Desenvolvendo programas para diminuir a pobreza da população: como os analistas do comportamento podem dar “uma mãozinha”.

silvana

Como os princípios do condicionamento operante podem contribuir na eficácia de programas que usam incentivo financeiro para aumentar emprego e renda da população.

Um dos grandes desafios de qualquer país é (ou deveria ser) criar condições para que um maior número de pessoas não viva abaixo da linha da pobreza. Não se trata apenas de uma questão altruísta, mas indivíduos nessas condições sofrem mais com problemas de saúde crônicos, tendem a ter menor expectativa de vida, dentre outras dificuldades que acabam acarretando ônus para o Estado. Uma das estratégias governamentais utilizadas tem sido a criação de programas, normalmente em larga escala, que incentivam financeiramente essa camada da população de forma a melhorar sua situação de emprego e renda. Mas será que tais programas atingem seus objetivos? Se não, por quê?

Os pesquisadores August Holtyn, Brantley Jarvis e Kenneth Silverman publicaram um interessante artigo no JEAB no qual apontam alguns dos motivos pelos quais estes programas tendem a falhar, e como os analistas do comportamento podem contribuir para torná-los mais efetivos. Para tanto, utilizaram como principal fonte de análise os dados de artigos publicados pelo Manpower Demonstration Research Corporation (MDRC), Instituto de pesquisa que implementa e avalia programas antipobreza nos Estados Unidos. Os autores descrevem detalhadamente os aspectos relevantes de cada um dos programas, sendo citados seis que incentivam diretamente o emprego e três que focam no desempenho acadêmico. De maneira geral, tais programas visam principalmente gerar emprego e educação para indivíduos que já são destinatários de assistência social ou vivem na pobreza. Incentivos financeiros são usados de acordo com as metas estabelecidas. Para testar a efetividade de cada Programa, o MDRC divide os indivíduos em dois grupos: controle, que não recebem incentivos, e os que fazem parte do respectivo Programa. Após a implementação, são usadas medidas como emprego e renda anual de cada grupo verificando se haveria diferença significativa entre eles.

Como exemplificação, um destes programas é intitulado “First Job Program”, no qual o indivíduo que consegue um emprego continua recebendo normalmente seu benefício de assistência social, do qual já é destinatário, durante o limite de 21 meses. Os do grupo controle têm seus ganhos de assistência reduzidos quando isto ocorre. Apesar de haver diferenças entre os grupos após quatro anos, considerando que os participantes do Programa conseguiram mais empregos, não foi observado um aumento de trabalho em período integral e maior renda, como o esperado. Além do incentivo direto ao emprego, outros buscam o estabelecimento de metas educacionais, como o “Opening Doors”. Neste caso, o incentivo é entregue com base no rendimento acadêmico do indivíduo, visando facilitar posteriormente sua inserção no mercado de trabalho. Os resultados mostram que os participantes do Programa  apresentam melhor desempenho acadêmico do que os do grupo controle. No entanto, não foi verificado se, a longo prazo, este incentivo teria o efeito desejado sobre o emprego e renda.   

O fato é que, a análise de cada um dos programas antipobreza, bem como os resultados obtidos, levou os pesquisadores a concluírem que as falhas existem porque não são considerados aspectos importantes do condicionamento operante na implantação da maioria deles. Os principais pontos críticos abordados nesta análise foram: atraso entre atendimento do objetivo e recebimento do incentivo devido ao tempo que se leva para verificar o cumprimento da atividade e o pagamento; frequência inadequada de entrega do benéfico, sendo no mínimo uma vez por mês; requerimento de respostas substanciais, que muitas vezes não estavam ao alcance do participante; baixa magnitude do incentivo; não desenvolvimento de habilidades necessárias para atingir as metas (alguns participantes alegaram que não sabiam como conseguir um trabalho integral, por exemplo); falta de informações claras sobre o sistema de incentivo, entre outros.

Como forma de demonstrar como a abordagem analítico-comportamental pode contribuir para o desenvolvimento de programas desta natureza, os pesquisadores apontam o modelo do Therapeutic Workplace. Neste programa de intervenção, o indivíduo passa por fases até atingir os objetivos desejados, desde a abstinência de drogas até o desenvolvimento de habilidades que possibilitem aumentar a empregabilidade. De forma geral, os incentivos são entregues continuamente através do dia, são estabelecidos pré-requisitos comportamentais antes de se requerer comportamentos mais complexos, e os reforços são aplicados contingentemente a comportamentos discretos, sendo aumentados gradualmente. Há uma pesquisa rigorosa que avalia a intervenção em pequenos grupos de participantes e os resultados têm demonstrado a efetividade deste tipo de intervenção.

