É possível ensinar comportamentos empáticos a crianças autistas?

imagem sabrina campos

Argott, Townsend,  Poulson, autores de um estudo recentemente publicado na revista Behavior Analysis in Practice, discutem que o comportamento empático pode ser descrito como discriminar estímulos emocionais provenientes do comportamento de outras pessoas e responder diferencialmente a eles. Ou seja, responder de acordo com o significado dos estímulos afetivos oriundos do comportamento de um interlocutor. Notem que essa definição adota como foco de análise as relações de controle entre eventos antecedentes e respostas. Dessa forma, favorece a manipulação experimental desse tipo de comportamento e o desenvolvimento de métodos de ensino do mesmo.

        Devido a fatores como déficits na área da linguagem, pouca sensibilidade a reforçadores sociais e/ou dificuldades de discriminar estímulos emocionais provenientes do comportamento de interlocutores, pessoas com Transtornos do Espectro Autista (TEA) podem não emitir ou ter baixa frequência de comportamentos empáticos. Se você acompanha a série “The Big Bang Theory” provavelmente já se deparou com uma situação desse tipo. Embora não haja uma declaração explícita sobre isso na série, é possível identificar no personagem Sheldon Cooper características de uma pessoa com uma condição conhecida como Síndrome de Asperger, uma variação mais leve do espectro autista. Uma dessas características refere-se justamente ao conceito de empatia que estamos discutindo.

Em alguns episódios, Sheldon parece não conseguir identificar pistas sobre os estados emocionais de seus amigos e acaba se comportando de forma indelicada. Em outras situações, quando identifica que um de seus amigos está triste, ele costuma oferecer uma bebida quente ao mesmo. É possível considerar que Sheldon tentou ser empático, visto que ele conseguiu discriminar os estímulos emocionais provenientes do comportamento do seu interlocutor e emitiu uma resposta que, segundo a sua história de aprendizagem, é adequada. Por outro lado, o hábito de “oferecer uma bebida quente” sugere um repertório restrito de respostas para situações como essa.

Diante da dificuldade apresentada por pessoas com TEA em se engajar em comportamentos empáticos e da importância desse repertório comportamental para as interações sociais, um grupo de pesquisadores desenvolveu um procedimento que teve o objetivo de ensinar respostas empáticas complexas para crianças com tal modo de desenvolvimento. O estudo teve quatro participantes com diagnóstico de TEA, com idades entre 10 e 12 anos, alunos de um programa educacional embasado na Análise do Comportamento Aplicada (ABA).

        Os autores construíram um procedimento de ensino de respostas empáticas que deveriam ser emitidas em relação a três categorias afetivas (alegria, frustração e dor), apresentadas no comportamento de outra pessoa com a qual os participantes estivessem interagindo (que no caso da pesquisa era o instrutor). Após o fim da intervenção, era esperado que os mesmos fossem capazes de: a) discriminar estímulos emocionais provenientes do comportamento de seu interlocutor e b) emitir respostas empáticas complexas formadas por quatro componentes: uma declaração verbal proferida, em uma entonação adequada, acompanhada de uma expressão facial e de gestos coerentes com o contexto. Dessa forma, após a ocorrência de uma estimulação afetiva (proveniente do comportamento de um interlocutor), por exemplo,  levantar as mãos acima da cabeça e falar “ Eu consegui montar o cubo mágico!” (na categoria alegria), seria considerado uma resposta empática satisfatória, por exemplo, se a criança, sorrindo e com um tom de voz que indicasse entusiasmo falasses: “Isso é ótimo! Toca aqui! ” ao mesmo tempo em que ergue uma das mãos. A presença dos quatro componentes citados nas respostas empáticas foi considerada importante, pois a falta de um deles poderia fazer com que essas fossem interpretadas como inapropriadas às situações de vida cotidiana. Para entender melhor esse critério, imagine como você se sentira ao ouvir alguém falar “Parabéns!” com uma expressão facial triste ou “Eu sinto muito” em um tom de voz que indicasse entusiasmo.

