A análise do comportamento pode se beneficiar da psicologia cognitiva? E o inverso, é verdadeiro?

tahcita dez

Quando eu estava na graduação, e já “sabia” que queria ser analista do comportamento, eu costumava “criticar” muito a psicanálise, outra abordagem que o curso trazia. Depois de algum tempo, fui percebendo que, para poder criticar construtivamente uma área, era preciso conhecê-la profundamente. Assim, compreendi que não poderia criticar a psicanálise ou qualquer área que fosse, a menos que eu me debruçasse em seus textos por um período considerável de tempo, e, ainda assim, atualmente me policio e advogo pela sinceridade (“Eu não conheço bem essa área, prefiro não opinar sobre”) sempre que me perguntam sobre algo fora da minha área de estudo e pesquisa (mesmo que seja dentro da análise do comportamento).

Mas porque estou falando sobre isso? Eu queria saber de vocês, analistas do comportamento que estão lendo esse texto, o que vocês sabem sobre psicologia cognitiva? Por que vocês não seguiram essa área? Algumas respostas que podem surgir dizem respeito às instâncias internas, os tais “modelos mentais” (esse é o termo correto?) como causadores de comportamento. Skinner mesmo escreveu um texto, em 1977, intitulado “Por que não sou um psicólogo cognitivo?”, enumerando suas razões. Mas será que a psicologia cognitiva não tem nada a oferecer a nossa ciência comportamental?

Recentemente, saiu um comentário de Jan de Houwer, professor da Universidade de Ghent, e psicólogo com formação e atuação na abordagem cognitiva, na revista The Behavior Analyst. O objetivo do trabalho foi justamente discutir as possíveis contribuições das chamadas abordagens funcionais na psicologia cognitiva, e desta, nas abordagens funcionais (a AC incluída aqui). É importante destacar que este não é o primeiro trabalho do tipo a ser publicado, mas a interlocução da AC com a psicologia cognitiva é algo que tem sido pouco discutido em periódicos das duas áreas.

Partindo da tese de que as duas áreas são fundamentalmente diferentes, mas que se apoiam mutuamente, de Houwer começa falando que a psicologia cognitiva e a AC atuam em diferentes níveis de explicação, ou seja, que o que cada área busca explicar, assim como o que é utilizado para explicar são coisas diferentes: a AC buscaria explicar comportamento em termos de variáveis ambientais e a psicologia cognitiva buscaria explicar efeitos comportamentais em termos de mecanismos mentais. Assim, quando pensamos no condicionamento clássico (pareamento de som e choque, por exemplo), enquanto os analistas do comportamento buscariam explicar o comportamento (ou melhor, as respostas) de condutância da pele a partir da verificação do pareamento entre o som e o choque, os psicólogos cognitivos buscariam explicar o próprio condicionamento clássico (efeito comportamental) a partir de mecanismos mentais, como a formação de associações da representação do som e do choque na memória. de Houwer escreve que nossas análises funcionais são, para os psicólogos cognitivos, apenas descrições dos fenômenos comportamentais (ao invés de explicações). Por outro lado, para nós, analistas do comportamento, não nos importaria explicar como o ambiente influencia o comportamento (e.g., o que acontece com um indivíduo que o possibilita reorganizar classes de estímulos equivalentes?), porque nossas análises funcionais servem ao propósito da AC que é predizer e influenciar (controlar) o comportamento (e.g., sabemos que a mudança nas contingências de uma ou mais relações previamente aprendidas pode levar ao rearranjo de tais classes).

Reconhecer que essas duas áreas se voltam para diferentes questões, ou seja, buscam resolver diferentes problemas nos auxilia a não vê-las mais como áreas que competem entre si, eliminando, portanto, uma das críticas que os defensores de cada uma dessas áreas costumam fazer (e.g., o comportamento é melhor explicado em termos de respostas abertas e encobertas vs. o comportamento é melhor explicado em termos de processos mentais).

