Tecnocracia e engenharia social no pensamento de B. F. Skinner

Quem foram e o que defendiam os líderes do movimento tecnocrático nos EUA?

E o que Skinner teria a ver com isso?

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Uma queixa comum entre simpatizantes da análise do comportamento refere-se ao quanto a abordagem seria incompreendida por seus críticos. Quando chamados a falar para fora do círculo, não raras vezes começamos fazendo “esclarecimentos” preliminares, lamentando sobre quão injustiçados seríamos. Dentre as injustiças de que seríamos vítimas, há a crítica segundo a qual nossa visão de mundo seria “cientificista”, algo frequentemente ilustrado por posicionamentos do mais famoso mentor da área, e ainda muito venerado, B. F. Skinner. Tal crítica acusa também que, no tocante à relação entre ciência e sociedade, a perspectiva skinneriana seria fundamentalmente tecnocrática.

Mas o que isso significa, afinal? Seria a crítica improcedente? Uma referência que ajuda a responder tais questões é o artigo de Alexandra Rutherford, da York University, B. F. Skinner and Technology’s Nation: Technocracy, Social Engineering, and the Good Life in 20th Century, recém-publicado pela History of Psychology. Nele, Rutherford explora a história do movimento tecnocrático americano, ícone de uma tradição de engenharia social da qual também fez parte a obra de Skinner.

Rutherford (2017) nota que, desde seus primórdios, “. . . a psicologia foi permeada por uma atitude tecnocientífica, que enfatizou objetivos geminados de conhecimento e aplicação, ciência e prática, muitas vezes empregados a serviço de aumentar a ordem, a eficiência, a racionalização e o controle . . . Esta atitude tecnocientífica levou rapidamente a psicologia a adquirir uma função de engenharia social, que continuou a aumentar à medida que os psicólogos desenvolveram vínculos cada vez mais estreitos com o Estado, especialmente durante e após a Segunda Guerra” (p. 291).

Foram relativamente parcos os esforços de psicólogos para reformar práticas sociais vigentes, tendo a maioria servido aos desígnios do status quo. Uma exceção a ser notada seria B. F. Skinner, dada a sua vindicação pela transformação do mundo, e sendo a publicação do romance Walden two uma expressão exemplar de seu compromisso social. Um dos alvos do estudo de Rutherford foi o período imediatamente anterior a essa publicação, que coincide com a emergência do movimento tecnocrático nos Estados Unidos da América.

Duas figuras importantes nesse contexto foram Howard Scott e Harold Loeb. A gestação da iniciativa tecnocrática coube a Scott, um auto-proclamado engenheiro, habituado a exagerar suas credenciais, que se muda para Nova Iorque após o fim da Primeira Guerra, e funda, em 1919, a Aliança Técnica. O coletivo se propunha a pesquisar métodos de produção industrial, e reunir dados que permitissem elaborar uma alternativa. Porém sua má organização, brigas internas e problemas financeiros forçaram a aliança a se desfazer em 1921. Scott continuou as pesquisas por conta própria, e atravessou a década se sustentando com trabalhos avulsos, até que, a partir de 1929, advém a ocasião providencial para o ressurgimento da propaganda tecnocrática: a Grande Depressão.

Apadrinhado por um catedrático da Columbia University, Scott institui o Comitê sobre Tecnocracia, em 1932, do qual também faria parte Harold Loeb, escritor que havia dividido o apartamento com Scott quando moravam no Greenwich Village, bairro boêmio de Nova Iorque. O grupo finalizou a pesquisa iniciada pela Aliança Técnica, e passou a disseminar seus achados e seus planos. Dentre eles estava a promessa de um sistema capaz de reduzir drasticamente o tempo de trabalho geral, e ainda assim garantir abundância material a todos os envolvidos. Os tecnocratas propuseram a abolição do sistema de preços, e apostaram numa retórica anticapitalista radical.

Insubsistente, a aposta foi logo frustrada, e, em 1933, uma fala de Scott em rede nacional de rádio colocou em xeque o futuro do comitê. Um conjunto de dissidentes se destacou, formando o Comitê Continental sobre Tecnocracia, e encontrando uma nova liderança em Loeb, que no mesmo ano haveria de publicar o seu Life in a technocracy. Apologia expressa a um governo de técnicos sem mecanismos democráticos, como o voto popular, o livro também assegurava que males como a corrupção na política seriam suplantados mediante a eliminação do uso do dinheiro.

