Você pagaria para parar de fumar?

nat aggio

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o tabaco mata em torno de 7 milhões de pessoas por ano. Cerca de metade das pessoas que fumam morrem em decorrência desse hábito. Bom, que o cigarro é um veneno todo mundo sabe, mas muitas pessoas têm uma grande dificuldade em largar esse vício. É um tal de larga e volta que só que passa por isso sabe. Será que uma motivação financeira a mais poderia ajudar?

Alguns estudos verificaram a eficácia de um programa de redução de fumo em que o participante deposita um determinado valor em dinheiro e vai recebendo partes desse valor de volta, caso consiga atingir metas de redução de consumo. A maioria desses estudos são antigos, mas as novas possibilidades tecnológicas estão impulsionando novamente essas investigações.

Brantley Jarvis e Jesse Dallery da Universidade da Flórida fizeram uso dessa tecnologia da seguinte forma. Foram convidados a participar dos experimentos pessoas que fumavam mais de 10 cigarros por dia, há pelo menos dois anos. Essas pessoas realizavam um depósito online da quantia dinheiro que eles escolhessem e poderiam receber esse dinheiro de volta conforme fossem atingindo as metas de redução do fumo. Eram no total 28 metas de redução e 10 dias de abstenção. As metas foram estabelecidas individualmente, a partir do consumo costumeiro de cada um, que foi aferido durante 3 ou 5 dias (linha de base). Os participantes tinham acesso, por meio de login e senha, a uma área em que poderiam comunicar e verificar seu consumo de cigarro, assim como acompanhar seus ganhos. Para medir o consumo, duas vezes por dia  os participantes faziam upload de um vídeo em que filmavam a checagem desse consumo. Isso era feito quando eles assopravam perto um aparelho que ganharam dos experimentadores para este fim.

Os resultados mostraram que os participantes atingiram em média 64% das suas metas e que houve uma redução média de 45,1% no consumo nas fases de redução e de 58,4% na fase de abstinência, se comparado com o consumo na linha de base.No segundo experimento, os pesquisadores resolveram dar uma forcinha a mais. O procedimento foi o mesmo, mas o pessoal da universidade dobrava o valor que os participantes depositavam (até uma quantia máxima de 50 dólares). Resultados? Em média 67% das metas foram atingidas e a redução média do consumo foi de 41,2% na fase de redução e 41,6% na fase de abstinência e a variabilidade entre os participantes foi maior do que no Estudo 1. Os resultados são animadores, mas parece que o aumento do valor total do dinheiro não fez tanta diferença. Segundo os autores, esses resultados poderiam ser melhores se, por exemplo, o valor recuperado fosse aumentando conforme as metas fossem atingidas (nos experimentos descritos a quantidade de dinheiro devolvido por meta era sempre a mesma).

É a tecnologia, mais uma vez, sendo usada para ajudar as pessoas a serem mais saudáveis. E você, pagaria para parar de fumar?

Quer saber mais? Leia o artigo: Jarvis, B. P. & Dallery, J. (2016). Internet-based self-tailored deposit contracts to promote smoking reduction and abstinence. Journal of applied behavior analysis, 50, 189–205.

Postado por Natalia Maria Aggio, Pós-doutoranda no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (Bolsista CAPES)

É possível entender a cultura da pichação pela análise do comportamento?

 

Você sabe o que é etnografia? De maneira resumida, etnografia é o estudo descritivo de uma cultura, uma vez que permite produzir conhecimento sobre os costumes, crenças e tradições de um grupo cultural e, mais ainda, compreender como as práticas são transmitidas de geração em geração e como permitem a continuidade de um determinado sistema social. Na antropologia cultural, o etnografar é eleito como procedimento intrínseco desta área de conhecimento.

Na etnografia é importante que o pesquisador observe diariamente os modos de vida, relações sociais, ritos e, principalmente, conviva com a cultura que está inserido. Isso levará ao entendimento pelo olhar dos membros daquela cultura, somente possível por meio da interação entre investigador e a sociedade. Adicionalmente, o pesquisador pode conduzir entrevistas para colher dados adicionais sobre a subjetividade do grupo. Embora não seja apenas o relato verbal eleito como método de análise, mas a interação e observação das práticas sociais. Podemos sintetizar o método etnográfico com a seguinte frase de Urpi Montoya Uriarte, antropólogo da USP campus São Paulo: “um descobrimento fortuito da importância de conviver e ouvir aqueles que pretendemos entender”.

Deste modo, apesar da análise cultural com referencial analítico-comportamental ainda ser um campo tímido, deve-se fomentar estudos possam entender as dinâmicas das culturas e, posteriormente, procedimentos que promovam mudanças culturais. Diante da complexidade do comportamento cultural e sua transmissão entre gerações é necessário desenvolver ferramentas que permitam extrair conhecimento sobre práticas de indivíduos em grupos.

E você? Já pensou se mais pesquisas em análise do comportamento se apropriassem deste método? Pois bem, Lucas Couto, em colaboração com pesquisadores da Oslo and Akershus University College investigaram no Brasil, por meio de uma etnografia, a cultura dos pichadores das cidades de Brasília e Goiânia. Os principais resultados descrevem e identificam propriedades da cultura da pichação que podem sugerir possíveis estratégias de intervenções. Tais intervenções são interessantes por não terem o objetivo de punir ou extinguir a cultura dos membros, mas sim produzir alternativas à pichação por meio de planejamento para ocorrência de comportamentos pró-sociais.

Os autores do artigo discutem tais resultados em duas direções. Em primeiro lugar são discutidas as características dos reforçadores que mantem estas práticas, pois apesar de não prover ganhos materiais, o ato de pichar fornece amplas e poderosas contingências de reforçamento social. Em segundo lugar, a análise funcional das práticas culturais permite possiblidades de intervenções.

Os autores argumentam que ao realizar uma análise funcional das práticas culturais podemos planejar contingências que alterem o ambiente social dos pichadores e, desta forma, existe a possibilidade de produzir novos comportamentos e tornar incompatíveis os atualmente emitidos (não aceitos socialmente), porém sem extinguir a cultura da pichação. Nesta questão, por exemplo, pode-se levar elementos do graffiti a serem incorporados aos pichadores para favorecer contingências que promovam o engajamento com ativismo cultural, mas sem os efeitos prejudiciais à sociedade. Isso poderá promover uma rede de apoio aos pichadores em um contexto de ativismo. Assim, setores que apoiam o ativismo podem favorecer o desenvolvimento de comportamentos socialmente aceitáveis nos pichadores.

Para chegar a estes resultados, somente Lucas entrevistou vários membros dos grupos de pichadores, com os quais conviveu interagindo quase diariamente. Essa convencia direta com o grupo estudado propiciou uma análise da cultura com foco na relação funcional entre variáveis ambientais e práticas culturais.

A cultura da pichação envolve muitas práticas. As mais comuns são a criação de apelidos entre os membros, estilos e formatos de letras característicos de cada grupo (você com certeza já visualizou essas letras em pichações de cidades de grande porte), hierarquia entre os grupos e pichações em ambientes de ampla visualização e de risco, por exemplo, obras públicas. Ao categorizar e analisar essas práticas foram encontrados alguns achados.

Inicialmente, observou-se os subsistemas nos quais são criados apelidos individuais e o nome do grupo dos membros. Isso permite que a identidade do pichador e da facção sejam reforçadas. Por exemplo, quanto o membro picha muros, monumentos e/ou paredes, as letras com os apelidos permitem que pessoas de fora (pichadores ou mídia) apresentem consequências sociais (expor a grafia em redes sociais, noticiários e entre outros pichadores) para o produto do pichador e da sua coligação. É importante dizer que os grupos podem ser fundidos e, consequentemente, aumenta-se o número de membros, propiciando maior visibilidade a relação entre os pichadores.

Também foi observado que a prática cultural da pichação é transmitida para os novos membros. Isso inclui os melhores pontos para picharem, características simbólicas do grupo, uso do melhor material para pichar. Em relação a isto, podemos destacar as características topográficas (formatos) das letras pichadas, pois, em geral, os tipos de grafias são modelados pelos membros mais velhos e experientes que ensinam como será feita a arte para os iniciados. Esses infográficos contêm anagramas, tamanhos e formas variadas, todas reforçadas diferencialmente (letras maiores recebem maiores comentários de outras pessoas, ou seja, maior magnitude de reforçamento). Isso demonstra como a prática cultural é mantida pelos membros que as mantém ao longo das gerações.

Como último ponto de observação foi possível analisar funcionalmente esta cultural. Notou-se uma relação entre o ambiente social da pichação, entre pichadores, os grupos de pichadores e influência de diversas contingências punitivas e de reforçamento providas por terceiros, como: a mídia, as famílias, os ambientes escolares, a polícia e as nossas leis (no Brasil, o ato de pichar é considerado crime ambiental, artigo 65 da Lei 9.605/98).