        Após uma avaliação de linha de base, que visou identificar o repertório de respostas empáticas dos participantes anterior à intervenção, foi iniciado o procedimento de ensino. Nesse procedimento, era realizada uma tarefa em que era apresentado um estímulo emocional pelo instrutor, por exemplo, demonstrar sentir dor após tropeçar em um móvel. Se após cinco segundos, a criança, com o olhar voltado para a direção do instrutor, emitisse uma resposta empática que incluísse os quatro componentes especificados (declaração, entonação, expressão facial e gestos), eram apresentadas consequências potencialmente reforçadoras (elogios e fichas) e, então, iniciada uma nova tentativa com a apresentação de um novo estímulo afetivo. Mas, caso a criança não respondesse ou emitisse uma resposta que não contemplasse os quatro componentes descritos, era iniciada uma sequência de dicas.

        O primeiro nível de dica foi a exibição de um vídeo que apresentava um modelo da situação antecedente (estímulo emocional) e da resposta empática adequada. Na sequência, era apresentado novamente o estímulo emocional (resposta do instrutor). Caso o participante não emitisse a resposta empática esperada, era apresentada a próxima dica, que correspondeu a um modelo da mesma situação, representado ao vivo pelos experimentadores. Se ainda assim o participante não emitisse o comportamento esperado, eram fornecidas instruções verbais e dicas manuais. Quando a criança emitia, de forma independente, uma resposta empática que contemplasse os quatro componentes especificados pelos pesquisadores, eram apresentados elogios e fichas como consequências potencialmente reforçadoras.

        No decorrer do processo de ensino, também eram realizadas tentativas que visavam promover a generalização de respostas em relação a novas pessoas e a novos estímulos afetivos. Eram apresentados estímulos discriminativos novos, que também correspondiam às categorias anteriormente mencionadas, mas com topografias diferentes, por exemplo, se para a categoria frustração o estímulo empregado, na fase de treino, fosse uma situação em que o instrutor relatava não estar conseguindo fazer um brinquedo funcionar, nas tentativas de generalização, poderia ser apresentada uma situação em que o instrutor relatasse não estar conseguindo ler uma palavra ou abrir um recipiente. Além disso, em algumas tentativas, as situações eram apresentadas por um novo instrutor.

A comparação dos resultados referentes às fases teste de linha de base e de treino demonstrou aumento expressivo nas porcentagens de respostas empáticas após o início da intervenção. Além disso, foi observado também que, nas tentativas de generalização de respostas para outras pessoas e estímulos emocionais (situações), os participantes continuaram emitindo as respostas empáticas em porcentagens altas. Desempenho com tendência semelhante também foi observado nas sessões de follow-up, em que a manutenção das respostas empáticas foi avaliada seis semanas após o fim da fase de ensino.

        Em suma, os resultados indicam que é possível ensinar jovens autistas a discriminar diferentes categorias afetivas (alegria, frustração e dor) e emitir respostas empáticas complexas apropriadas a essas situações. Os dados de generalização apontam que o padrão de respostas aprendido na fase do treino foi estendido a outras pessoas e estímulos emocionais componentes das mesmas classes dos estímulos empregados nessa fase. Isso indica que, possivelmente, os participantes foram capazes de discriminar as características em comum das diferentes situações de uma mesma categoria afetiva, como, por exemplo, o sorriso e a entonação elevada, para a alegria, de forma a responder adequadamente aos estímulos com os quais não tinham sido diretamente treinados, mas que também apresentavam algumas dessas características.

A manutenção das respostas empáticas, após o período de seis semanas, também sugere que elas passaram efetivamente a compor um novo repertório comportamental para os participantes. Repertório esse que, possivelmente, poderá favorecer as suas interações cotidianas. A aprendizagem do comportamento empático pode representar um avanço significativo para o desenvolvimento de indivíduos com TEA, visto que colabora para que eles ampliem a sua rede de apoio social com maior autonomia. Se você gostou da pesquisa e quer saber mais, confira o artigo na íntegra!