Sumarizando as finalidades dessas inciativas, Rutherford (2017) escreveu:

Em resumo, o Movimento da Tecnocracia foi um movimento social e de pesquisa que defendia a substituição do sistema de preços por um sistema de produção e distribuição baseado em unidades de energia. Defendeu a aplicação tecnológica das ciências físicas aos problemas de organização e controle social . . . O sistema de salários e preços, argumentaram, era obsoleto, e o capitalismo nas mãos de empresários com fins lucrativos não funcionaria mais como um sistema econômico ou social. Eles defendiam, assim, um sistema de governo no qual uma organização apolítica de especialistas técnicos (chamada tecnato) resolveria os problemas do governo da mesma maneira que resolveria qualquer outro problema – cientificamente. (p. 296)

Passando, enfim, a B. F. Skinner: o que haveria em comum entre o seu projeto e o dos tecnocratas? Ora, no modelo de engenharia social idealizado em Walden two (Skinner, 1948) há aspectos manifestamente semelhantes, com jornadas de trabalho breves e substituição do sistema econômico tradicional por outro baseado em “créditos-trabalho” (p. 45), com o planejamento centralizado por especialistas não-eleitos (p. 48), com o apelo por um “comitê de ação não-político” (p. 180), com pouca ou nenhuma participação popular (p. 251), e com a tecnologia comportamental utilizada para a maximização da eficiência (p. 276). Não se trata, faça-se a ressalva, de exaltar ou depreciar o legado de Skinner, mas de garantir uma apreciação abrangente – não deixando de reconhecer eventuais virtudes, mas tampouco camuflando seus vícios e anacronismos.

Em sua síntese, Rutherford (2017, p. 300) ainda destaca que tanto Skinner quanto os tecnocratas recusaram a noção de “homem autônomo”, abraçaram uma ontologia materialista[1], desabonaram a utilidade da liberdade e da dignidade como valores[2], conceberam o planejamento da cultura como um problema a ser resolvido cientificamente[3], e sustentaram um ideal tecnológico de ciência. Apesar de não haver registros de que Skinner tenha realizado intercâmbios diretos com o movimento, a investigação de Rutherford (2017) revela indícios de possíveis conexões indiretas.

Finalmente, a autora avalia a reação da sociedade americana às propostas de Skinner e dos tecnocratas. Dando-lhe a palavra: “embora hostis à subversão da democracia e do capitalismo pelo totalitarismo e pelo socialismo, muitos americanos simpatizavam com o ideal tecnológico que Skinner e os tecnocratas desposavam. O emparelhamento de tecnologia com progresso social tem sido parte integrante do credo americano desde os primeiros dias como república” (p. 304). Desse modo, as potencialidades da engenharia social defendida por Skinner e pelos tecnocratas carregavam consigo um apelo óbvio à sociedade americana, profundamente tecnológica. Apesar disso, o apreço por valores basilares da nação falou mais alto: “quando ambos, os tecnocratas e Skinner, pediram que o público americano escolhesse entre a democracia e a tecnocracia, eles escolheram a democracia” (pp. 304-305).

O trabalho de Rutherford é tão informativo quanto instigante, e oferece subsídios para pensar e repensar as questões aventadas no início deste texto. Afinal, procede a crítica segundo a qual B. F. Skinner seria um tecnocrata? Seria sensato estendê-la a analistas do comportamento mais genericamente?[4] Aliás, será que essa crítica tem sido aceita como tal? Compreendendo as ideias tecnocráticas a partir do que representaram historicamente, para alguns, talvez, sequer soem extravagantes. Ainda que hoje dificilmente alguém reclame aos quatro ventos a rejeição aos valores da democracia liberal em nome de uma autocracia socialista de técnicos, o germe das ideias de Scott e Loeb parece subsistir. Será que o espectro da tecnocracia ainda ronda o behaviorismo?

 

Quer saber que fim levou o movimento tecnocrático? Quer conferir por si próprio como Rutherford traçou paralelos com o pensamento de B. F. Skinner?

Então leia o artigo na íntegra, disponível aqui e aqui.

 

Escrito por César Antonio Alves da Rocha, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar e pesquisador visitante na Duke University. Bolsista FAPESP.

