O que a linguagem e o medo têm em comum?

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Alguma vez você, ou alguém que você conhece, sofreu um acidente de trânsito com um carro e depois passou a ter medo de outros carros e veículos? Ou talvez você, ou alguém, foi assaltado em um local e passou a evitar aquele local e locais semelhantes por sentir medo? Essas situações e sentimentos são realmente muito ruins, mas bastante comuns. O que acontece é o que chamamos de generalização do medo, em que uma resposta ocorre para estímulos não relacionados a uma aprendizagem direta de medo, mas formalmente semelhantes a um estímulo diretamente condicionado.
Muitos estudos encontraram evidências desse tipo de generalização para propriedades formais dos estímulos, como cores, e também para propriedades conceituais, como entre palavras semanticamente relacionadas. Além de respostas de medo, podem ser generalizadas respostas de evitação, essenciais no estabelecimento e manutenção de transtornos de ansiedade, ainda que esse comportamento venha recebendo pouca atenção em pesquisas dessa natureza.
Interessados em demonstrar a generalização do medo, da evitação e da expectativa de apresentação de um estímulo aversivo, Boyle, Roche, Dymond e Hermans (2016) utilizaram pares de estímulos semanticamente relacionados para realizar o experimento apresentado a seguir. Nesse experimento, feito com 28 estudantes universitários, choques foram utilizados como estímulos incondicionados aversivos, que foram considerados incômodos, porém não doloridos para eles.
Na primeira fase do experimento foi realizado um treino de medo condicionado, em que algumas palavras foram pareadas com uma aplicação de 0,5 s de choque. As palavras utilizadas no condicionamento foram, em tradução livre, “Caldo”, “Balela” e “Lacrimejar” (do inglês Broth, Fib e Weep), que foram seguidas de choque (CS+), e “Auxiliar”, “Indisposto” e “Briga” (do inglês Assist, Ill e Brawl), que nunca foram seguidas de choque (CS-). Essas palavras e seus pares que foram utilizados na fase seguinte são avaliadas como altamente relacionadas em associação livre, segundo base de dados da University of South Florida Word Association, Rhyme and Word Fragmentation Norms.
Após o treino com as apresentações das palavras e aplicações de choque, iniciou-se a Fase 2. Nela, os participantes foram avisados que poderiam evitar os choques pressionando a barra de espaço do teclado do computador quando as palavras aparecessem na tela. As mesmas palavras foram apresentadas novamente, por mais 10 vezes cada. Depois dessa etapa, um teste de generalização foi iniciado sem avisos ao participante. Nesse momento, as palavras utilizadas anteriormente continuavam a ser apresentadas, mas foram intercaladas com palavras semanticamente relacionadas que nunca foram seguidas de choque. As palavras semanticamente relacionadas àquelas seguidas de choque na primeira fase foram, em tradução livre, “Sopa”, “Mentira” e “Chorar” (do inglês, Soup, Lie e Cry) (denominadas GCS+ no estudo), e as relacionadas às não seguidas de choque foram “Ajudar”, “Doente” e “Luta” (do inglês, Help, Sick e Fight) (denominadas GCS- no estudo). Por fim, os participantes avaliaram suas expectativas em receber choques quando pressionavam ou não a barra de espaços, em uma escala de 5 pontos, em que 5 significava “definitivamente esperava receber um choque” e 1 significava “definitivamente não haveria choque”.
Foi investigado pelos autores: (1) o índice galvânico da pele dos participantes, medido por eletrodos colocados em suas mãos; (2) a taxa de respostas de evitação deles nas etapas de treino e teste; e (3) a expectativa deles em receber choques ou não quando emitiam respostas de evitação. Dentre os resultados, foi observado que as medidas eletrodermais dos participantes foram significativamente maiores para as palavras seguidas de choque (CS+) do que para as palavras não seguidas de choque (CS-) na Fase 1, o que demonstra a efetividade do pareamento realizado. Também foram observadas diferenças entre CS+ e CS-, e entre as palavras semanticamente relacionadas GCS+ e GCS-, na Fase 2, mas não houve diferenças entre CS+ e GCS+, ou seja, as apresentações do estímulo diretamente pareado com o choque e aquele semanticamente relacionado tiveram efeitos semelhantes sobre a condutância da pele dos participantes.
Quanto a evitação, no treino os participantes emitiram mais respostas para CS+ do que para CS-, ou seja, aprenderam a evitar os estímulos relacionados ao choque e a não-evitar os estímulos que não eram seguidos de choques. Sobre a generalização dessas respostas, a evitação foi maior para os estímulos do grupo CS+ e GCS+ do que para CS- e GCS-. Isso indica que a evitação e a não-evitação diretamente aprendidas anteriormente foram mantidas nessa etapa, e em relação aos estímulos semanticamente relacionados, foi visto que a generalização emergiu como esperado, sendo maior para as palavras semanticamente relacionadas à CS+ e menores para as relacionadas à CS-. No entanto, é importante apontar que os estímulos do grupo GCS+ produziram menores taxas de evitação do que os diretamente condicionados (CS+), o que é bastante comum na literatura sobre generalização, em que não é esperado a ocorrência de uma resposta tão robusta diante de um estímulo apenas testado, quanto diante daquele diretamente aprendido.
Quanto a avaliação da expectativa de receber choques, ela foi maior para CS+ e GCS+ se comparado a CS- e GCS-, quando o participante avaliou o que esperaria que acontecesse caso não emitisse a resposta de evitação. Ou seja, como esperado, o participante tinha expectativa de receber choques diante dos estímulos diretamente pareados com choque na primeira fase e daqueles semanticamente relacionados, mas não diante dos estímulos não pareados com choque e dos relacionados, caso não pressionasse a barra de espaço. Por outro lado, paradoxalmente, quando o participante avaliou o que esperaria que acontecesse caso emitisse a resposta de evitação, a expectativa de receber choques foi maior para os estímulos não pareados diretamente com choques, CS-, e os semanticamente relacionados, GCS-. Isto poderia ser explicado pela história que os participantes tiveram de receberem um choque por não emitirem a resposta correta de evitação diante de CS+. Em decorrência disso, eles poderiam esperar também receberem um choque ao não emitirem a resposta “correta”, de não-evitação, para o CS-, assim como para o GCS- que é semanticamente relacionado.
Concluindo, o estudo buscou demonstrar em laboratório um processo que ocorre com frequência em nosso dia a dia, através da linguagem, ou seja, da generalização. Sua importância se dá pela demonstração da generalização para palavras semanticamente relacionadas e por avaliar o comportamento de evitação neste paradigma. Nesse sentido, podemos dizer que o que a linguagem e o medo têm em comum é que a primeira é importante para a propagação do segundo. Assim, se alguém sente medo diante da palavra anfíbio e diante da palavra sapo, por exemplo, é possível que esse sentimento esteja sendo propagado via generalização. Como a generalização é importante para a propagação de comportamentos, como o de evitação, e a evitação se apresenta como um comportamento central em transtornos de ansiedade, estudos como esse devem continuar avançando na tradição analítico comportamental.

Para saber mais, veja o texto na íntegra:
Boyle, S., Roche, B., Dymond, S. & Hermans, D. (2016). Generalisation of fear and avoidance along a semantic continuum. Cognition and Emotion, 30, 340 – 352.

Imagem:

Heloísa Ribeiro Zapparoli, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo no LECH- Laboratório de Estudos do Comportamento Humano-UFSCar

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Como lidar com o ciúmes?

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Podemos dizer que o ciúmes é um sentimento desagradável para a maioria das pessoas que o sentem, aparecendo como uma queixa frequente nos atendimentos clínicos. Quando surge em uma forma patológica, manifestações de ciúmes também estão muito atreladas a ocorrências de violência doméstica (Costa & Barros, 2010; Oliveira & Paranaguá, 2017). Mas mesmo em sua forma mais ‘amena’ (que não é considerada patológica), as pessoas têm diferentes limiares de tolerância e valoração em relação a esse sentimento, tanto as que sentem o ciúme quanto as que são alvo do mesmo. Ainda, existe uma boa discussão em torno das perguntas: ciúmes tem a ver com amor e/ou paixão? De onde surge o ciúmes e quando ele se torna patológico? Embora, como dito, este seja um tema recorrente na clínica, não existem muitos escritos e estudos sistemáticos sobre ele na literatura comportamental (Costa & Barros, 2010). Ao se tentar fazer uma análise funcional do fenômeno, devemos, primeiramente, considerá-lo como uma classe inteira de comportamentos públicos e privados, tanto operantes quanto respondentes.