Um exemplo de como estes fatores estabelecem a relação entre a cultura de pichar e terceiros é a grande mídia. No texto é relatado que um importante monumento de Brasília, o Memorial do Presidente Juscelino Kubitschek, apelidado de Memorial JK, é frequentemente pichado, sendo isso usualmente noticiado em jornais de ampla circulação. Aqui podemos notar que o ato de pichar locais de grande importância social é constantemente reforçado pela mídia, que indiretamente mantém tal prática, que se torna prazerosa aos pichadores e aos grupos, mas fortemente aversiva aos terceiros (membros fora desta cultura, ditos forasteiros).

Em relação à possíveis intervenções, os autores fazem um alerta sobre quem for planejar a mudança cultural se atentar aos reforçadores naturais que selecionam as práticas. Normalmente, quem irá planejar uma mudança de práticas, pode não considerar os reforçadores disponíveis no ambiente de quem pratica a pichação, tal visão tem função apenas de remover a estimulação aversiva dos que estão de fora da cultura da pichação. Dessa forma, a chance de contra controle do grupo é muito alta e será produzido novos comportamentos prejudiciais à sociedade.

O artigo traz um exemplo de mudanças culturais que não funcionaram, ao relatar uma exposição de artes da Alemanha em 2012, na qual foi convidado um grupo de pichadores para participarem de um workshop com o objetivo de reconhecer a pichação como arte. Para este evento, o curador restringiu sobre o que deveria ser apresentado como arte pelos pichadores e somente haveria discussão teórica sobre o assunto em formato de painéis, ou seja, impôs sua visão de como deveria ser exposta e dialogada com a mostra artística. Diante dessa situação, os pichadores subiram ilegalmente a igreja que sediava o evento e deixaram suas marcas no local. Segundo os pichadores, a sua arte é livre, não pode ser restringida, pois a pichação é sempre transgressiva e das ruas. Provavelmente, este tipo de intervenção não funcionou por não considerar os reforçadores naturais como uma poderosa fonte de controle de novos comportamentos. Ao estabelecer consequências arbitrárias, por não ter contato com a cultura do pichador, o planejador com certeza irá favorecer mais comportamentos prejudiciais do que benéficos.

Como no artigo descrito nessa resenha e, na maioria dos estudos sobre planejamentos culturais, os autores nos instigam a fazer a seguinte reflexão: Parece haver uma tendência em relação à noção de planejamento cultural do cientista comportamental em buscar intervenções que levariam a uma mudança da cultura, dentro daquilo que se convenciona como necessário de modificação pelo interventor. Porém, podemos aprender com as ciências antropológicas que devemos entender pela visão dos membros internos a cultura analisada. Por que não pensar em se interessar por simplesmente “entender” certa sociedade? Às vezes, tentativas de “controlar’ as práticas sociais podem levar a caminhos tão desastrosos como o de uma mudança cultural não planejada. É possível que a compreensão do sistema social seja um caminho mais seguro para a mudança do nosso olhar e, quando for planejada a mudança, as intervenções poderão ser mais pontuais e menos totalitárias.

Por fim, podemos pensar na seguinte reflexão enquanto analistas do comportamento: Não devemos limitar nossa metodologia e olhar os fenômenos apenas com modelos tradicionais de nossa ciência. Tal prática pode levar a uma deturpação do que seria um planejamento cultural efetivo, uma vez que para entender uma cultura, o olhar do outro deve prevalecer sobre o nosso e devemos entender as complexas relações de contingências que mantêm as práticas culturais do grupo observado. Temos as ferramentas produzidas pela investigação experimental, mas aplicá-las nas outras culturas requer mudanças em nossas próprias práticas culturais!

Texto escrito por Marlon Alexandre de Oliveira

Doutorando em Psicologia pela UFSCar e pesquisador do INCT-ECCE Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino. Bolsista CAPES.

Quer saber mais?

de Carvalho, L. C., Sandaker, I., & Ree, G. (2017). An ethnographic study of tagging cultures. Behavior and Social Issues, 26, 67.

Uriarte, U. M. (2012). O que é fazer etnografia para os antropólogos. Ponto Urbe. Revista do núcleo de antropologia urbana da USP, (11).

Fonte da imagem: https://kikacastro.files.wordpress.com/2015/07/11231805_1132454836769937_2069011068897199668_n.jpg

É possível ensinar comportamentos empáticos a crianças autistas?

imagem sabrina campos

Argott, Townsend,  Poulson, autores de um estudo recentemente publicado na revista Behavior Analysis in Practice, discutem que o comportamento empático pode ser descrito como discriminar estímulos emocionais provenientes do comportamento de outras pessoas e responder diferencialmente a eles. Ou seja, responder de acordo com o significado dos estímulos afetivos oriundos do comportamento de um interlocutor. Notem que essa definição adota como foco de análise as relações de controle entre eventos antecedentes e respostas. Dessa forma, favorece a manipulação experimental desse tipo de comportamento e o desenvolvimento de métodos de ensino do mesmo.

        Devido a fatores como déficits na área da linguagem, pouca sensibilidade a reforçadores sociais e/ou dificuldades de discriminar estímulos emocionais provenientes do comportamento de interlocutores, pessoas com Transtornos do Espectro Autista (TEA) podem não emitir ou ter baixa frequência de comportamentos empáticos. Se você acompanha a série “The Big Bang Theory” provavelmente já se deparou com uma situação desse tipo. Embora não haja uma declaração explícita sobre isso na série, é possível identificar no personagem Sheldon Cooper características de uma pessoa com uma condição conhecida como Síndrome de Asperger, uma variação mais leve do espectro autista. Uma dessas características refere-se justamente ao conceito de empatia que estamos discutindo.

Em alguns episódios, Sheldon parece não conseguir identificar pistas sobre os estados emocionais de seus amigos e acaba se comportando de forma indelicada. Em outras situações, quando identifica que um de seus amigos está triste, ele costuma oferecer uma bebida quente ao mesmo. É possível considerar que Sheldon tentou ser empático, visto que ele conseguiu discriminar os estímulos emocionais provenientes do comportamento do seu interlocutor e emitiu uma resposta que, segundo a sua história de aprendizagem, é adequada. Por outro lado, o hábito de “oferecer uma bebida quente” sugere um repertório restrito de respostas para situações como essa.

Diante da dificuldade apresentada por pessoas com TEA em se engajar em comportamentos empáticos e da importância desse repertório comportamental para as interações sociais, um grupo de pesquisadores desenvolveu um procedimento que teve o objetivo de ensinar respostas empáticas complexas para crianças com tal modo de desenvolvimento. O estudo teve quatro participantes com diagnóstico de TEA, com idades entre 10 e 12 anos, alunos de um programa educacional embasado na Análise do Comportamento Aplicada (ABA).

        Os autores construíram um procedimento de ensino de respostas empáticas que deveriam ser emitidas em relação a três categorias afetivas (alegria, frustração e dor), apresentadas no comportamento de outra pessoa com a qual os participantes estivessem interagindo (que no caso da pesquisa era o instrutor). Após o fim da intervenção, era esperado que os mesmos fossem capazes de: a) discriminar estímulos emocionais provenientes do comportamento de seu interlocutor e b) emitir respostas empáticas complexas formadas por quatro componentes: uma declaração verbal proferida, em uma entonação adequada, acompanhada de uma expressão facial e de gestos coerentes com o contexto. Dessa forma, após a ocorrência de uma estimulação afetiva (proveniente do comportamento de um interlocutor), por exemplo,  levantar as mãos acima da cabeça e falar “ Eu consegui montar o cubo mágico!” (na categoria alegria), seria considerado uma resposta empática satisfatória, por exemplo, se a criança, sorrindo e com um tom de voz que indicasse entusiasmo falasses: “Isso é ótimo! Toca aqui! ” ao mesmo tempo em que ergue uma das mãos. A presença dos quatro componentes citados nas respostas empáticas foi considerada importante, pois a falta de um deles poderia fazer com que essas fossem interpretadas como inapropriadas às situações de vida cotidiana. Para entender melhor esse critério, imagine como você se sentira ao ouvir alguém falar “Parabéns!” com uma expressão facial triste ou “Eu sinto muito” em um tom de voz que indicasse entusiasmo.

        Após uma avaliação de linha de base, que visou identificar o repertório de respostas empáticas dos participantes anterior à intervenção, foi iniciado o procedimento de ensino. Nesse procedimento, era realizada uma tarefa em que era apresentado um estímulo emocional pelo instrutor, por exemplo, demonstrar sentir dor após tropeçar em um móvel. Se após cinco segundos, a criança, com o olhar voltado para a direção do instrutor, emitisse uma resposta empática que incluísse os quatro componentes especificados (declaração, entonação, expressão facial e gestos), eram apresentadas consequências potencialmente reforçadoras (elogios e fichas) e, então, iniciada uma nova tentativa com a apresentação de um novo estímulo afetivo. Mas, caso a criança não respondesse ou emitisse uma resposta que não contemplasse os quatro componentes descritos, era iniciada uma sequência de dicas.