Argott, P. J., Townsend, D. B., Poulson, C. L. (2017) Acquisition and Generalization of Complex Empathetic Responses Among Children with Autism. Behavior Analysis in Practice, 10(2), 107-117.      

Escrito por:

Sabrina Campos Dias Pedrosa, Mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Fonte da imagem:

http://www.redehumanizasus.net/87960-nao-basta-ser-simpatico-e-preciso-ser-empatico

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Prisão como Punição: Por que o sistema prisional parece não diminuir a violência?

texto josiane

O sistema prisional é alvo de muitas discussões. Uma das questões discutidas é se as medidas adotadas por esse sistema diminuem o número de crimes, já que ele é bastante alto em alguns países e gera custos elevados para o governo.
Tanto nos EUA quanto no Brasil, o número de crimes é enorme. Em 2013, nos Estados Unidos, ocorreram mais de 6 milhões de crimes violentos, incluindo aproximadamente 17.000 assassinatos e 300.000 estupros. No Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2016), em 2016, houve 58.467 mortes violentas intencionais, e, em 2015, 45.460 casos de estupro. O número de pessoas encarceradas também é grande. Nos EUA há 2,2 milhões de pessoas, tendo esse país a maior população carcerária do mundo. Já o Brasil tem a quarta população, com 584.361 pessoas presas em 2016 (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2016).
Alexis B. Apel e James W. Diller, pesquisadores norte-americanos, analisaram os fatores relacionados à prisão nos EUA por meio da perspectiva da Análise do Comportamento.
Eles comentam que na terminologia do sistema legal, o encarceramento é entendido como punição, no sentido de castigo e de diminuir a chance da pessoa se engajar em comportamentos criminosos novamente. Segundo os autores, essa punição tem o objetivo de funcionar como punição operante na definição da Análise do Comportamento. Na punição operante há a apresentação de uma consequência aversiva (por exemplo, encarceramento) após a emissão de uma resposta (por exemplo, um roubo), e, dessa forma, a probabilidade de ocorrência dela é diminuída.
Portanto, ao analisar a prisão como punição operante, a taxa de comportamento criminoso deveria ser baixa, mas não é o que ocorre. Somando-se a isso, há o elevado número de pessoas presas e de reincidências. Dados demonstram que 70% dos presos liberados em 2005, nos EUA, foram reaprisionados por um novo crime dentro de três anos. Porcentagem semelhante é encontrada no Brasil (IPEA, 2015).
Diante desses índices alarmantes, é importante a análise dos fatores relacionados à punição operante no sistema de justiça criminal, para que seja possível a elaboração de medidas mais eficazes para combater o crime. Apel e Diller analisaram os seguintes fatores: reforço, disponibilidade de reforço para respostas alternativas, intensidade, probabilidade e imediaticidade da punição.
O primeiro fator é o reforço, ou seja, é a apresentação de uma consequência que aumenta a probabilidade do mesmo comportamento ocorrer novamente. Exemplos de reforços são o acesso a bens ou dinheiro, bem como o reforço social. Portanto, as pessoas se engajam em comportamentos criminosos porque há reforço para esses comportamentos.
O segundo fator é a disponibilidade de reforços para comportamentos alternativos, em que são reforçados comportamentos que não sejam criminosos (por exemplo, comportamentos pró-sociais). Os autores mencionam que esse fator pode aumentar a efetividade do procedimento de punição. No entanto, no atual sistema de justiça criminal, há falta de desenvolvimento desses comportamentos alternativos, devido às atividades limitadas e fracos laços familiares dentro da prisão.
A intensidade da punição é o fator mais questionado pelos autores. Ele é definido como a duração de tempo das penas. Tanto nos EUA quanto no Brasil, penas de longa duração são relacionadas, supostamente, com a redução da taxa de criminalidade. Mas pesquisas demonstram que sentenças longas não têm impacto significativo na taxa de crimes ou diminuem a taxa de apenas alguns.
O quarto fator é a probabilidade da punição do agressor. Muitas pesquisas indicam uma correlação negativa entre a alta probabilidade de ser preso e a taxa de crime, ou seja, quanto menor a probabilidade dos infratores serem capturados e encarcerados, maiores os números de crimes. O que vemos atualmente são probabilidades baixas de punição, por exemplo, nos EUA, a probabilidade de uma pessoa ser presa por homicídio é de 0.498. Para aumentar essa probabilidade, deve-se aumentar a presença de aplicação da lei, como, por exemplo, a maior presença de policiais nas ruas ou em pontos da cidade em que há maior número de ocorrências de crimes.
Outro fator decisivo para a efetividade da punição é a sua imediaticidade. Os dados na Análise do Comportamento indicam que quanto mais imediata a punição é aplicada ao comportamento, menor a probabilidade desse comportamento ocorrer novamente. No entanto, o tempo entre cometer o crime, ser preso e cumprir a sentença é bastante extenso.
Com base nos fatores citados, há a indicação de que a punição de alta probabilidade combinada com a disponibilidade de acesso ao reforço de comportamentos alternativos seria mais eficaz para reduzir o comportamento criminoso, em comparação com as medidas adotadas atualmente.
Apesar de que nem todas as medidas adotadas pelo sistema de justiça criminal dos EUA e do Brasil sejam baseadas em evidências, há algumas que são, como os programas de reinserção social, que trabalham a transição de pessoas após o encarceramento. Pesquisas demonstram que esses programas têm resultados positivos, porém, poucos prisioneiros podem acessá-los devido ao baixo financiamento e a superpopulação nas prisões.
Essa transição é difícil, pois há diversos fatores que impedem os indivíduos de se reintegrarem à sociedade após serem libertados da prisão, como a dificuldade em obter reforços alternativos (emprego, casa e relações sociais construtivas), discriminação, estigmas, hostilidade das próprias famílias, e a disponibilidade de reforços relacionados ao comportamento criminoso anterior.
A transição pós-encarceramento constitui uma área de potencial intervenção para os analistas do comportamento, e que é pouco explorada pelos mesmos. Ao aplicar as estratégias de treino de habilidades comportamentais, identificação de reforços potenciais, análise funcional, etc., junto a outros profissionais da área da justiça criminal, o analista do comportamento pode ajudar na elaboração e implantação de políticas públicas nesse campo, bem como colaborar para a diminuição da violência em nossa sociedade.

