O isolamento do analista do comportamento: Mito ou verdade?

imagem tais

Essa semana trataremos de um assunto pouco discutido fora dos laboratórios de psicologia experimental, mas de queixa recorrente entre os analistas do comportamento: o  isolamento da Análise do Comportamento. Os autores do artigo que serviu como base para esse post , Strapasson e Zuge (2017) argumentam que  que, desde a década de 1940, quando houve a instauração do primeiro grupo de analistas do comportamento, a percepção de isolamento é uma queixa dos pesquisadores nesta área, que muitas vezes se sentem incompreendidos por sua linguagem hermética e pela escolha de delineamentos experimentais de sujeito único.

As queixas de isolamento começaram a ter respaldo empírico em 1971, com as análises quantitativas e qualitativas realizadas sobre a comunicação da Análise do Comportamento com as demais áreas da Psicologia, conduzidas por Krantz (1971, 1972) nos Estados Unidos. Os estudos mostraram que havia uma baixa citação de estudos desenvolvidos em Análise do Comportamento por estudos de outras áreas. Além disso, dentro das próprias revistas de análise do comportamento, os números de citações cruzadas eram baixos, combinados com elevadas taxas de autocitação.

No cenário nacional, as investigações realizadas sobre o isolamento da Análise do Comportamento são escassas, porém os resultados obtidos convergem sobre um mesmo fato: a necessidade de modificação de algumas práticas sociais comumente empregadas por analistas do comportamento, e que atravancam a inserção dessa ciência na comunidade científica como um todo. Entre essas práticas sociais tem destaque o papel da comunicação dos achados em análise do comportamento na literatura, que muitas vezes se restringe a um “comportamentês” inacessível às outras áreas da Psicologia e à população em geral, o que já foi tema de reflexão em um post recente aqui no blog.

Com o intuito de analisar a questão da comunicação das pesquisas em Análise do Comportamento com pesquisas das demais abordagens no Brasil, foi realizado um estudo de análise bibliométrica por Strapasson e Zuge (2017).  O trabalho consistiu em consultar as listas de referências de três dos principais periódicos para veiculação de textos de Análise do Comportamento no país: a Revista Brasileira de Análise do Comportamento (REBAC), a revista Perspectivas em Análise do Comportamento (PAC) e a Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva (RBTCC). Como parâmetro de comparação em periódicos generalistas, isto é, que envolvam publicações das mais diversas áreas da Psicologia, foi adotada a revista Psicologia: Reflexão e crítica (PRC), figurada entre os principais periódicos nacionais em Psicologia. O método adotado consistiu em analisar as listas de referências de todos os artigos publicados nos periódicos mencionados, e classificá-los em três categorias: (1) Textos não avaliados, (2) Textos de Análise do Comportamento e (3) Textos de outras áreas do conhecimento. Esta classificação foi realizada por dois pesquisadores, com critérios bem definidos.

Os resultados revelaram que, quando observadas em conjunto, a lista de referências dos periódicos de Análise do Comportamento analisados traziam quantidades muito semelhantes de citações de estudos da própria área (45,4%) e de outras áreas do conhecimento (45,9%). Ao comparar estes três periódicos, porém, este achado não foi replicado. Maiores citações de textos de Análise do Comportamento foram observadas na REBAC e na PAC (53,9% e 54,9%, respectivamente), em detrimento de textos de outras áreas do conhecimento (38,5% e 34,4%, respectivamente). Este padrão foi observado de modo inverso na RBTCC, que apresentou mais referências a textos de outras áreas (53,6%) do que em Análise do Comportamento (37,7%). Os autores explicam que a diferença observada na quantidade das referências de cada área da Psicologia entre as revistas estudadas provavelmente se deve à orientação das políticas editoriais de cada uma delas, já que na REBAC e na PAC é oferecida exclusividade às publicações em Análise do Comportamento.

        A quantificação das referências em Análise do Comportamento na PRC, que foi adotada no estudo como revista generalista, é assustadora: Foram 2,9% contra 89,7% de textos de outras áreas do conhecimento. Análises mais detalhadas permitiram observar ainda que a maior parte das citações em Análise do Comportamento foram realizadas por publicações da mesma área. A autora argumenta que uma possível explicação está, mais uma vez, na política editorial da revista, que é mais abrangente.