E em quais contingências isso aparece? Costa & Barros (2010) apontam para o que Skinner (1948/1976) hipotetizou: o ciúmes aparece em contingências de competição/comparação – em sociedades cooperativas, segundo o autor, o ciúmes dificilmente teria lugar. Isso é indício de que o terceiro nível de seleção atua fortemente em comportamentos ciumentos, bem como influencia na história ontogenética dos indivíduos que, a depender do contexto individual, exacerba mais esse tipo de situação. Mas a filogênese não estaria na base de tudo isso? Ciúmes não seria algo natural, no sentido de que até animais não-humanos também o parecem sentir e expressar? Não seria uma espécie de instinto?

        As áreas evolucionista e cognitivista são as mais engajadas em estudos sobre esse assunto. E, se temos um corpo preparado para eliciar e evocar essa classe de comportamentos, é porque isso também é produto de seleção natural, que de fato proporciona contextos competitivos entre indivíduos, embora também possa promover cooperação sob certas circunstâncias (Nowak, 2006). No entanto, é preciso considerar que, há mais de década, já se sabe que a seleção não é uma via de mão única e que a aprendizagem social tem muita influência sobre as pressões seletivas que atuam sobre nós. Áreas como a Teoria da Construção de Nicho (e.g., Laland & Brown, 2006; Laland & O’Brien 2012) e Coevolução genes-cultura (e.g., Feldman & Laland, 1996; Laland, Odling-Smee & Myles, 2010) já lidam com esse feedback entre níveis de seleção, com alguns pressupostos teóricos que dialogam bem com a Análise do Comportamento (Sampaio, Ottoni & Benvenuti, 2015). Portanto, não é mais algo muito aceitável dizer que o ciúmes é uma lei natural incontestável e imutável, no sentido de que nascemos e morremos assim (isto é, é algo completamente inato). Este apelo por si só não faz sentido.   

        E, enquanto analistas do comportamento, como descrever as contingências do comportamento ciumento, já tendo a dica de que ele está intimamente atrelado à competição? O que isso significa, afinal? Comportamentos ciumentos são respostas que emergem em situações coercitivas, isto é, onde há sinalizações antecedentes de ameaça de perda de reforçadores para um terceiro (punição negativa) e o indivíduo ciumento se comporta para evitar tal perda (reforço negativo). O indivíduo pode também ser reforçado positivamente ao angariar atenção do parceiro (Menezes & Castro, 2001). O parceiro pode avaliar o comportamento ciumento de diversas maneiras, sendo que essa valoração depende muito do referencial cultural que carrega. Oliveira & Paranaguá (2017) destacam bem que o ciúmes pode ser confundido com o amor a partir do momento em que muitos parceiros tratam-no como demonstração de afeto e preocupação com a manutenção da relação. Dentro do rol de comportamentos que se nomeia como amor romântico, muito presente na sociedade ocidental, a demonstração de ciúmes é reforçada positivamente em alta magnitude (Costa & Barros, 2010).

Além disso, a não-demonstração de ciúmes diante de uma situação de competição gera consequências punitivas nas sociedades competitivas (Costa & Barros, 2010), geralmente com relacionamentos guiados pelo que se nomeia de amor romântico e que estimulam a competição por parceiros. Uma situação muito comum de punição à não-demonstração de ciúmes é a seguinte: um rapaz acompanha a namorada em um bar e um terceiro a aborda publicamente; diante da não-demonstração de ciúmes do rapaz, seus amigos cobram-lhe uma atitude em relação ao terceiro: “Você vai deixar que ele fale com sua namorada assim?!”.  É de se esperar, então, que boa parte da população demonstre ciúmes, pois as contingências às quais as pessoas estão submetidas no geral ocasionam isso, salvo exceções.

Oliveira & Paranaguá (2017) ainda fazem a distinção entre o ciúmes moderado e o ciúmes excessivo (ou patológico). Este segundo estaria relacionado à emissão de respostas ansiogênicas mesmo quando não há fundamento real para identificação de rival e/ou competição por reforçadores, levando a prejuízos na esfera pessoal e interpessoal. O indivíduo ciumento passa a verificar compulsoriamente suas dúvidas quanto à fidelidade do parceiro, chegando a padrões obsessivos delirantes, o que levou pesquisadores a estabelecerem um paralelo entre comportamentos ciumentos patológicos e o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) (Oliveira & Paranaguá, 2017).

        Para lidar com este problema, existem algumas estratégias possíveis de intervenção. Oliveira e Paranaguá (2017) sugerem uma intervenção clínica sobre o ciúmes patológico baseada na extinção e punição destes comportamentos. O uso apenas da extinção e da punição é questionável, pois sabemos que tais procedimentos não ensinam novos comportamentos e provocam efeitos colaterais difíceis de manejar. Dado que o ciúmes patológico pode se assemelhar em algumas características com o TOC, podemos adotar sugestões referentes ao modelo comportamental deste transtorno, tentando quebrar o elo (comportamento) inicial do encadeamento das compulsões, procedimento muito bem discutido por Copque & Guilhardi (2008). Estes comportamentos ciumentos obsessivos surgem à sua maneira em cada história individual e o terapeuta deve, por isso mesmo, identificar a história de contingências à qual o sujeito esteve exposto e verificar quais são as contingências específicas às quais responde no momento presente. Ressalta-se ser desejável que o terapeuta leve o indivíduo a discriminá-las (“desenvolver consciência” delas). E, por fim, ensinar novos comportamentos! Esse medo intenso de perder uma fonte importante de reforçadores pode indicar que não existem outras fontes de reforçadores na vida dessa pessoa ou, pelo menos, fontes que são tão importantes quanto. Além disso, tal padrão pode indicar que essa pessoa não sabe procurar por elas. O terapeuta pode trabalhar para o desenvolvimento ou a expansão do repertório de habilidades sociais desse cliente, de modo a variar os reforçadores disponíveis em sua vida e a emitir respostas sociais mais adequadas.

Quer saber mais?

Consulte os textos:

Oliveira, I. J. S. & Paranaguá, M. P. N. (2017). Amor e ciúme psicopatológico: Uma visão fundamentada na perspectiva analítico-comportamental. Fragmentos de cultura, 27(4), 555-569.

        Costa, N. & Barros, R. S. (2010). Ciúmes: Uma interpretação analítico-comportamental. Acta Comportamentalia, 18(1), 135-149.

Copque, H. L. F. & Guilhardi, H. J. (2008). O Modelo Comportamental na Análise do TOC. In: Wander C. M. Pereira da Silva. (Org.). Sobre Comportamento e Cognição: Análise Comportamental Aplicada implicações para pesquisas. 1ed.São Paulo: Esetec, 2008, v. 21, 61-72.

Outras referências:

Menezes, A., & Castro, F. (2001, setembro). O ciúme romântico: Uma abordagem analítico-comportamental. Trabalho apresentado no X Encontro Brasileiro de Medicina e Terapia Comportamental, Campinas, São Paulo.

Skinner, B. F. (1976). Walden two. Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall (Original publicado em 1948).

Nowak, M. A. (2006). Five rules for the evolution of cooperation. Science, 314, 1560 – 1563.

Laland, K.N.  & Brown, G. R. (2006). Niche Construction, human behavior and the adaptive-lag hypothesis. Evolutionary Anthopology, 15, 95-104.

        Laland, K. N. & O’Brien, M. J. (2012). Cultural Niche Construction: An introduction. Biol. Theory, 6, 191-202.

Texto escrito por Natália Biscassi, psicóloga clínica (CRP 06/141433) formada pela Universidade Federal de São Carlos. Mestranda associada ao Laboratório de Etologia Cognitiva (LEC) na Universidade de São Paulo e aluna do curso de Especialização e Qualificação Avançada em Terapia Comportamental pelo Instituto TCR de Campinas.

Há diferenças sobre como fumantes e não-fumantes percebem seu próprio grupo?

Existe relação entre ter pais fumantes e relacionar mais facilmente fumantes a coisas boas? Existem diferença entre adolescentes e adultos ao fazer isso? Será que uma pessoa que fuma associa “fumantes” mais rapidamente a coisas ruins que aquelas que uma que não? Fumantes tendem a relacionar coisas boas a pessoas que fumam mais depressa que não fumam?

Essas perguntas foram investigadas em um uma pesquisa realizada recentemente por Susan Cagney e colaboradores (2017). Os pesquisadores recrutaram adolescentes e adultos para responder questionários e um instrumento de medida implícita a fim de investigar a percepção de fumantes e não-fumantes em relação a adjetivos positivos e negativos.

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Como sabemos, o status do fumante é algo que mudou muito nas últimas décadas. Se décadas atrás, ser fumante poderia ser mais facilmente associado a elegância e autonomia, ao longo dos anos, esse status positivo foi bastante questionado ao longo dos últimos anos. Cagney e os outros autores fizeram dois experimentos para investigar isso: um com adultos e outro com adolescentes, ambos os grupos formados por fumantes e não-fumantes.