Quer saber mais?
Consulte o texto:
Apel, A. B., & Diller, J. W. (2016). Prison as punishment: A behavior-analytic evaluation of incarceration. The Behavior Analyst, 1-14.

Outras referências:
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. (2016). Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2016. 10. http://www.forumseguranca.org.br/storage/10_anuario_site_18-11-2016-retificado.pdf

Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. 2015. Reincidência criminal no Brasil. http://cnj.jus.br/files/conteudo/destaques/arquivo/2015/07/572bba385357003379ffeb4c9aa1f0d9.pdf.

Fonte da imagem: http://data1.ibtimes.co.in/cache-img-0-450/en/full/627981/1487149805_jail.jpg.

Escrito por Josiane Maria Donadeli, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.
“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

Feminismo e Análise do Comportamento: aproximando e operacionalizando conceitos

natalias biscassi

Questionamentos levantados por movimentos sociais têm sido muito discutidos ultimamente, especialmente fazendo-se uso de plataformas online, como Facebook, Tumblr, web journals e blogs em geral. Os argumentos utilizados, geralmente, já possuem um linguajar próprio criado pela comunidade verbal de quem é adepto aos movimentos, muitas vezes passando longe do nosso behaviorês.

Mas será que a Análise do Comportamento não tem nada a dizer sobre questões sociais? Tem sim, e pode ser uma ferramenta muito útil. A Análise do Comportamento tem um potencial de mudança social que deve ser utilizado, como o próprio Skinner ou James Holland – famoso pelo seu artigo “Servirão os princípios comportamentais aos revolucionários?” -, apontaram. Porém, este potencial não tem sido explorado o suficiente e, como dizem as autoras do artigo comentado no post de hoje, um dos temas sociais em que a colaboração da Análise do Comportamento não tem sido satisfatória é o feminismo.