        Os achados evidenciaram que as queixas de isolamento dos analistas do comportamento são plausíveis; porém, este fenômeno está acontecendo de modo unilateral. Isto é, enquanto analistas do comportamento apropriam-se de achados de outras áreas e os utilizam em seus estudos, a apropriação dos achados dos estudos em Análise do Comportamento não tem sido realizada com a mesma frequência por pesquisadores de outras áreas do conhecimento. A maior parte dos estudos que fazem referência à achados da Análise do Comportamento são da mesma área.

Tais dados alertam para a necessidade dos analistas do comportamento reverem algumas posturas que podem estar contribuindo para uma diminuição do impacto de seus achados fora do campo. Entre essas posturas, estão o já citado rigor na descrição dos eventos e processos estudados, bem como a baixa publicação em periódicos de outras áreas ou, ainda, a baixa publicação de temas não relacionados à Análise do Comportamento. Se, como analistas do comportamento, desejamos a sobrevivência institucional e científica da nossa área dentro da comunidade científica, talvez seja o momento de analisarmos o nosso próprio comportamento e manipular algumas contingências a nosso favor. E você, tem analisado seu comportamento ultimamente? Como faz pra evitar o “comportamentês” em uma conversa com pessoas de outras áreas? Conta pra gente aqui do blog!

Referência:

Strapasson, B. A. & Zuge, P. R. (2017). O isolamento da Análise do Comportamento no Brasil: Uma análise bibliométrica. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 19(1), 94-114.

Outras referências consultadas:

Krantz, D. L. (1971). The separate worlds of operant and non-operant psychology. Journal of Applied Behavioral Analysis, 4(1), 61-70.

Krantz, D. L. (1972). Schools and systems: The mutual isolation of operant and non-operant psychology as a case study. Journal of the History of the Behavioral Sciences, 8(1), 86-102.

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https://boletimbehaviorista.wordpress.com/2017/06/22/por-que-nao-devemos-falar-em-comportamentes/

Texto escrito por Tais Francine de Rezende, psicóloga e mestranda em Gerontologia pela Universidade Federal de São Carlos. É membro do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH) da UFSCar e do grupo de pesquisa e extensão Programa Viver Bem a Velhice (ProVive) do Departamento de Gerontologia da UFSCar.

 

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Por que (não) devemos falar em comportamentês

texto mariana maca

Eu tenho um grupo de amigos que inclui estudantes de Psicologia (a maioria analistas do comportamento) e estudantes de outras áreas também. Nós, os analistas do comportamento, vez ou outra utilizamos termos da nossa abordagem para nos referirmos às situações do dia a dia, e essa exposição fez com que nossos amigos de outras áreas também passassem a utilizar termos como “reforçador” e “aversivo”, por exemplo, para contar suas histórias. Mas será que essa receptividade acontece com todo mundo? Como será que as pessoas, de forma geral, encaram os termos dessa abordagem super reforçadora? Quais são as variáveis que controlam esse comportamento? É possível manipular essas variáveis em ambiente de laboratório? Ops, acho que exagerei nos termos…

A literatura sugere que, de forma geral, os jargões da Análise do Comportamento (AC) são vistos como abrasivos (duros), ásperos ou severos, e geralmente desagradáveis. Isto pode estar relacionado a alguns termos da AC que já têm uma conotação “negativa” no cotidiano das pessoas como, por exemplo, cadeia (do inglês “chaining”), discriminação (que lembra racismo e outras formas de preconceito), e extinção (que, no senso comum, significa o desaparecimento de uma espécie). Ou seja, já existem pré-associações que fazem com que as pessoas leigas experienciem reações emocionais negativas ao ouvir um termo desses. Imagina dizer para uma mãe que a solução para os problemas de birra de seu filho de 5 anos é colocá-lo em extinção?

Estas reações negativas desencadeadas pela terminologia da área são um grande obstáculo para a AC, em especial para suprir a necessidade de oferecer intervenção analítico-comportamental àqueles que realmente precisam. Na prática clínica, por exemplo, é importantíssimo que a pessoa se sinta socialmente confortável com seu terapeuta, tanto para procurar psicoterapia quanto para seguir as instruções dadas no processo terapêutico. Em termos de pesquisa básica e aplicada, também é fundamental que os leitores de artigos e trabalhos científicos da área possam compreender minimamente a linguagem utilizada.