A ideia era coletar auto-relatos por meio de questionários e escalas sobre como participantes avaliavam estes dois grupos (pessoas que fumam e aquelas que não) e comparar estes dados a aplicações de um instrumento chamado IRAP e assim avaliar tendências favoráveis e desfavoráveis a fumantes entre esses grupos com relação ao status dos fumantes.

O instrumento usado para capturar medidas implícitas (IRAP) é um instrumento fundamentado na Teoria das Molduras Relacionais (Relational Frame Theory – RFT) que, assim como outros instrumentos de medida implícitos, se baseia principalmente no tamanho do tempo de reação necessário para relacionar estímulos. A ideia principal é que se uma pessoa relaciona mais rapidamente dois estímulos, estes provavelmente já tiveram uma maior história prévia onde foram relacionados durante a história individual e um tempo menor indica que estes foram menos relacionados como semelhantes entre si. Mas cuidado na hora de analisar! um tempo de resposta curto para fazer determinadas relações não indica necessariamente o modo como a pessoa pensa no dia-a-dia, afinal, ele não é um instrumento psicométrico. A vantagem de instrumentos implícitos como o IRAP é que eles conseguem captar nuances da história de reforçamento que nem sempre são facilmente relatáveis em entrevistas ou questionários (onde muitas vezes o que é dito é aquilo que o participante pensa que o pesquisador quer ouvir). Em geral, neles a pessoa tem pouco tempo para responder, e por isso, muitas vezes são registradas nuances que as pessoas às vezes ocultam em questionários.

No primeiro estudo, 35 adultos responderam questionários e um IRAP onde deveriam fornecer duas respostas (verdadeiro ou falso) diante de dois estímulos numa tela. A ideia neste teste era verificar o tempo que elas levavam para afirmar que os dois estímulos estavam relacionados de modo verdadeiro ou falso. Um dos estímulos indicava a condição “fumante” ou “não fumante”. O outro era um adjetivo, que poderia ser positivo (por exemplo, “legal”, “independente”, “popular”, “divertido”, “atrativo’ e “respeitado”) ou negativo (palavras semelhantes a “fraco”, “perdedor”, “tedioso”, “sonso”, “carente” e “sozinho”). Assim, os participantes selecionaram “verdadeiro” ou “falso” diante de quatro tentativas: fumante/positivo, fumante/negativo, não-fumante/positivo e não-fumante/negativo. Já o experimento 2 fez exatamente a mesma situação com participantes adolescentes (fumantes e não fumantes) para verificar diferenças entre o grupo deste experimento com relação aos do primeiro.

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Exemplo de como seria uma tentativa no instrumento aplicado nesse experimento

Os resultados do IRAP nos experimentos indicaram que tanto fumantes adolescentes como adultos demonstravam uma tendência a relacionarem mais facilmente fumantes a adjetivos positivos, enquanto não-fumantes tiveram uma pontuação relativamente mais neutra. Já nas entrevistas e nas escalas, ambos os grupos relataram que havia uma maior relação entre estímulos “positivos” com  não-fumantes.

Os pesquisadores também buscaram verificar se havia diferença entre os adultos e adolescentes e, para isso, realizaram uma coleta com um público mais jovem. Nos questionários, tanto adultos como adolescentes que não fumavam tendiam a avaliar o grupo delas como positivo. Já os adolescentes fumantes demonstraram uma tendência de relacionar relativamente fraca entre fumantes e estímulos positivos. Por sua vez, no IRAP, embora os dados em geral fossem bastante semelhantes com os de autorrelato, houve uma diferença curiosa: a tendência entre adjetivos bons e o status “não-fumante” foi muito maior entre os fumantes adultos que entre os adolescentes fumantes.  Os autores discutem que isso potencialmente deve-se ao fato que pessoas mais jovens potencialmente são menos propensas a declarar atitudes a favor de não-fumantes, uma vez que conforme envelhecem, eles recebem críticas por fumar e aprendem a mascarar atitudes a favor de fumantes a fim de obter uma maior aceitabilidade.

Já com relação ao fato de terem tido ou não pais fumantes, tanto adolescentes como adultos filhos de fumantes tendiam responder no IRAP de modo mais favorável a fumantes do que a não-fumantes, enquanto filhos de não-fumantes eram mais favoráveis a não-fumantes do que os filhos de fumantes. Apesar disso, ambos os grupos mostraram tendências positiva em relação aos não-fumantes.

Esses dados são bastante novos e as pesquisas com medidas implícitas têm crescido exponencialmente nos últimos anos. O mais bacana é que estes instrumentos podem colaborar muito para estudarmos fatores de risco em diferentes populações como foi o caso dessa pesquisa que avaliou se ter pais fumantes impacta a percepção dos fumantes em geral.

Quer saber mais?

Cagney, S., Harte, C., Barnes-Holmes, D., Barnes-Holmes, Y., & McEnteggart, C. (2017). Response Biases on the IRAP for Adults and Adolescents with Respect to Smokers and Nonsmokers: The Impact of Parental Smoking Status. The Psychological Record, 67(4), 473–483. https://doi.org/10.1007/s40732-017-0249-9

Referências adicionais:

[1] Barnes-Holmes, D., Barnes-Holmes, Y., Power, P., Hayden, E., Milne, R., & Stewart, I. (2006). Do you really know what you believe? Developing the implicit Relational Assessment Procedure (IRAP) as a direct measure of implicit beliefs. The Irish Psychologist, 32, 169–177.

Créditos da figura:

https://www.theplace2.ru/photos/Alain-Delon-md1179/pic-354859.html

Escrito por Murilo Cesar Moreira, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico.

Como chamar atenção do seu crush?

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Você já se perguntou por que aquela sua tentativa de sedução não funcionou com seu crush? Ou por que quando você deixou escapar “Eu amo você” no segundo encontro, a pessoa nunca mais deu “sinal de vida”, ao contrário das suas expectativas? A Análise do Comportamento pode ajudar a explicar!

        Jennifer A. Wade, da Universidade de Temple, localizada na Filadélfia, escreveu um artigo que teve como objetivo analisar o comportamento de “flerte” sob a ótica da Análise do Comportamento. Ao analisá-lo, é possível identificar características de um flerte “de sucesso”, o que pode contribuir para a elaboração de estratégias para melhorar a qualidade e duração de relacionamentos interpessoais entre duas pessoas.

        A maioria das pesquisas já realizadas sobre o assunto, em geral, se preocuparam em analisar as formas das interações sociais (topografias) que ocorrem quando pessoas estão flertando, e também é comum terem como fonte de dados o relato dos indivíduos – no entanto, devemos ter cautela em relação aos relatos mentirosos. Algumas delas encontraram resultados bem interessantes! Por exemplo, foi identificada uma relação entre o interesse de mulheres (heterossexuais) por um homem com comportamentos como: sorrisos “tímidos”, olhar rapidamente para o homem e tocar as próprias roupas (Grammar, Kruck, Juette, & Flink, 2000). Além disso, esses comportamentos tiveram duração de tempo maior quando elas estavam interessadas pelo parceiro. Em relação aos homens (também heterossexuais), foi encontrada uma relação entre falar mais e o interesse no parceiro do sexo feminino.

Ao utilizar a Análise do Comportamento como caminho para analisar o flerte, olhamos para além da topografia do comportamento, ou seja, olhamos também para a função dele. A autora utiliza algumas concepções para explicar o comportamento de flerte, sendo que serão explicadas neste texto as de contingências de reforçamento recíprocas e comportamento verbal.

Jennifer apontou dois modos que podem influenciar quais estratégias de flerte são  mais prováveis de serem bem-sucedidas. O primeiro são as contingências de reforçamento (a curto e longo prazo), que não envolvem necessariamente comportamento verbal. Esse modo significa que cada pessoa envolvida na relação fornece consequências para o outro membro, e quando os membros reforçam o comportamento do outro, pode ser identificado um flerte bem-sucedido, o qual aumenta a probabilidade de você sair com seu crush! Por exemplo, um estudo encontrou que o reforçamento recíproco de sorrisos é uma contingência que aumenta a interação entre duas pessoas. Vale ressaltar que não é essencial que as consequências do flerte sejam exatamente equivalentes para ambos os indivíduos. Quando a magnitude, potência, ou tipos de reforçadores são desbalanceados na contingência de reforçamento recíproca que opera no flerte, ele pode ser bem-sucedido em termos de consequência apenas a curto prazo. Quando as contingências de reforçamento recíproca não operam ou são muito desbalanceadas para um membro da relação, o flerte será malsucedido.