Traduzindo para o behaviorês, cuja operacionalização facilita nosso entendimento, o termo feminismo refere-se “à tentativa de alterar o papel social da mulher, com base em um programa de ação que explicita práticas culturais responsáveis por um desequilíbrio na distribuição de reforçadores sociais, favorecendo os homens em detrimento das mulheres. ” (Silva & Laurenti, 2016, p. 199)

Mas quem nunca presenciou discussões no Facebook de pessoas de vertentes diferentes do feminismo e, diga-se de passagem, de pessoas que não faziam parte de vertente nenhuma pegando carona, discutindo entre si? Pelo fato de behaviorismo e feminismo serem teorias plurais, com diversos desenvolvimentos, Emanuelle Silva e Carolina Laurenti (2016) decidiram fazer uma aproximação entre as teorias de Skinner e Simone de Beauvoir, por serem autores primordiais em correntes filosóficas importantes de tais áreas de análise.

As autoras, neste trabalho, cumprem muito bem a tarefa de mostrar a consistência entre o modelo de seleção pelas consequências elaborado pelo primeiro autor e a distinção entre sexo e gênero, sistematizada pela segunda autora. As duas teorias são compatíveis em suas bases, a partir do momento em que o Behaviorismo Radical e a teoria de Beauvoir, que mais tarde foi adotada e desenvolvida pelo Feminismo Radical, constroem-se sobre o contextualismo, isto é, consideram a relação entre indivíduo (e suas ações) e seu meio uma relação de interdependência, com mútua influência, sendo tal constatação importante não só para a compreensão das ações humanas, mas também para a transformação de práticas sociais.

Então, o que Beauvoir quis dizer com a afirmação de que sexo é diferente de gênero?  Sexo refere-se a fatores biológicos (natureza), enquanto gênero refere-se a papéis designados socialmente a homens e mulheres, com padrões de comportamento impostos como padrão masculino e padrão feminino. Ao contexto social em que vivemos dá-se o nome de sociedade patriarcal e o patriarcado, sendo operacionalizado, pode ser entendido como “um conjunto de práticas sociais que estabelece uma relação de opressão e subordinação das mulheres em relação aos homens” (Silva & Laurenti, 2016, p. 200).

Em tal contexto, é um instrumento de poder patriarcal ignorar as diferenças entre sexo e gênero, tornando-os equivalentes. Isto é, o patriarcado esconde sua influência na construção social do gênero e apresenta-o como se fosse natural, já que na visão dominante este é determinado biologicamente pelo sexo. Para Beauvoir, ao definir que sexo é diferente de gênero, dá-se margem para a mudança social, posto que, se gênero é construído, o lugar social colocado para a mulher pode igualmente ser transformado socialmente.

Outro ponto em que as teorias convergem, portanto, está no teor antiessencialista das mesmas. Admitindo-se a influência contextual no que é posto como “natural”, “inato”, através da constatação de práticas culturais que moldam a aprendizagem social, nega-se a crença de que o indivíduo é imutável e determinado por conceitos internos e abstratos, embora apelem muitas vezes para descrições biologizantes. Tanto Simone quanto Skinner teorizaram a favor de uma noção de pessoa e de realidade mutáveis, passíveis de transformação. Os indivíduos são multideterminados.

Tal multideterminação, no Behaviorismo, é explicitada pela diferenciação de três níveis de análise: filogênese, ontogênese e cultura. A filogênese dá conta da seleção de comportamentos da espécie, a ontogênese trata da história comportamental de um indivíduo e a cultura, da história de tradições grupais. Essas três dimensões de análise estão inter-relacionadas, de tal maneira que o organismo que se comporta (filogênese), com sua história individual, é nomeado pessoa (ontogênese), a qual, por sua vez, tem seu comportamento individual, na maior parte das vezes, organizado e mantido por contingências sociais (cultura).

