Por que (não) devemos falar em comportamentês

texto mariana maca

Eu tenho um grupo de amigos que inclui estudantes de Psicologia (a maioria analistas do comportamento) e estudantes de outras áreas também. Nós, os analistas do comportamento, vez ou outra utilizamos termos da nossa abordagem para nos referirmos às situações do dia a dia, e essa exposição fez com que nossos amigos de outras áreas também passassem a utilizar termos como “reforçador” e “aversivo”, por exemplo, para contar suas histórias. Mas será que essa receptividade acontece com todo mundo? Como será que as pessoas, de forma geral, encaram os termos dessa abordagem super reforçadora? Quais são as variáveis que controlam esse comportamento? É possível manipular essas variáveis em ambiente de laboratório? Ops, acho que exagerei nos termos…

A literatura sugere que, de forma geral, os jargões da Análise do Comportamento (AC) são vistos como abrasivos (duros), ásperos ou severos, e geralmente desagradáveis. Isto pode estar relacionado a alguns termos da AC que já têm uma conotação “negativa” no cotidiano das pessoas como, por exemplo, cadeia (do inglês “chaining”), discriminação (que lembra racismo e outras formas de preconceito), e extinção (que, no senso comum, significa o desaparecimento de uma espécie). Ou seja, já existem pré-associações que fazem com que as pessoas leigas experienciem reações emocionais negativas ao ouvir um termo desses. Imagina dizer para uma mãe que a solução para os problemas de birra de seu filho de 5 anos é colocá-lo em extinção?

Estas reações negativas desencadeadas pela terminologia da área são um grande obstáculo para a AC, em especial para suprir a necessidade de oferecer intervenção analítico-comportamental àqueles que realmente precisam. Na prática clínica, por exemplo, é importantíssimo que a pessoa se sinta socialmente confortável com seu terapeuta, tanto para procurar psicoterapia quanto para seguir as instruções dadas no processo terapêutico. Em termos de pesquisa básica e aplicada, também é fundamental que os leitores de artigos e trabalhos científicos da área possam compreender minimamente a linguagem utilizada.

A literatura sugere que, de forma geral, as pessoas não gostam tanto assim dos termos da AC, mas ao que tudo indica essa questão nunca foi estudada empiricamente. Por isso, Critchfield e seus colaboradores resolveram abordar essa questão em um estudo publicado em janeiro deste ano. Como eles fizeram isso?

Primeiramente eles consultaram uma lista de domínio público com quase 14.000 palavras em inglês, classificadas de acordo com a reação emocional que elas causam. Essa lista foi utilizada em um estudo anterior (Warriner et al. 2013) e foi feita por voluntários estadunidenses por meio de uma plataforma online de coleta de dados chamada mTurk. Foi verificado que esse conjunto de voluntários era representativo da população em questão).

A coleção de Warriner, como foi chamada essa lista de palavras, é classificada pelos voluntários em três dimensões, duas das quais são o alvo do presente estudo. A primeira é uma escala de 1 (infeliz) a 9 (feliz), ou seja, o quanto uma palavra é agradável ou não para o leitor (os resultados, a propósito, usam as palavras agradável e desagradável). A segunda dimensão é uma escala de 1 (calmo) a 9 (animado/empolgado, do inglês “excited”).

Foram selecionados os termos comumente utilizados pelos analistas do comportamento e que estavam disponíveis na coleção de Warriner. Os termos foram divididos em quatro categorias: termos técnicos da Análise do Comportamento (n=39), termos gerais de ciência (n=42), termos de avaliação comportamental (n=34), e termos clínicos gerais (n=35).

Os resultados indicam que – de forma consistente com a distribuição geral das palavras em inglês – em três categorias a maioria das palavras foram consideradas como agradáveis: termos gerais de ciência (67%), termos de avaliação comportamental (67%) e termos clínicos gerais (53%). O mesmo, no entanto, não aconteceu na categoria de termos da AC, na qual 60% dos termos foram classificados como desagradáveis.

O estudo também consultou duas coleções disponíveis de palavras que mostram palavras-alvo, as possíveis palavras associadas a cada alvo, e a frequência com que aparecem. Nesta lista, foram identificadas 6 palavras-alvo que são termos da AC, e o presente estudo mostra quais são as palavras associadas a cada alvo, bem como a classificação dessas palavras associadas nas escalas de 1 a 9. Os resultados sugerem que, de fato, alguns termos da AC podem evocar associações desagradáveis.

Reservadas as limitações do estudo e as condições nas quais ele foi feito (a partir de uma lista de palavras em inglês, por exemplo), os resultados corroboram a hipótese de que os jargões analítico-comportamentais tendem a ser abrasivos, e podem estar relacionados a palavras e significados do cotidiano que as pessoas tendem a considerar como desagradáveis. Isso nos faz pensar que a linguagem utilizada pelos profissionais da Análise do Comportamento é uma variável importante a ser considerada como, por exemplo, nos contextos da clínica e da pesquisa. Em suma, o estudo fomenta a questão: como podemos dialogar sobre Análise do Comportamento sem assustar nossos leitores e/ou ouvintes e sem, ao mesmo tempo, abandonar a função dos nossos termos?

Os autores sugerem que na prática clínica, por exemplo, é interessante evitar alguns desses termos que já são pré-associados com outros significados desagradáveis, ao menos enquanto o terapeuta ainda é um estímulo neutro (ou seja, enquanto a relação terapêutica ainda não se consolidou). Também fica a dica para que continuem sendo feitas pesquisas na área, com o objetivo de entender melhor como se dá a reação dos leitores a determinados jargões da Análise do Comportamento.

Talvez uma forma alternativa de contornar esse problema de comunicação é fazer o que fazemos aqui no blog: discutir sobre artigos científicos como a gente discutiria em uma mesa de bar. Espero que tenha sido agradável e motivador para vocês!

Para saber mais:

Critchfield, T.S., Doepke, K.J., Epting, L.K., Becirevic, A., Reed, D.D., Fienup, D.M., Kremsreiter, J.L., & Ecott, C.L. (2017). Normative Emotional Responses to Behavior Analysis or How Not to Use Words to Win Friends and Influence People. Behavior Analysis Practice, 10(2), pp. 97-106. doi:10.1007/s40617-016-0161-9.

Outra referência consultada:

Warriner, A.B., Kuperman, V., & Brysbeart, M. (2013). Norms of valence, arousal, and dominance for 13,915 English lemmas. Behavior Research Methods, 45, 1191-1207. doi:10.3758/s13428-012-0314-x.

Fonte da imagem: https://www.amazon.com.br/Como-Fazer-Amigos-Influenciar-Pessoas/dp/8504020266

Texto escrito por Mariana Quessada Macca, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos e bolsista Fapesp de iniciação científica no LECH (Laboratório de Estudos do Comportamento Humano – UFSCar).

 As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.

 

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