O segundo modo está relacionado ao papel de falantes e ouvintes e enfatiza o comportamento verbal, principalmente o uso de autoclíticos. O autoclítico é definido como um comportamento verbal que modifica outro comportamento verbal ou a reação do ouvinte. Por exemplo, a seguinte afirmação de uma mulher “Você me faz rir” acompanhada de um gesto tocando a mão de um homem. O gesto pode ter função de autoclítico, no sentido de que ele é mais efetivo em estabelecer o interesse do crush. Vale destacar que a análise, como mencionado anteriormente, é sobre a função do gesto, e não apenas na sua topografia.

O estudo de Wade (2013), citado pela autora, mostrou que a função autoclítica “Você e eu” foi mais bem-sucedida em prolongar a duração de uma conversa e aumentar a chance de um primeiro encontro em comparação com a função autoclítica “Nós”. Por exemplo, a afirmação “Você e eu devemos tomar café algum dia” foi mais bem sucedida do que “Nós devemos tomar café algum dia”. Vale destacar que este estudo foi realizado em um país com nativos ingleses e que o resultado poderia ser similar ou diferente se realizado aqui no Brasil.

A autora cita dois tipos de autoclíticos (há seis tipos. Para mais informações ver Borloti, 2004): o descritivo e o manipulativo. O descritivo faz referência ao falante e pode ou não fazer referência a um estado afetivo. Por exemplo, a seguinte sentença: “Na minha opinião, você é o homem mais lindo do mundo”, a qual difere de um simples tato: “Você é o homem mais lindo do mundo”.  Outros exemplos: “Eu gosto de falar com você”, “Eu amo falar com você”, “Eu gosto de falar com você”.

Já os autoclíticos manipulativos são, em geral, afirmações que modificam outros operantes verbais ou mudam o efeito que um operante verbal tem sobre o ouvinte. Por exemplo: “Apenas me dê uma chance para levar você para jantar, e, se você não tiver uma experiência fantástica, nunca mais ligarei para você de novo” e “Posso comprar seu jantar?”.

O comportamento verbal pode predizer o sucesso do flerte com um membro do sexo oposto. Deste modo, o autoclítico pode exercer um papel potente em diferenciar pessoas que são, de algum modo, similares, como em aparência, interesses, etc., em diferentes graus de sucesso no momento do flerte e nos relacionamentos interpessoais, em geral.

Por fim, a autora destaca que, além das contingências de reforçamento e do comportamento verbal, há ainda outros aspectos a serem levados em consideração quanto ao comportamento de flerte: as operações motivacionais e o contexto. As operações motivacionais (OMs) também têm papel essencial no comportamento do flerte. Por exemplo, indivíduos casados têm menos probabilidade de responder a um flerte (há exceções), e, portanto, a operação motivacional não é a mesma em relação a uma pessoa que está há um ano sem ter algum tipo de relacionamento amoroso. Em relação ao contexto, a depender dele, o comportamento de flerte pode ser mais ou menos provável de ocorrer. Por exemplo, a probabilidade de haver comportamento de flerte em uma balada ou um funeral é diferente. Outro aspecto importante a se mencionar é que as mesmas topografias de comportamento podem ser nominadas como flerte ou não a depender do contexto. Por isso, novamente, destaca-se a importância de se observar a função do comportamento.

Como foi observado no texto, há diversas possibilidades de análise do comportamento de flerte. Quanto mais trabalhos forem conduzidos na área, maior a possibilidade de ajudar as pessoas que apresentam algum tipo de dificuldade, como aquelas que apresentam transtornos de ansiedade, dificuldades sociais, ou história passada em que o flerte foi frequentemente punido. Que tal elaborar um estudo experimental nessa área?

 

Quer saber mais?

Consulte o texto:

Wade, J. A. (2018). (I think) you are pretty: A behavior analytic conceptualization of flirtation. Perspectives on Behavioral Science, 1-22. DOI: 10.1007/s40614-018-0136-y

Outras referências:

Borloti, E. (2004). As relações verbais elementares e o processo autoclítico. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 6(2), 221-236.

Grammar, K., Kruck, K., Juette, A., & Fink, B. (2000). Non-verbal behavior as courtship signals: The role of control and choice in selecting partners. Evolution and Human Behavior, 21, 371–390.

 

Fonte da imagem: https://aminoapps.com/c/undertale-brasil/page/blog/flerte-com-frisk-e-chara/75jz_PZiPu86ZXewPdw0Zdv71K8eq46Gv7

Escrito por Josiane Maria Donadeli, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

Estratégias para ensinar categorização em crianças com TEA

natalia aggio

Fonte;: https://www.inspiradospeloautismo.com.br/a-abordagem/atividades-interativas-para-pessoas-com-autismo/

Ultimamente tem crescido muito no Brasil a quantidade de intervenções voltadas para crianças autistas. Esse aumento se deve, em parte, ao grande corpo de investigações experimentais que embasam essas intervenções. E é sobre uma dessas que vamos falar neste post.

Daniela M. Ribeiro, Rayssa S. T. Cavalcante, Maria T. S. Bandeira, Ana Carolina Sella e Caio F. Miguel testaram um procedimento para identificar se o ensino de tato[1] seria suficiente para observar a emergência de dois outros repertórios: categorização e comportamentos de ouvinte. Participaram quatro crianças com TEA. Foram utilizados nove cartões em que estavam impressos a figura de três cães de caça, três de trabalho e três de estimação (um cão em cada cartão).

O pesquisadores começaram testando os comportamentos de categorização, de ouvinte e de tato das crianças em relação às categorias definidas pelo experimentador (cães de caça, de trabalho e de estimação). Em todos os pré-teste o experimentador mostrava uma figuras de cada vez enquanto as outras oito estavam sobre a mesa. No pré-teste de categorização dizia “Olhe para essa figura. Você pode me dar os outros?”. No pré-teste de nomeação e categorização dizia “O que é isso? Você pode me dar os outros?”  Por fim, nos testes de ouvinte dizia “Você pode me dar o (cão de caça/cão de trabalho/cão de estimação)?” Nesses pré-testes ele verificaram que nenhuma das crianças conseguiu responder corretamente. Ou seja, elas não sabiam nomear, escolher ou juntar os cartões de acordo com as três categorias propostas. Então as crianças eram ensinadas a nomear cada uma das figuras, de acordo com a categoria à que pertenciam. Esse era o treino de tato. Quando os pré-testes foram refeitos (agora com nome de pós-teste) observou-se que todas as crianças passaram a ser capazes de responder corretamente. Ou seja,  os repertórios de categorização e de ouvinte emergiram, sem treino explícito.

Você pode pensar, se eu aprendi a nomear os cães 1, 2 e 3 como cães de caça e depois alguém me mostrar um deles e disse “Olhe para essa figura. Você pode me dar os outros?” ou me perguntar “O que é isso? Você pode me dar os outros?”, é óbvio que eu vou saber responder. Acontece que quando vamos pensar no desenvolvimento de intervenções, não podemos deduzir que nada é óbvio. Essas são habilidades diferentes. Então não é possível assumir que elas vão emergir naturalmente. É preciso pesquisar e investigar! Os autores discutem que esse pode ser um procedimento promissor para ensinar novos repertórios para pessoas com TEA, uma vez que é econômico (o ensino de um repertório proporcionou a emergência de outros dois) e também que mais pesquisas ainda são necessárias sobre esse assunto.

Ficou curioso? Não deixe de ler o artigo na íntegra: Ribeiro, D. M., Cavalcante, R. S. T., Bandeira, M. T. S., Sella, A. C., & Miguel, C. F. (2018). Efeitos do ensino do tato na emergência da categorização em crianças com Transtorno do Espectro Autista.  Acta Comportamentalia, 26 (1), 71-91.

Postado por Natalia M. Aggio, pos-doutoranda do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista Capes.
[1] Ver o post https://boletimbehaviorista.wordpress.com/2016/12/02/ga-ga-ooh-la-la-lady-gaga-musica-e-o-ensino-dos-operantes-verbais/ para definição de operantes verbais

É apenas uma piada?

julio 28.09

 

Pesquisadores investigam como o humor racial é capaz de disseminar o preconceito contra negros

No dia 30 de junho, durante o jogo de quartas de final da Copa do Mundo entre França e Argentina, o youtuber e influenciador digital Júlio Cocielo se tornou alvo de críticas ao postar um comentário considerado racista no Twitter: “Mbappé conseguiria fazer uns arrastão top na praia hein”, comentou Cocielo após um dos gols do jovem atacante francês, que é negro. Não tardou para que o comentário se tornasse uma polêmica de grande proporção, alavancada por inúmeras pessoas que se sentiram ofendidas pelo youtuber. Cocielo tentou se defender dizendo que se referiu somente à velocidade do jogador, mas a desculpa não colou diante da divulgação de diversos outros comentários e piadas racistas postadas por ele ao longo dos últimos 8 anos. Além da retaliação pública, o comentário pôs em xeque as parcerias comerciais do youtuber, tornando incerto o futuro de sua carreira. O assunto dividiu opiniões, com diversas pessoas apontando que os comentários de Cocielo ajudavam a propagar o preconceito contra pessoas negras e, outras tantas, ponderando a situação com o argumento de que as críticas se tratavam de uma vigilância extrema sobre o “politicamente correto”.

