#vaitergrevesim  OU  #dia28vamostrabalhar

texto vivian junho

Dias antes da Greve Geral acontecer, a timeline da minha rede social ficou repleta de argumentos (e hashtags – # -) a favor e contra a greve geral. Enquanto lia as mensagens, percebi que, em ambos os “lados”, os argumentos sobre participar ou não da greve apontavam para as consequências da minha decisão para todos os outros brasileiros, e não somente para mim.  Se meus interesses poderiam estar e entrar em conflito com os interesses de todos, como minha decisão deveria ser pautada na contribuição para a construção de um país melhor e na luta por benefícios para todos?

Trocando em miúdos behavioristas, o fato é que existem ocasiões em que nós nos deparamos com um conflito no qual temos que considerar que a produção de uma consequência cultural pode competir com a produção de consequências individuais. E é sobre isso que vamos falar hoje!

Para alguns pesquisadores da Análise do Comportamento, esse fenômeno, bastante complexo, se relaciona com a emissão de um tipo de comportamento aprendido chamado de autocontrole ético, ou seja, é o comportamento que ocorre quando o conflito entre consequências imediatas e atrasadas está associado a consequências mais favoráveis ​​ao indivíduo ou ao grupo, respectivamente.

Explicando um pouquinho mais, o comportamento chamado de autocontrole ético é aquele que (1) produz ganhos menores para o indivíduo (intensidade menor ou reforços menos preferidos, estímulos aversivos ou um custo de resposta mais elevado) enquanto produz (2) maiores ganhos para o grupo como um todo (evitando estímulos aversivos que afetariam todo o grupo, ou produzindo reforços de maior magnitude).

Interessados nessa questão, Borba, Tourinho e Glenn (2016) realizaram um estudo para investigar a seleção, manutenção e transmissão do comportamento de autocontrole ético em um arranjo semelhante a uma metacontingência. Nas metacontingências as interações repetidas entre mais de uma pessoa (como por exemplo, paralisações para realização de reuniões que discutiam melhorias nas relações de trabalho) tem um efeito gerado por elas (chamado de produto agregado, como por exemplo, reivindicações para serem atendidas) que não poderia ser obtida pelo comportamento isolado de cada indivíduo. O efeito gerado (reivindicações) pode ser critério a partir do qual uma consequência cultural seria produzida (no caso, efetivação das melhorias reivindicadas para todos os trabalhadores).  Essa consequência retroage sobre as interações alterando a probabilidade para que ocorra novamente.

Para isso, Borba, Tourinho e Glenn (2016) solicitaram que 36 estudantes divididos em dois grupos, passassem pelas mesmas condições experimentais, em um delineamento ABAB. O experimento era iniciado com 3 participantes (P1, P2 e P3) e após 20 ciclos, o participante P1 era substituído por um novo participante (P4), e vinte ciclos após a substituição de P1, P2 era substituído por P5, e assim por diante. Haviam, assim, três linhagens e cada conjunto de três participantes constituiu uma geração e uma nova geração foi constituída a cada 20 ciclos.

Os participantes tinham como tarefa escolher uma linha de uma matriz 10 × 10, exibida em uma TV. As linhas eram de cores diferentes, dispostas de forma alternada.  A depender da escolha feita o participante poderia ganhar fichas a serem trocadas por dinheiro ao final da tarefa, a escolha pelas linhas pares resultaria no ganho de 1 ficha e as linhas ímpares 3 fichas.

A condição de escolher linhas e ganhar fichas foi chamada de Condição A, nela apenas contingências operantes estavam em vigor, ou seja, dada a tarefa aos participantes fichas plásticas poderiam ser trocadas por dinheiro.

Uma segunda condição foi estabelecida, Condição B, em que a mesma tarefa era solicitada ao participante, entretanto, o participante poderia ganhar, além das fichas (trocáveis por dinheiro) itens escolares que comporiam um kit para ser doado para uma escola pública, representados por selos. Para ganhar os selos, todos os participantes deveriam escolher linhas pares de cores diferentes, assim, passava a existir uma competição entre a produção de respostas que geravam consequências individuais de maior magnitude (escolher linhas ímpares e ganhar 3 fichas) e respostas que geraram consequências individuais de menor magnitude associadas à produção de consequências culturais (escolher linhas pares e ganhar somente uma ficha e o selo).

O interessante desse experimento é que, conforme apontado pelos autores, a produção da consequência cultural exigia que todas as respostas dos participantes na Condição B produzissem consequências individuais de baixa magnitude. Além disso, a resposta de cada indivíduo tinha que estar sob o controle das respostas dos outros, porque cada participante tinha que escolher uma cor que ainda não havia sido escolhida por outro participante durante o mesmo ciclo.

As consequências culturais dependiam do entrelaçamento (e não das respostas individuais), podendo afetar a cultura como um todo. E esse foi um dos resultados apontados pelos pesquisadores, as consequências culturais foram eficazes na seleção de contingências comportamentais entrelaçadas e seus produtos agregados, mesmo com a presença simultâneas das contingências operantes.

O experimento ofereceu parâmetros possíveis a serem ajustados para um estudo mais aprofundado do autocontrole ético sob a ótica das metacontingências e, consequentemente favorece a compreensão do que acontece com as pessoas quando elas se deparam com ocasiões como a aderência ou não à greve. No experimento, os participantes tinham que renunciar as consequências operantes que eram de maior magnitude para produzir a consequência cultural. Na ocasião da greve as pessoas tinham que renunciar ao “dia de trabalho” e, possivelmente ter perdas salariais para produzir de uma consequência cultural, no caso melhorias para todos.

E aí? O que achou? Quer saber mais sobre autocontrole ético, leia o artigo original. Você também pode ler outro texto publicado aqui no Boletim Behaviorista, por João Henrique de Almeida. Acesse: https://boletimbehaviorista.wordpress.com/2015/03/19/autocontrole-etico-estudos-experimentais-podem-traduzir-os-fenomenos-sociais-para-o-laboratorio/

Quer saber mais?

Referência: Borba, A., Tourinho, E.Z. & Glenn, S.S. Psychol Rec (2017). doi:10.1007/s40732-017-0231-6. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.1007/s40732-017-0231-6>

Fonte imagem: http://www.aescotilha.com.br/cronicas/henrique-fendrich/esta-coluna-nao-esta-em-greve/

Outras referências utilizadas: Glenn, S.S. et al (2016) Toward consistent terminology in a behaviorist  approach to cultural analysis. Behavior and Social Issues, 25, 11-27.

Escrito por Vivian Bonani de Souza Girotti, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Docente da Faculdade de Tecnologia, Ciências e Educação – FATECE. E agora, mãe do Theo!

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