Mas não pensamos sobre isso enquanto agimos a priori, nós só adquirimos consciência do que fazemos/sentimos e porque fazemos/sentimos após entrar em contato com o que a comunidade verbal propaga sobre isso, construindo a noção de self: a cultura, então, é também reflexiva. Segundo o que as autoras ressaltam do que foi escrito por Skinner, os produtos comportamentais desses três níveis de seleção podem ser semelhantes em topografia (leia-se “forma, aparência”), portanto é preciso tomar cuidado em sua análise, especialmente no que se trata sobre confusão entre níveis filogenético e ontogenético/cultural.

Beauvoir segue na mesma linha de análise, nomeando as coisas de forma ligeiramente diferente, dizendo que, para que a mulher exista no mundo, esta precisa de um corpo (filogenêse), porém esse corpo precisa ser considerado e esclarecido na relação com sua história pessoal (ontogênese) e da cultura na qual está inserida. Logo, para Beauvoir, os comportamentos da mulher não são determinados por sua estrutura biológica, mas especialmente influenciados por diferentes dimensões contextuais com histórias evolutivas próprias.

Então, como é ser mulher ou ser feminina remonta a diferentes contingências sociais e individuais. Operacionalizando em termos comportamentais, gênero indica “padrões de comportamento ontogenéticos, considerados típicos de mulheres e de homens no contexto de uma dada cultura. Já a noção de self (construído por reforço social de uma comunidade verbal) elucida a noção de identida­de de gênero, isto é, o modo como o indivíduo se comporta, pensa e sente em relação ao seu próprio gênero”. (Silva & Laurenti, 2016, p. 205).

Finalmente, a virada epistemológica dada por Beauvoir ao fazer a distinção entre sexo e gênero contribui para mostrar que, propositalmente, práticas culturais que favorecem homens estavam (e estão) sendo justificadas por argumentos que tomam questões sociais por questões biológicas e essencialistas, confundindo intencionalmente níveis de análise com o intuito de exercer poder. Epistemologicamente, na Análise do comportamento não há nada que se oponha a essa argumentação, inclusive o rol teórico dessa ciência do comportamento ajuda a reforçá-la.

Ao retirarem a discussão do campo essencialista e unidimensional (que não aceita variação comportamental), Beauvoir e Skinner abrem possibilidades de modificação social, pois propõem encaminhamentos políticos operacionalizados para mudanças de ambientes físicos e culturais. A mulher, ao identificar padrões opressores de controle social, pode exercer o contracontrole, mesmo que as dimensões pessoal (gênero) e reflexiva (identidade de gênero) sejam construídas na relação com o ambiente social, contribuindo para a equalização na distribuição de reforçadores sociais a ambos os gêneros.

Para saber mais:

Silva, E. C. & Laurenti, C. (2016). B. F. Skinner e Simone de Beauvoir: “a mulher” à luz do modelo de seleção pelas consequências. Revista Perspectivas, 7 (2), 197-211.

Link do texto original:

https://www.researchgate.net/profile/Carolina_Laurenti/publication/305993373_B_F_Skinner_e_Simone_de_Beauvoir_a_mulher_a_luz_do_modelo_de_selecao_pelas_consequencias/links/57a8e78e08ae0107eee71664/B-F-Skinner-e-Simone-de-Beauvoir-a-mulher-a-luz-do-modelo-de-selecao-pelas-consequencias.pdf

Outras referências:

Holland, J. G. (1974). Are behavioral principles for revolutionaries? In F. S. Keller, & E. R. Iñesta (Orgs.), Behavior modification: Application to education (pp. 195-208). New York: Academic Press, Inc.