De que forma piadas racistas, como as postadas por Cocielo, podem afetar seu público e ajudar a disseminar expressões subsequentes de preconceito racial? Tal questão é de extrema relevância, principalmente se considerarmos que a maior parte da audiência do youtuber (que possui mais de 16 milhões de inscritos em seu canal, o CanalCanalha) é formada por crianças e adolescentes. Em um artigo publicado no início de 2018 no periódico científico Humor (International Journal of Humor Research), o grupo de pesquisa liderado pelo professor Donald Saucier, da Kansas State University, traz resultados bastante interessantes para pensarmos sobre essa questão.

Em uma série de três estudos realizados tanto presencialmente (n = 273), quanto via formulários online (n = 158), os pesquisadores observaram que, após ouvirem ou lerem piadas consideradas de humor racial, os participantes tenderam a avaliar pessoas negras de forma predominantemente negativa, viés que não foi observado quando os participantes ouviam ou liam piadas consideradas neutras em termos raciais. Tal avaliação era feita por meio de escalas de 1 (“discordo totalmente”) a 7 (“concordo totalmente”) nas quais os participantes deviam selecionar quão acuradamente certos estereótipos descreviam pessoas negras. Ao todo, o instrumento continha dez estereótipos, sendo parte hostis/negativos (e.g., preguiçosas, agressivas) e parte benevolentes/positivos (e.g., atléticas, divertidas).

Para surpresa dos pesquisadores, os resultados foram semelhantes tanto quando a piada era claramente depreciativa (“Qual é o melhor lugar para se proteger o dinheiro de um assaltante negro? Dentro dos livros!”), quanto nas situações em que o intuito inicial da piada era confrontar o pensamento preconceituoso (“Do que é chamado o cara negro que leva um avião de um aeroporto? De piloto, seu racista desgraçado!”). A hipótese inicial era de que o humor racial confrontativo pudesse reduzir a expressão do preconceito contra negros, ao deixar claro a inadequação social de tais atitudes. Segundo os autores, o resultado inesperado se deveu ao fato de que mais do que a metade de todos os participantes que ouviram ou leram a piada confrontativa a avaliaram, ao final do estudo, como dirigida, de forma depreciativa, aos negros e não ao interlocutor/pensamento racista como era previsto inicialmente. Interpretada de tal forma, a piada confrontativa teve o mesmo efeito que a piada depreciativa, enviesando negativamente a avaliação feita pelos participantes. A conclusão foi corroborada pela redução do viés racial negativo observada na (menor) parte dos participantes que demonstraram ter interpretado de forma adequada a piada confrontativa.

Saucier e seus colaboradores discutem que a literatura sobre humor tem considerado o uso de piadas depreciativas como uma espécie de “espada” utilizada para atacar indivíduos e grupos sociais com base em sua aparência, vinculação política, raça, religião e gênero. No caso do humor racial, piadas depreciativas podem ser um veículo para disseminação de ideias preconceituosas, valores e julgamentos sobre as pessoas negras, com o intuito de estigmatizá-las e marginalizá-las. E justamente por ter como defesa o argumento de se tratarem de “apenas piadas”, sátiras depreciativas podem ser uma forma de expressar o preconceito racial sem incitar reações negativas da audiência. Com isso, cria-se um contexto no qual outras formas de expressão de preconceito sejam feitas mais livremente. A esperança dos autores era de que o humor confrontativo pudesse ser utilizado como uma forma de “escudo” para combater o preconceito racial. Os resultados os levam a recomendar cautela na utilização de piadas confrontativas, uma vez que, a depender da interpretação feita pelo público, o tiro pode sair pela culatra e ajudar a perpetuar o preconceito racial e o estigma contra pessoas negras em vigor na sociedade.

No dia 4 de julho, o youtuber Júlio Cocielo fez um vídeo pedindo desculpas pelo ocorrido e voltou a dizer que sua intenção não foi ofender ninguém e que só estava se referindo à velocidade do jogador francês. O estudo de Saucier e colaboradores demonstra que o youtuber ou qualquer outro influenciador digital deve ter muito cuidado com suas palavras e com o impacto que suas declarações e piadas podem ter sobre o público, mesmo que a intenção original seja a melhor possível.

Quer saber mais?

Saucier, D. A., Strain, M. L., Miller, S. S., O’Dea, C. J., & Fill, D. F. (2018). “What do you call a Black guy who flies a plane?”: The effects and understanding of disparagement and confrontational racial humor. Humor: International Journal of Humor Research, 31(1), online.

Post escrito por Julio Camargo

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Bolsista FAPESP e Membro do Instituto de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE).

* As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.

TEMOS LIBERDADE PARA ESCOLHER?

gulherme

Assim como o personagem Neo no filme Matrix, o determinismo ou a ideia de que não temos controle ou escolha sobre o que acontece na nossa vida causa incômodo em muita gente. Mas afinal, há espaço para liberdade de escolhas dentro das ciências do comportamento? Para alguns autores, sim. Mas para responder isso, primeiro precisamos definir o que entendemos por liberdade.

No behaviorismo radical, apenas alguns significados de liberdade são rejeitados. Por exemplo, há um relativo consenso em relação a não haver espaço para a liberdade no sentido de uma ausência total de controle. Alguns analistas do comportamento se dedicaram a esse tema em uma tentativa de articular significados da palavra liberdade que são consistentes com a teoria

Talvez um dos analistas do comportamento mais influentes tenha sido Skinner, que por meio da observação das condições em que o termo é utilizado, chegou a conclusão de que ele é mais comumente utilizado em condições onde não há controle aversivo imediato do comportamento ou quando se relaciona a ausência de controle comportamental por reforço positivo em situações com consequências aversivas no médio ou longo prazo. Uma de suas principais críticas ao que ele chama de “literatura da liberdade” é que ela dá ênfase a liberdade no sentido de ausência de controle aversivo imediato, enquanto ignoram o controle aversivo presente nas situações reforçadoras mas com consequências aversivas a médio ou longo prazo. A consequência disso é a produção de “sentimentos de liberdade” que reduzem a probabilidade de contra-controle, criando indivíduos que não identificam as fontes do controle aversivo. Portanto, de maneira geral para Skinner, as condições que caracterizam liberdade são aquelas nas quais não há contingências de controle aversivo, sejam elas reforço negativo ou punição, imediatas ou tardias.

Apesar da grande influência de Skinner, existem concepções alternativas a sua teoria, especificamente de Baum (2017), Catania (1980) e Goldiamond (1965, 1974/2002, 1975a, 1975b, 1976) que não são necessariamente contrárias a ela, mas complementares. Essas concepções são igualmente críticas dos conceitos de liberdade como ausência total de controle e tem um aspecto em comum: Relacionam liberdade com a possibilidade de escolha.

Em poucas palavras, para Baum (2017), além da concepção de ausência imediata de consequências aversivas como em Skinner, existem dois outros significados para liberdade. A liberdade espiritual, que se refere à libertação de uma prisão espiritual e a uma necessidade de desconexão com prazeres mundanos. Para pessoas com um grande repertório de autocontrole e que seguem a prática de uma vida mais simples e altruísta, esse estilo de vida acaba por proporcionar reforçadores positivos atrasados, pois, as consequências advindas dele acabam sendo reforçadoras em algum momento. E finalmente, uma liberdade social ou política, na qual liberdade seria poder ter escolhas sem ser punido por fazê-las.

Para Catania (1980, 1997), escolha implica na disponibilidade de alternativas. Entretanto, após identificar essas conexões, ele enfatiza a possibilidade de investigar experimentalmente o quanto os organismos em geral preferem condições com alternativas ao invés de condições com uma só possibilidade. Colocando esses experimentos em prática, ele descobriu que quando parâmetros reforçadores nas duas condições são os mesmos ou quando há um reforço maior (em tempo ou magnitude) na alternativa de livre escolha, os sujeitos demonstram uma preferência por condições de livre escolha. Por outro lado, quando as condições de livre escolha fornecem reforçadores menores que nas condições de escolha forçada, os sujeitos abrem mão da escolha livre.

