Por que é tão difícil manter comportamentos saudáveis?

josi dez

A obesidade é considerada atualmente uma epidemia global. Ao comparar o ano de 2016 ao de 1975, o número de pessoas obesas no mundo praticamente triplicou! (Organização Mundial da Saúde – OMS, 2017). Segundo dados do Ministério da Saúde (2017), mais da metade da população do Brasil está com o peso acima do recomendado e 18,9% dos brasileiros estão obesos.

A obesidade e o sobrepeso são definidos, pela OMS, como o acúmulo de gordura anormal ou excessiva que pode prejudicar a saúde. Eles estão associados com o aumento de diversos problemas de saúde, como doenças cardiovasculares, diabetes, distúrbios musculoesqueléticos e alguns tipos de câncer. Os fatores associados à obesidade e sobrepeso são grandes conhecidos: dieta rica em gordura e sedentarismo (OMS, 2017).

Para tratar a obesidade há algumas opções, como realizar dietas restritivas, atividades físicas regulares, cirurgias e/ou o uso de medicações, sendo que a realização de dietas e atividades físicas estão entre os fatores que contribuem para o maior sucesso na perda de peso (OMS, 2017). Infelizmente, 80% das pessoas que tentam uma dieta ou um programa de exercícios físicos fracassam, sendo esse um número bastante alto.

Diante desse cenário preocupante, Joshua Garner, Chelsey Brown e Sonia Levy, pesquisadores da Chicago School of Professional Psychology, nos Estados Unidos, defendem que a Análise do comportamento pode fornecer um melhor entendimento dos fatores que contribuem para a obesidade.

A obesidade é uma questão muito complexa, e que envolve diversos fatores. Um desses fatores, o qual os autores chamam a atenção no texto, é a manutenção a longo prazo dos comportamentos saudáveis, ou seja, é a pessoa conseguir se engajar em uma dieta ou exercício físico por um longo período de tempo e não desistir.

A literatura da análise do comportamento tem pesquisado sobre alguns temas como: a realização de exercícios físicos, aderência a um modo de alimentação mais saudável e a perda de peso. No entanto, ainda é limitada no ponto de manter as pessoas apresentando esses comportamentos a longo prazo.

O que ocorre na maioria das pesquisas na área é que a intervenção produz bons resultados durante sua aplicação, mas, quando é retirada, as pessoas voltam a apresentar os comportamentos anteriores à intervenção (ou seja, comportamentos relacionados ao desenvolvimento da obesidade). É muito importante a intervenção dar certo, mas manter os comportamentos saudáveis após a intervenção é crucial para a melhora da qualidade de vida dos indivíduos.

Diante desse problema eles elaboraram uma discussão em torno do fenômeno denominado “recaída”, que pode ajudar a melhorar o planejamento de programas de tratamento da obesidade. A recaída consiste na recorrência de uma resposta problema, por exemplo, voltar a comer muito açúcar, ingerir em excesso alimentos altamente gordurosos após uma dieta, abuso de álcool após um período de tratamento, etc.

Há três tipos de recaída: ressurgência, restabelecimento e renovação. A ressurgência é o reaparecimento do comportamento reforçado anteriormente que ocorre durante a extinção de um comportamento alternativo (ver Pontes e Abreu-Rodrigues, 2015).

Para entender melhor, vamos olhar para os três componentes envolvidos na ressurgência. Primeiro, um comportamento é reforçado (por exemplo, ingerir alimentos muito gordurosos ou ter uma vida sedentária). Então, esse comportamento é extinguido enquanto um comportamento alternativo é reforçado (por exemplo, iniciar uma dieta ou um programa de exercícios físicos – a pessoa pode ser reforçada diretamente por se engajar no exercício, pelo efeito da dieta ou do exercício no seu corpo e/ou pelo reforço social fornecido pela família e amigos). Por último, o comportamento alternativo é extinguido (iniciar uma dieta), e o comportamento anterior ressurge, ou seja, a pessoa volta a comer alimentos extremamente calóricos e ter uma vida sedentária!

