Por que falas sem sentido são comuns em idosos com Alzheimer?

                velhinhos

                                                                          “- Em que país nós estamos?

                                                                           – Porque a única coisa que a    

                                                                           gente faz é levantar de manhã!”

                                                                              

A conversa acima parece bem estranha, certo? Essa conversa foi citada como um exemplo de fala bizarra de pacientes que sofrem com demência de Alzheimer, em uma pesquisa realizada por Trahan, Donaldson, McNabney e Kahng (2014). Frases aparentemente sem sentido ou colocadas fora de contexto são um dos sintomas observados em idosos com demência. Quem observa de fora tem a sensação de que essas vocalizações surgem “do nada”. Mas será que é assim mesmo?

Os pesquisadores citados acima desenvolveram uma série de estudos para tentar descobrir se existe algo no ambiente desses idosos que influencie na probabilidade de falas sem sentido acontecerem. Participaram três idosos com demência severa ou moderada que moravam em uma casa de repouso (local onde o experimento foi conduzido). Nos três estudos o experimentador se posicionava um pouco afastado do participante e dizia que ficaria ali trabalhando em alguma atividade.

No primeiro estudo, os pesquisadores criaram três situações: uma em que, quando ocorresse uma fala bizarra o experimentador daria atenção ao participante durante cerca de 10 segundos; uma em que o experimentador pedia para o participante ajudar em alguma tarefa, independente da fala sem sentido ocorrer; e uma em que, a cada 10 segundos o experimentador dava atenção ao participante, independente do que este estivesse fazendo. Os pesquisadores observaram que a quantidade de fala sem sentido, para os três participantes, foi maior na situação em que a atenção era dada, independente do que os participantes estivessem fazendo.

No segundo estudo, os experimentadores estavam interessados em entender se aspectos presentes no ambiente antes de as falas bizarras acontecerem teriam alguma influência em sua ocorrência. Para isso, novamente três situações foram arranjadas: uma em que o experimentador fazia perguntas que requeriam respostas de “sim” ou “não”(ex. “Hoje é segunda-feira?”); outra em que eram feitas perguntas abertas (ex. “Que dia é hoje?); e uma terceira em que o experimentador fazia comentários diversos sobre aspectos do dia-a-dia (ex.: “Hoje é segunda-feira.”), como se estivesse puxando conversa. Os resultados mostraram que na situação em que os participantes deveriam responder questões abertas, o número de falas bizarras foi maior do que nas outras situações.

Por último, os pesquisadores realizaram um estudo em que queriam entender se o que acontecia depois da fala sem sentido poderia influenciar na probabilidade de ela ocorrer novamente. Cinco situações diferentes foram arranjadas. Em quatro delas o experimentador fazia perguntas abertas e em uma delas fazia perguntas que levavam a respostas “sim” ou “não”. As situações com perguntas abertas foram: corrigir o participante depois que ele falasse algo sem sentido; continuar a conversa como se estivesse concordando com a frase dita, mesmo que ela não fizesse sentido; dar um intervalo de 10 segundos na interação com os idosos (lembrando que essa interação consistia em fazer perguntas) quando a fala bizarra acontecesse; e fazer uma nova pergunta após a resposta com fala bizarra. Os resultados mostraram que não houve diferença na quantidade de falas bizarras nas quatro situações com perguntas abertas e, novamente, na situação que envolvia respostas de “sim/não”, a ocorrência desse tipo de fala foi menor.

A partir desses resultados os pesquisadores discutiram que (1) a atenção gera maior probabilidade de falas sem sentido. Isso ocorreria, provavelmente, porque ter a atenção de alguém é uma situação propícia para conversa e, com o aumento da probabilidade do conversar viria o aumento da probabilidade de uma fala bizarra acontecer. Além disso (2) o tipo de pergunta parece ser uma variável importante. Aparentemente, as perguntas abertas, que requerem respostas mais elaboradas, geram mais falas sem sentido.

Esses resultados os levaram a pensar que pode ser possível aumentar a eficácia da comunicação com idosos com demência, se perguntas mais adequadas forem usadas. Por exemplo, ao invés de perguntar “O que você pretende fazer nesse fim de semana?”, seria mais adequado perguntar “Você pode me dar alguns exemplos de coisas que pretende fazer nesse fim de semana?”. O segundo tipo de pergunta leva a respostas mais objetivas, o que pode ser mais fácil para o idoso.

E sabe do que mais? Nesta pesquisa, nas situações em que os participantes respondiam questões de “sim/não”, em geral outros tipos de vocalizações ocorriam em seguida e, na grande maioria das vezes, era falas que faziam perfeito sentido!

Um aspecto que chamou a atenção dos pesquisadores foi o fato de o que acontecia depois das falas não influenciar na frequência da ocorrência dessas falas no futuro. É sabido que ser sensível às consequências de um comportamento é muito importante para a aprendizagem e manutenção de comportamentos. Por isso o estranhamento em relação a esse resultado! Por outro lado, é também sabido que demências em fase moderada ou severa são resultados de intensas mudanças neurológicas. Talvez essas mudanças gerem uma insensibilidade às consequências e essa insensibilidade seja responsável, em parte, por vários dos sintomas das demências e assim, expliquem esses resultados.

Pesquisas como essas nos dão pistas de como melhorar a comunicação com pessoas com demência moderada e severa, o que reflete diretamente na qualidade de vida dos pacientes e de seus cuidadores.

Quer saber mais!?

Trahan, M. A., Donaldson, J. M., Mcnabney, M. K., & Kahng, S. (2014). The influence of antecedents and consequences on the occurrence of bizarre speech in individuals with dementia. Behavioral Interventions, 29 (4), 286–303.

Postado por Natalia Aggio, pos-doc do Departamento de Psicologia da UFSCar. Bolsista CAPES.

Advertisements