Já Goldiamond apresenta uma conceituação de liberdade ampla e bem detalhada que infelizmente é pouco conhecida. Além da possibilidade de escolha, o autor considera que liberdade também deve envolver escolhas genuínas. Essas escolhas seriam aquelas em que as contingências alternativas sejam igualmente possíveis. Por exemplo, não adiantaria se ter muitos trabalhos disponíveis se o sujeito não tem acesso a adquirir as habilidades necessárias para realizar esses trabalhos. Além disso, em 1965, ele conceituou coerção (termo que está muito ligado com liberdade) de uma maneira mais específica, como sendo caracterizada tanto pela criticidade das consequências que controlam a escolha do comportamento (por exemplo, consequências muito críticas seriam não passar fome ou ter liberdade condicional, caso preso), quanto pelos tipos de condições que fazem dessas consequências críticas (como torturas ou mesmo se comportar de acordo com as prescrições para se curar de alguma doença).

Além disso, considerava que liberdade e coerção não são estados absolutos e, em outras palavras, uma pessoa pode ser mais livre ou mais sujeita a coerção que outra.
Conforme sua teoria foi amadurecendo, os aspectos citados anteriormente foram revisados resultando em definições mais sintéticas como “Quanto maior o número de alternativas comportamentais, maior o grau de liberdade e, consequentemente, menor o grau de coerção”. O autor também afirmava que para se analisar o comportamento de escolha, é necessário que se realize uma análise não linear do comportamento, que seria uma análise funcional não somente da ocasião e consequência (e a história) da resposta sob investigação, mas também dos padrões alternativos de resposta presentes no repertório do indivíduo.
Assim, a teoria de Goldiamond, por meio de sua análise não linear do comportamento, ajuda o analista do comportamento a discriminar a disponibilidade ou não de contingências alternativas no contexto imediato do sujeito, coisa que não se via nas construções de Skinner. Contudo, os conceitos de Skinner também podem ser interpretados sob a ótica de Goldiamond, o que os torna complementares, expandindo os significados de liberdade dentro da análise do comportamento.
Baum e Catania apresentam conceitos de liberdade similares ao de Goldiamond, entretanto, os conceitos de Goldiamond não se restringem a análise da disponibilidade de comportamentos alternativos sem consequência aversiva, como enfatizado por Baum  (2017). Para ele, a coerção pode existir mesmo em situações onde há essas alternativas. Os experimentos realizados por Catania (1980, 1997) complementam as considerações de Goldiamond sobre a importância da avaliação não só do grau de liberdade de escolha comportamental mas também do quão críticas as consequências são para o organismo.
Portanto, essas expansões permitem na prática novos diálogos com outras áreas do conhecimento que lidam com o tema da liberdade e permitem ao analista do comportamento atuar em diferentes contextos (como na psicoterapia ou até na elaboração de políticas públicas) na tentativa de promover uma expansão dos graus de liberdade comportamental e da possibilidade de escolhas genuínas.

Quer saber mais? Acesse o artigo completo:
Fernandes, R., & Dittrich, A. (2018). Expanding the behavior-analytic meanings of “freedom”: the contributions of Israel Goldiamond. Behavior and Social Issues, 27, 4-19. doi:https://doi.org/10.5210/bsi.v27i0.8248

Crédito da imagem: https://www.deviantart.com/shanagourmet/art/Red-pill-and-blue-pill-Morpheus-in-Matrix-440981729

Escrito por Guilherme Sbrocco, graduando em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico.

Equivalência de estímulos é coisa só de humano?

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Você já parou para pensar que, boa parte das nossas interações não se dá por contato direto com os eventos e, sim, por meio de símbolos que os representam? Esses representantes, embora sejam fisicamente distintos dos seus referentes, podem, sob certas condições, ter as mesmas funções que eles, ocasionado comportamos que emitiríamos se estivéssemos em contato direto com determinados estímulos. Por exemplo, ao ver uma placa em que esteja escrita a frase: Rua sem saída, um motorista pode, antecipadamente, mudar o seu trajeto.

O paradigma da equivalência de estímulos é uma proposta comportamental para o estudo de relações simbólicas. Segundo esse modelo, a partir do ensino de no mínimo duas relações arbitrárias (relações entre estímulos que são fisicamente distintos e não compartilham funções comportamentais, previamente estabelecidas) podem emergir novas relações. Os estímulos envolvidos, nessas relações formam redes simbólicas ou classes de equivalência definidas a partir das seguintes propriedades: reflexividade, simetria e transitividade (Sidman, M., & Tailby, W., 1982).

Para compreender essas propriedades, imagine que nós estamos tentando ensinar o significado de algumas palavras em inglês a uma criança. Para isso, vamos usar um procedimento conhecido como discriminação condicional, por meio do qual são ensinadas relações entre pares de estímulos, denominados modelo e comparação. Então, pedimos para a criança apontar, entre os objetos que estão em cima de uma mesa, aqueles que correspondem às palavras que vamos ditar. Ao falarmos: “pencil” (estímulo modelo) a criança observa os objetos sobre a mesa (estímulos de comparação) e aponta para um deles. A depender do objeto apontado, podemos dizer: “Muito bem!” ou “Esse não é o pencil”. Posteriormente, solicitamos que ela indique entre duas ou mais palavras que escrevemos (como: pencil, pen e eraser), qual corresponde à palavra falada “pencil” e, mais uma vez, elogiamos ou corrigimos, a depender do estímulo escolhido.

Após a ocorrência de algumas tentativas e, um número consistente de acertos, podemos supor que a criança aprendeu as relações: palavra falada – objeto e palavra falada – palavra escrita. Essa aprendizagem foi determinada pelas consequências geradas pelo comportamento de selecionar estímulos, ou seja, as frases de elogio ou correção. Por isso, dizemos que as referidas relações foram diretamente ensinadas.

No entanto, é possível que a criança também passe a estabelecer relações arbitrárias sem uma história prévia de ensino, são as chamadas relações emergentes. Por exemplo, se, ao apontarmos para o objeto lápis, e perguntamos, oralmente, “Isso é um: a) pencil; b) pen ou c) eraser” a criança falar algo como: “Letra A!” de forma consistente, sem a apresentação prévia de elogios ou correções, podemos dizer que há uma relação bidirecional ou simétrica. Além disso, a criança também pode passar a relacionar os estímulos que não foram emparelhados antes, estabelecendo a relação transitiva entre objetos e palavras escritas, ao selecionar a palavra escrita pencil (e não pen ou eraser) diante da imagem de um lápis apresentada com a função de estímulo modelo. Essa última relação também pode ocorrer de forma simétrica (palavra escrita – objeto). Além das relações arbitrárias estabelecidas (treinadas e emergentes), os estímulos das classes de equivalência podem também ser relacionados segundo critérios de reflexibilidade ou identidade (e.g., relação objeto – objeto). Ao fim desse processo, poderíamos identificar a formação de uma rede simbólica, na qual, estímulos fisicamente discrepantes (sons, conjuntos de letras e objetos) passam a ser equivalentes. Isto é, passam a ter um significado em comum.

As relações de equivalência são consideradas aspectos-chave para a construção e a compreensão das redes de significado – componentes da nossa linguagem e, são amplamente manipuladas em pesquisas que investigam fenômenos relacionados à cognição, em humanos.  No que se refere às pesquisas com animais não humanos, observa-se que o corpo de dados ainda não é muito robusto, de forma que essa parece ser uma questão que permanece aberta à discussão. Recentemente, foi publicado um estudo que pode fortalecer a tese de que outras espécies podem ser capazes de apresentar desempenhos compatíveis ao estabelecimento de relações de equivalência. Trata-se do estudo de uma equipe de pesquisadores japoneses que trabalhou com uma beluga (espécie também conhecida como baleia-branca), chamado Nack.

Nack vive em um aquário no Japão e já participou de vários experimentos. Nesses estudos, o animal teve experiências com parte dos estímulos empregados na presente pesquisa, realizou tarefas de emparelhamento com o modelo e aprendeu a emitir padrões sonoros específicos diante de determinados objetos.  

O objetivo da pesquisa sobre a qual vamos discutir foi: observar a formação de relações de equivalência entre estímulos de diferentes modalidades sensoriais (visual e auditiva). Para tanto, foi realizado um procedimento de discriminação condicional, dividido em várias fases. Inicialmente, Nack ganhava um pedaço de peixe sempre que, diante de um dado estímulo modelo (um objeto específico, como um balde), tocasse o estímulo de comparação correto (uma determinada figura, como “>”). Parte das relações objeto-figura treinadas eram previamente conhecidas (aprendidas em outro estudo). Nessa fase, a simetria das relações inéditas, ensinadas no presente experimento, também foi testada.

A segunda fase do estudo iniciou como a realização de uma tarefa na qual Nack também já tinha experiência – o treino de relações entre padrões sonoros (apresentados por meio de alto-falantes) e objetos.  Posteriormente, além da tarefa descrita na fase anterior, também foi realizado o teste de transitividade entre os estímulos sonoros e as figuras. Nas tentativas de teste de transitividade, Nack deveria selecionar uma imagem específica após ouvir um dado padrão sonoro.

