Novas tecnologias no ensino de linguagem para indivíduos com autismo

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Um dos temas mais desafiadores para a psicologia comportamental é o estudo e desenvolvimento de uma abordagem clara em relação à Linguagem. Desde muito cedo a grande maioria dos bebês responde mais prontamente a sons da fala que a outros tipos de sons. Uma das dificuldades para explicar a aprendizagem da linguagem é que ela não demanda um ensino direto ou especializado. A grande maioria dos seres humanos adquire a linguagem simplesmente convivendo em sociedade. Além disso, somos capazes de falar, escrever e compreender uma quantidade imensa de sentenças e palavras diferentes. Por esse conjunto de fatores é fácil concordar com a primeira frase deste texto.

Dada à complexidade do tema, não é estranho notar que diferentes grupos de pesquisadores desenvolveram diferentes modelos explicativos para a linguagem. Uma das explicações mais elegantes para este fenômeno é o Paradigma da Equivalência de Estímulos, proposto por Sidman e seus colaboradores. Neste modelo, a aprendizagem de relações arbitrárias entre símbolos (palavras, desenhos, etc.) e outros símbolos ou objetos capacitam o significado de nossa fala. As relações ensinadas são arbitrárias no sentido que esses símbolos não possuem semelhança física nenhuma, por exemplo, a palavra “faca” (seja falada ou escrita) não tem nenhuma semelhança física com uma faca.

A partir da aprendizagem de algumas relações somos capazes de exibir tanto os comportamentos aprendidos diretamente como também comportamentos novos. Por exemplo, podemos aprender que o som “CAMISA” está relacionado ao objeto CAMISA. Além disso, podemos aprender que este objeto está relacionado à PALAVRA ESCRITA CAMISA e a partir destas duas relações (SOM → OBJETO e OBJETO → PALAVRA ESCRITA) somos capazes de diante da PALAVRA ESCRITA CAMISA dizer em voz alta “CAMISA”, independente desta resposta ter sido ensinada. Dessa forma, uma das características principais desse modelo é que em alguns contextos esses estímulos (por exemplo, palavras, símbolos ou objetos) sejam substituíveis entre si. Uma palavra escrita na lista de compras indica qual produto eu devo comprar, contudo eu não irei comer a palavra escrita pão. Estudos dessa utilizando este modelo já obtiveram resultados amplamente comprovados e replicados.

O texto de hoje descreverá um experimento com aplicação deste modelo, cujos participantes são parte de uma população que normalmente tem restrições em relação à linguagem, os autistas. Segundo o site da AMA (Associação de Amigos do Autista), os indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) podem ter características bastante distintas, tendo alguns indivíduos comorbidades como deficiência intelectual, além de grandes dificuldades de interação social e de comunicação e de comportamentos restritos e repetitivos que dificultam a aprendizagem de diversas habilidades; outros podem ter apenas poucas restrições na fala e nas habilidades de comunicação e pouquíssimos movimentos repetitivos evidentes.

O desenvolvimento de estudos com participantes com restrições na linguagem, tanto autistas como pessoas com outros quadros de desenvolvimento atípicos, permite não só uma adequação teórica mais precisa do modelo utilizado, como também o desenvolvimento de tecnologia para intervenção nessas populações. O Estudo de André Varella e Deisy de Souza (2014), publicado no Journal of the Experimental Analysis of Behavior, tem essas características. Os participantes foram três meninos e uma menina autistas, com idades de sete a 15 anos. Os participantes foram inicialmente testados, e todos apresentavam restrições severas para linguagem em uma avaliação inicial. Foram usadas figuras coloridas sem sentido como estímulos. Em pesquisas é comum o uso deste tipo de estímulo, pois permite uma maior confiabilidade nos dados. É como se os participantes tivessem aprendendo palavras de um idioma criado pelo pesquisador.

As figuras coloridas foram apresentadas na tela de um computador, e os participantes deveriam escolher a partir de uma figura na parte de cima da tela, qual de três figuras apresentadas na parte de baixo se relacionava com aquela. É importante frisar que o procedimento foi planejado para estabelecer relações entre dois conjuntos com quatro figuras. Quando o participante acertava uma tentativa do conjunto de figuras 1, era tocada uma melodia 1 e ele recebia um item comestível 1. O mesmo ocorrendo para as respostas corretas do conjunto de figuras 2, que era seguido da melodia 2 e do item comestível 2. Os itens comestíveis foram diferentes para cada criança, podendo ser amendoim, batata chips, biscoito, etc.