Os autores concluem que programas que visam à diminuição da pobreza são muito importantes, mas devem ser planejados considerando uma forte base empírica para produzir os resultados almejados. Consideram que os analistas do comportamento possuem o arcabouço necessário para ajudar neste processo. E no Brasil? Será que nossos programas com incentivo financeiro têm dado certo? Como poderíamos “dar uma mãozinha”?

Quer mais detalhes sobre a pesquisa? Leia:

Holtyn, A. F., Jarvis, B. P., & Silverman, K. (2017). Behavior analysts in the war on poverty: a review of the use of financial incentives to promote education and employment. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 107, 9-20.

Escrito por Silvana Lopes dos Santos

Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos

Créditos da imagem: http://hiperboreajuvenalia.blogspot.com.br/2012/09/a-pobreza-de-muitos-e-riqueza-de-alguns.html

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A ocasião faz o ladrão?

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O que as Neurociências nos dizem sobre essa sabedoria popular?

Todo mundo sabe que a maneira como nos comportamos altera nosso ambiente, mas o ambiente também altera a maneira como nos comportamos. Por exemplo, sabe aquela cena  assustadora do início de um filme de terror que depois começa a parecer menos aterrorizante? Ou uma cena muito violenta, que depois de algum tempo nem te choca mais? As pesquisas de Neurociências explicam isso em função de uma dessensibilização progressiva da amígdala (região cerebral), que reduz a nossa percepção de aversividade nos estímulos conforme eles se repetem. Por isso, o que era muito violento ou assustador no início do filme, vai parecendo, conforme a repetição de cenas com esses conteúdos, menos violento e assustador para o espectador ao final do filme. Será que podemos apresentar um comportamento parecido quando o que está envolvido é a honestidade?

Por exemplo, você já se viu em uma situação que ficou tentado a agir desonestamente e quanto mais tempo se viu nessa situação, mais difícil foi “resistir” e acabou pensando que aquele seu ato nem era “tão desonesto assim, ou nem tão condenável”? Já ouviu ou falou comentários do tipo: “aquele político, no início da carreira não roubava, agora, 2 milhões é pouco!”. Enfim, será mesmo que, a depender a oportunidade, podemos nos comportar de forma desonesta, e será que quanto mais somos expostos a essas oportunidades, maior a intensidade da ação desonesta?

Tentando responder essas questões, quatro pesquisadores da University College London, na Inglaterra, e da Duke University, no Estados Unidos fizeram uma pesquisa muito interessante, publicada ano passado na Nature Neuroscience, em que buscaram investigar se haveria aumento progressivo de comportamentos desonestos conforme as pessoas fossem expostas a situações em que seria vantajoso para elas se comportarem de forma desonesta, e os mecanismos neurológicos subjacentes a este fenômeno. Para isso eles arranjaram diferentes situações experimentais para uma tarefa relativamente simples: olhar para uma figura de um pote com moedas, estimar quantas moedas havia nele, e relatar essa estimativa para uma outra pessoa (que o participante não sabia, mas era um confederado – uma pessoa que finge ser participante, mas que na verdade faz parte do arranjo das contingências programadas para o experimento). O participante (conselheiro) acreditava que estava dando conselhos sobre a quantidade de moedas para auxiliar a pessoa (palpiteiro) a decidir seu palpite. Para o participante, ele e o confederado estavam jogando juntos contra um computador, mas só o participante tinha acesso às diferentes “regras das condições do jogo”.