Na última fase do estudo, além dos desempenhos anteriormente descritos, Nack também tinha que emitir um som específico após ser apresentado a cada uma das figuras anteriormente empregadas. Embora Nack tivesse sido previamente treinado (em outra pesquisa) a emitir sons diante dos objetos, a ocorrência desse comportamento diante das figuras (relacionadas aos objetos) se deu de forma inédita.

No que se refere aos resultados, de forma geral, o desempenho de Nack foi considerado satisfatório, indicando a formação de relações de equivalência. A presente pesquisa é um dos raros estudos que apresentam indícios das referidas relações, com animais não humanos. Destaca-se ainda que, Nack apresentou um repertório comportamental complexo que incluiu a emissão de sons em função da rede simbólica estabelecida!

Segundos os pesquisadores, as belugas vivem em grupos nos quais apresentam comportamentos de comunicação. Diante disso, foi possível questionar: Essas e outras características ecológicas podem ter contribuído para o desempenho de Nack? O insucesso de alguns estudos em demonstrar a formação de relações de equivalência, por animais não humanos, poderia ser atribuído a questões metodológicas ou existem pré-requisitos filogenéticos para que esse tipo de comportamento ocorra? As adaptações metodológicas presentes em estudos com animais não humanos podem gerar ponderações para a interpretação dos resultados das pesquisas? Ou, é possível afirmar categoricamente que, animais não humanos podem apresentar desempenhos compatíveis com o paradigma da equivalência de estímulos? As respostas dessas perguntas ainda demandam reflexão e novas investigações, mas sem dúvidas, esse estudo nos fornece informações importantes para o avanço das pesquisas relacionadas à cognição e à psicologia comparativa.

Achou esse estudo interessante? Quer conhecer mais detalhes? Confira o trabalho na íntegra!

Murayama, T., Suzuki, R., Kondo, Y., Koshikawa, M., Katsumata, H., & Ara, K. (2017). Spontaneous establishing of cross-modal stimulus equivalence in a beluga whale. Scientific Reports,7, 1-9. doi:10.1038/s41598-017-09925-4

Fonte da imagem de capa:

Murayama, T., Fujii, Y., Hashimoto, T., Shimoda, A., Iijima, S., Hayasaka, K., …Arai, K. (2012). Preliminary study of object labeling using sound production in a beluga. International Journal of Comparative Psychology25, 195-207.

Outras referências:

Critchfield, T. S., Barnes-Holmes, D., & Dougher, M. J. (2018). What Sidman Did–Historical and Contemporary Significance of Research on Derived Stimulus Relations. Perspectives on Behavior Science. doi: https://doi.org/10.1007/s40614-018-0154-9

Sidman, M., & Tailby, W. (1982). Conditional discrimination vs. matching-to- sample: An expansion of the testing paradigm. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 37(1), 261-273.

Schusterman, J. R., & KASTAK, D. (1993).  A California Sea Lion (Zalophus Californianus) is Capable of Forming Equivalence Relations. The Psychological Record, 43, 823- 839.

Texto escrito por Sabrina Campos Dias Pedrosa, mestre em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos-SP.

Eu roubo. Tu roubas. Eles roubam: Explicações comportamentais sobre o jeitinho brasileiro e a corrupção.

O exame de contingências e metacontingências pode auxiliar no combate às corrupções do cotidiano e aos escândalos bilionários veiculados pela mídia.

 

eliseu

LATUFF, C. 2011

Escândalos de corrupção pipocam nos noticiários nacionais e internacionais todos os dias e essa problemática vem sendo tratada como um dos grandes problemas do século XXI. No Brasil, os jornais já não possuem mais espaço suficiente para cobrir os escândalos diários envolvendo servidores públicos e políticos. Multidões de pessoas vão às ruas, congestionam as redes sociais com mensagens de insatisfação e desesperança com a política nacional e as instituições. Alguns chegam até mesmo a recorrer a soluções inadequadas e resgatar alguns velhos inimigos da democracia.

Alguns números aparecem em pesquisas sobre perdas de dinheiro com a corrupção e pode-se obter uma idéia geral da proporção deste problema: estima-se que se perca entre 10,5 e 32,9 bilhões de euros por ano no Brasil,  (Fiesp, 2010). Dinheiro este que poderia ser revertido em melhores condições de vida aos cidadãos contribuintes dos altos impostos do país. O dinheiro existe, ele só não chega onde deveria chegar. A maioria desse valor é advindo de estratégias de grandes empresas em burlar taxas ou transferir montantes de dinheiros para paraísos fiscais sem muitos encargos e desvios de verba por pessoas envolvidas em obras públicas.

Aos montes, as idéias para acabar com a corrupção aparecem, medidas são tomadas, leis são outorgadas, mas os problemas continuam. Como resolver essa problemática? Será que a natureza humana é ignóbil e Hobbes estava certo? Será que devemos entregar nosso país nas mãos de figuras públicas que buscam soluções rápidas para problemas complexos? Um estudo realizado por Agbota, Sandaker, Carvalho e Couto (2017) na Noruega partiu dessa demanda e propôs uma explicação comportamental e objetiva sem recorrer a rótulos e expressões adjetivas de personalidade para o fenômeno.

Pode-se definir, de início, corrupção como o ato de dar, receber ou solicitar, direta ou indiretamente, algo de valor para indevidamente influenciar as ações de outra parte (World Bank, 2017). Duas categorias, ainda, podem ajudar a organizar o comportamento de corrupção: grande corrupção e pequena corrupção.

A grande corrupção é caracterizada como o abuso do ofício perpetrado por políticos ou burocratas de alto escalão envolvendo grandes montantes de dinheiro. Pode-se exemplificar pelos escândalos da Petrobrás e do Mensalão. A corrupção pequena poderia ser caracterizada como o suborno ou a aquisição de vantagem entre uma pessoa e um servidor público das áreas da saúde, educação, segurança; quando houver decisões administrativas em benefício de outrem. Há pesquisas que indicam que países com altos índices de corrupção pequena também apresentam altos índices de corrupção grande.

A análise do comportamento pode aplicar uma ótica interessante sobre esse fenômeno e ajudar a definir melhor quais os antecedentes e consequentes responsáveis pela manutenção das práticas de corrupção. Partindo-se do princípio de análise da tríplice contingência e da seleção por consequências, entende-se que um comportamento é a relação entre os eventos antecedentes dispostos no ambiente e eventos consequentes a ele que podem modular outras respostas, aumentando ou diminuindo a probabilidade da emissão de um comportamento semelhante em situação futura semelhante. Isso tira do escopo do exame características da “personalidade” do ser humano e direciona o olhar para o ambiente e para as combinações de eventos antecedentes e sucessores, implicando causalidade. Enxergar um fenômeno real constituído por suas partes modificáveis implica que a mudança também é real e possível.

Deste modo, Agbota, Sandaker, Carvalho e Couto (2017) definem a corrupção por comportamento operante, verbal ou não-verbal, ilegal, de uma pessoa ao desconsiderar regras administrativas e usar seu controle de reforçadores ou punidores para ganho pessoal ou organizacional em conexão com o fornecimento ou recebimento de bens e serviços.

O chamado “Jeitinho brasileiro” é uma prática cultural que prevalece ao longo do tempo e se manifesta em suas mais diversas facetas para a consecução dos objetivos em detrimento das falhas regulações das instituições brasileiras. Diversos comportamentos do cotidiano apresentam topografias diferentes para as mesmas funções: a de burlar. Então, atos corruptos são reforçados por alguém/algo e são selecionados para continuar existindo em todas as esferas, mesmo fora da política e da servidoria pública? Sim. Não só analisando o comportamento de X ou Y individualmente notamos atos corruptos. Prender somente X ou Y não significará que a corrupção está findada.

Cultura, por definição, é um sistema social adaptativo complexo que possui várias características observadas e acordadas que são reconhecíveis ao longo do tempo mesmo que os membros do sistema sejam substituídos por novos. Sendo assim, a corrupção no Brasil apresenta características de prática cultural. Deste modo, ao aprofundar a análise comportamental do fenômeno é necessário chegar às relações entre diversos comportamentos agregados que culminam no produto agregado de corrupção.

A chamada metacontingência pode ser utilizada para elucidar isso. Definida por ser a relação contingente entre comportamentos complexos que resultam em um produto agregado que é selecionado a nível cultural. Diante de um caso de suborno entre um cliente e um funcionário público para a agilização de um processo, como exemplo, podemos ver que se o suborno for aceito, então o cliente obterá o seu benefício concedido, o funcionário público receberá dinheiro extra, mas o produto agregado da relação cliente-funcionário é uma autorização de negócios concedida pelo não cumprimento das regras.

