Para com esse barulho !!!

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Prezados leitores, o artigo desta semana não apenas é recentíssimo como também é cheio das novidades. Se trata de um estudo de caso publicado pelas doutoras Rebecca Schneider e Joanna Arch, da Universidade de Columbia, em que descrevem uma nova abordagem para tratar de uma doença também nova: a Misofonia.

Não sabem o que é Misofonia? Me parece totalmente compreensível, pois esta doença ainda não foi incluída nos manuais nosográficos comumente usados, como o DSM-V e a CID 10.

Se trata de um transtorno caracterizado por uma extrema sensibilidade a sons produzidos por outros seres humanos. Esses sons são barulhos cotidianos, como os que fazemos mastigando a comida, quando brincamos com uma caneta, ou até quando respiramos. Os indivíduos que sofrem esta doença, quando entram em contato com o som específico que os incomoda, se sentem imediatamente dominados por intensos sentimentos de raiva, desgosto e ansiedade, que logo se torna intolerável. Esta afecção é considerada como sendo relacionada ao TOC (Transtorno Obsessivo – Compulsivo).

Devido a este transtorno ter sido descrito na literatura psiquiátrica apenas recentemente, não há, ainda, protocolos de tratamento bem estabelecidos. Alguns relatos apontam que a Terapia Cognitivo Comportamental (particularmente dessensibilização sistemática) pode ser efetiva nestes casos. Contudo, devido à relutância de muitos psicólogos clínicos em aplicar as técnicas de dessensibilização, que se baseiam na exposição gradual e controlada a estímulos aversivos, as autoras do estudo consideraram oportuno desenvolver outra abordagem.

A abordagem adotada foi embasada nos pressupostos a ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso) por causa do seu foco na aceitação, em lugar de na tentativa de reduzir os sintomas, e também porque a ACT permite trabalhar com um amplo leque de emoções e não apenas com a ansiedade, que na Misofonia é menos proeminente do que em outros transtornos de humor. Também foi considerada relevante, como base para a intervenção, a DBT (Terapia Comportamental Dialética), por causa do seu foco em sentimentos de raiva.

As autoras trataram o caso de um adolescente de 17 anos (vamos nos referir a ele como “Michael”), que apresentava Misofonia a respeito e barulhos relacionados com alimentação. Este tipo de sons já o incomodava desde antes de começar o Ensino Médio, mas no momento de procurar a terapia tinha chegado a níveis em que o desconforto era intolerável e as tentativas de evitação realizadas pelo paciente afetavam significativamente diversos aspectos da sua vida.

O tratamento, que consistiu em 10 sessões de 50 minutos, inicialmente empregou componentes da ACT relacionados a aceitação e a desfusão (processos psicológicos que envolvem aceitar os eventos privados, como as emoções ou pensamentos, sem necessariamente acreditar que sejam verdadeiros ou se identificar com eles), tendo por objetivo ajudar o Michael a se distanciar dos seus pensamentos relacionados à Misofonia e a se abrir a experienciar os sentimentos de raiva. Além disso, o paciente foi treinado a identificar as situações em que a Misofonia era mais intensa apenas descrevendo fatos, sem a interferência de julgamentos a respeito delas.

Posteriormente, foram usadas técnicas da DBT, para identificar variáveis situacionais relevantes. No caso do Michael, identificou-se que ele ficava com o corpo tenso em antecipação de potenciais barulhos irritantes. Por esse motivo, aplicou-se a técnica de “ação oposta” na qual o cliente deve se engajar na ação oposta àquela exigida pela emoção do momento, com a finalidade de debilitar a relação entre o estímulo e a resposta disfuncional. Durante o tratamento, Michael foi instruído a relaxar o corpo nas situações em que percebesse um estado de tensão antecipatória.

Ao término do tratamento, todas as medidas de Misofonia tomadas como linha de base diminuíram, exceto a reação ao som de mastigar com a boca aberta. Contudo, a necessidade que Michael sentia de fazer algo a respeito desse som diminuiu muito, demonstrando uma maior capacidade de tolerar o desconforto. Essas condições se mantiveram em diversos follow up, que aconteceram até seis meses após a conclusão do tratamento.

A efetividade demonstrada após um tratamento de tão curta duração sugere que este tipo de tratamento baseado em componentes da ACT e da DBT apresenta um grande potencial para lidar com casos de Misofonia e outros transtornos relacionados à ansiedade.