        O primeiro nível de dica foi a exibição de um vídeo que apresentava um modelo da situação antecedente (estímulo emocional) e da resposta empática adequada. Na sequência, era apresentado novamente o estímulo emocional (resposta do instrutor). Caso o participante não emitisse a resposta empática esperada, era apresentada a próxima dica, que correspondeu a um modelo da mesma situação, representado ao vivo pelos experimentadores. Se ainda assim o participante não emitisse o comportamento esperado, eram fornecidas instruções verbais e dicas manuais. Quando a criança emitia, de forma independente, uma resposta empática que contemplasse os quatro componentes especificados pelos pesquisadores, eram apresentados elogios e fichas como consequências potencialmente reforçadoras.

        No decorrer do processo de ensino, também eram realizadas tentativas que visavam promover a generalização de respostas em relação a novas pessoas e a novos estímulos afetivos. Eram apresentados estímulos discriminativos novos, que também correspondiam às categorias anteriormente mencionadas, mas com topografias diferentes, por exemplo, se para a categoria frustração o estímulo empregado, na fase de treino, fosse uma situação em que o instrutor relatava não estar conseguindo fazer um brinquedo funcionar, nas tentativas de generalização, poderia ser apresentada uma situação em que o instrutor relatasse não estar conseguindo ler uma palavra ou abrir um recipiente. Além disso, em algumas tentativas, as situações eram apresentadas por um novo instrutor.

A comparação dos resultados referentes às fases teste de linha de base e de treino demonstrou aumento expressivo nas porcentagens de respostas empáticas após o início da intervenção. Além disso, foi observado também que, nas tentativas de generalização de respostas para outras pessoas e estímulos emocionais (situações), os participantes continuaram emitindo as respostas empáticas em porcentagens altas. Desempenho com tendência semelhante também foi observado nas sessões de follow-up, em que a manutenção das respostas empáticas foi avaliada seis semanas após o fim da fase de ensino.

        Em suma, os resultados indicam que é possível ensinar jovens autistas a discriminar diferentes categorias afetivas (alegria, frustração e dor) e emitir respostas empáticas complexas apropriadas a essas situações. Os dados de generalização apontam que o padrão de respostas aprendido na fase do treino foi estendido a outras pessoas e estímulos emocionais componentes das mesmas classes dos estímulos empregados nessa fase. Isso indica que, possivelmente, os participantes foram capazes de discriminar as características em comum das diferentes situações de uma mesma categoria afetiva, como, por exemplo, o sorriso e a entonação elevada, para a alegria, de forma a responder adequadamente aos estímulos com os quais não tinham sido diretamente treinados, mas que também apresentavam algumas dessas características.

A manutenção das respostas empáticas, após o período de seis semanas, também sugere que elas passaram efetivamente a compor um novo repertório comportamental para os participantes. Repertório esse que, possivelmente, poderá favorecer as suas interações cotidianas. A aprendizagem do comportamento empático pode representar um avanço significativo para o desenvolvimento de indivíduos com TEA, visto que colabora para que eles ampliem a sua rede de apoio social com maior autonomia. Se você gostou da pesquisa e quer saber mais, confira o artigo na íntegra!

Argott, P. J., Townsend, D. B., Poulson, C. L. (2017) Acquisition and Generalization of Complex Empathetic Responses Among Children with Autism. Behavior Analysis in Practice, 10(2), 107-117.      

Escrito por:

Sabrina Campos Dias Pedrosa, Mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Fonte da imagem:

http://www.redehumanizasus.net/87960-nao-basta-ser-simpatico-e-preciso-ser-empatico

Prisão como Punição: Por que o sistema prisional parece não diminuir a violência?

texto josiane

O sistema prisional é alvo de muitas discussões. Uma das questões discutidas é se as medidas adotadas por esse sistema diminuem o número de crimes, já que ele é bastante alto em alguns países e gera custos elevados para o governo.
Tanto nos EUA quanto no Brasil, o número de crimes é enorme. Em 2013, nos Estados Unidos, ocorreram mais de 6 milhões de crimes violentos, incluindo aproximadamente 17.000 assassinatos e 300.000 estupros. No Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2016), em 2016, houve 58.467 mortes violentas intencionais, e, em 2015, 45.460 casos de estupro. O número de pessoas encarceradas também é grande. Nos EUA há 2,2 milhões de pessoas, tendo esse país a maior população carcerária do mundo. Já o Brasil tem a quarta população, com 584.361 pessoas presas em 2016 (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2016).
Alexis B. Apel e James W. Diller, pesquisadores norte-americanos, analisaram os fatores relacionados à prisão nos EUA por meio da perspectiva da Análise do Comportamento.
Eles comentam que na terminologia do sistema legal, o encarceramento é entendido como punição, no sentido de castigo e de diminuir a chance da pessoa se engajar em comportamentos criminosos novamente. Segundo os autores, essa punição tem o objetivo de funcionar como punição operante na definição da Análise do Comportamento. Na punição operante há a apresentação de uma consequência aversiva (por exemplo, encarceramento) após a emissão de uma resposta (por exemplo, um roubo), e, dessa forma, a probabilidade de ocorrência dela é diminuída.
Portanto, ao analisar a prisão como punição operante, a taxa de comportamento criminoso deveria ser baixa, mas não é o que ocorre. Somando-se a isso, há o elevado número de pessoas presas e de reincidências. Dados demonstram que 70% dos presos liberados em 2005, nos EUA, foram reaprisionados por um novo crime dentro de três anos. Porcentagem semelhante é encontrada no Brasil (IPEA, 2015).
Diante desses índices alarmantes, é importante a análise dos fatores relacionados à punição operante no sistema de justiça criminal, para que seja possível a elaboração de medidas mais eficazes para combater o crime. Apel e Diller analisaram os seguintes fatores: reforço, disponibilidade de reforço para respostas alternativas, intensidade, probabilidade e imediaticidade da punição.
O primeiro fator é o reforço, ou seja, é a apresentação de uma consequência que aumenta a probabilidade do mesmo comportamento ocorrer novamente. Exemplos de reforços são o acesso a bens ou dinheiro, bem como o reforço social. Portanto, as pessoas se engajam em comportamentos criminosos porque há reforço para esses comportamentos.
O segundo fator é a disponibilidade de reforços para comportamentos alternativos, em que são reforçados comportamentos que não sejam criminosos (por exemplo, comportamentos pró-sociais). Os autores mencionam que esse fator pode aumentar a efetividade do procedimento de punição. No entanto, no atual sistema de justiça criminal, há falta de desenvolvimento desses comportamentos alternativos, devido às atividades limitadas e fracos laços familiares dentro da prisão.
A intensidade da punição é o fator mais questionado pelos autores. Ele é definido como a duração de tempo das penas. Tanto nos EUA quanto no Brasil, penas de longa duração são relacionadas, supostamente, com a redução da taxa de criminalidade. Mas pesquisas demonstram que sentenças longas não têm impacto significativo na taxa de crimes ou diminuem a taxa de apenas alguns.
O quarto fator é a probabilidade da punição do agressor. Muitas pesquisas indicam uma correlação negativa entre a alta probabilidade de ser preso e a taxa de crime, ou seja, quanto menor a probabilidade dos infratores serem capturados e encarcerados, maiores os números de crimes. O que vemos atualmente são probabilidades baixas de punição, por exemplo, nos EUA, a probabilidade de uma pessoa ser presa por homicídio é de 0.498. Para aumentar essa probabilidade, deve-se aumentar a presença de aplicação da lei, como, por exemplo, a maior presença de policiais nas ruas ou em pontos da cidade em que há maior número de ocorrências de crimes.
Outro fator decisivo para a efetividade da punição é a sua imediaticidade. Os dados na Análise do Comportamento indicam que quanto mais imediata a punição é aplicada ao comportamento, menor a probabilidade desse comportamento ocorrer novamente. No entanto, o tempo entre cometer o crime, ser preso e cumprir a sentença é bastante extenso.
Com base nos fatores citados, há a indicação de que a punição de alta probabilidade combinada com a disponibilidade de acesso ao reforço de comportamentos alternativos seria mais eficaz para reduzir o comportamento criminoso, em comparação com as medidas adotadas atualmente.
Apesar de que nem todas as medidas adotadas pelo sistema de justiça criminal dos EUA e do Brasil sejam baseadas em evidências, há algumas que são, como os programas de reinserção social, que trabalham a transição de pessoas após o encarceramento. Pesquisas demonstram que esses programas têm resultados positivos, porém, poucos prisioneiros podem acessá-los devido ao baixo financiamento e a superpopulação nas prisões.
Essa transição é difícil, pois há diversos fatores que impedem os indivíduos de se reintegrarem à sociedade após serem libertados da prisão, como a dificuldade em obter reforços alternativos (emprego, casa e relações sociais construtivas), discriminação, estigmas, hostilidade das próprias famílias, e a disponibilidade de reforços relacionados ao comportamento criminoso anterior.
A transição pós-encarceramento constitui uma área de potencial intervenção para os analistas do comportamento, e que é pouco explorada pelos mesmos. Ao aplicar as estratégias de treino de habilidades comportamentais, identificação de reforços potenciais, análise funcional, etc., junto a outros profissionais da área da justiça criminal, o analista do comportamento pode ajudar na elaboração e implantação de políticas públicas nesse campo, bem como colaborar para a diminuição da violência em nossa sociedade.