A literatura sugere que, de forma geral, as pessoas não gostam tanto assim dos termos da AC, mas ao que tudo indica essa questão nunca foi estudada empiricamente. Por isso, Critchfield e seus colaboradores resolveram abordar essa questão em um estudo publicado em janeiro deste ano. Como eles fizeram isso?

Primeiramente eles consultaram uma lista de domínio público com quase 14.000 palavras em inglês, classificadas de acordo com a reação emocional que elas causam. Essa lista foi utilizada em um estudo anterior (Warriner et al. 2013) e foi feita por voluntários estadunidenses por meio de uma plataforma online de coleta de dados chamada mTurk. Foi verificado que esse conjunto de voluntários era representativo da população em questão).

A coleção de Warriner, como foi chamada essa lista de palavras, é classificada pelos voluntários em três dimensões, duas das quais são o alvo do presente estudo. A primeira é uma escala de 1 (infeliz) a 9 (feliz), ou seja, o quanto uma palavra é agradável ou não para o leitor (os resultados, a propósito, usam as palavras agradável e desagradável). A segunda dimensão é uma escala de 1 (calmo) a 9 (animado/empolgado, do inglês “excited”).

Foram selecionados os termos comumente utilizados pelos analistas do comportamento e que estavam disponíveis na coleção de Warriner. Os termos foram divididos em quatro categorias: termos técnicos da Análise do Comportamento (n=39), termos gerais de ciência (n=42), termos de avaliação comportamental (n=34), e termos clínicos gerais (n=35).

Os resultados indicam que – de forma consistente com a distribuição geral das palavras em inglês – em três categorias a maioria das palavras foram consideradas como agradáveis: termos gerais de ciência (67%), termos de avaliação comportamental (67%) e termos clínicos gerais (53%). O mesmo, no entanto, não aconteceu na categoria de termos da AC, na qual 60% dos termos foram classificados como desagradáveis.

O estudo também consultou duas coleções disponíveis de palavras que mostram palavras-alvo, as possíveis palavras associadas a cada alvo, e a frequência com que aparecem. Nesta lista, foram identificadas 6 palavras-alvo que são termos da AC, e o presente estudo mostra quais são as palavras associadas a cada alvo, bem como a classificação dessas palavras associadas nas escalas de 1 a 9. Os resultados sugerem que, de fato, alguns termos da AC podem evocar associações desagradáveis.

Reservadas as limitações do estudo e as condições nas quais ele foi feito (a partir de uma lista de palavras em inglês, por exemplo), os resultados corroboram a hipótese de que os jargões analítico-comportamentais tendem a ser abrasivos, e podem estar relacionados a palavras e significados do cotidiano que as pessoas tendem a considerar como desagradáveis. Isso nos faz pensar que a linguagem utilizada pelos profissionais da Análise do Comportamento é uma variável importante a ser considerada como, por exemplo, nos contextos da clínica e da pesquisa. Em suma, o estudo fomenta a questão: como podemos dialogar sobre Análise do Comportamento sem assustar nossos leitores e/ou ouvintes e sem, ao mesmo tempo, abandonar a função dos nossos termos?

Os autores sugerem que na prática clínica, por exemplo, é interessante evitar alguns desses termos que já são pré-associados com outros significados desagradáveis, ao menos enquanto o terapeuta ainda é um estímulo neutro (ou seja, enquanto a relação terapêutica ainda não se consolidou). Também fica a dica para que continuem sendo feitas pesquisas na área, com o objetivo de entender melhor como se dá a reação dos leitores a determinados jargões da Análise do Comportamento.

Talvez uma forma alternativa de contornar esse problema de comunicação é fazer o que fazemos aqui no blog: discutir sobre artigos científicos como a gente discutiria em uma mesa de bar. Espero que tenha sido agradável e motivador para vocês!

Para saber mais:

Critchfield, T.S., Doepke, K.J., Epting, L.K., Becirevic, A., Reed, D.D., Fienup, D.M., Kremsreiter, J.L., & Ecott, C.L. (2017). Normative Emotional Responses to Behavior Analysis or How Not to Use Words to Win Friends and Influence People. Behavior Analysis Practice, 10(2), pp. 97-106. doi:10.1007/s40617-016-0161-9.