Versão traduzida para o português:

www.usp.br/rbtcc/index.php/RBTCC/article/download/863/474

+ Material para discussão:

Boteco Behaviorista #31: Feminismo e Behaviorismo Radical

https://www.youtube.com/watch?v=Ei4kyhItMd8

Créditos da imagem:

http://asgardproject.com.br/sys/arq/post/18U4P7/02-feminismo-em-uma-imagem.jpg

Texto escrito por Natália Biscassi, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos. É membro do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH) da UFSCar e realiza pesquisas no Laboratório de Psicologia da Aprendizagem (LPA).

Uma forma alternativa de auxiliar na redução e abstinência do uso de cocaína por usuários crônicos

Imagem táhcita

Levando em consideração que, atualmente, não existe nenhum medicamento aprovado e eficaz para o tratamento da adicção de cocaína, abordagens psicossociais se tornam a maneira central no tratamento de pacientes que consomem essa droga cronicamente. Nesse contexto, as intervenções comportamentais surgem como uma alternativa cujos resultados têm mostrado que tais intervenções podem ser uma ferramenta extremamente útil no tratamento de pacientes que desejam cessar o uso dessa e de outras drogas.

Nas pesquisas típicas de intervenções com o manejo de contingências (management contingency interventions), os pacientes cujos resultados das amostras de urina indicam abstinência do uso da droga recebem incentivos em forma de vouchers, os quais podem ser trocados por bens e serviços. Os incentivos se tornam maiores a cada amostra consecutiva de urina que indique a continuidade da abstinência da droga (ou seja, uma amostra “negativa”), mas o resultado de uma única amostra positiva (ou seja, que indica o uso da droga) faz com que o paciente perca o valor máximo de incentivos previamente recebido, e comece a receber novamente o valor mínimo na próxima amostra de urina negativa (isso também ocorre caso o paciente não entregue a amostra requerida), podendo receber mais e mais incentivos a cada nova amostra sucessiva negativa.

As análises da amostra de urina costumam ser realizadas a partir da concentração de um metabólito da cocaína (benzoilecgonina), sendo que valores abaixo de 300 nanogramas (ng.) do metabólito indicam abstinência, ao passo que valores superiores a isso indicam o uso da droga. As coletas costumam acontecer a cada 48 ou 72 horas, uma vez que pesquisas indicam que essa substância pode ser detectada na urina até aproximadamente 48 horas após o uso. Entretanto, outros fatores podem influenciar no tempo de eliminação desse metabólito, como a quantidade de droga ingerida, a via de administração, a quantidade de água consumida e diferenças individuais a respeito do metabolismo e excreção das drogas. Assim, existe a possibilidade de que uma droga utilizada uma única vez não seja excretada após as 48 horas de uso e, que, portanto, medições sucessivas da droga indiquem uso, mesmo que o indivíduo só tenha utilizado a droga uma vez.

Comportamentalmente falando, deixar de consequenciar positivamente um comportamento adequado poderia afetar na manutenção do comportamento-alvo, que é cessar o uso da droga. Alternativamente, reduzir a frequência na qual os exames são feitos poderia resolver esse problema, mas traria outro: a possibilidade de que a testagem menos frequente aumentasse a probabilidade de uso da droga, uma vez que ela poderia ser excretada até a medição seguinte, e isso potencialmente reforçaria o uso indevido da droga.

Pensando em alternativas para essa problemática, pesquisadores pensaram em uma nova forma de medição qualitativa. Com essa nova forma de medição, haveria a verificação da diminuição do metabólito ao longo das horas, em comparação com o valor obtido na medição prévia: se a concentração do metabólito tiver uma redução de 50% ou mais em comparação com a amostra anterior, isso seria um indicativo de que a pessoa esteve em abstinência. Esse índice foi validado em um estudo feito em laboratório, com usuários que recebiam doses controladas da droga.

Com o objetivo de auxiliar no desenvolvimento de procedimentos que permitam consequenciar positivamente de maneira mais acurada a abstinência da cocaína, os pesquisadores August Holtyn e seus colaboradores (2017) analisaram as modificações nas concentrações dos metabólitos de cocaína de 28 participantes, os quais frequentavam um programa de tratamento com metadona. Todos os participantes viviam em situação de pobreza, e 93% tinham dependência em cocaína.