Texto escrito por Jaume Ferran Aran Cebria, Mestre em Psicologia pela UFSCar

Psicólogo e Professor assistente do Curso de Psicologia da UFGD e Pesquisador do CLiCS.

Quer saber mais?

Rebecca L. Schneider and Joanna J. Arch, Case Study: A Novel Application of Mindfulness- and Acceptance-based Components to Treat Misophonia, Journal of Contextual Behavioral Science, 2017.

http://dx.doi.org/10.1016/j.jcbs.2017.04.003

Fonte da Imagem: https://www.rinconpsicologia.com/2016/07/te-molesta-el-sonido-que-hace-la-gente.html

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Como saber se estamos formando bons terapeutas?

 

imagem julio2Pesquisadores enfrentam o desafio de mensurar o aprendizado de habilidades terapêuticas fundamentais para a boa prática clínica

A busca pela produção de práticas baseadas em evidência tem sido uma pauta constante no debate entre pesquisadores interessados na validação científica de procedimentos clínicos, em especial, na psicoterapia analítico-comportamental. De forma geral, essa discussão tem como foco a avaliação de quão eficazes são determinadas intervenções psicoterapêuticas na remissão de problemas psicológicos e na melhora no quadro clínico de clientes submetidos a tais intervenções. Uma vertente menos explorada (mas nem por isso menos importante) dessa discussão se refere à avaliação da eficácia dos procedimentos de formação de novos psicoterapeutas, incluindo o treinamento de habilidades terapêuticas indispensáveis para a boa prática clínica.

A chamada Psicoterapia Analítica Funcional (FAP), proposta por Kohlenberg e Tsai (1991), é um modelo de clínica analítico-comportamental fortemente embasado na construção de uma relação interpessoal genuína entre terapeuta e cliente. Segundo os proponentes da FAP, a relação estabelecida dentro do setting terapêutico é um instrumento fundamental para a identificação de comportamentos clinicamente relevantes a serem trabalhados durante as sessões, o que inclui as queixas, os progressos e as interpretações que o cliente faz sobre o próprio comportamento. É por meio da interação face a face que ocorre ao longo das sessões que o terapeuta pode trabalhar a produção de mudanças na direção esperada e a generalização dos resultados para fora do consultório, ou seja, para o ambiente social do cliente, provável fonte do sofrimento psicológico que o levou a procurar ajuda.

Dadas essas características, a formação do terapeuta que virá a atuar segundo os pressupostos da FAP vai além da reprodução de técnicas e do domínio conceitual referente aos princípios analítico-comportamentais. A necessidade de construir relações interpessoais genuínas com os clientes demanda uma entrega pessoal muito grande por parte do terapeuta. Ao basear sua prática no aqui e agora da relação terapêutica, o terapeuta precisa estar constantemente atento aos próprios sentimentos e a como as ações dos clientes os afetam. Além disso, é necessário estar disposto a compartilhar elementos de sua própria história pessoal, o que muitas vezes serve como gatilho para que os clientes passem também a expor informações mais íntimas e importantes para a continuidade da psicoterapia. Por fim, o terapeuta precisa abrir mão de julgamentos e compreender as ações dos clientes como fruto de uma longa e complexa história de reforçamento.

Em termos mais práticos, as ações do terapeuta durante as sessões de FAP envolvem (1) a identificação de comportamentos clinicamente relevantes que são um problema na vida social do cliente, os quais espera-se reduzir a frequência; (2) o estabelecimento de repertórios alternativos mais adequados, o que demanda uma atenção especial para pequenas mudanças que o cliente apresenta ao longo das sessões; (3) o apontamento de relações funcionais entre as ações do cliente e os sentimentos que estas evocam, chamando-se a atenção para os possíveis efeitos semelhantes que tais ações produzem nas pessoas que convivem diariamente com o cliente; (4) a valorização das análises funcionais produzidas pelo próprio cliente e de uma postura mais ativa em direção às mudanças desejadas.

