“Repetir, repetir – até ficar diferente”

julia out3

O artigo que abordaremos essa semana, escrito por Tyndall e colaboradores e publicado este ano, aponta uma evidência curiosa: a repetição de determinadas palavras pode mudar a função que elas têm para um dado indivíduo. Como já dizia o poeta Manoel de Barros “Repetir, repetir – até ficar diferente”. Mas como isso pode ser possível?

Em 1910, Titchener propôs um exercício de repetição de palavras, o qual a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) tem usado nas últimas décadas para trabalhar desfusão cognitiva com os clientes. O termo fusão cognitiva se refere a quando alguém toma algum pensamento que possui como verdade e, em geral, isso lhe traz sofrimento. Por exemplo, Maria pode ter um pensamento de que ela é burra e acreditar piamente nisso. Toda vez que Maria tem esse pensamento, ela desiste de se engajar em atividades intelectuais. Como consequência, ela nunca tem a oportunidade de testar seus conhecimentos ou mesmo de aprender coisas novas, o que por sua vez fortalece o pensamento dela sobre “ser burra”. É claro que se a gente olhar para a história de vida de Maria, vamos entender como esse pensamento surgiu e aumentou de frequência – ela provavelmente esteve em contexto aversivo para a aprendizagem no passado. Nesse sentido, o pensamento não é a causa do comportamento. No entanto, hoje aquele contexto pode não estar mais presente e, mesmo assim, Maria não consegue se engajar em atividades intelectuais pois esse pensamento ganhou uma função de estímulo que a faz se esquivar de novas oportunidades.

Um caso de fusão cognitiva, como a vivida por Maria, tem implicações para a atuação clínica do psicoterapeuta. Na terapia comportamental, algumas vezes pode ser suficiente fazer análises funcionais com os clientes e encorajá-los a se engajar em comportamentos que produzirão consequências diferentes (seja por meio da emissão de comportamentos novos, ou de comportamentos já presentes no repertório, porém em contextos diferentes). Outras vezes, no entanto, o cliente pode estar tão fundido com seus pensamentos (isto é: “eu SOU o que eu penso”) que é necessário trabalhar a desfusão cognitiva para em seguida ele se engajar em novos comportamentos.

Bom, então é só chegar no consultório e pedir para o cliente repetir umas palavrinhas?! Claro que não. Além do conhecimento teórico, os psicólogos vêm buscando produzir evidências sobre suas diversas intervenções e para isso é necessário certo rigor científico para que fiquem claras quais variáveis de fato estão produzindo mudanças. Nesse sentido, embora a técnica da repetição de palavras venha sendo usada por terapeutas há algum tempo, somente aos poucos, questões sobre a especificidade da repetição tem sido clarificadas. Por exemplo, um estudo de 2009, de Masuda e colaboradores, demonstrou ser necessário repetir a palavra por ao menos 20 segundos para haver uma redução significativa no quanto o indivíduo acredita naquele pensamento. Já o estudo que estamos abordando aqui versou sobre o ritmo da repetição e trouxe um debate acerca do porquê esta técnica funciona.

Esses pesquisadores recrutaram 32 estudantes universitários que foram solicitados a escolher uma palavra de avaliação sobre si mesmos (em geral, um adjetivo) que lhes trouxesse sentimentos dolorosos. Algumas das palavras escolhidas foram “fraco”, “inútil” e “egoísta”. Os participantes foram divididos aleatoriamente em três grupos. Nos diferentes grupos, a palavra-alvo deveria ser repetida a cada intervalo de tempo diferente: meio segundo, 1 segundo e 2 segundos. Para medir a eficácia das atividades, os participantes responderam a uma escala em que relatavam, atribuindo um número de zero a cem, o quanto acreditavam na palavra escolhida e o quão desconfortável se sentiam com ela. A escala foi aplicada logo antes, logo depois, e um mês depois da repetição.

Na aplicação da técnica, os pesquisadores apresentaram inicialmente uma outra palavra de tamanho semelhante àquela escolhida pelo participante para que ele pudesse praticar o ritmo da repetição. Essa fase de prática durava o tempo que fosse necessário para o participante se habituar ao ritmo. O objetivo era que os indivíduos não ficassem tão preocupados em estar falando na frequência solicitada e pudessem, ao invés disso, prestar atenção na palavra e na repetição em si. Em seguida a palavra de avaliação sobre si mesmo era repetida por 30 segundos no ritmo aprendido.

Uma hipótese era de que quando o participante repetisse a palavra em um ritmo diferente daquele que a fala costuma ocorrer (mais acelerado ou mais lento), haveria uma mudança de contexto e, com isso, a palavra poderia mudar de função. Assim, os autores consideraram que os melhores resultados seriam do grupo de meio segundo e de dois segundos. Outra possibilidade era de que quanto mais rápido o indivíduo repetisse a palavra, mais poderia haver uma extinção da sua função, devido a frequência da exposição. Nesse sentido, o grupo do ritmo de meio segundo apresentaria os melhores resultados.

No entanto, os resultados apontaram que os participantes dos 3 grupos acreditavam menos na palavra escolhida logo após a repetição. Já no quesito desconforto, apenas os participantes que repetiram a cada meio segundo e a cada 1 segundo apresentaram diferenças significativas na comparação logo antes x logo depois do exercício. Por fim, quando avaliada a manutenção desses resultados após um mês, apenas o grupo do ritmo de 1 segundo apresentou dados significativos para ambos os itens em questão. Esses achados não oferecem suporte para nenhuma das duas hipóteses!

Os autores argumentam que, para a ACT, é a exposição atenta ao estímulo aversivo como ele é que amplia as funções que este estímulo possui. Nesse sentido, modificar o estímulo pelo seu ritmo poderia atrapalhar o indivíduo na tarefa de discriminá-lo e estar em contato com ele como ele originalmente é (e não com modificações em seu ritmo, como foi manipulado). Mas isso continua aberto para discussões.

Portanto, esse artigo aponta para a importância do contínuo diálogo entre teoria, pesquisa e prática. Uma técnica, como a repetição de palavras, precisa ser pesquisada (isto é, avaliada e publicada) de maneira cada vez refinada para se buscar os melhores efeitos na prática clínica. E a teoria, por sua vez, pode ser construída e reconstruída, a partir daquilo que se encontra na pesquisa e na prática.

 

Para saber mais, acesse:

Tyndall, I., Papworth, R., Roche, B. & Bennett, M. (2017). Differential Effects of Word-Repetition Rate on Cognitive Defusion of Believability and Discomfort of Negative Self-Referential Thoughts Postintervention and at One-Month Follow-Up. Psychological Record, Vol 67, Issue 3, pp 377–386. https://doi.org/10.1007/s40732-017-0227-2.

Créditos da imagem: http://tocadospets.blogspot.com.br/2014/10/como-ensinar-um-papagaio-falar.html

Escrito por Júlia Castro C. Freitas, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista CAPES.

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