Quer saber mais?
Consulte o texto:
Apel, A. B., & Diller, J. W. (2016). Prison as punishment: A behavior-analytic evaluation of incarceration. The Behavior Analyst, 1-14.

Outras referências:
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. (2016). Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2016. 10. http://www.forumseguranca.org.br/storage/10_anuario_site_18-11-2016-retificado.pdf

Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. 2015. Reincidência criminal no Brasil. http://cnj.jus.br/files/conteudo/destaques/arquivo/2015/07/572bba385357003379ffeb4c9aa1f0d9.pdf.

Fonte da imagem: http://data1.ibtimes.co.in/cache-img-0-450/en/full/627981/1487149805_jail.jpg.

Escrito por Josiane Maria Donadeli, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.
“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

Feminismo e Análise do Comportamento: aproximando e operacionalizando conceitos

natalias biscassi

Questionamentos levantados por movimentos sociais têm sido muito discutidos ultimamente, especialmente fazendo-se uso de plataformas online, como Facebook, Tumblr, web journals e blogs em geral. Os argumentos utilizados, geralmente, já possuem um linguajar próprio criado pela comunidade verbal de quem é adepto aos movimentos, muitas vezes passando longe do nosso behaviorês.

Mas será que a Análise do Comportamento não tem nada a dizer sobre questões sociais? Tem sim, e pode ser uma ferramenta muito útil. A Análise do Comportamento tem um potencial de mudança social que deve ser utilizado, como o próprio Skinner ou James Holland – famoso pelo seu artigo “Servirão os princípios comportamentais aos revolucionários?” -, apontaram. Porém, este potencial não tem sido explorado o suficiente e, como dizem as autoras do artigo comentado no post de hoje, um dos temas sociais em que a colaboração da Análise do Comportamento não tem sido satisfatória é o feminismo.

Traduzindo para o behaviorês, cuja operacionalização facilita nosso entendimento, o termo feminismo refere-se “à tentativa de alterar o papel social da mulher, com base em um programa de ação que explicita práticas culturais responsáveis por um desequilíbrio na distribuição de reforçadores sociais, favorecendo os homens em detrimento das mulheres. ” (Silva & Laurenti, 2016, p. 199)

Mas quem nunca presenciou discussões no Facebook de pessoas de vertentes diferentes do feminismo e, diga-se de passagem, de pessoas que não faziam parte de vertente nenhuma pegando carona, discutindo entre si? Pelo fato de behaviorismo e feminismo serem teorias plurais, com diversos desenvolvimentos, Emanuelle Silva e Carolina Laurenti (2016) decidiram fazer uma aproximação entre as teorias de Skinner e Simone de Beauvoir, por serem autores primordiais em correntes filosóficas importantes de tais áreas de análise.

As autoras, neste trabalho, cumprem muito bem a tarefa de mostrar a consistência entre o modelo de seleção pelas consequências elaborado pelo primeiro autor e a distinção entre sexo e gênero, sistematizada pela segunda autora. As duas teorias são compatíveis em suas bases, a partir do momento em que o Behaviorismo Radical e a teoria de Beauvoir, que mais tarde foi adotada e desenvolvida pelo Feminismo Radical, constroem-se sobre o contextualismo, isto é, consideram a relação entre indivíduo (e suas ações) e seu meio uma relação de interdependência, com mútua influência, sendo tal constatação importante não só para a compreensão das ações humanas, mas também para a transformação de práticas sociais.

Então, o que Beauvoir quis dizer com a afirmação de que sexo é diferente de gênero?  Sexo refere-se a fatores biológicos (natureza), enquanto gênero refere-se a papéis designados socialmente a homens e mulheres, com padrões de comportamento impostos como padrão masculino e padrão feminino. Ao contexto social em que vivemos dá-se o nome de sociedade patriarcal e o patriarcado, sendo operacionalizado, pode ser entendido como “um conjunto de práticas sociais que estabelece uma relação de opressão e subordinação das mulheres em relação aos homens” (Silva & Laurenti, 2016, p. 200).

Em tal contexto, é um instrumento de poder patriarcal ignorar as diferenças entre sexo e gênero, tornando-os equivalentes. Isto é, o patriarcado esconde sua influência na construção social do gênero e apresenta-o como se fosse natural, já que na visão dominante este é determinado biologicamente pelo sexo. Para Beauvoir, ao definir que sexo é diferente de gênero, dá-se margem para a mudança social, posto que, se gênero é construído, o lugar social colocado para a mulher pode igualmente ser transformado socialmente.

Outro ponto em que as teorias convergem, portanto, está no teor antiessencialista das mesmas. Admitindo-se a influência contextual no que é posto como “natural”, “inato”, através da constatação de práticas culturais que moldam a aprendizagem social, nega-se a crença de que o indivíduo é imutável e determinado por conceitos internos e abstratos, embora apelem muitas vezes para descrições biologizantes. Tanto Simone quanto Skinner teorizaram a favor de uma noção de pessoa e de realidade mutáveis, passíveis de transformação. Os indivíduos são multideterminados.

Tal multideterminação, no Behaviorismo, é explicitada pela diferenciação de três níveis de análise: filogênese, ontogênese e cultura. A filogênese dá conta da seleção de comportamentos da espécie, a ontogênese trata da história comportamental de um indivíduo e a cultura, da história de tradições grupais. Essas três dimensões de análise estão inter-relacionadas, de tal maneira que o organismo que se comporta (filogênese), com sua história individual, é nomeado pessoa (ontogênese), a qual, por sua vez, tem seu comportamento individual, na maior parte das vezes, organizado e mantido por contingências sociais (cultura).

Mas não pensamos sobre isso enquanto agimos a priori, nós só adquirimos consciência do que fazemos/sentimos e porque fazemos/sentimos após entrar em contato com o que a comunidade verbal propaga sobre isso, construindo a noção de self: a cultura, então, é também reflexiva. Segundo o que as autoras ressaltam do que foi escrito por Skinner, os produtos comportamentais desses três níveis de seleção podem ser semelhantes em topografia (leia-se “forma, aparência”), portanto é preciso tomar cuidado em sua análise, especialmente no que se trata sobre confusão entre níveis filogenético e ontogenético/cultural.

Beauvoir segue na mesma linha de análise, nomeando as coisas de forma ligeiramente diferente, dizendo que, para que a mulher exista no mundo, esta precisa de um corpo (filogenêse), porém esse corpo precisa ser considerado e esclarecido na relação com sua história pessoal (ontogênese) e da cultura na qual está inserida. Logo, para Beauvoir, os comportamentos da mulher não são determinados por sua estrutura biológica, mas especialmente influenciados por diferentes dimensões contextuais com histórias evolutivas próprias.

Então, como é ser mulher ou ser feminina remonta a diferentes contingências sociais e individuais. Operacionalizando em termos comportamentais, gênero indica “padrões de comportamento ontogenéticos, considerados típicos de mulheres e de homens no contexto de uma dada cultura. Já a noção de self (construído por reforço social de uma comunidade verbal) elucida a noção de identida­de de gênero, isto é, o modo como o indivíduo se comporta, pensa e sente em relação ao seu próprio gênero”. (Silva & Laurenti, 2016, p. 205).

Finalmente, a virada epistemológica dada por Beauvoir ao fazer a distinção entre sexo e gênero contribui para mostrar que, propositalmente, práticas culturais que favorecem homens estavam (e estão) sendo justificadas por argumentos que tomam questões sociais por questões biológicas e essencialistas, confundindo intencionalmente níveis de análise com o intuito de exercer poder. Epistemologicamente, na Análise do comportamento não há nada que se oponha a essa argumentação, inclusive o rol teórico dessa ciência do comportamento ajuda a reforçá-la.

Ao retirarem a discussão do campo essencialista e unidimensional (que não aceita variação comportamental), Beauvoir e Skinner abrem possibilidades de modificação social, pois propõem encaminhamentos políticos operacionalizados para mudanças de ambientes físicos e culturais. A mulher, ao identificar padrões opressores de controle social, pode exercer o contracontrole, mesmo que as dimensões pessoal (gênero) e reflexiva (identidade de gênero) sejam construídas na relação com o ambiente social, contribuindo para a equalização na distribuição de reforçadores sociais a ambos os gêneros.

Para saber mais:

Silva, E. C. & Laurenti, C. (2016). B. F. Skinner e Simone de Beauvoir: “a mulher” à luz do modelo de seleção pelas consequências. Revista Perspectivas, 7 (2), 197-211.