Para a formação de novos terapeutas, os proponentes da FAP têm recorrido à publicação de livros, artigos e materiais didáticos que possibilitam ao aprendiz o contato com os pressupostos básicos do modelo, a visualização de exemplos práticos e a realização de exercícios nas quais algumas habilidades terapêuticas são trabalhadas. Um treino mais elaborado envolve a participação dos aprendizes em cursos e workshops com terapeutas mais experientes, nos quais são discutidos casos clínicos e simuladas experiências de atendimento por meio de role-plays, nos quais os aprendizes são convidados a atuar tanto como terapeutas quanto como clientes. Versões mais recentes desses cursos e workshops têm sido ofertadas via internet, com os encontros entre terapeutas experientes e grupos de aprendizes sendo realizados em sessões de videoconferência.

Mas como saber se estamos formando bons terapeutas? Ou, mais especificamente, o que os proponentes da FAP têm feito para validar empiricamente os cursos e workshops ofertados, de forma a poderem afirmar que os aprendizes são capazes de exibir as habilidades terapêuticas necessárias em seus atendimentos clínicos futuros? Eis um grande desafio!

De modo geral, a avaliação da eficácia dos treinamentos ofertados em Psicoterapia Analítica Funcional passa pela utilização de instrumentos padronizados construídos especificamente para medir habilidades consideradas essenciais para o trabalho do terapeuta. Um desses instrumentos é o FAPIS, um questionário de autoavaliação com 46 escalas do tipo likert, no qual o aprendiz responde o quanto concorda ou discorda de determinadas afirmações. Também é comum a utilização de questionários contendo pequenas descrições de casos clínicos, na qual pede-se que o aprendiz responda, de acordo com o que aprendeu no treino, quais seriam suas respostas frente a determinadas situações. Por se pautarem somente no relato verbal dos aprendizes e estarem sujeitas a respostas enviesadas pela expectativa social gerada pelos terapeutas mais experientes, tais medidas acabam limitando a validação empírica dos procedimentos de ensino empregados. Além disso, não permitem avaliar nuances mais específicas da interação terapeuta-cliente, tais como a entonação e o ritmo da fala, bem como a adequação dos feedbacks aos comportamentos do cliente.

Com base nisso, o grupo liderado por Kohlenberg e Tsai propôs um novo instrumento para medir as habilidades terapêuticas exibidas pelos aprendizes submetidos aos cursos e workshops de FAP: a escala de competências (FAPCS). Ao invés de se basear no auto relato dos aprendizes, a FAPCS é uma escala com 12 itens, na qual terapeutas e codificadores treinados podem avaliar de forma simples e objetiva alguns trechos de sessões conduzidas pelos aprendizes (gravados em áudio, vídeo ou transcritos). Cada item abarca algum tipo de habilidade interpessoal, terapêutica ou conceitual esperada na FAP e pode ser pontuado de 0 a 3, sendo 3 referente ao atendimento de todos os requisitos necessários para se dizer que determinada habilidade foi estabelecida.

Os resultados apresentados pelo grupo ainda são preliminares e as vantagens desse novo instrumento ainda precisam ser analisadas em novos estudos. O primeiro estudo realizado apontou que a FAPCS é capaz de produzir medidas que apresentam forte correlação com as produzidas pelos instrumentos mais tradicionais, como o FAPIS e as respostas às descrições de casos clínicos.  Acredita-se que o novo instrumento seja capaz de detectar nuances mais específicas das habilidades avaliadas, dada a impossibilidade de os aprendizes mascararem suas respostas para atingir os critérios esperados.

Quer saber mais?

Maitland, D. W. M., Kanter, J. W., Tsai, M., Kuczynski, A. M., Manbeck, K. E., Kohlenberg, R. J. (2016). Preliminary Findings on the Effects of Online Functional Analytic Psychotherapy Training on Therapist Competency. Psychological Record, 66(4), 627-637. https://doi.org/10.1007/s40732-016-0198-8

Post escrito por Julio Camargo

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Bolsista FAPESP e Membro do Instituto de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE).

Crédito foto: http://www.drjonicewebb.com/

Você pagaria para parar de fumar?

nat aggio

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o tabaco mata em torno de 7 milhões de pessoas por ano. Cerca de metade das pessoas que fumam morrem em decorrência desse hábito. Bom, que o cigarro é um veneno todo mundo sabe, mas muitas pessoas têm uma grande dificuldade em largar esse vício. É um tal de larga e volta que só que passa por isso sabe. Será que uma motivação financeira a mais poderia ajudar?

