Diversidade, confiança e interesses comuns

Pesquisa visa avaliar os efeitos da diversidade racial sobre disposição em se investir em um fundo coletivo. Os resultados são surpreendentes!

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Imagine que você está sentado(a) ao redor de uma mesa com outras cinco pessoas que você não conhece. São todos investidores em um fundo de investimento coletivo, inclusive você.

Inicialmente, cada um recebe 10 ações.

Você agora precisa fazer uma escolha:

Quantas ações você quer investir no fundo coletivo?

Eis algumas informações que podem ajudar na sua decisão:

– Ao final de cada rodada de investimentos, o total de ações investidas pelo grupo é triplicado e, então, redistribuído igualmente para todos os investidores, independentemente da quantia investida individualmente.

– As ações não investidas são mantidas em um fundo privado, no qual acrescenta-se o valor obtido por meio da redistribuição dos rendimentos do fundo coletivo.

Serão oito rodadas de investimento ao todo e você terá que tomar uma decisão semelhante em cada uma delas.

A lógica parece bastante simples. Se todos investirem substancialmente no fundo coletivo, o rendimento será otimizado e todos sairão ganhando. No entanto, é preciso confiar que todos pensarão dessa forma.

Um ou mais investidores podem optar por uma estratégia mais segura. Por exemplo, investir o mínimo possível do fundo privado e depois simplesmente aguardar o recebimento de uma parcela do rendimento obtido com o fundo coletivo. Nesse caso, os que investirem mais no fundo coletivo acabarão prejudicados. Assim, corre-se o risco de que cada vez menos ações sejam investidas, levando à degradação e à falência do fundo coletivo.

Vamos supor que você opte por investir a maior parte de suas ações no fundo coletivo. O que te levaria a confiar que os demais investidores farão algo semelhante? Conforme dito anteriormente, você ainda não os conhece.

Talvez conversar com eles ajude, certo? Vocês podem discutir as estratégias de investimento e os benefícios de se investir substancialmente no fundo coletivo.

O que mais, além da comunicação, poderia ajudar?

Será que estamos mais propícios a confiar ou não em uma pessoa com base apenas em características aparentes, como as roupas, o gênero ou a cor da pele?

Pesquisas na área da psicologia social indicam que sim. O contexto sociocultural em que vivemos nos leva, por exemplo, a confiar mais nas pessoas que identificamos como pertencentes ao mesmo grupo que nós, o que vale para aspectos econômicos, étnicos, raciais etc. Ao mesmo tempo em que pode contribuir para a formação da identidade pessoal e do senso de pertencimento, tal viés pode também levar a conflitos étnicos, a comportamentos “racistas” e ao baixo investimento em bens públicos nos países que apresentam muita diversidade nos aspectos citados.

Foi esse último ponto que levou os economistas Justine Burns e Malcolm Keswell, da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, a se fazerem a seguinte pergunta:

Será que a diversidade racial intragrupo afeta a disposição dos indivíduos em contribuir para um fundo coletivo?

Para responder tal pergunta, eles utilizaram uma situação semelhante a que você esteve exposto no início do texto, denominada Jogo dos Bens Públicos. A diferença é que em uma condição os grupos eram formados por investidores e investidoras que eram homogêneos em relação ao aspecto racial (ou eram todos negros, ou eram todos brancos), enquanto em outra condição os grupos eram formados por investidores e investidoras que apresentavam heterogeneidade racial entre si (metade eram negros e metade eram brancos). Os pesquisadores também controlaram a comunicação entre os participantes, sendo a conversa permitida em apenas metade dos grupos de cada condição.

E aí, o que você acha que aconteceu? Em quais grupos você acha que foi observada uma maior frequência de investimentos no fundo coletivo?

Em relação a comunicação, não houve surpresa. Os grupos que podiam conversar investiram significativamente mais do que os grupos em que a conversa era proibida, não importando se esses grupos eram formados somente por negros, somente por brancos ou se havia diversidade racial.

Mas, e comparando essas três condições entre si? Você acredita que os grupos que apresentavam homogeneidade em termos raciais investiram mais ou menos do que os grupos heterogêneos?

A resposta é simples: depende!

Contrariando as previsões da literatura, os grupos formados somente por negros apresentaram uma frequência menor de investimentos em relação aos grupos heterogêneos (que não diferiram significativamente dos grupos formados somente por brancos). Em outras palavras, a identificação com o grupo em termos raciais não foi um fator importante para estabelecer um vínculo de confiança entre os participantes desse grupo.

Para explicar tais resultados, os autores levantam algumas hipóteses. A principal delas é a de que, quando a identidade racial dentro de um grupo é homogênea, outros fatores se tornam mais salientes, afetando os investimentos. Entre esses fatores estariam:

  • O nível de confiança interpessoal dentro dos grupos. Os pesquisadores mediram isso por meio de um questionário aplicado ao final do experimento, contendo afirmações como “a maior parte das pessoas são em geral confiáveis”. Eles constataram que os participantes negros tinham um menor índice de confiança interpessoal, o que nos grupos formados somente por negros pode ter levado ao baixo nível de investimentos no fundo coletivo.
  • A condição socioeconômica dos participantes. Os pesquisadores avaliaram esse fator por meio do questionário final e pelo número de dias que os participantes levaram para ir receber o dinheiro relativo à participação no experimento. Em geral, os participantes negros tinham uma condição socioeconômica menos favorável, precisavam de maior suporte social da Universidade e levaram menos dias para irem receber o dinheiro do que os participantes brancos. Tal condição pode ter levado os participantes negros a evitarem os riscos do investimento no fundo coletivo.
  • A heterogeneidade em termos étnico-linguísticos (definida pela presença de participantes oriundos de diversas nacionalidades) se tornou saliente nos grupos formados somente por negros. Os autores levantam essa hipótese com base na maior preponderância de diversidade étnica nos grupos formados somente por participantes negros e pelo fato de que a frequência de investimentos diminuiu progressivamente entre os grupos que podiam conversar entre si. O argumento é o de que, ao conversarem, os participantes tornavam a diversidade étnica ainda mais saliente, por meio da identificação de diferenças no sotaque de cada um.

Os resultados desse estudo são importantes para se pensar na multiplicidade de fatores que podem afetar o comportamento das pessoas quando expostas a uma situação de grupo, muitas vezes contrariando as expectativas dos próprios pesquisadores e abrindo espaço para novas investigações. Além disso, a pesquisa apresenta o Jogo dos Bens Públicos como potencial instrumento para pesquisadores analítico-comportamentais se debruçarem sobre temas ainda pouco explorados na área, como a diversidade racial, de gênero, política etc. Por que não investir mais nessa direção?

 

Quer saber mais?

Burns, J. & Keswell, M. (2015). Diversity and the provision of public goods: Experimental evidence from South Africa. Journal of Economic Behavior & Organization, 118, 110-122.

 

Post escrito por Julio Camargo

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Mestre em Análise do Comportamento pela Universidade Estadual de Londrina.

 

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