 

*As notas são sugestões do autor desse texto, e não extraídas de Rutherford (2017).

* As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.

 

[1] Cabe ressalvar que não há consenso em relação à ontologia da análise do comportamento (cf. Rocha, Leão e Laurenti, 2016; Zilio, 2012; Krägeloh, 2006; Tonneau, 2005; Barnes-Holmes, 2005).

[2] Vale a pena ler a análise filosófica de Hocutt (2013) dos argumentos de Skinner sobre a liberdade.

[3] Staddon (2004) se refere a essa postura como uma forma de “imperialismo científico”.

[4] Para uma discussão sobre o que viria a ser um “skinneriano”, cf. De Rose (1999).

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Para com esse barulho !!!

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Prezados leitores, o artigo desta semana não apenas é recentíssimo como também é cheio das novidades. Se trata de um estudo de caso publicado pelas doutoras Rebecca Schneider e Joanna Arch, da Universidade de Columbia, em que descrevem uma nova abordagem para tratar de uma doença também nova: a Misofonia.

Não sabem o que é Misofonia? Me parece totalmente compreensível, pois esta doença ainda não foi incluída nos manuais nosográficos comumente usados, como o DSM-V e a CID 10.

Se trata de um transtorno caracterizado por uma extrema sensibilidade a sons produzidos por outros seres humanos. Esses sons são barulhos cotidianos, como os que fazemos mastigando a comida, quando brincamos com uma caneta, ou até quando respiramos. Os indivíduos que sofrem esta doença, quando entram em contato com o som específico que os incomoda, se sentem imediatamente dominados por intensos sentimentos de raiva, desgosto e ansiedade, que logo se torna intolerável. Esta afecção é considerada como sendo relacionada ao TOC (Transtorno Obsessivo – Compulsivo).

Devido a este transtorno ter sido descrito na literatura psiquiátrica apenas recentemente, não há, ainda, protocolos de tratamento bem estabelecidos. Alguns relatos apontam que a Terapia Cognitivo Comportamental (particularmente dessensibilização sistemática) pode ser efetiva nestes casos. Contudo, devido à relutância de muitos psicólogos clínicos em aplicar as técnicas de dessensibilização, que se baseiam na exposição gradual e controlada a estímulos aversivos, as autoras do estudo consideraram oportuno desenvolver outra abordagem.

A abordagem adotada foi embasada nos pressupostos a ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso) por causa do seu foco na aceitação, em lugar de na tentativa de reduzir os sintomas, e também porque a ACT permite trabalhar com um amplo leque de emoções e não apenas com a ansiedade, que na Misofonia é menos proeminente do que em outros transtornos de humor. Também foi considerada relevante, como base para a intervenção, a DBT (Terapia Comportamental Dialética), por causa do seu foco em sentimentos de raiva.

As autoras trataram o caso de um adolescente de 17 anos (vamos nos referir a ele como “Michael”), que apresentava Misofonia a respeito e barulhos relacionados com alimentação. Este tipo de sons já o incomodava desde antes de começar o Ensino Médio, mas no momento de procurar a terapia tinha chegado a níveis em que o desconforto era intolerável e as tentativas de evitação realizadas pelo paciente afetavam significativamente diversos aspectos da sua vida.

O tratamento, que consistiu em 10 sessões de 50 minutos, inicialmente empregou componentes da ACT relacionados a aceitação e a desfusão (processos psicológicos que envolvem aceitar os eventos privados, como as emoções ou pensamentos, sem necessariamente acreditar que sejam verdadeiros ou se identificar com eles), tendo por objetivo ajudar o Michael a se distanciar dos seus pensamentos relacionados à Misofonia e a se abrir a experienciar os sentimentos de raiva. Além disso, o paciente foi treinado a identificar as situações em que a Misofonia era mais intensa apenas descrevendo fatos, sem a interferência de julgamentos a respeito delas.

Posteriormente, foram usadas técnicas da DBT, para identificar variáveis situacionais relevantes. No caso do Michael, identificou-se que ele ficava com o corpo tenso em antecipação de potenciais barulhos irritantes. Por esse motivo, aplicou-se a técnica de “ação oposta” na qual o cliente deve se engajar na ação oposta àquela exigida pela emoção do momento, com a finalidade de debilitar a relação entre o estímulo e a resposta disfuncional. Durante o tratamento, Michael foi instruído a relaxar o corpo nas situações em que percebesse um estado de tensão antecipatória.