Vimos, até o momento, algumas das diferenças nas duas áreas. Mas como áreas que se baseiam em filosofias distintas podem se apoiar mutuamente? De acordo com de Houwer, o conhecimento das relações entre ambiente e comportamento que nós, analistas do comportamento, possuímos é justamente o que a psicologia cognitiva busca explicar. Assim, a AC pode auxiliar provendo os modelos mentais que a psicologia cognitiva utiliza em seus estudos. A psicologia cognitiva, por outro lado, pode auxiliar no desenvolvimento da AC porque busca lidar não somente com o conhecimento funcional já existente, mas também na predição de novos conhecimentos funcionais que a AC poderia incluir em seus princípios comportamentais.

Enquanto a AC estuda relações comportamento-ambiente em termos de princípios funcionais gerais que sejam precisos, mas também amplos em termos de escopo, psicólogos cognitivos geralmente descrevem relações comportamento-ambiente em termos topográficos, e tratam os efeitos comportamentais como substitutos (proxy) de processos mentais. Assim, em vez de criar vários modelos mentais para cada instância de determinado fenômeno, os psicólogos cognitivos poderiam se beneficiar do conhecimento da AC e desenvolver explicações mentais mais amplas, que possam explicar várias instâncias de um mesmo princípio. Outra forma da AC se beneficiar com a psicologia cognitiva é buscar sua literatura[1], uma vez que há muitos estudos demonstrando efeitos comportamentais que podem ser relacionados a princípios comportamentais. Ao fazer tal link, é possível utilizar o conhecimento obtido sobre determinado efeito para aprender mais sobre o princípio comportamental. Por exemplo, ao relacionar o efeito Stroop[2] com o conceito de controle de estímulos da AC, pesquisadores podem explorar a literatura deste efeito comportamental para aprender mais sobre essa temática.

de Houwer comenta que a AC e a psicologia cognitiva parecem, em muitos contextos, duas tribos vivendo em ilhas diferentes e remotas de um arquipélago. Cada tribo possui uma linguagem própria e formas diferentes de fazer atividades (pesquisa). A busca de uma interlocução entre as duas áreas, portanto, pode ser vista como a dificuldade de um antropólogo que busca entender as atividades desenvolvidas em uma ilha pela tribo, à distância. Assim, isso demandará esforços que ambos os “lados” (as tribos) deverão se comprometer em fazer, mesmo sem saber ao certo quais podem ser os benefícios à curto, médio ou longo prazo.

de Houwer conclui: “Baseado na crença fundamental de que, a longo prazo, a ciência só pode se beneficiar de trocas de dados, visões e ideias, estou convencido que a psicologia como um todo irá se beneficiar de melhores relações entre analistas do comportamento e pesquisadores cognitivos” (p. 9). E você, já parou para pensar sobre o que as outras áreas tem a nos oferecer? Não passou da hora de parar de pensarmos em nós contra eles e pensarmos no que podemos fazer juntos? Que tal repensar nossos preconceitos com relação a outras áreas dentro (e fora) da psicologia?!

Ficou curioso? Aqui está o comentário:

de Houwer, J. (2017). A functional-cognitive framework for cooperation between functional and cognitive researchers in the context of stimulus relations research. The Behavior Analyst. Advanced online publication. doi: 10.1007/s40614-017-0089-6

Referências

Roediger, H. L. (2005). O que aconteceu com o behaviorismo? Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 1(1), p. 1-6.

Skinner, B. F. (1977). Why I am not a cognitive psychologist? Behaviorism, 5(2), p. 1-10.

Fonte da imagem: https://www.memoriaboa.com/estilos-de-aprendizagem/

[1] É interessante lembrar que nos estudos experimentais em psicologia cognitiva estuda-se, também, comportamento (ver, por exemplo, Roediger, 2005).

[2] Esse efeito tem sido descrito como a diferença na latência para nomear uma cor impressa em uma palavra colorida quando há correspondência entre a cor do estímulo e a da palavra e quando não há (e.g., dizer “azul” diante da palavra “AZUL” impressa em azul versus dizer “vermelho” na presença do estímulo “AZUL” impresso em vermelho.

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

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