É possível entender a cultura da pichação pela análise do comportamento?

 

Você sabe o que é etnografia? De maneira resumida, etnografia é o estudo descritivo de uma cultura, uma vez que permite produzir conhecimento sobre os costumes, crenças e tradições de um grupo cultural e, mais ainda, compreender como as práticas são transmitidas de geração em geração e como permitem a continuidade de um determinado sistema social. Na antropologia cultural, o etnografar é eleito como procedimento intrínseco desta área de conhecimento.

Na etnografia é importante que o pesquisador observe diariamente os modos de vida, relações sociais, ritos e, principalmente, conviva com a cultura que está inserido. Isso levará ao entendimento pelo olhar dos membros daquela cultura, somente possível por meio da interação entre investigador e a sociedade. Adicionalmente, o pesquisador pode conduzir entrevistas para colher dados adicionais sobre a subjetividade do grupo. Embora não seja apenas o relato verbal eleito como método de análise, mas a interação e observação das práticas sociais. Podemos sintetizar o método etnográfico com a seguinte frase de Urpi Montoya Uriarte, antropólogo da USP campus São Paulo: “um descobrimento fortuito da importância de conviver e ouvir aqueles que pretendemos entender”.

Deste modo, apesar da análise cultural com referencial analítico-comportamental ainda ser um campo tímido, deve-se fomentar estudos possam entender as dinâmicas das culturas e, posteriormente, procedimentos que promovam mudanças culturais. Diante da complexidade do comportamento cultural e sua transmissão entre gerações é necessário desenvolver ferramentas que permitam extrair conhecimento sobre práticas de indivíduos em grupos.

E você? Já pensou se mais pesquisas em análise do comportamento se apropriassem deste método? Pois bem, Lucas Couto, em colaboração com pesquisadores da Oslo and Akershus University College investigaram no Brasil, por meio de uma etnografia, a cultura dos pichadores das cidades de Brasília e Goiânia. Os principais resultados descrevem e identificam propriedades da cultura da pichação que podem sugerir possíveis estratégias de intervenções. Tais intervenções são interessantes por não terem o objetivo de punir ou extinguir a cultura dos membros, mas sim produzir alternativas à pichação por meio de planejamento para ocorrência de comportamentos pró-sociais.

Os autores do artigo discutem tais resultados em duas direções. Em primeiro lugar são discutidas as características dos reforçadores que mantem estas práticas, pois apesar de não prover ganhos materiais, o ato de pichar fornece amplas e poderosas contingências de reforçamento social. Em segundo lugar, a análise funcional das práticas culturais permite possiblidades de intervenções.

Os autores argumentam que ao realizar uma análise funcional das práticas culturais podemos planejar contingências que alterem o ambiente social dos pichadores e, desta forma, existe a possibilidade de produzir novos comportamentos e tornar incompatíveis os atualmente emitidos (não aceitos socialmente), porém sem extinguir a cultura da pichação. Nesta questão, por exemplo, pode-se levar elementos do graffiti a serem incorporados aos pichadores para favorecer contingências que promovam o engajamento com ativismo cultural, mas sem os efeitos prejudiciais à sociedade. Isso poderá promover uma rede de apoio aos pichadores em um contexto de ativismo. Assim, setores que apoiam o ativismo podem favorecer o desenvolvimento de comportamentos socialmente aceitáveis nos pichadores.

Para chegar a estes resultados, somente Lucas entrevistou vários membros dos grupos de pichadores, com os quais conviveu interagindo quase diariamente. Essa convencia direta com o grupo estudado propiciou uma análise da cultura com foco na relação funcional entre variáveis ambientais e práticas culturais.

A cultura da pichação envolve muitas práticas. As mais comuns são a criação de apelidos entre os membros, estilos e formatos de letras característicos de cada grupo (você com certeza já visualizou essas letras em pichações de cidades de grande porte), hierarquia entre os grupos e pichações em ambientes de ampla visualização e de risco, por exemplo, obras públicas. Ao categorizar e analisar essas práticas foram encontrados alguns achados.

Inicialmente, observou-se os subsistemas nos quais são criados apelidos individuais e o nome do grupo dos membros. Isso permite que a identidade do pichador e da facção sejam reforçadas. Por exemplo, quanto o membro picha muros, monumentos e/ou paredes, as letras com os apelidos permitem que pessoas de fora (pichadores ou mídia) apresentem consequências sociais (expor a grafia em redes sociais, noticiários e entre outros pichadores) para o produto do pichador e da sua coligação. É importante dizer que os grupos podem ser fundidos e, consequentemente, aumenta-se o número de membros, propiciando maior visibilidade a relação entre os pichadores.

Também foi observado que a prática cultural da pichação é transmitida para os novos membros. Isso inclui os melhores pontos para picharem, características simbólicas do grupo, uso do melhor material para pichar. Em relação a isto, podemos destacar as características topográficas (formatos) das letras pichadas, pois, em geral, os tipos de grafias são modelados pelos membros mais velhos e experientes que ensinam como será feita a arte para os iniciados. Esses infográficos contêm anagramas, tamanhos e formas variadas, todas reforçadas diferencialmente (letras maiores recebem maiores comentários de outras pessoas, ou seja, maior magnitude de reforçamento). Isso demonstra como a prática cultural é mantida pelos membros que as mantém ao longo das gerações.