Você deve estar se perguntando: “Por que os experimentadores fizeram isso?” Uma investigação importante desse experimento foi verificar se esses participantes seriam capazes de relacionar corretamente as figuras. Além disso, esses detalhes descritos anteriormente foram realizados para responder a duas questões de pesquisa importantes e inovadoras.

A primeira delas é relativa ao uso de reforçadores naturais específicos, ou seja, os itens comestíveis. Normalmente, são ensinadas diversas relações com um mesmo reforçador comum, que pode ser um elogio ou mesmo um item comestível, muito efetivo com indivíduos com autismo. Contudo, uma maneira de ensinar as relações sem a necessidade de elementos em comum foi empregar essas reforçadores naturais específicos. Assim, o número de relações ensinadas era muito menor tornando o ensino mais resumido. É muito difícil manter um participante com desenvolvimento atípico engajado em uma tarefa, e qualquer redução do tempo para o ensino é muito bem vinda. Além disso, como estes participantes desenvolvem atividades terapêuticas em seus tratamentos, esse tempo reduzido para a tarefa é muito útil. O uso deste tipo de procedimento mostrou resultados bastante satisfatórios em experimentos anteriores.

E a outra parte das consequências, as diferentes melodias? Os indivíduos com autismo demonstram grande dificuldade em prestar atenção ao que se fala e as tarefas que devem realizar simultaneamente. Neste estudo até o ponto descrito, foram empregadas figuras como estímulos que é um tipo de tarefa que eles  um pouco mais concebível para eles. A utilização de um elemento auditivo na consequência permite investigar se eles serão capazes de aprender essa relação que tem uma característica diferente: enquanto relacionar as figuras entre si são relações visuais- visuais, relacionar essa melodia com as figuras é uma tarefa auditivo-visual. O ensino desse segundo tipo de tarefa tem sido muito trabalhoso com indivíduos com autismo e não se conhece uma forma prática, até então, para realizar este tipo de atividade. A questão aqui proposta para a investigação foi: será que apenas com um ensino de relações entre estímulos visuais-visuais (figura-figura), poderiam emergir relações de outra natureza, auditivo-visuais (melodia-figura) não treinadas?

Analisemos então os resultados. A opção pelo procedimento de reforço específico comprovou os indícios de outros estudos mostrando que a aprendizagem das relações ocorre de maneira mais eficaz e precisa. O uso de consequências específicas mostrou-se uma variável importante a ser considerada para o desenvolvimento de programas de ensino para autistas, essa característica ampliou sensivelmente as possibilidades de aprendizagem de comportamentos mais complexos.

Em relação à emergência das relações auditivo-visuais, todos os participantes demonstraram comportamentos relacionados entre a melodia e as figuras coloridas. Observando os resultados das relações visuais-visuais, três dos quatro participantes demonstraram os comportamentos emergentes coerentes com o ensino. Esse resultado permite então sugerir uma nova possibilidade de procedimento. Ao se ensinar relações entre objetos do nosso cotidiano, ao aprender a relação entre o objeto maçã e a palavra escrita maçã, as consequências poderiam incluir a palavra falada maçã. Dessa forma, estudos futuros podem investigar a validade desse procedimento.

O experimento aqui descrito permitiu vislumbrar aplicações inovadoras utilizando o Paradigma da Equivalência de Estímulos para o ensino de linguagem com pessoas com desenvolvimento atípico. Os resultados mostraram que a utilização de consequências combinadas (som + item comestível) capacita uma aprendizagem eficaz e diversificada. Com a utilização deste procedimento foi possível que os participantes aprendessem algo que é normalmente muito difícil que eles aprendessem! Espera-se que com o cuidadoso estudo deste modelo explicativo da linguagem seja possível desenvolver novas tecnologias de ensino para melhora da qualidade de interação em pessoas autistas.

Referências

Associação Amigos do Autista (http://www.ama.org.br/site/en/definicao.html)

Sidman, M. (2000). Equivalence relations and the reinforcement contingency. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 74, 127-146.

Sidman, M., & Tailby, W. (1982). Conditional discrimination vs. matching to sample: an expansion of the testing paradigm. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 37, 5-22.

Varella, A. A. B, & de Souza, D. G. (2014). Emergence of auditory-visual relations from a visual-visual baseline with auditory-specific consequences in indivuals with autism. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 102, 139-149.

Escrito por João Henrique de Almeida, doutor em Psicologia e estagiário de pós-doutorado no Laboratório de Estudos do Comportamento Humano da Universidade Federal de São Carlos. (Bolsista CAPES-INCT-ECCE).