A renovação ocorre quando um comportamento é colocado em extinção em um contexto diferente da linha de base. O condicionamento é conduzido em um contexto (por exemplo, ter uma vida menos ativa em casa e no trabalho), e esse mesmo comportamento é extinguido em um contexto diferente do primeiro (por exemplo, se exercitar na academia, ou seja, na academia a vida menos ativa é extinguida). Então, o responder ocorre novamente quando retorna ao contexto original, que, no caso, é ter uma vida menos ativa na casa ou trabalho, mesmo que a extinção esteja em curso (se exercitar na academia).

Tudo isso quer dizer que o engajamento em exercícios em um contexto diferente daquele em que o indivíduo é menos ativo pode influenciar a persistência do comportamento original quando ele retorna ao contexto original. Portanto, quando chegar em casa, a pessoa pode continuar abrindo frequentemente a geladeira para “beliscar” algumas comidas, e ficar sentada em frente à televisão por um longo período de tempo.

Já o restabelecimento ocorre quando o reforço é fornecido para uma resposta independente depois da extinção dessa mesma resposta, e, então, o comportamento previamente reforçado ocorre novamente. Ou seja, a resposta é reforçada, depois extinta, e, posteriormente, o reforço é apresentado novamente independente da ocorrência de uma resposta (Rodegheri, 2017). Isso acontece quando alguém que está de dieta vai a uma festa de aniversário e alguém lhe oferece um delicioso pedaço de bolo de chocolate recheado com morango e brigadeirão! Os autores falam que isso seria a conhecida “tentação”.

Joshua, Chelsey e Sonia também mencionam que a Teoria do Momentum Comportamental (TMC) é importante para a compreensão da recaída, pois ajuda a explicar o porquê da persistência de um comportamento, que no caso, é o engajamento em comportamentos não saudáveis.

A TMC diz que um contexto com alta densidade de reforçadores apresentará maior resistência à mudança de um comportamento comparado a um contexto com densidade mais baixa de reforçadores, quando for inserida alguma operação que modifica a taxa de respostas, como, por exemplo, a extinção.

A TMC auxilia na compreensão do porquê é tão difícil um indivíduo parar de comer alimentos gordurosos e se livrar da vida sedentária quando ele retorna ao ambiente em que esses comportamentos foram reforçados anteriormente, e a intensidade da(s) recaída(s). O comportamento de comer e o comportamento sedentário são fortemente associados com os estímulos discriminativos do contexto. Por exemplo, para o comportamento sedentário, temos como estímulos discriminativos o sofá e a televisão em casa, e o computador e a cadeira no trabalho. Como essa associação não é quebrada, então, o comportamento persiste apesar de receber tratamento em outro ambiente.

Portanto, ao elaborar uma intervenção que vise a manutenção à longo prazo de comportamento saudáveis é importante levar em consideração, em conjunto, os diferentes contextos envolvidos na vida pessoa e os comportamentos apresentados em cada um, os comportamentos alternativos que serão reforçados e os reforçadores envolvidos para cada resposta.

A obesidade é uma questão de saúde pública atualmente. Portanto, é muito importante ser estuda e serem desenvolvidas intervenções em que as pessoas consigam manter os resultados ganhos à longo prazo. Esse é um grande desafio, afinal, os cookies, cupcakes, as batatinhas fritas e hambúrgueres estão o tempo todo em nossa volta, e muitas pessoas estão atreladas a atividades profissionais sedentárias. Que tal se aprofundar nesse tema?

Quer saber mais?

Consulte o texto:

Garner, J., Brown C., & Levy, S. (2017). Diet and exercise failures: A theoretical extension of relapse. The Psychological Record, 161-168.

Outras referências:

Ministério da Saúde. (2017). Vigitel Brasil 2016. Recuperado em http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2017/junho/07/vigitel_2016_jun17.pdf

Pontes, T. N. R., & Abreu-Rodrigues, J. (2015). Ressurgência comportamental: Uma revisão. Acta Comportamentalia, 23(3), 339-353.

Rodegheri, A. C. N. G.  (2017). Restabelecimento, ressurgência, renovação e resistência à mudança: Efeitos da taxa de respostas e de reforços. 2017. Dissertação, Universidade de Brasília, Brasília.

World Health Organization. (2017). Obesity and overweight. Recuperado de http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs311/en/

Fonte da imagem: https://tirinhasdogarfield.blogspot.com.br/2010/07/dieta-4.html

 

Escrito por Josiane Maria Donadeli, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

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