Como último ponto de observação foi possível analisar funcionalmente esta cultural. Notou-se uma relação entre o ambiente social da pichação, entre pichadores, os grupos de pichadores e influência de diversas contingências punitivas e de reforçamento providas por terceiros, como: a mídia, as famílias, os ambientes escolares, a polícia e as nossas leis (no Brasil, o ato de pichar é considerado crime ambiental, artigo 65 da Lei 9.605/98).

Um exemplo de como estes fatores estabelecem a relação entre a cultura de pichar e terceiros é a grande mídia. No texto é relatado que um importante monumento de Brasília, o Memorial do Presidente Juscelino Kubitschek, apelidado de Memorial JK, é frequentemente pichado, sendo isso usualmente noticiado em jornais de ampla circulação. Aqui podemos notar que o ato de pichar locais de grande importância social é constantemente reforçado pela mídia, que indiretamente mantém tal prática, que se torna prazerosa aos pichadores e aos grupos, mas fortemente aversiva aos terceiros (membros fora desta cultura, ditos forasteiros).

Em relação à possíveis intervenções, os autores fazem um alerta sobre quem for planejar a mudança cultural se atentar aos reforçadores naturais que selecionam as práticas. Normalmente, quem irá planejar uma mudança de práticas, pode não considerar os reforçadores disponíveis no ambiente de quem pratica a pichação, tal visão tem função apenas de remover a estimulação aversiva dos que estão de fora da cultura da pichação. Dessa forma, a chance de contra controle do grupo é muito alta e será produzido novos comportamentos prejudiciais à sociedade.

O artigo traz um exemplo de mudanças culturais que não funcionaram, ao relatar uma exposição de artes da Alemanha em 2012, na qual foi convidado um grupo de pichadores para participarem de um workshop com o objetivo de reconhecer a pichação como arte. Para este evento, o curador restringiu sobre o que deveria ser apresentado como arte pelos pichadores e somente haveria discussão teórica sobre o assunto em formato de painéis, ou seja, impôs sua visão de como deveria ser exposta e dialogada com a mostra artística. Diante dessa situação, os pichadores subiram ilegalmente a igreja que sediava o evento e deixaram suas marcas no local. Segundo os pichadores, a sua arte é livre, não pode ser restringida, pois a pichação é sempre transgressiva e das ruas. Provavelmente, este tipo de intervenção não funcionou por não considerar os reforçadores naturais como uma poderosa fonte de controle de novos comportamentos. Ao estabelecer consequências arbitrárias, por não ter contato com a cultura do pichador, o planejador com certeza irá favorecer mais comportamentos prejudiciais do que benéficos.

Como no artigo descrito nessa resenha e, na maioria dos estudos sobre planejamentos culturais, os autores nos instigam a fazer a seguinte reflexão: Parece haver uma tendência em relação à noção de planejamento cultural do cientista comportamental em buscar intervenções que levariam a uma mudança da cultura, dentro daquilo que se convenciona como necessário de modificação pelo interventor. Porém, podemos aprender com as ciências antropológicas que devemos entender pela visão dos membros internos a cultura analisada. Por que não pensar em se interessar por simplesmente “entender” certa sociedade? Às vezes, tentativas de “controlar’ as práticas sociais podem levar a caminhos tão desastrosos como o de uma mudança cultural não planejada. É possível que a compreensão do sistema social seja um caminho mais seguro para a mudança do nosso olhar e, quando for planejada a mudança, as intervenções poderão ser mais pontuais e menos totalitárias.

Por fim, podemos pensar na seguinte reflexão enquanto analistas do comportamento: Não devemos limitar nossa metodologia e olhar os fenômenos apenas com modelos tradicionais de nossa ciência. Tal prática pode levar a uma deturpação do que seria um planejamento cultural efetivo, uma vez que para entender uma cultura, o olhar do outro deve prevalecer sobre o nosso e devemos entender as complexas relações de contingências que mantêm as práticas culturais do grupo observado. Temos as ferramentas produzidas pela investigação experimental, mas aplicá-las nas outras culturas requer mudanças em nossas próprias práticas culturais!

Texto escrito por Marlon Alexandre de Oliveira

Doutorando em Psicologia pela UFSCar e pesquisador do INCT-ECCE Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino. Bolsista CAPES.

Quer saber mais?

de Carvalho, L. C., Sandaker, I., & Ree, G. (2017). An ethnographic study of tagging cultures. Behavior and Social Issues, 26, 67.

Uriarte, U. M. (2012). O que é fazer etnografia para os antropólogos. Ponto Urbe. Revista do núcleo de antropologia urbana da USP, (11).

Fonte da imagem: https://kikacastro.files.wordpress.com/2015/07/11231805_1132454836769937_2069011068897199668_n.jpg

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