Para serem recrutados, os participantes foram submetidos, inicialmente, a uma linha de base na qual participavam de atividades educativas e treinos de habilidades de trabalho durante um mês. Eles trabalhavam quatro horas por dia (durante a semana), em troca do pagamento de oito dólares por hora, além de aproximadamente dois dólares por hora pelos seus desempenhos nas tarefas. Esse pagamento era feito na forma de vouchers que eram trocados por bens e serviços. Três vezes na semana, os pesquisadores coletavam amostras de urina dos participantes e testavam-nas para cocaína. O uso da droga não impedia a participação nas atividades, nem o recebimento dos incentivos. Os sujeitos que participaram das atividades em pelo menos 50% dos dias, obtendo pelo menos dois resultados positivos de cocaína na urina, e que permaneceram no programa de tratamento com metadona, foram recrutados para a pesquisa.

O estudo durou 26 semanas, e os participantes foram alocados aleatoriamente em duas condições: manejo de contingências de abstinência + trabalho, e somente trabalho (mas os resultados reportados na pesquisa foram referentes apenas ao grupo abstinência + trabalho). Os incentivos eram dados aos participantes cuja concentração do metabólito era inferior a 300 ng., ou cuja concentração, em comparação com a última amostra, era, pelo menos, 20% menor que a do dia anterior. A identificação do uso de cocaína por um dos dois métodos era consequenciada pela perda do incentivo de oito dólares, de modo que o participante passava a receber apenas um dólar por hora trabalhada, até que obtivesse uma nova amostra negativa. Os incentivos aumentavam em um dólar por dia, a cada resultado negativo, até chegar ao máximo de oito dólares por hora trabalhada. Para os participantes do grupo sem o manejo de contingências, os ganhos eram sempre de oito dólares por hora, independentemente se os resultados dos participantes indicassem uso da droga.

Os resultados mostraram que, em 32% das amostras coletadas, houve decréscimo da concentração dos metabólitos da droga, o que indica que a identificação de abstinência nesses casos só ocorreu porque havia uma metodologia qualitativa diferente da que é largamente utilizada. O número de dias necessário para que uma amostra positiva se tornasse negativa foi de um a 10 dias (a maioria ocorrendo em sete ou menos dias), o que mostra que a medição a cada 48 ou 72 horas pode, realmente, fazer com que a abstinência não seja consequenciada positivamente.

Uma questão que deve ser respondida nas pesquisas subsequentes diz respeito à menor redução possível da concentração do metabólito que continue a indicar abstinência. Apesar de ser, de fato, uma questão importante a ser respondida, essa pesquisa identificou diferenças nos dois tipos de análises, o que possui implicações importantes: imagine uma pessoa que decide parar de usar cocaína, e entra em um programa semelhante ao relatado no estudo. Além de não ser consequenciada positivamente quando da abstinência, isso poderia auxiliar na manutenção de estereótipos relacionados aos usuários de drogas, como ser um sujeito mentiroso e não confiável. Além disso, se a família desse indivíduo estivesse ciente do funcionamento do programa, essa pessoa poderia ser punida pelos seus familiares com base em uma medição que não foi adequada para a detecção de ausência da droga. Ofensas e desaprovação social poderiam ser exemplos de punição que, por sua vez, poderiam se relacionar com a recaída e a repetição desse ciclo de identificação do uso da droga (agora coerente), que levaria a uma nova punição e aumentaria, portanto, a probabilidade de que a abstinência se torne uma coisa mais e mais distante do indivíduo que é usuário.

Ficou interessadx? Quer saber mais? Acesse o artigo!

Holtyn, A. F., Knealing, T. W., Jarvis, B. P., Subramaniam, S., & Silverman, K. (2017). Monitoring cocaine use and abstinence among cocaine users for contingency management interventions. The Psychological Record, 67, 253-259. doi: 10.1007/s40732-017-0236-1

Fonte da Imagem: http://drugabuse.com/library/the-effects-of-cocaine-use/

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.