Feminismo e Análise do Comportamento: aproximando e operacionalizando conceitos

natalias biscassi

Questionamentos levantados por movimentos sociais têm sido muito discutidos ultimamente, especialmente fazendo-se uso de plataformas online, como Facebook, Tumblr, web journals e blogs em geral. Os argumentos utilizados, geralmente, já possuem um linguajar próprio criado pela comunidade verbal de quem é adepto aos movimentos, muitas vezes passando longe do nosso behaviorês.

Mas será que a Análise do Comportamento não tem nada a dizer sobre questões sociais? Tem sim, e pode ser uma ferramenta muito útil. A Análise do Comportamento tem um potencial de mudança social que deve ser utilizado, como o próprio Skinner ou James Holland – famoso pelo seu artigo “Servirão os princípios comportamentais aos revolucionários?” -, apontaram. Porém, este potencial não tem sido explorado o suficiente e, como dizem as autoras do artigo comentado no post de hoje, um dos temas sociais em que a colaboração da Análise do Comportamento não tem sido satisfatória é o feminismo.

Traduzindo para o behaviorês, cuja operacionalização facilita nosso entendimento, o termo feminismo refere-se “à tentativa de alterar o papel social da mulher, com base em um programa de ação que explicita práticas culturais responsáveis por um desequilíbrio na distribuição de reforçadores sociais, favorecendo os homens em detrimento das mulheres. ” (Silva & Laurenti, 2016, p. 199)

Mas quem nunca presenciou discussões no Facebook de pessoas de vertentes diferentes do feminismo e, diga-se de passagem, de pessoas que não faziam parte de vertente nenhuma pegando carona, discutindo entre si? Pelo fato de behaviorismo e feminismo serem teorias plurais, com diversos desenvolvimentos, Emanuelle Silva e Carolina Laurenti (2016) decidiram fazer uma aproximação entre as teorias de Skinner e Simone de Beauvoir, por serem autores primordiais em correntes filosóficas importantes de tais áreas de análise.

As autoras, neste trabalho, cumprem muito bem a tarefa de mostrar a consistência entre o modelo de seleção pelas consequências elaborado pelo primeiro autor e a distinção entre sexo e gênero, sistematizada pela segunda autora. As duas teorias são compatíveis em suas bases, a partir do momento em que o Behaviorismo Radical e a teoria de Beauvoir, que mais tarde foi adotada e desenvolvida pelo Feminismo Radical, constroem-se sobre o contextualismo, isto é, consideram a relação entre indivíduo (e suas ações) e seu meio uma relação de interdependência, com mútua influência, sendo tal constatação importante não só para a compreensão das ações humanas, mas também para a transformação de práticas sociais.

Então, o que Beauvoir quis dizer com a afirmação de que sexo é diferente de gênero?  Sexo refere-se a fatores biológicos (natureza), enquanto gênero refere-se a papéis designados socialmente a homens e mulheres, com padrões de comportamento impostos como padrão masculino e padrão feminino. Ao contexto social em que vivemos dá-se o nome de sociedade patriarcal e o patriarcado, sendo operacionalizado, pode ser entendido como “um conjunto de práticas sociais que estabelece uma relação de opressão e subordinação das mulheres em relação aos homens” (Silva & Laurenti, 2016, p. 200).

Em tal contexto, é um instrumento de poder patriarcal ignorar as diferenças entre sexo e gênero, tornando-os equivalentes. Isto é, o patriarcado esconde sua influência na construção social do gênero e apresenta-o como se fosse natural, já que na visão dominante este é determinado biologicamente pelo sexo. Para Beauvoir, ao definir que sexo é diferente de gênero, dá-se margem para a mudança social, posto que, se gênero é construído, o lugar social colocado para a mulher pode igualmente ser transformado socialmente.

Outro ponto em que as teorias convergem, portanto, está no teor antiessencialista das mesmas. Admitindo-se a influência contextual no que é posto como “natural”, “inato”, através da constatação de práticas culturais que moldam a aprendizagem social, nega-se a crença de que o indivíduo é imutável e determinado por conceitos internos e abstratos, embora apelem muitas vezes para descrições biologizantes. Tanto Simone quanto Skinner teorizaram a favor de uma noção de pessoa e de realidade mutáveis, passíveis de transformação. Os indivíduos são multideterminados.