Alguns estudos verificaram a eficácia de um programa de redução de fumo em que o participante deposita um determinado valor em dinheiro e vai recebendo partes desse valor de volta, caso consiga atingir metas de redução de consumo. A maioria desses estudos são antigos, mas as novas possibilidades tecnológicas estão impulsionando novamente essas investigações.

Brantley Jarvis e Jesse Dallery da Universidade da Flórida fizeram uso dessa tecnologia da seguinte forma. Foram convidados a participar dos experimentos pessoas que fumavam mais de 10 cigarros por dia, há pelo menos dois anos. Essas pessoas realizavam um depósito online da quantia dinheiro que eles escolhessem e poderiam receber esse dinheiro de volta conforme fossem atingindo as metas de redução do fumo. Eram no total 28 metas de redução e 10 dias de abstenção. As metas foram estabelecidas individualmente, a partir do consumo costumeiro de cada um, que foi aferido durante 3 ou 5 dias (linha de base). Os participantes tinham acesso, por meio de login e senha, a uma área em que poderiam comunicar e verificar seu consumo de cigarro, assim como acompanhar seus ganhos. Para medir o consumo, duas vezes por dia  os participantes faziam upload de um vídeo em que filmavam a checagem desse consumo. Isso era feito quando eles assopravam perto um aparelho que ganharam dos experimentadores para este fim.

Os resultados mostraram que os participantes atingiram em média 64% das suas metas e que houve uma redução média de 45,1% no consumo nas fases de redução e de 58,4% na fase de abstinência, se comparado com o consumo na linha de base.No segundo experimento, os pesquisadores resolveram dar uma forcinha a mais. O procedimento foi o mesmo, mas o pessoal da universidade dobrava o valor que os participantes depositavam (até uma quantia máxima de 50 dólares). Resultados? Em média 67% das metas foram atingidas e a redução média do consumo foi de 41,2% na fase de redução e 41,6% na fase de abstinência e a variabilidade entre os participantes foi maior do que no Estudo 1. Os resultados são animadores, mas parece que o aumento do valor total do dinheiro não fez tanta diferença. Segundo os autores, esses resultados poderiam ser melhores se, por exemplo, o valor recuperado fosse aumentando conforme as metas fossem atingidas (nos experimentos descritos a quantidade de dinheiro devolvido por meta era sempre a mesma).

É a tecnologia, mais uma vez, sendo usada para ajudar as pessoas a serem mais saudáveis. E você, pagaria para parar de fumar?

Quer saber mais? Leia o artigo: Jarvis, B. P. & Dallery, J. (2016). Internet-based self-tailored deposit contracts to promote smoking reduction and abstinence. Journal of applied behavior analysis, 50, 189–205.

Postado por Natalia Maria Aggio, Pós-doutoranda no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (Bolsista CAPES)

É possível entender a cultura da pichação pela análise do comportamento?

 

Você sabe o que é etnografia? De maneira resumida, etnografia é o estudo descritivo de uma cultura, uma vez que permite produzir conhecimento sobre os costumes, crenças e tradições de um grupo cultural e, mais ainda, compreender como as práticas são transmitidas de geração em geração e como permitem a continuidade de um determinado sistema social. Na antropologia cultural, o etnografar é eleito como procedimento intrínseco desta área de conhecimento.

Na etnografia é importante que o pesquisador observe diariamente os modos de vida, relações sociais, ritos e, principalmente, conviva com a cultura que está inserido. Isso levará ao entendimento pelo olhar dos membros daquela cultura, somente possível por meio da interação entre investigador e a sociedade. Adicionalmente, o pesquisador pode conduzir entrevistas para colher dados adicionais sobre a subjetividade do grupo. Embora não seja apenas o relato verbal eleito como método de análise, mas a interação e observação das práticas sociais. Podemos sintetizar o método etnográfico com a seguinte frase de Urpi Montoya Uriarte, antropólogo da USP campus São Paulo: “um descobrimento fortuito da importância de conviver e ouvir aqueles que pretendemos entender”.

Deste modo, apesar da análise cultural com referencial analítico-comportamental ainda ser um campo tímido, deve-se fomentar estudos possam entender as dinâmicas das culturas e, posteriormente, procedimentos que promovam mudanças culturais. Diante da complexidade do comportamento cultural e sua transmissão entre gerações é necessário desenvolver ferramentas que permitam extrair conhecimento sobre práticas de indivíduos em grupos.

