O que as pesquisas sobre aprendizagem com bebês têm a nos dizer?

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Você já parou para pensar com qual idade nós adquirimos a habilidade de discriminar entre diferentes sons? E quando começamos a imitar? Como são feitos os estudos sobre condicionamento operante com bebês? Que tipo de respostas eles investigam? Quais são os reforçadores e os esquemas de reforçamento utilizados? Quais são as dificuldades na execução de experimentos com bebês? Essas e outras perguntas foram abordadas na pesquisa de Martha Pelaez e Katerina Monlux, publicado recentemente na revista European Journal of Behavior Analysis.

Apesar de atualmente os estudos analítico-comportamentais sobre condicionamento operante[1] com bebês serem escassos, essa literatura data do início da década de 1960. Entre as respostas estudadas, destacam-se o levantamento e/ou giro de cabeça, sucção de alta amplitude (high amplitude sucking – HAS, em inglês), rastreamento visual-auditivo, vocalizações, fazer caretas, tatear, sorrir, chorar, agarrar, tocar, alcançar um objeto, se afastar, imitar, entre outros.

Nessas pesquisas, reforçadores sociais condicionados são os mais utilizados, como a “fala de bebê” (Motherese speech), o toque da mãe no bebê, expressões faciais de felicidade/sorrir para a criança, etc. Existem, inclusive, pesquisas que tem como objetivo condicionar tais estímulos sociais em crianças com transtorno do espectro autista, para atuarem como reforçadores no ensino de outras habilidades. Vídeos também podem ser utilizados como reforçadores quando outros reforçadores sociais não estão disponíveis, ou quando se mostram inefetivos, mas é preciso tomar cuidado, uma vez que é possível que a remoção desses vídeos possa causar angústia (distress) no bebê, ocasionando, às vezes, o término da sessão. Há também problemas relacionados à diferença de formato (2D vs. 3D), de modo que habilidades ensinadas por meio de vídeos podem não ser generalizadas para o ambiente natural dos bebês.

Com relação aos esquemas de reforçamento, muitos já foram utilizados, como o reforçamento contínuo (CRF), intervalo-fixo (FI), esquemas não-contingentes (NCR) e o reforçamento diferencial de outro esquema (DRO). Nessas pesquisas, foi possível identificar, por exemplo, que bebês com apenas quatro meses de idade são capazes de discriminar e responder diferencialmente a diferentes esquemas de reforçamento. Esses estudos permitiram mostrar, por exemplo, que a efetividade do reforçamento é maior quando ele é imediato, em comparação com atrasado (três ou seis segundos de atraso, por exemplo), além de dever ser contingente com o comportamento-alvo do bebê, e o reforçamento não-contingente tem sido relacionado a uma aprendizagem mais lenta (ou não-aprendizagem).

As pesquisas têm mostrado também que é possível condicionar não apenas uma resposta, como, por exemplo, o chutar, mas também sua intensidade. Procedimentos de reforçamento conjugado, nos quais o reforçamento ocorre de acordo com a intensidade da resposta do bebê (quanto mais intensa uma resposta, maior o reforçamento – com luzes mais intensas, por exemplo) tem possibilitado isso.

Uma habilidade que não costuma estar presente nos bebês até aproximadamente nove a 12 meses de idade é o que é chamado de referenciamento social, uma forma de aprendizagem discriminativa na qual a expressão facial do cuidador do bebê sinaliza as consequências de um comportamento novo para o bebê. Apesar disso, pesquisas da área mostram que bebês de quatro a cinco meses demonstraram respostas de aproximação ou evitação de objetos após serem condicionados diante das expressões de seus cuidadores de alegria e de medo, respectivamente.

Quando habilidades como a imitação vocal e a discriminação de diferentes sons são aprendidas?

Estudos mostram, por exemplo, que bebês com três meses de idade já são capazes de imitar alguns sons vocais emitidos por suas mães. Bebês de apenas três dias de vida podem ser capazes de discriminar entre a voz de suas mães e de uma mulher estranha. Além disso, bebês suecos e americanos (EUA) com sete a 75 horas de nascimento foram capazes de discriminar vogais de sua língua natal das vogais da outra língua.