Tal multideterminação, no Behaviorismo, é explicitada pela diferenciação de três níveis de análise: filogênese, ontogênese e cultura. A filogênese dá conta da seleção de comportamentos da espécie, a ontogênese trata da história comportamental de um indivíduo e a cultura, da história de tradições grupais. Essas três dimensões de análise estão inter-relacionadas, de tal maneira que o organismo que se comporta (filogênese), com sua história individual, é nomeado pessoa (ontogênese), a qual, por sua vez, tem seu comportamento individual, na maior parte das vezes, organizado e mantido por contingências sociais (cultura).

Mas não pensamos sobre isso enquanto agimos a priori, nós só adquirimos consciência do que fazemos/sentimos e porque fazemos/sentimos após entrar em contato com o que a comunidade verbal propaga sobre isso, construindo a noção de self: a cultura, então, é também reflexiva. Segundo o que as autoras ressaltam do que foi escrito por Skinner, os produtos comportamentais desses três níveis de seleção podem ser semelhantes em topografia (leia-se “forma, aparência”), portanto é preciso tomar cuidado em sua análise, especialmente no que se trata sobre confusão entre níveis filogenético e ontogenético/cultural.

Beauvoir segue na mesma linha de análise, nomeando as coisas de forma ligeiramente diferente, dizendo que, para que a mulher exista no mundo, esta precisa de um corpo (filogenêse), porém esse corpo precisa ser considerado e esclarecido na relação com sua história pessoal (ontogênese) e da cultura na qual está inserida. Logo, para Beauvoir, os comportamentos da mulher não são determinados por sua estrutura biológica, mas especialmente influenciados por diferentes dimensões contextuais com histórias evolutivas próprias.

Então, como é ser mulher ou ser feminina remonta a diferentes contingências sociais e individuais. Operacionalizando em termos comportamentais, gênero indica “padrões de comportamento ontogenéticos, considerados típicos de mulheres e de homens no contexto de uma dada cultura. Já a noção de self (construído por reforço social de uma comunidade verbal) elucida a noção de identida­de de gênero, isto é, o modo como o indivíduo se comporta, pensa e sente em relação ao seu próprio gênero”. (Silva & Laurenti, 2016, p. 205).

Finalmente, a virada epistemológica dada por Beauvoir ao fazer a distinção entre sexo e gênero contribui para mostrar que, propositalmente, práticas culturais que favorecem homens estavam (e estão) sendo justificadas por argumentos que tomam questões sociais por questões biológicas e essencialistas, confundindo intencionalmente níveis de análise com o intuito de exercer poder. Epistemologicamente, na Análise do comportamento não há nada que se oponha a essa argumentação, inclusive o rol teórico dessa ciência do comportamento ajuda a reforçá-la.

Ao retirarem a discussão do campo essencialista e unidimensional (que não aceita variação comportamental), Beauvoir e Skinner abrem possibilidades de modificação social, pois propõem encaminhamentos políticos operacionalizados para mudanças de ambientes físicos e culturais. A mulher, ao identificar padrões opressores de controle social, pode exercer o contracontrole, mesmo que as dimensões pessoal (gênero) e reflexiva (identidade de gênero) sejam construídas na relação com o ambiente social, contribuindo para a equalização na distribuição de reforçadores sociais a ambos os gêneros.

Para saber mais:

Silva, E. C. & Laurenti, C. (2016). B. F. Skinner e Simone de Beauvoir: “a mulher” à luz do modelo de seleção pelas consequências. Revista Perspectivas, 7 (2), 197-211.

Link do texto original:

https://www.researchgate.net/profile/Carolina_Laurenti/publication/305993373_B_F_Skinner_e_Simone_de_Beauvoir_a_mulher_a_luz_do_modelo_de_selecao_pelas_consequencias/links/57a8e78e08ae0107eee71664/B-F-Skinner-e-Simone-de-Beauvoir-a-mulher-a-luz-do-modelo-de-selecao-pelas-consequencias.pdf

Outras referências:

Holland, J. G. (1974). Are behavioral principles for revolutionaries? In F. S. Keller, & E. R. Iñesta (Orgs.), Behavior modification: Application to education (pp. 195-208). New York: Academic Press, Inc.

Versão traduzida para o português:

www.usp.br/rbtcc/index.php/RBTCC/article/download/863/474

+ Material para discussão:

Boteco Behaviorista #31: Feminismo e Behaviorismo Radical

https://www.youtube.com/watch?v=Ei4kyhItMd8

Créditos da imagem:

http://asgardproject.com.br/sys/arq/post/18U4P7/02-feminismo-em-uma-imagem.jpg

Texto escrito por Natália Biscassi, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos. É membro do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH) da UFSCar e realiza pesquisas no Laboratório de Psicologia da Aprendizagem (LPA).

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