Link do texto original:

https://www.researchgate.net/profile/Carolina_Laurenti/publication/305993373_B_F_Skinner_e_Simone_de_Beauvoir_a_mulher_a_luz_do_modelo_de_selecao_pelas_consequencias/links/57a8e78e08ae0107eee71664/B-F-Skinner-e-Simone-de-Beauvoir-a-mulher-a-luz-do-modelo-de-selecao-pelas-consequencias.pdf

Outras referências:

Holland, J. G. (1974). Are behavioral principles for revolutionaries? In F. S. Keller, & E. R. Iñesta (Orgs.), Behavior modification: Application to education (pp. 195-208). New York: Academic Press, Inc.

Versão traduzida para o português:

www.usp.br/rbtcc/index.php/RBTCC/article/download/863/474

+ Material para discussão:

Boteco Behaviorista #31: Feminismo e Behaviorismo Radical

https://www.youtube.com/watch?v=Ei4kyhItMd8

Créditos da imagem:

http://asgardproject.com.br/sys/arq/post/18U4P7/02-feminismo-em-uma-imagem.jpg

Texto escrito por Natália Biscassi, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos. É membro do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH) da UFSCar e realiza pesquisas no Laboratório de Psicologia da Aprendizagem (LPA).

Uma forma alternativa de auxiliar na redução e abstinência do uso de cocaína por usuários crônicos

Imagem táhcita

Levando em consideração que, atualmente, não existe nenhum medicamento aprovado e eficaz para o tratamento da adicção de cocaína, abordagens psicossociais se tornam a maneira central no tratamento de pacientes que consomem essa droga cronicamente. Nesse contexto, as intervenções comportamentais surgem como uma alternativa cujos resultados têm mostrado que tais intervenções podem ser uma ferramenta extremamente útil no tratamento de pacientes que desejam cessar o uso dessa e de outras drogas.

Nas pesquisas típicas de intervenções com o manejo de contingências (management contingency interventions), os pacientes cujos resultados das amostras de urina indicam abstinência do uso da droga recebem incentivos em forma de vouchers, os quais podem ser trocados por bens e serviços. Os incentivos se tornam maiores a cada amostra consecutiva de urina que indique a continuidade da abstinência da droga (ou seja, uma amostra “negativa”), mas o resultado de uma única amostra positiva (ou seja, que indica o uso da droga) faz com que o paciente perca o valor máximo de incentivos previamente recebido, e comece a receber novamente o valor mínimo na próxima amostra de urina negativa (isso também ocorre caso o paciente não entregue a amostra requerida), podendo receber mais e mais incentivos a cada nova amostra sucessiva negativa.

As análises da amostra de urina costumam ser realizadas a partir da concentração de um metabólito da cocaína (benzoilecgonina), sendo que valores abaixo de 300 nanogramas (ng.) do metabólito indicam abstinência, ao passo que valores superiores a isso indicam o uso da droga. As coletas costumam acontecer a cada 48 ou 72 horas, uma vez que pesquisas indicam que essa substância pode ser detectada na urina até aproximadamente 48 horas após o uso. Entretanto, outros fatores podem influenciar no tempo de eliminação desse metabólito, como a quantidade de droga ingerida, a via de administração, a quantidade de água consumida e diferenças individuais a respeito do metabolismo e excreção das drogas. Assim, existe a possibilidade de que uma droga utilizada uma única vez não seja excretada após as 48 horas de uso e, que, portanto, medições sucessivas da droga indiquem uso, mesmo que o indivíduo só tenha utilizado a droga uma vez.

Comportamentalmente falando, deixar de consequenciar positivamente um comportamento adequado poderia afetar na manutenção do comportamento-alvo, que é cessar o uso da droga. Alternativamente, reduzir a frequência na qual os exames são feitos poderia resolver esse problema, mas traria outro: a possibilidade de que a testagem menos frequente aumentasse a probabilidade de uso da droga, uma vez que ela poderia ser excretada até a medição seguinte, e isso potencialmente reforçaria o uso indevido da droga.

Pensando em alternativas para essa problemática, pesquisadores pensaram em uma nova forma de medição qualitativa. Com essa nova forma de medição, haveria a verificação da diminuição do metabólito ao longo das horas, em comparação com o valor obtido na medição prévia: se a concentração do metabólito tiver uma redução de 50% ou mais em comparação com a amostra anterior, isso seria um indicativo de que a pessoa esteve em abstinência. Esse índice foi validado em um estudo feito em laboratório, com usuários que recebiam doses controladas da droga.

Com o objetivo de auxiliar no desenvolvimento de procedimentos que permitam consequenciar positivamente de maneira mais acurada a abstinência da cocaína, os pesquisadores August Holtyn e seus colaboradores (2017) analisaram as modificações nas concentrações dos metabólitos de cocaína de 28 participantes, os quais frequentavam um programa de tratamento com metadona. Todos os participantes viviam em situação de pobreza, e 93% tinham dependência em cocaína.

Para serem recrutados, os participantes foram submetidos, inicialmente, a uma linha de base na qual participavam de atividades educativas e treinos de habilidades de trabalho durante um mês. Eles trabalhavam quatro horas por dia (durante a semana), em troca do pagamento de oito dólares por hora, além de aproximadamente dois dólares por hora pelos seus desempenhos nas tarefas. Esse pagamento era feito na forma de vouchers que eram trocados por bens e serviços. Três vezes na semana, os pesquisadores coletavam amostras de urina dos participantes e testavam-nas para cocaína. O uso da droga não impedia a participação nas atividades, nem o recebimento dos incentivos. Os sujeitos que participaram das atividades em pelo menos 50% dos dias, obtendo pelo menos dois resultados positivos de cocaína na urina, e que permaneceram no programa de tratamento com metadona, foram recrutados para a pesquisa.

O estudo durou 26 semanas, e os participantes foram alocados aleatoriamente em duas condições: manejo de contingências de abstinência + trabalho, e somente trabalho (mas os resultados reportados na pesquisa foram referentes apenas ao grupo abstinência + trabalho). Os incentivos eram dados aos participantes cuja concentração do metabólito era inferior a 300 ng., ou cuja concentração, em comparação com a última amostra, era, pelo menos, 20% menor que a do dia anterior. A identificação do uso de cocaína por um dos dois métodos era consequenciada pela perda do incentivo de oito dólares, de modo que o participante passava a receber apenas um dólar por hora trabalhada, até que obtivesse uma nova amostra negativa. Os incentivos aumentavam em um dólar por dia, a cada resultado negativo, até chegar ao máximo de oito dólares por hora trabalhada. Para os participantes do grupo sem o manejo de contingências, os ganhos eram sempre de oito dólares por hora, independentemente se os resultados dos participantes indicassem uso da droga.

Os resultados mostraram que, em 32% das amostras coletadas, houve decréscimo da concentração dos metabólitos da droga, o que indica que a identificação de abstinência nesses casos só ocorreu porque havia uma metodologia qualitativa diferente da que é largamente utilizada. O número de dias necessário para que uma amostra positiva se tornasse negativa foi de um a 10 dias (a maioria ocorrendo em sete ou menos dias), o que mostra que a medição a cada 48 ou 72 horas pode, realmente, fazer com que a abstinência não seja consequenciada positivamente.

Uma questão que deve ser respondida nas pesquisas subsequentes diz respeito à menor redução possível da concentração do metabólito que continue a indicar abstinência. Apesar de ser, de fato, uma questão importante a ser respondida, essa pesquisa identificou diferenças nos dois tipos de análises, o que possui implicações importantes: imagine uma pessoa que decide parar de usar cocaína, e entra em um programa semelhante ao relatado no estudo. Além de não ser consequenciada positivamente quando da abstinência, isso poderia auxiliar na manutenção de estereótipos relacionados aos usuários de drogas, como ser um sujeito mentiroso e não confiável. Além disso, se a família desse indivíduo estivesse ciente do funcionamento do programa, essa pessoa poderia ser punida pelos seus familiares com base em uma medição que não foi adequada para a detecção de ausência da droga. Ofensas e desaprovação social poderiam ser exemplos de punição que, por sua vez, poderiam se relacionar com a recaída e a repetição desse ciclo de identificação do uso da droga (agora coerente), que levaria a uma nova punição e aumentaria, portanto, a probabilidade de que a abstinência se torne uma coisa mais e mais distante do indivíduo que é usuário.

Ficou interessadx? Quer saber mais? Acesse o artigo!

Holtyn, A. F., Knealing, T. W., Jarvis, B. P., Subramaniam, S., & Silverman, K. (2017). Monitoring cocaine use and abstinence among cocaine users for contingency management interventions. The Psychological Record, 67, 253-259. doi: 10.1007/s40732-017-0236-1

Fonte da Imagem: http://drugabuse.com/library/the-effects-of-cocaine-use/

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

O isolamento do analista do comportamento: Mito ou verdade?

imagem tais

Essa semana trataremos de um assunto pouco discutido fora dos laboratórios de psicologia experimental, mas de queixa recorrente entre os analistas do comportamento: o  isolamento da Análise do Comportamento. Os autores do artigo que serviu como base para esse post , Strapasson e Zuge (2017) argumentam que  que, desde a década de 1940, quando houve a instauração do primeiro grupo de analistas do comportamento, a percepção de isolamento é uma queixa dos pesquisadores nesta área, que muitas vezes se sentem incompreendidos por sua linguagem hermética e pela escolha de delineamentos experimentais de sujeito único.

