Uma forma alternativa de auxiliar na redução e abstinência do uso de cocaína por usuários crônicos

Imagem táhcita

Levando em consideração que, atualmente, não existe nenhum medicamento aprovado e eficaz para o tratamento da adicção de cocaína, abordagens psicossociais se tornam a maneira central no tratamento de pacientes que consomem essa droga cronicamente. Nesse contexto, as intervenções comportamentais surgem como uma alternativa cujos resultados têm mostrado que tais intervenções podem ser uma ferramenta extremamente útil no tratamento de pacientes que desejam cessar o uso dessa e de outras drogas.

Nas pesquisas típicas de intervenções com o manejo de contingências (management contingency interventions), os pacientes cujos resultados das amostras de urina indicam abstinência do uso da droga recebem incentivos em forma de vouchers, os quais podem ser trocados por bens e serviços. Os incentivos se tornam maiores a cada amostra consecutiva de urina que indique a continuidade da abstinência da droga (ou seja, uma amostra “negativa”), mas o resultado de uma única amostra positiva (ou seja, que indica o uso da droga) faz com que o paciente perca o valor máximo de incentivos previamente recebido, e comece a receber novamente o valor mínimo na próxima amostra de urina negativa (isso também ocorre caso o paciente não entregue a amostra requerida), podendo receber mais e mais incentivos a cada nova amostra sucessiva negativa.

As análises da amostra de urina costumam ser realizadas a partir da concentração de um metabólito da cocaína (benzoilecgonina), sendo que valores abaixo de 300 nanogramas (ng.) do metabólito indicam abstinência, ao passo que valores superiores a isso indicam o uso da droga. As coletas costumam acontecer a cada 48 ou 72 horas, uma vez que pesquisas indicam que essa substância pode ser detectada na urina até aproximadamente 48 horas após o uso. Entretanto, outros fatores podem influenciar no tempo de eliminação desse metabólito, como a quantidade de droga ingerida, a via de administração, a quantidade de água consumida e diferenças individuais a respeito do metabolismo e excreção das drogas. Assim, existe a possibilidade de que uma droga utilizada uma única vez não seja excretada após as 48 horas de uso e, que, portanto, medições sucessivas da droga indiquem uso, mesmo que o indivíduo só tenha utilizado a droga uma vez.

Comportamentalmente falando, deixar de consequenciar positivamente um comportamento adequado poderia afetar na manutenção do comportamento-alvo, que é cessar o uso da droga. Alternativamente, reduzir a frequência na qual os exames são feitos poderia resolver esse problema, mas traria outro: a possibilidade de que a testagem menos frequente aumentasse a probabilidade de uso da droga, uma vez que ela poderia ser excretada até a medição seguinte, e isso potencialmente reforçaria o uso indevido da droga.

Pensando em alternativas para essa problemática, pesquisadores pensaram em uma nova forma de medição qualitativa. Com essa nova forma de medição, haveria a verificação da diminuição do metabólito ao longo das horas, em comparação com o valor obtido na medição prévia: se a concentração do metabólito tiver uma redução de 50% ou mais em comparação com a amostra anterior, isso seria um indicativo de que a pessoa esteve em abstinência. Esse índice foi validado em um estudo feito em laboratório, com usuários que recebiam doses controladas da droga.

Com o objetivo de auxiliar no desenvolvimento de procedimentos que permitam consequenciar positivamente de maneira mais acurada a abstinência da cocaína, os pesquisadores August Holtyn e seus colaboradores (2017) analisaram as modificações nas concentrações dos metabólitos de cocaína de 28 participantes, os quais frequentavam um programa de tratamento com metadona. Todos os participantes viviam em situação de pobreza, e 93% tinham dependência em cocaína.

Para serem recrutados, os participantes foram submetidos, inicialmente, a uma linha de base na qual participavam de atividades educativas e treinos de habilidades de trabalho durante um mês. Eles trabalhavam quatro horas por dia (durante a semana), em troca do pagamento de oito dólares por hora, além de aproximadamente dois dólares por hora pelos seus desempenhos nas tarefas. Esse pagamento era feito na forma de vouchers que eram trocados por bens e serviços. Três vezes na semana, os pesquisadores coletavam amostras de urina dos participantes e testavam-nas para cocaína. O uso da droga não impedia a participação nas atividades, nem o recebimento dos incentivos. Os sujeitos que participaram das atividades em pelo menos 50% dos dias, obtendo pelo menos dois resultados positivos de cocaína na urina, e que permaneceram no programa de tratamento com metadona, foram recrutados para a pesquisa.

O estudo durou 26 semanas, e os participantes foram alocados aleatoriamente em duas condições: manejo de contingências de abstinência + trabalho, e somente trabalho (mas os resultados reportados na pesquisa foram referentes apenas ao grupo abstinência + trabalho). Os incentivos eram dados aos participantes cuja concentração do metabólito era inferior a 300 ng., ou cuja concentração, em comparação com a última amostra, era, pelo menos, 20% menor que a do dia anterior. A identificação do uso de cocaína por um dos dois métodos era consequenciada pela perda do incentivo de oito dólares, de modo que o participante passava a receber apenas um dólar por hora trabalhada, até que obtivesse uma nova amostra negativa. Os incentivos aumentavam em um dólar por dia, a cada resultado negativo, até chegar ao máximo de oito dólares por hora trabalhada. Para os participantes do grupo sem o manejo de contingências, os ganhos eram sempre de oito dólares por hora, independentemente se os resultados dos participantes indicassem uso da droga.

Os resultados mostraram que, em 32% das amostras coletadas, houve decréscimo da concentração dos metabólitos da droga, o que indica que a identificação de abstinência nesses casos só ocorreu porque havia uma metodologia qualitativa diferente da que é largamente utilizada. O número de dias necessário para que uma amostra positiva se tornasse negativa foi de um a 10 dias (a maioria ocorrendo em sete ou menos dias), o que mostra que a medição a cada 48 ou 72 horas pode, realmente, fazer com que a abstinência não seja consequenciada positivamente.

Uma questão que deve ser respondida nas pesquisas subsequentes diz respeito à menor redução possível da concentração do metabólito que continue a indicar abstinência. Apesar de ser, de fato, uma questão importante a ser respondida, essa pesquisa identificou diferenças nos dois tipos de análises, o que possui implicações importantes: imagine uma pessoa que decide parar de usar cocaína, e entra em um programa semelhante ao relatado no estudo. Além de não ser consequenciada positivamente quando da abstinência, isso poderia auxiliar na manutenção de estereótipos relacionados aos usuários de drogas, como ser um sujeito mentiroso e não confiável. Além disso, se a família desse indivíduo estivesse ciente do funcionamento do programa, essa pessoa poderia ser punida pelos seus familiares com base em uma medição que não foi adequada para a detecção de ausência da droga. Ofensas e desaprovação social poderiam ser exemplos de punição que, por sua vez, poderiam se relacionar com a recaída e a repetição desse ciclo de identificação do uso da droga (agora coerente), que levaria a uma nova punição e aumentaria, portanto, a probabilidade de que a abstinência se torne uma coisa mais e mais distante do indivíduo que é usuário.

Ficou interessadx? Quer saber mais? Acesse o artigo!

Holtyn, A. F., Knealing, T. W., Jarvis, B. P., Subramaniam, S., & Silverman, K. (2017). Monitoring cocaine use and abstinence among cocaine users for contingency management interventions. The Psychological Record, 67, 253-259. doi: 10.1007/s40732-017-0236-1

Fonte da Imagem: http://drugabuse.com/library/the-effects-of-cocaine-use/

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

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