Essas regras eram as diferentes condições experimentais, e havia seis delas. A primeira, era a linha de base: conselheiro e palpiteiro recebem igualmente a recompensa conforme mais preciso for o palpite. A segunda condição era “benefício pra mim-prejuízo para o outro”: o participante era instruído que o conselheiro (ele mesmo) iria ser recompensado de acordo com quanto o palpiteiro superestimasse a quantidade de moedas em seu palpite, enquanto que o palpiteiro seria recompensado de acordo com a precisão do seu palpite. Na terceira condição, “benefício para mim e para o outro”, a regra era que ambos seriam recompensados conforme a superestimativa do palpiteiro. A quarta condição era inversa à segunda: “prejuízo para mim- benefício para o outro”:  o participante era instruído que o conselheiro (ele mesmo) iria ser recompensado de acordo com a precisão do palpite, enquanto que o palpiteiro iria ser recompensado conforme superestimasse a quantidade de moedas em seu palpite. Na quinta condição (“benefício pra mim”), a regra que o participante recebia era a que ele seria recompensado conforme o palpiteiro superestimasse seu palpite, mas o palpiteiro receberia um valor fixo. Na sexta condição, “benefício para o outro”, o cenário se invertia, e quem receberia o valor fixo era o conselheiro. Foram feitas 60 tentativas em cada uma dessas condições, e o que os pesquisadores usaram como medida de desonestidade do participante foi seu conselho (dado nas diferentes condições experimentais) menos o conselho que ele deu durante a linha de base, respectivamente para cada tentativa (por exemplo, conselho da 1ª tentativa da condição “benefício para mim”, menos conselho da 1ª tentativa da linha de base).

Os resultados mostraram o que os pesquisadores já desconfiavam (e nós também!): a desonestidade foi progressivamente aumentando conforme foram passando as tentativas, mas só quando isso beneficia quem a pratica. Ninguém age de forma desonesta para se prejudicar. Isto quer dizer que na condição “benefício pra mim-prejuízo para o outro”, conforme iam passando as tentativas, os participantes iam oferecendo um conselho cada vez maior (e cada vez mais superestimado) para o palpiteiro. Na condição “benefício para mim e para o outro” isso também aconteceu, mas com menor intensidade. Além disso, como alguns dos participantes realizaram esta tarefa ao mesmo tempo em que tinham seus cérebros escaneados por um aparelho de fMRI, os pesquisadores também observaram uma redução da ativação da amígdala ao longo do tempo. Podemos dizer que houve uma redução da sensibilidade da amígdala à aversividade contida nas ações desonestas, como se fôssemos ficando menos sensíveis a desonestidade, que antes era percebida como aversiva. Quando a desonestidade beneficiava o outro, mas não afetava a pessoa que a praticava, ela aconteceu, mas os resultados indicam que ela não se intensifica com o tempo, e não afetava a ativação da amígdala, possivelmente porque esse tipo de ação normalmente não é percebida como desonestidade, e sim como generosidade já que não há benefício próprio e sim do outro.

Como nós, analistas do comportamento, gostamos de lembrar sempre, as pessoas não malvadas porque existe a maldade dentro delas. Pesquisas como estas, que apresentam correlatos neurais da desonestidade, nos mostram que a forma como nos comportamos vai muito além de “uma questão de escolha individual”, e que depende muito da interação com as contingências ambientais. E no fim, parece que a sabedoria popular tem mesmo muito a nos ensinar. Ao que tudo indica, a ocasião faz sim o ladrão, e começar a cometer pequenos delitos, percebidos como pouco prejudiciais podem ser o gatilho para atos cada vez mais corruptos.

Ficou curioso? Quer saber mais? Leia o artigo original:

Garrett, N., Lazzaro, S. C., Ariely, D., & Sharot, T. (2016). The Brain Adapts to Dishonesty. Nature Neuroscience, 19(12), 1727–1732.

Escrito por Melina Vaz – Bióloga, quase psicóloga e doutoranda em Psicobiologia na USP-Ribeirão Preto, uma carioca que percebeu que a malandragem é desnecessária no interior de São Paulo.

Créditos da imagem: https://pt.slideshare.net/italocolares/o-que-a-natureza-humana

Tecnocracia e engenharia social no pensamento de B. F. Skinner

Quem foram e o que defendiam os líderes do movimento tecnocrático nos EUA?

E o que Skinner teria a ver com isso?

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Uma queixa comum entre simpatizantes da análise do comportamento refere-se ao quanto a abordagem seria incompreendida por seus críticos. Quando chamados a falar para fora do círculo, não raras vezes começamos fazendo “esclarecimentos” preliminares, lamentando sobre quão injustiçados seríamos. Dentre as injustiças de que seríamos vítimas, há a crítica segundo a qual nossa visão de mundo seria “cientificista”, algo frequentemente ilustrado por posicionamentos do mais famoso mentor da área, e ainda muito venerado, B. F. Skinner. Tal crítica acusa também que, no tocante à relação entre ciência e sociedade, a perspectiva skinneriana seria fundamentalmente tecnocrática.