As queixas de isolamento começaram a ter respaldo empírico em 1971, com as análises quantitativas e qualitativas realizadas sobre a comunicação da Análise do Comportamento com as demais áreas da Psicologia, conduzidas por Krantz (1971, 1972) nos Estados Unidos. Os estudos mostraram que havia uma baixa citação de estudos desenvolvidos em Análise do Comportamento por estudos de outras áreas. Além disso, dentro das próprias revistas de análise do comportamento, os números de citações cruzadas eram baixos, combinados com elevadas taxas de autocitação.

No cenário nacional, as investigações realizadas sobre o isolamento da Análise do Comportamento são escassas, porém os resultados obtidos convergem sobre um mesmo fato: a necessidade de modificação de algumas práticas sociais comumente empregadas por analistas do comportamento, e que atravancam a inserção dessa ciência na comunidade científica como um todo. Entre essas práticas sociais tem destaque o papel da comunicação dos achados em análise do comportamento na literatura, que muitas vezes se restringe a um “comportamentês” inacessível às outras áreas da Psicologia e à população em geral, o que já foi tema de reflexão em um post recente aqui no blog.

Com o intuito de analisar a questão da comunicação das pesquisas em Análise do Comportamento com pesquisas das demais abordagens no Brasil, foi realizado um estudo de análise bibliométrica por Strapasson e Zuge (2017).  O trabalho consistiu em consultar as listas de referências de três dos principais periódicos para veiculação de textos de Análise do Comportamento no país: a Revista Brasileira de Análise do Comportamento (REBAC), a revista Perspectivas em Análise do Comportamento (PAC) e a Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva (RBTCC). Como parâmetro de comparação em periódicos generalistas, isto é, que envolvam publicações das mais diversas áreas da Psicologia, foi adotada a revista Psicologia: Reflexão e crítica (PRC), figurada entre os principais periódicos nacionais em Psicologia. O método adotado consistiu em analisar as listas de referências de todos os artigos publicados nos periódicos mencionados, e classificá-los em três categorias: (1) Textos não avaliados, (2) Textos de Análise do Comportamento e (3) Textos de outras áreas do conhecimento. Esta classificação foi realizada por dois pesquisadores, com critérios bem definidos.

Os resultados revelaram que, quando observadas em conjunto, a lista de referências dos periódicos de Análise do Comportamento analisados traziam quantidades muito semelhantes de citações de estudos da própria área (45,4%) e de outras áreas do conhecimento (45,9%). Ao comparar estes três periódicos, porém, este achado não foi replicado. Maiores citações de textos de Análise do Comportamento foram observadas na REBAC e na PAC (53,9% e 54,9%, respectivamente), em detrimento de textos de outras áreas do conhecimento (38,5% e 34,4%, respectivamente). Este padrão foi observado de modo inverso na RBTCC, que apresentou mais referências a textos de outras áreas (53,6%) do que em Análise do Comportamento (37,7%). Os autores explicam que a diferença observada na quantidade das referências de cada área da Psicologia entre as revistas estudadas provavelmente se deve à orientação das políticas editoriais de cada uma delas, já que na REBAC e na PAC é oferecida exclusividade às publicações em Análise do Comportamento.

        A quantificação das referências em Análise do Comportamento na PRC, que foi adotada no estudo como revista generalista, é assustadora: Foram 2,9% contra 89,7% de textos de outras áreas do conhecimento. Análises mais detalhadas permitiram observar ainda que a maior parte das citações em Análise do Comportamento foram realizadas por publicações da mesma área. A autora argumenta que uma possível explicação está, mais uma vez, na política editorial da revista, que é mais abrangente.

        Os achados evidenciaram que as queixas de isolamento dos analistas do comportamento são plausíveis; porém, este fenômeno está acontecendo de modo unilateral. Isto é, enquanto analistas do comportamento apropriam-se de achados de outras áreas e os utilizam em seus estudos, a apropriação dos achados dos estudos em Análise do Comportamento não tem sido realizada com a mesma frequência por pesquisadores de outras áreas do conhecimento. A maior parte dos estudos que fazem referência à achados da Análise do Comportamento são da mesma área.

Tais dados alertam para a necessidade dos analistas do comportamento reverem algumas posturas que podem estar contribuindo para uma diminuição do impacto de seus achados fora do campo. Entre essas posturas, estão o já citado rigor na descrição dos eventos e processos estudados, bem como a baixa publicação em periódicos de outras áreas ou, ainda, a baixa publicação de temas não relacionados à Análise do Comportamento. Se, como analistas do comportamento, desejamos a sobrevivência institucional e científica da nossa área dentro da comunidade científica, talvez seja o momento de analisarmos o nosso próprio comportamento e manipular algumas contingências a nosso favor. E você, tem analisado seu comportamento ultimamente? Como faz pra evitar o “comportamentês” em uma conversa com pessoas de outras áreas? Conta pra gente aqui do blog!

Referência:

Strapasson, B. A. & Zuge, P. R. (2017). O isolamento da Análise do Comportamento no Brasil: Uma análise bibliométrica. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 19(1), 94-114.

Outras referências consultadas:

Krantz, D. L. (1971). The separate worlds of operant and non-operant psychology. Journal of Applied Behavioral Analysis, 4(1), 61-70.

Krantz, D. L. (1972). Schools and systems: The mutual isolation of operant and non-operant psychology as a case study. Journal of the History of the Behavioral Sciences, 8(1), 86-102.

Talvez você também se interessará por:

https://boletimbehaviorista.wordpress.com/2017/06/22/por-que-nao-devemos-falar-em-comportamentes/

Texto escrito por Tais Francine de Rezende, psicóloga e mestranda em Gerontologia pela Universidade Federal de São Carlos. É membro do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH) da UFSCar e do grupo de pesquisa e extensão Programa Viver Bem a Velhice (ProVive) do Departamento de Gerontologia da UFSCar.

 

Por que (não) devemos falar em comportamentês

texto mariana maca

Eu tenho um grupo de amigos que inclui estudantes de Psicologia (a maioria analistas do comportamento) e estudantes de outras áreas também. Nós, os analistas do comportamento, vez ou outra utilizamos termos da nossa abordagem para nos referirmos às situações do dia a dia, e essa exposição fez com que nossos amigos de outras áreas também passassem a utilizar termos como “reforçador” e “aversivo”, por exemplo, para contar suas histórias. Mas será que essa receptividade acontece com todo mundo? Como será que as pessoas, de forma geral, encaram os termos dessa abordagem super reforçadora? Quais são as variáveis que controlam esse comportamento? É possível manipular essas variáveis em ambiente de laboratório? Ops, acho que exagerei nos termos…

A literatura sugere que, de forma geral, os jargões da Análise do Comportamento (AC) são vistos como abrasivos (duros), ásperos ou severos, e geralmente desagradáveis. Isto pode estar relacionado a alguns termos da AC que já têm uma conotação “negativa” no cotidiano das pessoas como, por exemplo, cadeia (do inglês “chaining”), discriminação (que lembra racismo e outras formas de preconceito), e extinção (que, no senso comum, significa o desaparecimento de uma espécie). Ou seja, já existem pré-associações que fazem com que as pessoas leigas experienciem reações emocionais negativas ao ouvir um termo desses. Imagina dizer para uma mãe que a solução para os problemas de birra de seu filho de 5 anos é colocá-lo em extinção?

Estas reações negativas desencadeadas pela terminologia da área são um grande obstáculo para a AC, em especial para suprir a necessidade de oferecer intervenção analítico-comportamental àqueles que realmente precisam. Na prática clínica, por exemplo, é importantíssimo que a pessoa se sinta socialmente confortável com seu terapeuta, tanto para procurar psicoterapia quanto para seguir as instruções dadas no processo terapêutico. Em termos de pesquisa básica e aplicada, também é fundamental que os leitores de artigos e trabalhos científicos da área possam compreender minimamente a linguagem utilizada.

A literatura sugere que, de forma geral, as pessoas não gostam tanto assim dos termos da AC, mas ao que tudo indica essa questão nunca foi estudada empiricamente. Por isso, Critchfield e seus colaboradores resolveram abordar essa questão em um estudo publicado em janeiro deste ano. Como eles fizeram isso?

Primeiramente eles consultaram uma lista de domínio público com quase 14.000 palavras em inglês, classificadas de acordo com a reação emocional que elas causam. Essa lista foi utilizada em um estudo anterior (Warriner et al. 2013) e foi feita por voluntários estadunidenses por meio de uma plataforma online de coleta de dados chamada mTurk. Foi verificado que esse conjunto de voluntários era representativo da população em questão).