Outra referência consultada:

Warriner, A.B., Kuperman, V., & Brysbeart, M. (2013). Norms of valence, arousal, and dominance for 13,915 English lemmas. Behavior Research Methods, 45, 1191-1207. doi:10.3758/s13428-012-0314-x.

Fonte da imagem: https://www.amazon.com.br/Como-Fazer-Amigos-Influenciar-Pessoas/dp/8504020266

Texto escrito por Mariana Quessada Macca, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos e bolsista Fapesp de iniciação científica no LECH (Laboratório de Estudos do Comportamento Humano – UFSCar).

 As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.

 

É possível modificar o preconceito contra pessoas com transtornos psicológicos?

 

imagem texto julia castro

Pessoas com depressão, TOC, esquizofrenia, dependentes de substâncias psicoativas e outros transtornos psicológicos (TP) há muito têm sido objeto de estudo da psicologia. Porém, o sofrimento envolvido nesses quadros vai além das características que os fazem serem assim rotulados. Pessoas com TP relatam que uma das maiores fontes de sofrimento associado ao seu quadro está no estigma que esses transtornos frequentemente carregam. Estigma é um conceito que abrange estereótipos, preconceito e discriminação. Isso significa dizer que, seja no mercado de trabalho, seja no âmbito das relações íntimas, essas pessoas são vistas e tratadas de uma maneira diferente daqueles que não possuem TP. Esse contexto acaba por impactar em como a pessoa vê a si mesmo, uma autoestigmatização, que pode levar a isolamento, baixa autoestima e baixa autoeficácia. Sim, essa parece ser uma questão com a qual nós psicólogos devemos nos preocupar! A boa notícia é que já há algum tempo alguns pesquisadores têm estudado formas de intervir sobre esse tipo de estigmatização. Hoje vamos falar sobre o artigo de Kenny e Bizumic (2016) sobre este tema.

Os modelos de intervenção clássicos para este e outros tipos de estigmas são: protesto, contato com as pessoas alvo e educação. No entanto, estudos mostraram que o primeiro aparentemente tem efeito contrário ao desejado, ou seja, aumenta as atitudes negativas em direção àquele grupo. Já o contato com pessoas alvo e informações educativas a respeito delas parecem ser efetivos em algum grau. Educação enfocando em bases biológicas dos TP, no entanto, pode ter efeito reverso e aumentar a estigmatização.

Um modelo mais recente de intervenção é através dos princípios da ACT – Terapia de Aceitação e Compromisso. A ACT, além de ser um modelo de psicoterapia comportamental, serve de base para intervenções mais pontuais, como estas com enfoque em redução de estigmas. Na ACT, metáforas, paradoxos e exercícios são propostos para que o participante possa, através da própria experiência, notar a arbitrariedade da linguagem e tomar um distanciamento de seu conteúdo. Assim, não se trata de dar informações e ser convencido a partir delas, mas de vivenciar algo diferente daquilo que estava no “piloto automático”, neste caso, induzido pelo estigma. Dessa forma, intervenções ACT tem o objetivo de aumentar o padrão comportamental de flexibilidade psicológica, isto é, a tendência a agir de acordo com valores pessoais e contingências diretas, ao invés de ser guiado por sentimentos e pensamentos. Pesquisas anteriores demonstraram uma correlação entre flexibilidade psicológica e redução de estigma, mas essa é a primeira vez que [ALERTA DE SPOILER!] um estudo encontrou uma diferença significativa na mudança de preconceito relativo às TPs, comparando intervenção com ACT versus educação.

Outra novidade desse estudo é a escala usada no pré e no pós-teste, a qual mede unicamente atitudes negativas, e não inclui conhecimento sobre o assunto, como em escalas anteriores. Ou seja, mede-se como o participante se sente e está propenso a agir diante de pessoas com TP, o que é o ponto central no preconceito, independentemente do que ele aprendeu a nível de conteúdo elas. Além disso, a escala apresenta quatro fatores, divididos em sub-escalas, os quais permitem olhar para diferentes dimensões do estigma. Eles são: 1) Medo/evitação, diante dessas pessoas, 2) Autoritarismo, que engloba a tendência a controlar e forçar pessoas a tratamento, 3) Malevolência, que endossa a ideia de que pessoas com TP não merecem assistência e simpatia e 4) Imprevisibilidade, ou a ideia de que elas são imprevisíveis. Cada um desses fatores em separado parece ter implicações distintas na forma como pessoas com TP são tratadas em seu dia-a-dia.

