem: http://mbagestaodenegociosivunisul.blogspot.com.br/2010/04/trabalho-em-equipe-espirito-de.html

Escrito por Melina Vaz – Bióloga, Mestra e doutoranda em Psicobiologia, quase psicóloga e voluntária no Projeto de Ensino Interdisciplinar Comunitário/PEIC-USP, no qual participa um grupo de formação pedagógica para que os professores voluntários se capacitem e possam oferecer aulas cada vez melhores para alunos de baixa renda da cidade de Ribeirão Preto.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s