Está cansativo! E aí te pedem para continuar… você seguirá o que foi pedido ou vai escapar?

marlon 2018.png

Imagine que você está fazendo uma tarefa muito entediante e repetitiva, como, por exemplo, carimbar uma pilha com vários documentos no trabalho. Aqui você já deve estar desanimado só de pensar sobre, certo? Bom, agora continuando em nossa tarefa chata, vamos supor que você descubra que pode carimbar somente a cada dez páginas (digamos que isso estava no regimento da empresa). Ótimo! Agora, você deve estar pensando: “Oba! Carimbar vai ficar menos chato”. Porém, a alegria durou pouco, pois de repente seu chefe entra na sala e diz: “Você deve carimbar TODAS as páginas!”. E aí? Você continuaria a carimbar de acordo com o regimento da empresa ou seguiria a ordem de seu chefe?

Questões semelhantes ao exemplo foram investigadas no experimento de Jeróme Alessandri, Carlos Cançado e Josele Abreu-Rodrigues disponível na revista científica Behavioural processes. Esses pesquisadores investigaram diferentes valores aversivos para uma contingência de reforçamento negativo (esquiva) no seguimento de instruções fornecidas pelo experimentador. Em outras palavras, a depender da intensidade aversiva do esforço, as pessoas diminuiriam suas esquivas com base em uma instrução?  Interessante, né? Vamos saber mais sobre o estudo?

Para estabelecer os procedimentos experimentais 14 participantes passaram por uma avaliação de critério de força, na qual uma barra deveria ser apertada com o máximo de sua força e cada participante recebeu seu critério com base em 35% e 70% do total da força máxima individual. A tarefa de apertar a barra não era considerada prazerosa por requerer esforço constante e repetitivo.

Os participantes tomavam conhecimento do critério de força que estavam desempenhando por um contador vertical da força exibido em um monitor. Os participantes foram instruídos a sempre manter o topo máximo do contador, ou seja, no nível do critério de força de cada condição (35% ou 70% da força total). Adicionalmente, o monitor exibia as palavras “pressione” quando o participante deveria apertar a barra e “pare” quando havia um intervalo de descanso, sem pressão à barra. Também foram instruídos que poderiam pressionar a tecla com a seta para baixo do teclado a qualquer momento, nesta ocasião, os participantes não receberam a instrução de que pressionar a seta para baixo produzia os intervalos de descanso.

Duas fases experimentais foram realizadas individualmente: linha de base e teste. Nas sessões da linha de base foram medidas respostas de intervalo produzidas ao pressionar a tecla para baixo, que produzia um intervalo de 5s da pressão à barra (esquiva). Alguns participantes iniciaram a primeira sessão com 35% do critério de pressão e outros com 70%, todavia na segunda sessão estes critérios foram invertidos. Já nas duas sessões de teste, o cenário era o mesmo, porém o experimentador fornecia a seguinte instrução: “Agora eu quero que você faça poucos intervalos nas duas próximas sessões. Para isso, você deverá pressionar bem menos a tecla ‘seta para baixo’. Está claro? ”.

Durante o teste quatro participantes realizaram suas sessões com a presença do condutor do experimento dentro e/ou próximo à sala. Isso teve como objetivo verificar se a presença da pessoa que forneceu instruções afetaria o seguimento da regra.

Os principais resultados indicam que, devido ao grande esforço exigido na fase de teste quando era solicitado 70% de esforço, ocorreu maiores respostas de intervalo em comparação à fase de linha de base, ou seja, as instruções não foram seguidas. Neste caso, um grande custo de resposta (realizar mais esforço físico) atuou como estimulação aversiva de maior intensidade e por isso os participantes expostos à 70% de critério não seguiam instruções para se esquivar do esforço, uma vez que a alta intensidade das contingências aversivas parece ter mais controle sobre comportamentos de esquiva do que seguimento de regra (instrução do experimentador). Interessante notar que quando o esforço era de 35%, em geral, as respostas eram mais condizentes com a instrução do experimentador, ou seja, ocorreram menores intervalos ao clicar na seta para baixo do teclado.

A ausência ou presença do experimentador na sala não teve resultados significativos. Sobre isso os autores discutem que, devido ao medidor de força ser mostrado na tela do monitor, os participantes podem ter achado que estavam sendo monitorados, impedindo que a presença do experimentador influenciasse no seguimento da instrução. Mas esta questão ficou pouco clara e deve ser investigada em estudos futuros.

Podemos pensar em relação a ausência ou presença do experimentador: e se a instrução fosse fornecida por uma figura com maior poder de autoridade (como no nosso exemplo, um chefe)? Será que, nesta situação, a instrução seria seguida na presença dessa pessoa? Hum…. Acho que precisaremos de um novo estudo, hein! E você vai seguir essa instrução ou escapar?

Quer saber mais?

Alessandri, J., Cançado, C. R., & Abreu-Rodrigues, J. (2017). Effects of reinforcement value on instruction following under schedules of negative reinforcement. Behavioural processes, 145, 27-30.

Texto escrito por Marlon Alexandre de Oliveira. Doutorando em Psicologia pela UFSCar e pesquisador do INCT-ECCE Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino. Bolsista CAPES.

 

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s