A intervenção ACT foi um workshop que focou em exercícios experienciais. Os participantes se engajaram em exercícios que demonstravam a arbitrariedade, automaticidade e rigidez da linguagem e como isso abarca os estigmas. Foi abordado então como a tentativa de eliminar pensamentos (aqui inclusos pensamentos estigmatizantes), paradoxalmente, parece fazer com que eles se façam ainda mais presentes. Foram trazidos dados sobre a prevalência de TP e os participantes foram encorajados a pensar sobre as questões psicológicas que vivenciavam, como eles próprios reagiam a estas e os efeitos que isso tinha em suas vidas. A ideia aqui era que eles notassem, através de sua própria experiência, como a luta contra pensamentos dolorosos frequentemente traz mais dor e os afasta ter ações em direção ao que valorizam. Visava-se, assim, favorecer também a empatia em relação às pessoas com TP, ao passo que práticas de aceitação e não-julgamento foram encorajadas. Em um exercício de observação, mostrou-se que, embora pensamentos dolorosos sejam inevitáveis, é possível escolher não lutar contra eles em prol de viver uma vida plena. Por fim, discutiu-se sobre valores pessoais e os participantes foram convidados a declararem o que valorizam na vida e quais ações tomar para agir de acordo com esses valores.

Já a intervenção com educação baseou-se em oferecer informações sobre TP e estigma, incluindo a prevalência e os possíveis fatores biológicos e sociais envolvidos. Apresentaram-se dados sobre os estereótipos mais comuns para essas pessoas e evidências que refutam essa visão na grande maioria dos casos. Foram discutidas as implicações da estigmatização, tanto no modelo de instrução pelo experimentador, como em grupos de participantes, incentivados a trazerem suas próprias reflexões.

Resultados do pré-teste e pós-teste revelaram que após a intervenção os participantes demonstraram uma tendência menor a estigmatizarem pessoas com TP! Houve um aumento geral de atitudes positivas após ambas as intervenções, porém aumento significativamente maior após a intervenção ACT. Subescalas de autoritarismo e de imprevisibilidade foram as principais responsáveis por essa diferença global. Na contramão desses resultados positivos, houve também um aumento da Malevolência após ambas as intervenções.

Esses resultados, por um lado animadores, por outro preocupantes, nos fazem pensar o quanto o fenômeno da estigmatização é complexo e ainda há muito a ser estudado. Mãos à obra?!

Para saber mais, acesse:

Kenny, A. & Bizumic, B. (2016). Learn and ACT: Changing prejudice towards people with mental illness using stigma reduction interventions. Journal of Contextual Behavioral Science, Vol 5, Issue 3, p. 178-185.

Créditos da imagem: http://events.snwebcastcenter.com/manulife/GBRS/Prod/WSMH/en/mental-health-in-the-workplace/understanding-mental-health/stigma.html

Escrito por Júlia Castro de C. Freitas, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista CAPES.

A ciência do comportamento na era das máquinas

imagem marcelo

Muitos dos progressos no campo de conhecimento científico sobre os processos comportamentais só foram possíveis graças ao uso de máquinas especialmente construídas para estudá-los. No artigo canônico “A Case History in the Scientific Method”, B. F. Skinner explicitou que a necessidade de estabelecer controle experimental sobre o comportamento de organismos individuais em laboratório e de registrar as alterações nos padrões comportamentais decorrentes de certas manipulações feitas pelo pesquisador estabeleceram ocasião para que as engenhocas formadas por labirintos de corredores e passagens com basculantes evoluíssem e se transformassem no aparato que hoje conhecemos por Caixas de Skinner. Elas possuem barras de metal, alavancas, discos com luzes que piscam, dispositivos que liberam cheiros, gotas de água ou comida. Este conjunto de dispositivos automatizados permitem que o pesquisador “crie” um ambiente rigorosamente controlado para animais modelo (ratos, macacos, abelhas, corvos, pombos, leões marinhos). Deste modo, ele consegue determinar de modo relativamente preciso quais são os efeitos possíveis de certos estímulos sobre um padrão de respostas previamente definido. Efeitos de certos estímulos, como por exemplo os reforçadores, podem ser tão sutis que seria praticamente impossível mensurá-los se estes animais estivessem em seu ambiente natural.