A coleção de Warriner, como foi chamada essa lista de palavras, é classificada pelos voluntários em três dimensões, duas das quais são o alvo do presente estudo. A primeira é uma escala de 1 (infeliz) a 9 (feliz), ou seja, o quanto uma palavra é agradável ou não para o leitor (os resultados, a propósito, usam as palavras agradável e desagradável). A segunda dimensão é uma escala de 1 (calmo) a 9 (animado/empolgado, do inglês “excited”).

Foram selecionados os termos comumente utilizados pelos analistas do comportamento e que estavam disponíveis na coleção de Warriner. Os termos foram divididos em quatro categorias: termos técnicos da Análise do Comportamento (n=39), termos gerais de ciência (n=42), termos de avaliação comportamental (n=34), e termos clínicos gerais (n=35).

Os resultados indicam que – de forma consistente com a distribuição geral das palavras em inglês – em três categorias a maioria das palavras foram consideradas como agradáveis: termos gerais de ciência (67%), termos de avaliação comportamental (67%) e termos clínicos gerais (53%). O mesmo, no entanto, não aconteceu na categoria de termos da AC, na qual 60% dos termos foram classificados como desagradáveis.

O estudo também consultou duas coleções disponíveis de palavras que mostram palavras-alvo, as possíveis palavras associadas a cada alvo, e a frequência com que aparecem. Nesta lista, foram identificadas 6 palavras-alvo que são termos da AC, e o presente estudo mostra quais são as palavras associadas a cada alvo, bem como a classificação dessas palavras associadas nas escalas de 1 a 9. Os resultados sugerem que, de fato, alguns termos da AC podem evocar associações desagradáveis.

Reservadas as limitações do estudo e as condições nas quais ele foi feito (a partir de uma lista de palavras em inglês, por exemplo), os resultados corroboram a hipótese de que os jargões analítico-comportamentais tendem a ser abrasivos, e podem estar relacionados a palavras e significados do cotidiano que as pessoas tendem a considerar como desagradáveis. Isso nos faz pensar que a linguagem utilizada pelos profissionais da Análise do Comportamento é uma variável importante a ser considerada como, por exemplo, nos contextos da clínica e da pesquisa. Em suma, o estudo fomenta a questão: como podemos dialogar sobre Análise do Comportamento sem assustar nossos leitores e/ou ouvintes e sem, ao mesmo tempo, abandonar a função dos nossos termos?

Os autores sugerem que na prática clínica, por exemplo, é interessante evitar alguns desses termos que já são pré-associados com outros significados desagradáveis, ao menos enquanto o terapeuta ainda é um estímulo neutro (ou seja, enquanto a relação terapêutica ainda não se consolidou). Também fica a dica para que continuem sendo feitas pesquisas na área, com o objetivo de entender melhor como se dá a reação dos leitores a determinados jargões da Análise do Comportamento.

Talvez uma forma alternativa de contornar esse problema de comunicação é fazer o que fazemos aqui no blog: discutir sobre artigos científicos como a gente discutiria em uma mesa de bar. Espero que tenha sido agradável e motivador para vocês!

Para saber mais:

Critchfield, T.S., Doepke, K.J., Epting, L.K., Becirevic, A., Reed, D.D., Fienup, D.M., Kremsreiter, J.L., & Ecott, C.L. (2017). Normative Emotional Responses to Behavior Analysis or How Not to Use Words to Win Friends and Influence People. Behavior Analysis Practice, 10(2), pp. 97-106. doi:10.1007/s40617-016-0161-9.

Outra referência consultada:

Warriner, A.B., Kuperman, V., & Brysbeart, M. (2013). Norms of valence, arousal, and dominance for 13,915 English lemmas. Behavior Research Methods, 45, 1191-1207. doi:10.3758/s13428-012-0314-x.

Fonte da imagem: https://www.amazon.com.br/Como-Fazer-Amigos-Influenciar-Pessoas/dp/8504020266

Texto escrito por Mariana Quessada Macca, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos e bolsista Fapesp de iniciação científica no LECH (Laboratório de Estudos do Comportamento Humano – UFSCar).

 As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.

 

É possível modificar o preconceito contra pessoas com transtornos psicológicos?

 

imagem texto julia castro

Pessoas com depressão, TOC, esquizofrenia, dependentes de substâncias psicoativas e outros transtornos psicológicos (TP) há muito têm sido objeto de estudo da psicologia. Porém, o sofrimento envolvido nesses quadros vai além das características que os fazem serem assim rotulados. Pessoas com TP relatam que uma das maiores fontes de sofrimento associado ao seu quadro está no estigma que esses transtornos frequentemente carregam. Estigma é um conceito que abrange estereótipos, preconceito e discriminação. Isso significa dizer que, seja no mercado de trabalho, seja no âmbito das relações íntimas, essas pessoas são vistas e tratadas de uma maneira diferente daqueles que não possuem TP. Esse contexto acaba por impactar em como a pessoa vê a si mesmo, uma autoestigmatização, que pode levar a isolamento, baixa autoestima e baixa autoeficácia. Sim, essa parece ser uma questão com a qual nós psicólogos devemos nos preocupar! A boa notícia é que já há algum tempo alguns pesquisadores têm estudado formas de intervir sobre esse tipo de estigmatização. Hoje vamos falar sobre o artigo de Kenny e Bizumic (2016) sobre este tema.

Os modelos de intervenção clássicos para este e outros tipos de estigmas são: protesto, contato com as pessoas alvo e educação. No entanto, estudos mostraram que o primeiro aparentemente tem efeito contrário ao desejado, ou seja, aumenta as atitudes negativas em direção àquele grupo. Já o contato com pessoas alvo e informações educativas a respeito delas parecem ser efetivos em algum grau. Educação enfocando em bases biológicas dos TP, no entanto, pode ter efeito reverso e aumentar a estigmatização.

Um modelo mais recente de intervenção é através dos princípios da ACT – Terapia de Aceitação e Compromisso. A ACT, além de ser um modelo de psicoterapia comportamental, serve de base para intervenções mais pontuais, como estas com enfoque em redução de estigmas. Na ACT, metáforas, paradoxos e exercícios são propostos para que o participante possa, através da própria experiência, notar a arbitrariedade da linguagem e tomar um distanciamento de seu conteúdo. Assim, não se trata de dar informações e ser convencido a partir delas, mas de vivenciar algo diferente daquilo que estava no “piloto automático”, neste caso, induzido pelo estigma. Dessa forma, intervenções ACT tem o objetivo de aumentar o padrão comportamental de flexibilidade psicológica, isto é, a tendência a agir de acordo com valores pessoais e contingências diretas, ao invés de ser guiado por sentimentos e pensamentos. Pesquisas anteriores demonstraram uma correlação entre flexibilidade psicológica e redução de estigma, mas essa é a primeira vez que [ALERTA DE SPOILER!] um estudo encontrou uma diferença significativa na mudança de preconceito relativo às TPs, comparando intervenção com ACT versus educação.

Outra novidade desse estudo é a escala usada no pré e no pós-teste, a qual mede unicamente atitudes negativas, e não inclui conhecimento sobre o assunto, como em escalas anteriores. Ou seja, mede-se como o participante se sente e está propenso a agir diante de pessoas com TP, o que é o ponto central no preconceito, independentemente do que ele aprendeu a nível de conteúdo elas. Além disso, a escala apresenta quatro fatores, divididos em sub-escalas, os quais permitem olhar para diferentes dimensões do estigma. Eles são: 1) Medo/evitação, diante dessas pessoas, 2) Autoritarismo, que engloba a tendência a controlar e forçar pessoas a tratamento, 3) Malevolência, que endossa a ideia de que pessoas com TP não merecem assistência e simpatia e 4) Imprevisibilidade, ou a ideia de que elas são imprevisíveis. Cada um desses fatores em separado parece ter implicações distintas na forma como pessoas com TP são tratadas em seu dia-a-dia.

A intervenção ACT foi um workshop que focou em exercícios experienciais. Os participantes se engajaram em exercícios que demonstravam a arbitrariedade, automaticidade e rigidez da linguagem e como isso abarca os estigmas. Foi abordado então como a tentativa de eliminar pensamentos (aqui inclusos pensamentos estigmatizantes), paradoxalmente, parece fazer com que eles se façam ainda mais presentes. Foram trazidos dados sobre a prevalência de TP e os participantes foram encorajados a pensar sobre as questões psicológicas que vivenciavam, como eles próprios reagiam a estas e os efeitos que isso tinha em suas vidas. A ideia aqui era que eles notassem, através de sua própria experiência, como a luta contra pensamentos dolorosos frequentemente traz mais dor e os afasta ter ações em direção ao que valorizam. Visava-se, assim, favorecer também a empatia em relação às pessoas com TP, ao passo que práticas de aceitação e não-julgamento foram encorajadas. Em um exercício de observação, mostrou-se que, embora pensamentos dolorosos sejam inevitáveis, é possível escolher não lutar contra eles em prol de viver uma vida plena. Por fim, discutiu-se sobre valores pessoais e os participantes foram convidados a declararem o que valorizam na vida e quais ações tomar para agir de acordo com esses valores.

