O isolamento do analista do comportamento: Mito ou verdade?

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Essa semana trataremos de um assunto pouco discutido fora dos laboratórios de psicologia experimental, mas de queixa recorrente entre os analistas do comportamento: o  isolamento da Análise do Comportamento. Os autores do artigo que serviu como base para esse post , Strapasson e Zuge (2017) argumentam que  que, desde a década de 1940, quando houve a instauração do primeiro grupo de analistas do comportamento, a percepção de isolamento é uma queixa dos pesquisadores nesta área, que muitas vezes se sentem incompreendidos por sua linguagem hermética e pela escolha de delineamentos experimentais de sujeito único.

As queixas de isolamento começaram a ter respaldo empírico em 1971, com as análises quantitativas e qualitativas realizadas sobre a comunicação da Análise do Comportamento com as demais áreas da Psicologia, conduzidas por Krantz (1971, 1972) nos Estados Unidos. Os estudos mostraram que havia uma baixa citação de estudos desenvolvidos em Análise do Comportamento por estudos de outras áreas. Além disso, dentro das próprias revistas de análise do comportamento, os números de citações cruzadas eram baixos, combinados com elevadas taxas de autocitação.

No cenário nacional, as investigações realizadas sobre o isolamento da Análise do Comportamento são escassas, porém os resultados obtidos convergem sobre um mesmo fato: a necessidade de modificação de algumas práticas sociais comumente empregadas por analistas do comportamento, e que atravancam a inserção dessa ciência na comunidade científica como um todo. Entre essas práticas sociais tem destaque o papel da comunicação dos achados em análise do comportamento na literatura, que muitas vezes se restringe a um “comportamentês” inacessível às outras áreas da Psicologia e à população em geral, o que já foi tema de reflexão em um post recente aqui no blog.

Com o intuito de analisar a questão da comunicação das pesquisas em Análise do Comportamento com pesquisas das demais abordagens no Brasil, foi realizado um estudo de análise bibliométrica por Strapasson e Zuge (2017).  O trabalho consistiu em consultar as listas de referências de três dos principais periódicos para veiculação de textos de Análise do Comportamento no país: a Revista Brasileira de Análise do Comportamento (REBAC), a revista Perspectivas em Análise do Comportamento (PAC) e a Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva (RBTCC). Como parâmetro de comparação em periódicos generalistas, isto é, que envolvam publicações das mais diversas áreas da Psicologia, foi adotada a revista Psicologia: Reflexão e crítica (PRC), figurada entre os principais periódicos nacionais em Psicologia. O método adotado consistiu em analisar as listas de referências de todos os artigos publicados nos periódicos mencionados, e classificá-los em três categorias: (1) Textos não avaliados, (2) Textos de Análise do Comportamento e (3) Textos de outras áreas do conhecimento. Esta classificação foi realizada por dois pesquisadores, com critérios bem definidos.

Os resultados revelaram que, quando observadas em conjunto, a lista de referências dos periódicos de Análise do Comportamento analisados traziam quantidades muito semelhantes de citações de estudos da própria área (45,4%) e de outras áreas do conhecimento (45,9%). Ao comparar estes três periódicos, porém, este achado não foi replicado. Maiores citações de textos de Análise do Comportamento foram observadas na REBAC e na PAC (53,9% e 54,9%, respectivamente), em detrimento de textos de outras áreas do conhecimento (38,5% e 34,4%, respectivamente). Este padrão foi observado de modo inverso na RBTCC, que apresentou mais referências a textos de outras áreas (53,6%) do que em Análise do Comportamento (37,7%). Os autores explicam que a diferença observada na quantidade das referências de cada área da Psicologia entre as revistas estudadas provavelmente se deve à orientação das políticas editoriais de cada uma delas, já que na REBAC e na PAC é oferecida exclusividade às publicações em Análise do Comportamento.

        A quantificação das referências em Análise do Comportamento na PRC, que foi adotada no estudo como revista generalista, é assustadora: Foram 2,9% contra 89,7% de textos de outras áreas do conhecimento. Análises mais detalhadas permitiram observar ainda que a maior parte das citações em Análise do Comportamento foram realizadas por publicações da mesma área. A autora argumenta que uma possível explicação está, mais uma vez, na política editorial da revista, que é mais abrangente.

        Os achados evidenciaram que as queixas de isolamento dos analistas do comportamento são plausíveis; porém, este fenômeno está acontecendo de modo unilateral. Isto é, enquanto analistas do comportamento apropriam-se de achados de outras áreas e os utilizam em seus estudos, a apropriação dos achados dos estudos em Análise do Comportamento não tem sido realizada com a mesma frequência por pesquisadores de outras áreas do conhecimento. A maior parte dos estudos que fazem referência à achados da Análise do Comportamento são da mesma área.

Tais dados alertam para a necessidade dos analistas do comportamento reverem algumas posturas que podem estar contribuindo para uma diminuição do impacto de seus achados fora do campo. Entre essas posturas, estão o já citado rigor na descrição dos eventos e processos estudados, bem como a baixa publicação em periódicos de outras áreas ou, ainda, a baixa publicação de temas não relacionados à Análise do Comportamento. Se, como analistas do comportamento, desejamos a sobrevivência institucional e científica da nossa área dentro da comunidade científica, talvez seja o momento de analisarmos o nosso próprio comportamento e manipular algumas contingências a nosso favor. E você, tem analisado seu comportamento ultimamente? Como faz pra evitar o “comportamentês” em uma conversa com pessoas de outras áreas? Conta pra gente aqui do blog!

Referência:

Strapasson, B. A. & Zuge, P. R. (2017). O isolamento da Análise do Comportamento no Brasil: Uma análise bibliométrica. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 19(1), 94-114.

Outras referências consultadas:

Krantz, D. L. (1971). The separate worlds of operant and non-operant psychology. Journal of Applied Behavioral Analysis, 4(1), 61-70.

Krantz, D. L. (1972). Schools and systems: The mutual isolation of operant and non-operant psychology as a case study. Journal of the History of the Behavioral Sciences, 8(1), 86-102.

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https://boletimbehaviorista.wordpress.com/2017/06/22/por-que-nao-devemos-falar-em-comportamentes/

Texto escrito por Tais Francine de Rezende, psicóloga e mestranda em Gerontologia pela Universidade Federal de São Carlos. É membro do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH) da UFSCar e do grupo de pesquisa e extensão Programa Viver Bem a Velhice (ProVive) do Departamento de Gerontologia da UFSCar.

 

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