É possível modificar o preconceito contra pessoas com transtornos psicológicos?

 

imagem texto julia castro

Pessoas com depressão, TOC, esquizofrenia, dependentes de substâncias psicoativas e outros transtornos psicológicos (TP) há muito têm sido objeto de estudo da psicologia. Porém, o sofrimento envolvido nesses quadros vai além das características que os fazem serem assim rotulados. Pessoas com TP relatam que uma das maiores fontes de sofrimento associado ao seu quadro está no estigma que esses transtornos frequentemente carregam. Estigma é um conceito que abrange estereótipos, preconceito e discriminação. Isso significa dizer que, seja no mercado de trabalho, seja no âmbito das relações íntimas, essas pessoas são vistas e tratadas de uma maneira diferente daqueles que não possuem TP. Esse contexto acaba por impactar em como a pessoa vê a si mesmo, uma autoestigmatização, que pode levar a isolamento, baixa autoestima e baixa autoeficácia. Sim, essa parece ser uma questão com a qual nós psicólogos devemos nos preocupar! A boa notícia é que já há algum tempo alguns pesquisadores têm estudado formas de intervir sobre esse tipo de estigmatização. Hoje vamos falar sobre o artigo de Kenny e Bizumic (2016) sobre este tema.

Os modelos de intervenção clássicos para este e outros tipos de estigmas são: protesto, contato com as pessoas alvo e educação. No entanto, estudos mostraram que o primeiro aparentemente tem efeito contrário ao desejado, ou seja, aumenta as atitudes negativas em direção àquele grupo. Já o contato com pessoas alvo e informações educativas a respeito delas parecem ser efetivos em algum grau. Educação enfocando em bases biológicas dos TP, no entanto, pode ter efeito reverso e aumentar a estigmatização.

Um modelo mais recente de intervenção é através dos princípios da ACT – Terapia de Aceitação e Compromisso. A ACT, além de ser um modelo de psicoterapia comportamental, serve de base para intervenções mais pontuais, como estas com enfoque em redução de estigmas. Na ACT, metáforas, paradoxos e exercícios são propostos para que o participante possa, através da própria experiência, notar a arbitrariedade da linguagem e tomar um distanciamento de seu conteúdo. Assim, não se trata de dar informações e ser convencido a partir delas, mas de vivenciar algo diferente daquilo que estava no “piloto automático”, neste caso, induzido pelo estigma. Dessa forma, intervenções ACT tem o objetivo de aumentar o padrão comportamental de flexibilidade psicológica, isto é, a tendência a agir de acordo com valores pessoais e contingências diretas, ao invés de ser guiado por sentimentos e pensamentos. Pesquisas anteriores demonstraram uma correlação entre flexibilidade psicológica e redução de estigma, mas essa é a primeira vez que [ALERTA DE SPOILER!] um estudo encontrou uma diferença significativa na mudança de preconceito relativo às TPs, comparando intervenção com ACT versus educação.

Outra novidade desse estudo é a escala usada no pré e no pós-teste, a qual mede unicamente atitudes negativas, e não inclui conhecimento sobre o assunto, como em escalas anteriores. Ou seja, mede-se como o participante se sente e está propenso a agir diante de pessoas com TP, o que é o ponto central no preconceito, independentemente do que ele aprendeu a nível de conteúdo elas. Além disso, a escala apresenta quatro fatores, divididos em sub-escalas, os quais permitem olhar para diferentes dimensões do estigma. Eles são: 1) Medo/evitação, diante dessas pessoas, 2) Autoritarismo, que engloba a tendência a controlar e forçar pessoas a tratamento, 3) Malevolência, que endossa a ideia de que pessoas com TP não merecem assistência e simpatia e 4) Imprevisibilidade, ou a ideia de que elas são imprevisíveis. Cada um desses fatores em separado parece ter implicações distintas na forma como pessoas com TP são tratadas em seu dia-a-dia.

A intervenção ACT foi um workshop que focou em exercícios experienciais. Os participantes se engajaram em exercícios que demonstravam a arbitrariedade, automaticidade e rigidez da linguagem e como isso abarca os estigmas. Foi abordado então como a tentativa de eliminar pensamentos (aqui inclusos pensamentos estigmatizantes), paradoxalmente, parece fazer com que eles se façam ainda mais presentes. Foram trazidos dados sobre a prevalência de TP e os participantes foram encorajados a pensar sobre as questões psicológicas que vivenciavam, como eles próprios reagiam a estas e os efeitos que isso tinha em suas vidas. A ideia aqui era que eles notassem, através de sua própria experiência, como a luta contra pensamentos dolorosos frequentemente traz mais dor e os afasta ter ações em direção ao que valorizam. Visava-se, assim, favorecer também a empatia em relação às pessoas com TP, ao passo que práticas de aceitação e não-julgamento foram encorajadas. Em um exercício de observação, mostrou-se que, embora pensamentos dolorosos sejam inevitáveis, é possível escolher não lutar contra eles em prol de viver uma vida plena. Por fim, discutiu-se sobre valores pessoais e os participantes foram convidados a declararem o que valorizam na vida e quais ações tomar para agir de acordo com esses valores.

Já a intervenção com educação baseou-se em oferecer informações sobre TP e estigma, incluindo a prevalência e os possíveis fatores biológicos e sociais envolvidos. Apresentaram-se dados sobre os estereótipos mais comuns para essas pessoas e evidências que refutam essa visão na grande maioria dos casos. Foram discutidas as implicações da estigmatização, tanto no modelo de instrução pelo experimentador, como em grupos de participantes, incentivados a trazerem suas próprias reflexões.

Resultados do pré-teste e pós-teste revelaram que após a intervenção os participantes demonstraram uma tendência menor a estigmatizarem pessoas com TP! Houve um aumento geral de atitudes positivas após ambas as intervenções, porém aumento significativamente maior após a intervenção ACT. Subescalas de autoritarismo e de imprevisibilidade foram as principais responsáveis por essa diferença global. Na contramão desses resultados positivos, houve também um aumento da Malevolência após ambas as intervenções.

Esses resultados, por um lado animadores, por outro preocupantes, nos fazem pensar o quanto o fenômeno da estigmatização é complexo e ainda há muito a ser estudado. Mãos à obra?!

Para saber mais, acesse:

Kenny, A. & Bizumic, B. (2016). Learn and ACT: Changing prejudice towards people with mental illness using stigma reduction interventions. Journal of Contextual Behavioral Science, Vol 5, Issue 3, p. 178-185.

Créditos da imagem: http://events.snwebcastcenter.com/manulife/GBRS/Prod/WSMH/en/mental-health-in-the-workplace/understanding-mental-health/stigma.html

Escrito por Júlia Castro de C. Freitas, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista CAPES.

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