A falta de naturalidade do comportamento animal nestes aparatos mecânicos (pressionar barras, bicar discos, mover alavancas, focinhar telas de computador) pode levar a uma visão de que os Analistas do Comportamentos desprezam o estudo de comportamentos específicos das espécies. Esta diferenciação relativa à “essência” do comportamento animal em ambiente laboratorial e em ambiente natural é um dos grandes equívocos acerca da atitude dos behavioristas frente a seu objeto de estudo. O aparato laboratorial funciona como um microscópio que possibilita mapear as relações funcionais entre a atividade do organismo e o meio ambiente. Não se estuda o comportamento de “pressionar uma barra” – no caso de ratos – ou “o bicar um disco” – no caso de pombos. Mas sim, o quanto estes comportamentos são sensíveis às consequências e em que contextos os estímulos antecedentes passam a controlar a emissão dessas classes de respostas. O behaviorista sabe que o aparato laboratorial não oferece meios para a elaboração de modelos de comportamentos mais complexos e relacionados à sobrevivência do organismo. E dado que os comportamentos relevantes que ocorrem no habitat natural das espécies de organismos também devem ser alvo de pesquisas sistemáticas, uma das inúmeras questões que estes cientistas se colocam é como o comportamento dos animais em ambiente natural deve ser estudado?

A observação naturalística, por exemplo, implica na ida do cientista até o habitat de um tipo de animal. Em muitos casos, esta abordagem é considerada como bastante adequada. Porém, um Analista do Comportamento perguntaria se, e em que medida, os animais passariam a se comportar de modo não-natural em decorrência da presença de um indivíduo da espécie humana em um lugar onde não deveria haver seres humanos. Além disso, considerando esta (e outras) possíveis fontes de vieses, qual seria a validade dos dados obtidos em uma pesquisa que utiliza este tipo de metodologia? Convém enfatizar que esta é uma questão sobre a qualidade do controle experimental estabelecido pelo pesquisador e a maneira como os resultados foram registrados, e não um desprezo puro e simples pelas características do comportamento por ele investigado.

Mais uma vez, os progressos científicos em campos desafiadores do comportamento dos organismos podem estar atrelados à evolução de aparatos mecânicos sofisticados que tornem possível o controle experimental de variáveis consideradas críticas para os comportamentos considerados naturais dos organismos. Esta possibilidade foi demonstrada por Anna Frohnwieser, John C. Murray, Thomas W. Pike e Anna Wilkinson, em um artigo publicado recentemente no Journal of the Experimental Analysis of Behavior.

Graças aos avanços nas áreas da robótica e da inteligência artificial, os pesquisadores são hoje capazes de construir robôs que replicam as características corporais e comportamentais de animais reais. A estrutura corporal de um robô pode ser montada por partes moles, feitas de látex. As partes do corpo do animal (braços, patas, focinho, bico, pele, penas) podem ser recriadas a partir de impressoras em 3D e este aparato pode ser controlado por software de computador. Estas réplicas quase perfeitas são apresentadas como “animal estímulo” para um ou mais animais de uma determinada espécie. Deste modo, comportamentos considerados naturais de uma certa espécie podem ser convenientemente produzidos e mensurados em ambiente laboratorial. É importante destacar que graças a estes robôs tem sido possível estudar certos padrões comportamentais extremamente complexos e que, supostamente, só ocorreriam em ambiente natural. Eis alguns exemplos: o reconhecimento e interações sociais entre animais da mesma espécie (co-específicos), comportamento de acasalamento e cópula, cognição espacial e aprendizagem social.

Pesquisas que utilizam robôs podem ajudar a determinar se, ao observarem seus co-específicos, os animais aprendem a executar padrões comportamentais complexos. Atualmente, os pesquisadores procuram evidências deste tipo de aprendizagem observacional em interações entre co-específicos. Entretanto, as interações entre os animais podem se tornar tão complexas e o comportamento de ambos pode vir a ser afetado por tantas variáveis diferentes que os dados obtidos a partir destes experimentos são relativamente difíceis de serem analisados e interpretados. Já os movimentos executados por robôs, bem como outras fontes de estimulação, poderiam ser controlados por softwares criados pelo próprio experimentador. Deste modo, o experimentador poderá definir um “comportamento alvo” a ser executado pelo robô e determinar se este mesmo padrão comportamental passa a ser imitado por um animal que se encontra nas proximidades.