Já a intervenção com educação baseou-se em oferecer informações sobre TP e estigma, incluindo a prevalência e os possíveis fatores biológicos e sociais envolvidos. Apresentaram-se dados sobre os estereótipos mais comuns para essas pessoas e evidências que refutam essa visão na grande maioria dos casos. Foram discutidas as implicações da estigmatização, tanto no modelo de instrução pelo experimentador, como em grupos de participantes, incentivados a trazerem suas próprias reflexões.

Resultados do pré-teste e pós-teste revelaram que após a intervenção os participantes demonstraram uma tendência menor a estigmatizarem pessoas com TP! Houve um aumento geral de atitudes positivas após ambas as intervenções, porém aumento significativamente maior após a intervenção ACT. Subescalas de autoritarismo e de imprevisibilidade foram as principais responsáveis por essa diferença global. Na contramão desses resultados positivos, houve também um aumento da Malevolência após ambas as intervenções.

Esses resultados, por um lado animadores, por outro preocupantes, nos fazem pensar o quanto o fenômeno da estigmatização é complexo e ainda há muito a ser estudado. Mãos à obra?!

Para saber mais, acesse:

Kenny, A. & Bizumic, B. (2016). Learn and ACT: Changing prejudice towards people with mental illness using stigma reduction interventions. Journal of Contextual Behavioral Science, Vol 5, Issue 3, p. 178-185.

Créditos da imagem: http://events.snwebcastcenter.com/manulife/GBRS/Prod/WSMH/en/mental-health-in-the-workplace/understanding-mental-health/stigma.html

Escrito por Júlia Castro de C. Freitas, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista CAPES.

A ciência do comportamento na era das máquinas

imagem marcelo

Muitos dos progressos no campo de conhecimento científico sobre os processos comportamentais só foram possíveis graças ao uso de máquinas especialmente construídas para estudá-los. No artigo canônico “A Case History in the Scientific Method”, B. F. Skinner explicitou que a necessidade de estabelecer controle experimental sobre o comportamento de organismos individuais em laboratório e de registrar as alterações nos padrões comportamentais decorrentes de certas manipulações feitas pelo pesquisador estabeleceram ocasião para que as engenhocas formadas por labirintos de corredores e passagens com basculantes evoluíssem e se transformassem no aparato que hoje conhecemos por Caixas de Skinner. Elas possuem barras de metal, alavancas, discos com luzes que piscam, dispositivos que liberam cheiros, gotas de água ou comida. Este conjunto de dispositivos automatizados permitem que o pesquisador “crie” um ambiente rigorosamente controlado para animais modelo (ratos, macacos, abelhas, corvos, pombos, leões marinhos). Deste modo, ele consegue determinar de modo relativamente preciso quais são os efeitos possíveis de certos estímulos sobre um padrão de respostas previamente definido. Efeitos de certos estímulos, como por exemplo os reforçadores, podem ser tão sutis que seria praticamente impossível mensurá-los se estes animais estivessem em seu ambiente natural.

A falta de naturalidade do comportamento animal nestes aparatos mecânicos (pressionar barras, bicar discos, mover alavancas, focinhar telas de computador) pode levar a uma visão de que os Analistas do Comportamentos desprezam o estudo de comportamentos específicos das espécies. Esta diferenciação relativa à “essência” do comportamento animal em ambiente laboratorial e em ambiente natural é um dos grandes equívocos acerca da atitude dos behavioristas frente a seu objeto de estudo. O aparato laboratorial funciona como um microscópio que possibilita mapear as relações funcionais entre a atividade do organismo e o meio ambiente. Não se estuda o comportamento de “pressionar uma barra” – no caso de ratos – ou “o bicar um disco” – no caso de pombos. Mas sim, o quanto estes comportamentos são sensíveis às consequências e em que contextos os estímulos antecedentes passam a controlar a emissão dessas classes de respostas. O behaviorista sabe que o aparato laboratorial não oferece meios para a elaboração de modelos de comportamentos mais complexos e relacionados à sobrevivência do organismo. E dado que os comportamentos relevantes que ocorrem no habitat natural das espécies de organismos também devem ser alvo de pesquisas sistemáticas, uma das inúmeras questões que estes cientistas se colocam é como o comportamento dos animais em ambiente natural deve ser estudado?

A observação naturalística, por exemplo, implica na ida do cientista até o habitat de um tipo de animal. Em muitos casos, esta abordagem é considerada como bastante adequada. Porém, um Analista do Comportamento perguntaria se, e em que medida, os animais passariam a se comportar de modo não-natural em decorrência da presença de um indivíduo da espécie humana em um lugar onde não deveria haver seres humanos. Além disso, considerando esta (e outras) possíveis fontes de vieses, qual seria a validade dos dados obtidos em uma pesquisa que utiliza este tipo de metodologia? Convém enfatizar que esta é uma questão sobre a qualidade do controle experimental estabelecido pelo pesquisador e a maneira como os resultados foram registrados, e não um desprezo puro e simples pelas características do comportamento por ele investigado.

Mais uma vez, os progressos científicos em campos desafiadores do comportamento dos organismos podem estar atrelados à evolução de aparatos mecânicos sofisticados que tornem possível o controle experimental de variáveis consideradas críticas para os comportamentos considerados naturais dos organismos. Esta possibilidade foi demonstrada por Anna Frohnwieser, John C. Murray, Thomas W. Pike e Anna Wilkinson, em um artigo publicado recentemente no Journal of the Experimental Analysis of Behavior.

Graças aos avanços nas áreas da robótica e da inteligência artificial, os pesquisadores são hoje capazes de construir robôs que replicam as características corporais e comportamentais de animais reais. A estrutura corporal de um robô pode ser montada por partes moles, feitas de látex. As partes do corpo do animal (braços, patas, focinho, bico, pele, penas) podem ser recriadas a partir de impressoras em 3D e este aparato pode ser controlado por software de computador. Estas réplicas quase perfeitas são apresentadas como “animal estímulo” para um ou mais animais de uma determinada espécie. Deste modo, comportamentos considerados naturais de uma certa espécie podem ser convenientemente produzidos e mensurados em ambiente laboratorial. É importante destacar que graças a estes robôs tem sido possível estudar certos padrões comportamentais extremamente complexos e que, supostamente, só ocorreriam em ambiente natural. Eis alguns exemplos: o reconhecimento e interações sociais entre animais da mesma espécie (co-específicos), comportamento de acasalamento e cópula, cognição espacial e aprendizagem social.

Pesquisas que utilizam robôs podem ajudar a determinar se, ao observarem seus co-específicos, os animais aprendem a executar padrões comportamentais complexos. Atualmente, os pesquisadores procuram evidências deste tipo de aprendizagem observacional em interações entre co-específicos. Entretanto, as interações entre os animais podem se tornar tão complexas e o comportamento de ambos pode vir a ser afetado por tantas variáveis diferentes que os dados obtidos a partir destes experimentos são relativamente difíceis de serem analisados e interpretados. Já os movimentos executados por robôs, bem como outras fontes de estimulação, poderiam ser controlados por softwares criados pelo próprio experimentador. Deste modo, o experimentador poderá definir um “comportamento alvo” a ser executado pelo robô e determinar se este mesmo padrão comportamental passa a ser imitado por um animal que se encontra nas proximidades.

Frohnwieser e seus colaboradores apresentaram um panorama geral sobre como os experimentadores poderão se beneficiar do uso de robôs para estudar comportamentos característicos das inúmeras espécies de seres vivos em condições adequadas de controle experimental e produzindo dados que possam ser analisados com mais rigor. Ao considerarem que a robótica e a inteligência artificial também são campos de pesquisa bastante frutíferos, é possível que novas técnicas surjam e possam oferecer aos experimentadores a possibilidade de estabelecerem controles progressivamente mais sofisticados das variáveis relevantes para o estudo científico do comportamento animal.

Poderíamos, por exemplo, imaginar um cenário no qual robôs controlados por wi-fi se deslocariam dos laboratórios para ambientes naturais para interagir diretamente com animais reais em seu habitat? Chegaríamos ao ponto de construir máquinas que nos permitam estudar o comportamento de animais em ambientes nos quais os seres humanos não sobreviveriam como o ártico ou os mares profundos? Os avanços mais recentes nas pesquisas parecem indicar que sim! Tudo isso poderá ser possível um dia. E, curiosamente, os progressos nas pesquisas experimentais em análise do comportamento, desde o princípio, foram atrelados à evolução das máquinas. Para conhecer mais sobre outras possibilidades de pesquisa e sobre os prováveis destinos da relação entre cientistas do comportamento e as máquinas, leia o artigo “Using robots to understand animal cognition”.

Referência:
Frohnwieser A., Murray, J. C., Pike, T. W., & Wilkinson, A. (2016). Using robots to understand animal cognition. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 1, 14-22.

Fonte da Imagem: http://www.whokilledbambi.co.uk/public/2011/11/4.gif

Escrito por
Marcelo Vitor Silveira
Pós-doutorando pelo Centro de Matemática, Computação e Cognição da UFABC.
Bolsista FAPESP.