Mas o que isso significa, afinal? Seria a crítica improcedente? Uma referência que ajuda a responder tais questões é o artigo de Alexandra Rutherford, da York University, B. F. Skinner and Technology’s Nation: Technocracy, Social Engineering, and the Good Life in 20th Century, recém-publicado pela History of Psychology. Nele, Rutherford explora a história do movimento tecnocrático americano, ícone de uma tradição de engenharia social da qual também fez parte a obra de Skinner.

Rutherford (2017) nota que, desde seus primórdios, “. . . a psicologia foi permeada por uma atitude tecnocientífica, que enfatizou objetivos geminados de conhecimento e aplicação, ciência e prática, muitas vezes empregados a serviço de aumentar a ordem, a eficiência, a racionalização e o controle . . . Esta atitude tecnocientífica levou rapidamente a psicologia a adquirir uma função de engenharia social, que continuou a aumentar à medida que os psicólogos desenvolveram vínculos cada vez mais estreitos com o Estado, especialmente durante e após a Segunda Guerra” (p. 291).

Foram relativamente parcos os esforços de psicólogos para reformar práticas sociais vigentes, tendo a maioria servido aos desígnios do status quo. Uma exceção a ser notada seria B. F. Skinner, dada a sua vindicação pela transformação do mundo, e sendo a publicação do romance Walden two uma expressão exemplar de seu compromisso social. Um dos alvos do estudo de Rutherford foi o período imediatamente anterior a essa publicação, que coincide com a emergência do movimento tecnocrático nos Estados Unidos da América.

Duas figuras importantes nesse contexto foram Howard Scott e Harold Loeb. A gestação da iniciativa tecnocrática coube a Scott, um auto-proclamado engenheiro, habituado a exagerar suas credenciais, que se muda para Nova Iorque após o fim da Primeira Guerra, e funda, em 1919, a Aliança Técnica. O coletivo se propunha a pesquisar métodos de produção industrial, e reunir dados que permitissem elaborar uma alternativa. Porém sua má organização, brigas internas e problemas financeiros forçaram a aliança a se desfazer em 1921. Scott continuou as pesquisas por conta própria, e atravessou a década se sustentando com trabalhos avulsos, até que, a partir de 1929, advém a ocasião providencial para o ressurgimento da propaganda tecnocrática: a Grande Depressão.

Apadrinhado por um catedrático da Columbia University, Scott institui o Comitê sobre Tecnocracia, em 1932, do qual também faria parte Harold Loeb, escritor que havia dividido o apartamento com Scott quando moravam no Greenwich Village, bairro boêmio de Nova Iorque. O grupo finalizou a pesquisa iniciada pela Aliança Técnica, e passou a disseminar seus achados e seus planos. Dentre eles estava a promessa de um sistema capaz de reduzir drasticamente o tempo de trabalho geral, e ainda assim garantir abundância material a todos os envolvidos. Os tecnocratas propuseram a abolição do sistema de preços, e apostaram numa retórica anticapitalista radical.

Insubsistente, a aposta foi logo frustrada, e, em 1933, uma fala de Scott em rede nacional de rádio colocou em xeque o futuro do comitê. Um conjunto de dissidentes se destacou, formando o Comitê Continental sobre Tecnocracia, e encontrando uma nova liderança em Loeb, que no mesmo ano haveria de publicar o seu Life in a technocracy. Apologia expressa a um governo de técnicos sem mecanismos democráticos, como o voto popular, o livro também assegurava que males como a corrupção na política seriam suplantados mediante a eliminação do uso do dinheiro.