Frohnwieser e seus colaboradores apresentaram um panorama geral sobre como os experimentadores poderão se beneficiar do uso de robôs para estudar comportamentos característicos das inúmeras espécies de seres vivos em condições adequadas de controle experimental e produzindo dados que possam ser analisados com mais rigor. Ao considerarem que a robótica e a inteligência artificial também são campos de pesquisa bastante frutíferos, é possível que novas técnicas surjam e possam oferecer aos experimentadores a possibilidade de estabelecerem controles progressivamente mais sofisticados das variáveis relevantes para o estudo científico do comportamento animal.

Poderíamos, por exemplo, imaginar um cenário no qual robôs controlados por wi-fi se deslocariam dos laboratórios para ambientes naturais para interagir diretamente com animais reais em seu habitat? Chegaríamos ao ponto de construir máquinas que nos permitam estudar o comportamento de animais em ambientes nos quais os seres humanos não sobreviveriam como o ártico ou os mares profundos? Os avanços mais recentes nas pesquisas parecem indicar que sim! Tudo isso poderá ser possível um dia. E, curiosamente, os progressos nas pesquisas experimentais em análise do comportamento, desde o princípio, foram atrelados à evolução das máquinas. Para conhecer mais sobre outras possibilidades de pesquisa e sobre os prováveis destinos da relação entre cientistas do comportamento e as máquinas, leia o artigo “Using robots to understand animal cognition”.

Referência:
Frohnwieser A., Murray, J. C., Pike, T. W., & Wilkinson, A. (2016). Using robots to understand animal cognition. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 1, 14-22.

Fonte da Imagem: http://www.whokilledbambi.co.uk/public/2011/11/4.gif

Escrito por
Marcelo Vitor Silveira
Pós-doutorando pelo Centro de Matemática, Computação e Cognição da UFABC.
Bolsista FAPESP.

#vaitergrevesim  OU  #dia28vamostrabalhar

texto vivian junho

Dias antes da Greve Geral acontecer, a timeline da minha rede social ficou repleta de argumentos (e hashtags – # -) a favor e contra a greve geral. Enquanto lia as mensagens, percebi que, em ambos os “lados”, os argumentos sobre participar ou não da greve apontavam para as consequências da minha decisão para todos os outros brasileiros, e não somente para mim.  Se meus interesses poderiam estar e entrar em conflito com os interesses de todos, como minha decisão deveria ser pautada na contribuição para a construção de um país melhor e na luta por benefícios para todos?

Trocando em miúdos behavioristas, o fato é que existem ocasiões em que nós nos deparamos com um conflito no qual temos que considerar que a produção de uma consequência cultural pode competir com a produção de consequências individuais. E é sobre isso que vamos falar hoje!

Para alguns pesquisadores da Análise do Comportamento, esse fenômeno, bastante complexo, se relaciona com a emissão de um tipo de comportamento aprendido chamado de autocontrole ético, ou seja, é o comportamento que ocorre quando o conflito entre consequências imediatas e atrasadas está associado a consequências mais favoráveis ​​ao indivíduo ou ao grupo, respectivamente.

Explicando um pouquinho mais, o comportamento chamado de autocontrole ético é aquele que (1) produz ganhos menores para o indivíduo (intensidade menor ou reforços menos preferidos, estímulos aversivos ou um custo de resposta mais elevado) enquanto produz (2) maiores ganhos para o grupo como um todo (evitando estímulos aversivos que afetariam todo o grupo, ou produzindo reforços de maior magnitude).

Interessados nessa questão, Borba, Tourinho e Glenn (2016) realizaram um estudo para investigar a seleção, manutenção e transmissão do comportamento de autocontrole ético em um arranjo semelhante a uma metacontingência. Nas metacontingências as interações repetidas entre mais de uma pessoa (como por exemplo, paralisações para realização de reuniões que discutiam melhorias nas relações de trabalho) tem um efeito gerado por elas (chamado de produto agregado, como por exemplo, reivindicações para serem atendidas) que não poderia ser obtida pelo comportamento isolado de cada indivíduo. O efeito gerado (reivindicações) pode ser critério a partir do qual uma consequência cultural seria produzida (no caso, efetivação das melhorias reivindicadas para todos os trabalhadores).  Essa consequência retroage sobre as interações alterando a probabilidade para que ocorra novamente.