E você? Já pensou se mais pesquisas em análise do comportamento se apropriassem deste método? Pois bem, Lucas Couto, em colaboração com pesquisadores da Oslo and Akershus University College investigaram no Brasil, por meio de uma etnografia, a cultura dos pichadores das cidades de Brasília e Goiânia. Os principais resultados descrevem e identificam propriedades da cultura da pichação que podem sugerir possíveis estratégias de intervenções. Tais intervenções são interessantes por não terem o objetivo de punir ou extinguir a cultura dos membros, mas sim produzir alternativas à pichação por meio de planejamento para ocorrência de comportamentos pró-sociais.

Os autores do artigo discutem tais resultados em duas direções. Em primeiro lugar são discutidas as características dos reforçadores que mantem estas práticas, pois apesar de não prover ganhos materiais, o ato de pichar fornece amplas e poderosas contingências de reforçamento social. Em segundo lugar, a análise funcional das práticas culturais permite possiblidades de intervenções.

Os autores argumentam que ao realizar uma análise funcional das práticas culturais podemos planejar contingências que alterem o ambiente social dos pichadores e, desta forma, existe a possibilidade de produzir novos comportamentos e tornar incompatíveis os atualmente emitidos (não aceitos socialmente), porém sem extinguir a cultura da pichação. Nesta questão, por exemplo, pode-se levar elementos do graffiti a serem incorporados aos pichadores para favorecer contingências que promovam o engajamento com ativismo cultural, mas sem os efeitos prejudiciais à sociedade. Isso poderá promover uma rede de apoio aos pichadores em um contexto de ativismo. Assim, setores que apoiam o ativismo podem favorecer o desenvolvimento de comportamentos socialmente aceitáveis nos pichadores.

Para chegar a estes resultados, somente Lucas entrevistou vários membros dos grupos de pichadores, com os quais conviveu interagindo quase diariamente. Essa convencia direta com o grupo estudado propiciou uma análise da cultura com foco na relação funcional entre variáveis ambientais e práticas culturais.

A cultura da pichação envolve muitas práticas. As mais comuns são a criação de apelidos entre os membros, estilos e formatos de letras característicos de cada grupo (você com certeza já visualizou essas letras em pichações de cidades de grande porte), hierarquia entre os grupos e pichações em ambientes de ampla visualização e de risco, por exemplo, obras públicas. Ao categorizar e analisar essas práticas foram encontrados alguns achados.

Inicialmente, observou-se os subsistemas nos quais são criados apelidos individuais e o nome do grupo dos membros. Isso permite que a identidade do pichador e da facção sejam reforçadas. Por exemplo, quanto o membro picha muros, monumentos e/ou paredes, as letras com os apelidos permitem que pessoas de fora (pichadores ou mídia) apresentem consequências sociais (expor a grafia em redes sociais, noticiários e entre outros pichadores) para o produto do pichador e da sua coligação. É importante dizer que os grupos podem ser fundidos e, consequentemente, aumenta-se o número de membros, propiciando maior visibilidade a relação entre os pichadores.

Também foi observado que a prática cultural da pichação é transmitida para os novos membros. Isso inclui os melhores pontos para picharem, características simbólicas do grupo, uso do melhor material para pichar. Em relação a isto, podemos destacar as características topográficas (formatos) das letras pichadas, pois, em geral, os tipos de grafias são modelados pelos membros mais velhos e experientes que ensinam como será feita a arte para os iniciados. Esses infográficos contêm anagramas, tamanhos e formas variadas, todas reforçadas diferencialmente (letras maiores recebem maiores comentários de outras pessoas, ou seja, maior magnitude de reforçamento). Isso demonstra como a prática cultural é mantida pelos membros que as mantém ao longo das gerações.

Como último ponto de observação foi possível analisar funcionalmente esta cultural. Notou-se uma relação entre o ambiente social da pichação, entre pichadores, os grupos de pichadores e influência de diversas contingências punitivas e de reforçamento providas por terceiros, como: a mídia, as famílias, os ambientes escolares, a polícia e as nossas leis (no Brasil, o ato de pichar é considerado crime ambiental, artigo 65 da Lei 9.605/98).