Sumarizando as finalidades dessas inciativas, Rutherford (2017) escreveu:

Em resumo, o Movimento da Tecnocracia foi um movimento social e de pesquisa que defendia a substituição do sistema de preços por um sistema de produção e distribuição baseado em unidades de energia. Defendeu a aplicação tecnológica das ciências físicas aos problemas de organização e controle social . . . O sistema de salários e preços, argumentaram, era obsoleto, e o capitalismo nas mãos de empresários com fins lucrativos não funcionaria mais como um sistema econômico ou social. Eles defendiam, assim, um sistema de governo no qual uma organização apolítica de especialistas técnicos (chamada tecnato) resolveria os problemas do governo da mesma maneira que resolveria qualquer outro problema – cientificamente. (p. 296)

Passando, enfim, a B. F. Skinner: o que haveria em comum entre o seu projeto e o dos tecnocratas? Ora, no modelo de engenharia social idealizado em Walden two (Skinner, 1948) há aspectos manifestamente semelhantes, com jornadas de trabalho breves e substituição do sistema econômico tradicional por outro baseado em “créditos-trabalho” (p. 45), com o planejamento centralizado por especialistas não-eleitos (p. 48), com o apelo por um “comitê de ação não-político” (p. 180), com pouca ou nenhuma participação popular (p. 251), e com a tecnologia comportamental utilizada para a maximização da eficiência (p. 276). Não se trata, faça-se a ressalva, de exaltar ou depreciar o legado de Skinner, mas de garantir uma apreciação abrangente – não deixando de reconhecer eventuais virtudes, mas tampouco camuflando seus vícios e anacronismos.

Em sua síntese, Rutherford (2017, p. 300) ainda destaca que tanto Skinner quanto os tecnocratas recusaram a noção de “homem autônomo”, abraçaram uma ontologia materialista[1], desabonaram a utilidade da liberdade e da dignidade como valores[2], conceberam o planejamento da cultura como um problema a ser resolvido cientificamente[3], e sustentaram um ideal tecnológico de ciência. Apesar de não haver registros de que Skinner tenha realizado intercâmbios diretos com o movimento, a investigação de Rutherford (2017) revela indícios de possíveis conexões indiretas.

Finalmente, a autora avalia a reação da sociedade americana às propostas de Skinner e dos tecnocratas. Dando-lhe a palavra: “embora hostis à subversão da democracia e do capitalismo pelo totalitarismo e pelo socialismo, muitos americanos simpatizavam com o ideal tecnológico que Skinner e os tecnocratas desposavam. O emparelhamento de tecnologia com progresso social tem sido parte integrante do credo americano desde os primeiros dias como república” (p. 304). Desse modo, as potencialidades da engenharia social defendida por Skinner e pelos tecnocratas carregavam consigo um apelo óbvio à sociedade americana, profundamente tecnológica. Apesar disso, o apreço por valores basilares da nação falou mais alto: “quando ambos, os tecnocratas e Skinner, pediram que o público americano escolhesse entre a democracia e a tecnocracia, eles escolheram a democracia” (pp. 304-305).

O trabalho de Rutherford é tão informativo quanto instigante, e oferece subsídios para pensar e repensar as questões aventadas no início deste texto. Afinal, procede a crítica segundo a qual B. F. Skinner seria um tecnocrata? Seria sensato estendê-la a analistas do comportamento mais genericamente?[4] Aliás, será que essa crítica tem sido aceita como tal? Compreendendo as ideias tecnocráticas a partir do que representaram historicamente, para alguns, talvez, sequer soem extravagantes. Ainda que hoje dificilmente alguém reclame aos quatro ventos a rejeição aos valores da democracia liberal em nome de uma autocracia socialista de técnicos, o germe das ideias de Scott e Loeb parece subsistir. Será que o espectro da tecnocracia ainda ronda o behaviorismo?

 

Quer saber que fim levou o movimento tecnocrático? Quer conferir por si próprio como Rutherford traçou paralelos com o pensamento de B. F. Skinner?

Então leia o artigo na íntegra, disponível aqui e aqui.

 

Escrito por César Antonio Alves da Rocha, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar e pesquisador visitante na Duke University. Bolsista FAPESP.

 

*As notas são sugestões do autor desse texto, e não extraídas de Rutherford (2017).

* As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.

 

[1] Cabe ressalvar que não há consenso em relação à ontologia da análise do comportamento (cf. Rocha, Leão e Laurenti, 2016; Zilio, 2012; Krägeloh, 2006; Tonneau, 2005; Barnes-Holmes, 2005).

[2] Vale a pena ler a análise filosófica de Hocutt (2013) dos argumentos de Skinner sobre a liberdade.

[3] Staddon (2004) se refere a essa postura como uma forma de “imperialismo científico”.

[4] Para uma discussão sobre o que viria a ser um “skinneriano”, cf. De Rose (1999).