Para isso, Borba, Tourinho e Glenn (2016) solicitaram que 36 estudantes divididos em dois grupos, passassem pelas mesmas condições experimentais, em um delineamento ABAB. O experimento era iniciado com 3 participantes (P1, P2 e P3) e após 20 ciclos, o participante P1 era substituído por um novo participante (P4), e vinte ciclos após a substituição de P1, P2 era substituído por P5, e assim por diante. Haviam, assim, três linhagens e cada conjunto de três participantes constituiu uma geração e uma nova geração foi constituída a cada 20 ciclos.

Os participantes tinham como tarefa escolher uma linha de uma matriz 10 × 10, exibida em uma TV. As linhas eram de cores diferentes, dispostas de forma alternada.  A depender da escolha feita o participante poderia ganhar fichas a serem trocadas por dinheiro ao final da tarefa, a escolha pelas linhas pares resultaria no ganho de 1 ficha e as linhas ímpares 3 fichas.

A condição de escolher linhas e ganhar fichas foi chamada de Condição A, nela apenas contingências operantes estavam em vigor, ou seja, dada a tarefa aos participantes fichas plásticas poderiam ser trocadas por dinheiro.

Uma segunda condição foi estabelecida, Condição B, em que a mesma tarefa era solicitada ao participante, entretanto, o participante poderia ganhar, além das fichas (trocáveis por dinheiro) itens escolares que comporiam um kit para ser doado para uma escola pública, representados por selos. Para ganhar os selos, todos os participantes deveriam escolher linhas pares de cores diferentes, assim, passava a existir uma competição entre a produção de respostas que geravam consequências individuais de maior magnitude (escolher linhas ímpares e ganhar 3 fichas) e respostas que geraram consequências individuais de menor magnitude associadas à produção de consequências culturais (escolher linhas pares e ganhar somente uma ficha e o selo).

O interessante desse experimento é que, conforme apontado pelos autores, a produção da consequência cultural exigia que todas as respostas dos participantes na Condição B produzissem consequências individuais de baixa magnitude. Além disso, a resposta de cada indivíduo tinha que estar sob o controle das respostas dos outros, porque cada participante tinha que escolher uma cor que ainda não havia sido escolhida por outro participante durante o mesmo ciclo.

As consequências culturais dependiam do entrelaçamento (e não das respostas individuais), podendo afetar a cultura como um todo. E esse foi um dos resultados apontados pelos pesquisadores, as consequências culturais foram eficazes na seleção de contingências comportamentais entrelaçadas e seus produtos agregados, mesmo com a presença simultâneas das contingências operantes.

O experimento ofereceu parâmetros possíveis a serem ajustados para um estudo mais aprofundado do autocontrole ético sob a ótica das metacontingências e, consequentemente favorece a compreensão do que acontece com as pessoas quando elas se deparam com ocasiões como a aderência ou não à greve. No experimento, os participantes tinham que renunciar as consequências operantes que eram de maior magnitude para produzir a consequência cultural. Na ocasião da greve as pessoas tinham que renunciar ao “dia de trabalho” e, possivelmente ter perdas salariais para produzir de uma consequência cultural, no caso melhorias para todos.

E aí? O que achou? Quer saber mais sobre autocontrole ético, leia o artigo original. Você também pode ler outro texto publicado aqui no Boletim Behaviorista, por João Henrique de Almeida. Acesse: https://boletimbehaviorista.wordpress.com/2015/03/19/autocontrole-etico-estudos-experimentais-podem-traduzir-os-fenomenos-sociais-para-o-laboratorio/

Quer saber mais?

Referência: Borba, A., Tourinho, E.Z. & Glenn, S.S. Psychol Rec (2017). doi:10.1007/s40732-017-0231-6. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.1007/s40732-017-0231-6>

Fonte imagem: http://www.aescotilha.com.br/cronicas/henrique-fendrich/esta-coluna-nao-esta-em-greve/

Outras referências utilizadas: Glenn, S.S. et al (2016) Toward consistent terminology in a behaviorist  approach to cultural analysis. Behavior and Social Issues, 25, 11-27.

Escrito por Vivian Bonani de Souza Girotti, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Docente da Faculdade de Tecnologia, Ciências e Educação – FATECE. E agora, mãe do Theo!