Um exemplo de como estes fatores estabelecem a relação entre a cultura de pichar e terceiros é a grande mídia. No texto é relatado que um importante monumento de Brasília, o Memorial do Presidente Juscelino Kubitschek, apelidado de Memorial JK, é frequentemente pichado, sendo isso usualmente noticiado em jornais de ampla circulação. Aqui podemos notar que o ato de pichar locais de grande importância social é constantemente reforçado pela mídia, que indiretamente mantém tal prática, que se torna prazerosa aos pichadores e aos grupos, mas fortemente aversiva aos terceiros (membros fora desta cultura, ditos forasteiros).

Em relação à possíveis intervenções, os autores fazem um alerta sobre quem for planejar a mudança cultural se atentar aos reforçadores naturais que selecionam as práticas. Normalmente, quem irá planejar uma mudança de práticas, pode não considerar os reforçadores disponíveis no ambiente de quem pratica a pichação, tal visão tem função apenas de remover a estimulação aversiva dos que estão de fora da cultura da pichação. Dessa forma, a chance de contra controle do grupo é muito alta e será produzido novos comportamentos prejudiciais à sociedade.

O artigo traz um exemplo de mudanças culturais que não funcionaram, ao relatar uma exposição de artes da Alemanha em 2012, na qual foi convidado um grupo de pichadores para participarem de um workshop com o objetivo de reconhecer a pichação como arte. Para este evento, o curador restringiu sobre o que deveria ser apresentado como arte pelos pichadores e somente haveria discussão teórica sobre o assunto em formato de painéis, ou seja, impôs sua visão de como deveria ser exposta e dialogada com a mostra artística. Diante dessa situação, os pichadores subiram ilegalmente a igreja que sediava o evento e deixaram suas marcas no local. Segundo os pichadores, a sua arte é livre, não pode ser restringida, pois a pichação é sempre transgressiva e das ruas. Provavelmente, este tipo de intervenção não funcionou por não considerar os reforçadores naturais como uma poderosa fonte de controle de novos comportamentos. Ao estabelecer consequências arbitrárias, por não ter contato com a cultura do pichador, o planejador com certeza irá favorecer mais comportamentos prejudiciais do que benéficos.

Como no artigo descrito nessa resenha e, na maioria dos estudos sobre planejamentos culturais, os autores nos instigam a fazer a seguinte reflexão: Parece haver uma tendência em relação à noção de planejamento cultural do cientista comportamental em buscar intervenções que levariam a uma mudança da cultura, dentro daquilo que se convenciona como necessário de modificação pelo interventor. Porém, podemos aprender com as ciências antropológicas que devemos entender pela visão dos membros internos a cultura analisada. Por que não pensar em se interessar por simplesmente “entender” certa sociedade? Às vezes, tentativas de “controlar’ as práticas sociais podem levar a caminhos tão desastrosos como o de uma mudança cultural não planejada. É possível que a compreensão do sistema social seja um caminho mais seguro para a mudança do nosso olhar e, quando for planejada a mudança, as intervenções poderão ser mais pontuais e menos totalitárias.

Por fim, podemos pensar na seguinte reflexão enquanto analistas do comportamento: Não devemos limitar nossa metodologia e olhar os fenômenos apenas com modelos tradicionais de nossa ciência. Tal prática pode levar a uma deturpação do que seria um planejamento cultural efetivo, uma vez que para entender uma cultura, o olhar do outro deve prevalecer sobre o nosso e devemos entender as complexas relações de contingências que mantêm as práticas culturais do grupo observado. Temos as ferramentas produzidas pela investigação experimental, mas aplicá-las nas outras culturas requer mudanças em nossas próprias práticas culturais!

Texto escrito por Marlon Alexandre de Oliveira

Doutorando em Psicologia pela UFSCar e pesquisador do INCT-ECCE Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino. Bolsista CAPES.

Quer saber mais?

de Carvalho, L. C., Sandaker, I., & Ree, G. (2017). An ethnographic study of tagging cultures. Behavior and Social Issues, 26, 67.

Uriarte, U. M. (2012). O que é fazer etnografia para os antropólogos. Ponto Urbe. Revista do núcleo de antropologia urbana da USP, (11).

Fonte da imagem: https://kikacastro.files.wordpress.com/2015/07/11231805_1132454836769937_2069011068897199668_n.jpg