O efeito cumulativo de comportamentos individuais de corrupção exerce impacto sobre o Estado e suas instituições. Os notórios escândalos de corrupção noticiados pela mídia levam à perda de confiança não apenas nos políticos e em seus respectivos partidos, mas também na corporação Brasil. Não há como trocar as peças e esperar resultados diferentes, sendo que as condições antecedentes apresentam discriminativos para atos corruptos. Burocracia exagerada, monopólio de funções públicas, falta de fiscalização e observância das leis, impostos altos,  serviços de péssima qualidade e educação pobre aliados ao descrédito das instituições do Estado são um ambiente fértil para classes de comportamentos selecionados culturalmente de corrupção. O jeitinho brasileiro, velho conhecido, é um traço aparente de um todo um sistema social permeado por relações corruptas.

Tudo está perdido? Não. O estudo de Agbota et al (2017) demonstra que reconhecer as contingências envolvidas em um comportamento pode auxiliar em atitudes que atuem direto na raíz do problema. Sugere a atuação em todos os níveis de seleção comportamentais relacionados à corrupção, principalmente cultural, com a criação de contingências agregadas que sejam impactantes tanto nos comportamentos individuais do organismo quanto nos produtos agregados das instituições.

Referências:

Agbota, T. K., Sandaker, I., de Carvalho, L. C., & Couto, K. (2017). Behavioral and Cultural Accounts of Corruption in the Interface Between Public Officer and Client. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 13(1).

World Bank. (2017). What is fraud and corruption? Retrieved April 24, 2017, from World Bank http://www.worldbank.org/en/about/unit/integrity-vicepresidency/what-is-fraud-and-corruption

Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), (2010). custos econômicos e propostas de combate. Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec). São Paulo.

Texto escrito por Eliseu Zanesco. Membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico

Como podemos combater a disseminação das chamadas “fake news”

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O texto do Boletim Behaviorista de hoje se baseia no artigo escrito por Tsipursky e Morford (2018) e publicado pela Behavior and Social Issues, que aponta algumas interpretações analítico-comportamentais sobre os comportamentos de disseminação de notícias falsas – as chamadas fake news – e de combate a esta disseminação. Quando eu comecei a escrever esse boletim, achei que seria interessante incluir dados, por exemplo, sobre a quantidade de fake news disseminadas ou da velocidade da disseminação. Então achei uma matéria da Folha de São Paulo que citava um artigo da Science escrito a partir de uma pesquisa do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Pensei que, especialmente porque eu estava escrevendo sobre fake news, seria interessante checar a existência do artigo e os dados contidos nele. Levei cerca de 10 minutos apenas para conseguir localizar e abrir o artigo na íntegra, além de algum tempo para checar as informações contidas nele. Ficou claro para mim porque é tão tentador disseminar notícias falsas: o custo de resposta para a checagem dos fatos parece ser sempre significativamente maior do que simplesmente compartilhar a notícia sem verificá-la. E como isso é válido para todos que receberão a notícia (no caso, vocês que estão lendo o Boletim), então dificilmente haveria consequências negativas para o meu comportamento disponibilizar uma informação falsa nessa postagem, isto é, cada um que recebe a notícia também não verifica e raramente questiona quem a compartilhou sobre a veracidade dos fatos.

A análise de Tsipursky e Morford (2018) aponta outros fatores que parecem manter o comportamento de compartilhar notícias falsas. Por exemplo, ao conviver com pessoas que compartilham ideias e valores semelhantes aos seus, o indivíduo tende a concordar essas pessoas com – ou ao menos não discordar delas -, mesmo quando elas disseminam algo que não é verdade.

Essa análise parece estar de acordo com os dados apontados no artigo publicado pela Science (Vosoughi, Roy & Aral, 2018). Segundo estes autores, as notícias falsas se espalham significativamente mais rápido e tem maior alcance do que as verdadeiras, sendo as notícias sobre política as que mais sofrem esse efeito. Isso se dá devida a uma disseminação feita por pessoas, e não por robôs. Além disso, a pesquisa demonstrou que fake news causam significativamente mais surpresa e nojo nas pessoas, quando comparadas com notícias verdadeiras. Essas informações foram obtidas a partir de uma análise feita no MIT sobre cerca de 126 mil publicações no Twitter entre 2006 e 2017.

Os efeitos de tal disseminação podem ser desastrosos, de forma a influenciar a opinião de uma grande parcela da população, a ponto de mudar o resultado de uma eleição presidencial. Essa parece ser uma preocupação Justiça Eleitoral brasileira atualmente, embora o presidente do Tribunal Superior Eleitoral tenha se manifestado recentemente baseado no artigo 222 do Código Eleitoral para apontar que o resultado das eleições pode ser anulado se comprovado que este foi afetado por fake news.

Mas como podemos evitar que cheguemos a esse ponto?

Tsipursky e Morford (2018) apontam uma proposta de intervenção, a Pro-Truth Pledge (PTP), que pode ser traduzida como Juramento de Compromisso com a Verdade. Baseada na ciência comportamental, essa proposta foi lançada publicamente no início de 2017 e consiste em promover um contexto propício para que pessoas se comprometam com a verdade. Para tanto, seus proponentes elencaram doze comportamentos a serem seguidos por quem faz o juramento e criaram uma comunidade onde as pessoas reforçam esses comportamentos. Dentre os comportamentos, estão incluídos: verificar a veracidade da informação e compartilhá-la como um todo (e não apenas as partes que condizem com a opinião do compartilhador); citar a fonte; defender outras pessoas que estão compartilhando informações verdadeiras (mesmo quando estas pessoas tem opiniões distintas do defensor); alinhar sua opinião e ações às informações verdadeiras; educar pessoas ao seu redor parar não compartilhar conteúdo de fontes questionáveis (mesmo que essas fontes apoiem a opinião do educador), dentre outros. As informações devem ser preferencialmente obtidas ou checadas a partir de organizações de checagem de fatos e literatura científicas.

O juramento deve ser informado publicamente e de maneira recorrente, o que previne que o compromissado apresente respostas impulsivas e contrárias ao juramento. Os autores citam pesquisas anteriores que mostraram que “pré-comprometimento” influencia o comportamento daquele que se compromete, que passa a ter mais autocontrole. Havendo o juramento público, é provável que haja reforçamento social (por exemplo, curtidas e comentários em redes sociais) por comportamentos de acordo com o comprometimento e punição social dos comportamentos opostos. A participação em comunidades (online e face-a-face) de pessoas que também fizeram o juramento aumenta a probabilidade dos comportamentos elencados no PTP serem reforçados.

Tsipursky e Morford realizaram 25 entrevistas informais com pessoas que fizeram o juramento e estas afirmaram tê-lo feito por um desejo por se comprometer no combater às notícias falsas e demonstrar um comprometimento pessoal com a honestidade. Algumas apontaram que queriam criar uma imagem de disseminador da verdade para impactar o comportamento de outras pessoas, o que foi descrito pelos autores com “estabelecer a si mesmos como um estímulo discriminativo” para o comportamento das outras pessoas de disseminar informações verdadeiras.

A partir das entrevistas, os autores afirmaram que o juramento teve efeito de controle de estímulo (função de estímulo) para o comportamento dos que juraram. Além disso, o artigo cita casos de pessoas da comunidade PTP que se retrataram após ter compartilhado uma informação que não tinha sido verificada, por conta de terem sido chamadas à atenção por outras pessoas da comunidade que fizeram o juramento.

Em suma, o PTP parece ser uma boa forma de combate a disseminação de notícias falsas, porém ainda não foi feito um estudo controlado a respeito da sua eficácia. Para tanto, Tsipursky e Morford sugerem estudos longitudinais e pesquisas que tenham controle experimental. Quem se anima para fazer um?! E enquanto esses estudos não chegam, que tal tentar contribuir fazendo o juramento?

Verifique as informações desse texto! Acesse:

Tsipursky, G., & Morford, Z. (2018). Addressing Behaviors That Lead to Sharing Fake News. Behavior and Social Issues, 27, 6-10.

Vosoughi, S., Roy, D., & Aral, S. (2018). The spread of true and false news online. Science, 359(6380), 1146-1151.

www.ProTruthPledge.org

www1.folha.uol.com.br/poder/2018/03/fake-news-apelam-e-viralizam-mais-do-que-noticias-reais-mostra-estudo.shtml

https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/fux-diz-que-justica-pode-anular-eleicao-se-resultado-for-fruto-de-fake-news-em-massa.ghtml

Créditos da imagem: http://www.criativa.com.br/blog/brand-news/fake-news-deixam-publico-com-o-pe-atras/

 

Escrito por Júlia Castro de C. Freitas, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista CAPES.