Com apenas oito semanas de idade, já é possível estudar memória de reconhecimento, ou seja, responder diferencialmente a estímulos familiares e novos. Após condicionar bebês a emitir respostas como chutar ou pressionar uma alavanca, é possível estudar o reconhecimento de diversos estímulos. Existem inclusive pesquisas mostrando que é possível condicionar chutes dados por bebês ainda nas barrigas de suas mães ao torná-los contingentes com um toque/pressão dado pela mãe na barriga. A exposição a estímulos auditivos antes do nascimento pode, inclusive, afetar as preferências dos bebês após o nascimento. Estudos mostram, por exemplo, que bebês emitem respostas mais frequentes diante de estímulos que foram expostos a eles antes de nascerem (leitura de uma passagem de um livro; sons de um programa de TV).

Como identificar reforçadores?

Tipicamente, nos estudos os experimentadores utilizam estímulos sociais ou não-sociais (e.g., voz de fala da mãe, toque da mãe no bebê) contingentes a um comportamento do bebê, como contato visual ou vocalização. Depois que o responder é estabilizado com o primeiro estímulo, outros estímulos são adicionados, um a um, sempre após a estabilização do responder diante do estímulo anterior. Após comparar as taxas ou a duração do comportamento do bebê entre os diferentes estímulos, o comportamento com a maior taxa ou duração é considerado o mais preferido por ele.

Uma questão importante na identificação de reforçadores é separar os efeitos reforçadores de efeitos eliciadores que podem ser gerados pelas interações maternais. Para isso, podem ser utilizados os chamados “yoked control procedures”. Em tais procedimentos, o estímulo a ser avaliado é comparado em diferentes contingências, por exemplo, um gesto da mãe no bebê é contingente ao contato visual na condição experimental, e dado de maneira não contingente na condição controle.

 Cuidados especiais nas pesquisas com bebês

Pesquisas com bebês tem nos dado a oportunidade de conhecer mais e melhor como os bebês aprendem, com qual idade algumas habilidades podem ser estabelecidas, etc. Entretanto, para que isso aconteça, é necessária que uma série de cuidados sejam tomados. Por exemplo, é possível que ocorra habituação após o uso de reforçadores de maneira bastante repetitiva, e inclusive a motivação do bebê pode ser alterada por fatores de saciação e privação como fome, sede, cansaço e doença. Apesar de essas serem questões pertinentes também para outras populações humanas, nos últimos elas podem ser evitadas/modificadas após relato verbal, uma habilidade que os bebês ainda não possuem. O uso de extinção e/ou de reversão, idealmente utilizados para demonstrar a efetividade de reforçadores, por exemplo, deve ser utilizado com cautela, pela angústia (distress) que podem causar aos bebês. Geralmente a extinção ocorre quando o cuidador não demonstra expressões faciais salientes ao bebê, e isso tem sido seguido frequentemente pelo choro do bebê. Apesar dessa dificuldade, as alternativas utilizadas tem sido o uso de reforçamento não-contingente ou DRO como condições-controle, os quais, infelizmente, também podem gerar tais efeitos negativos nos bebês. Outras variáveis que podem ser importantes na análise dos resultados é a saliência do estímulo para cada bebê e a competência verbal destes no início da pesquisa.

Como podemos perceber com base nos dados que as autoras mostraram, há várias descobertas realizadas do “mundo” dos bebês, mas também há vários aspectos que poderiam ser pesquisados e aperfeiçoados.

Se interessou? Quer saber mais?

O estudo: Pelaez, M., & Monlux, K. (2017). Operant conditioning methodologies to investigate infant learning. European Journal of Behavior Analysis, 18(2), p. 212-241.

Referências

Sturdy, C. B., & Nicoladis, E. (2017). How much of language acquisition does operant conditioning explain? Frontiers in Psychology, 8(1918), p. 1-5.

Fonte imagem: http://www.independent.co.uk/extras/indybest/kids/baby-tech-essentials/best-baby-mobiles-for-development-uk-reviews-10369751.html

[1] Parece pleonasmo falar em estudos analítico-comportamentais sobre condicionamento operante, não? O fato é que existem muitas pesquisas que estudam habilidades em bebês que podem ser condicionadas, mas não as creditam como comportamento aprendido via condicionamento operante. Para saber mais, leia o trabalho de Sturdy e Nicoladis (2017).

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

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