Ao término do tratamento, todas as medidas de Misofonia tomadas como linha de base diminuíram, exceto a reação ao som de mastigar com a boca aberta. Contudo, a necessidade que Michael sentia de fazer algo a respeito desse som diminuiu muito, demonstrando uma maior capacidade de tolerar o desconforto. Essas condições se mantiveram em diversos follow up, que aconteceram até seis meses após a conclusão do tratamento.

A efetividade demonstrada após um tratamento de tão curta duração sugere que este tipo de tratamento baseado em componentes da ACT e da DBT apresenta um grande potencial para lidar com casos de Misofonia e outros transtornos relacionados à ansiedade.

Texto escrito por Jaume Ferran Aran Cebria, Mestre em Psicologia pela UFSCar

Psicólogo e Professor assistente do Curso de Psicologia da UFGD e Pesquisador do CLiCS.

Quer saber mais?

Rebecca L. Schneider and Joanna J. Arch, Case Study: A Novel Application of Mindfulness- and Acceptance-based Components to Treat Misophonia, Journal of Contextual Behavioral Science, 2017.

http://dx.doi.org/10.1016/j.jcbs.2017.04.003

Fonte da Imagem: https://www.rinconpsicologia.com/2016/07/te-molesta-el-sonido-que-hace-la-gente.html

Como saber se estamos formando bons terapeutas?

 

imagem julio2Pesquisadores enfrentam o desafio de mensurar o aprendizado de habilidades terapêuticas fundamentais para a boa prática clínica

A busca pela produção de práticas baseadas em evidência tem sido uma pauta constante no debate entre pesquisadores interessados na validação científica de procedimentos clínicos, em especial, na psicoterapia analítico-comportamental. De forma geral, essa discussão tem como foco a avaliação de quão eficazes são determinadas intervenções psicoterapêuticas na remissão de problemas psicológicos e na melhora no quadro clínico de clientes submetidos a tais intervenções. Uma vertente menos explorada (mas nem por isso menos importante) dessa discussão se refere à avaliação da eficácia dos procedimentos de formação de novos psicoterapeutas, incluindo o treinamento de habilidades terapêuticas indispensáveis para a boa prática clínica.

A chamada Psicoterapia Analítica Funcional (FAP), proposta por Kohlenberg e Tsai (1991), é um modelo de clínica analítico-comportamental fortemente embasado na construção de uma relação interpessoal genuína entre terapeuta e cliente. Segundo os proponentes da FAP, a relação estabelecida dentro do setting terapêutico é um instrumento fundamental para a identificação de comportamentos clinicamente relevantes a serem trabalhados durante as sessões, o que inclui as queixas, os progressos e as interpretações que o cliente faz sobre o próprio comportamento. É por meio da interação face a face que ocorre ao longo das sessões que o terapeuta pode trabalhar a produção de mudanças na direção esperada e a generalização dos resultados para fora do consultório, ou seja, para o ambiente social do cliente, provável fonte do sofrimento psicológico que o levou a procurar ajuda.

Dadas essas características, a formação do terapeuta que virá a atuar segundo os pressupostos da FAP vai além da reprodução de técnicas e do domínio conceitual referente aos princípios analítico-comportamentais. A necessidade de construir relações interpessoais genuínas com os clientes demanda uma entrega pessoal muito grande por parte do terapeuta. Ao basear sua prática no aqui e agora da relação terapêutica, o terapeuta precisa estar constantemente atento aos próprios sentimentos e a como as ações dos clientes os afetam. Além disso, é necessário estar disposto a compartilhar elementos de sua própria história pessoal, o que muitas vezes serve como gatilho para que os clientes passem também a expor informações mais íntimas e importantes para a continuidade da psicoterapia. Por fim, o terapeuta precisa abrir mão de julgamentos e compreender as ações dos clientes como fruto de uma longa e complexa história de reforçamento.

Em termos mais práticos, as ações do terapeuta durante as sessões de FAP envolvem (1) a identificação de comportamentos clinicamente relevantes que são um problema na vida social do cliente, os quais espera-se reduzir a frequência; (2) o estabelecimento de repertórios alternativos mais adequados, o que demanda uma atenção especial para pequenas mudanças que o cliente apresenta ao longo das sessões; (3) o apontamento de relações funcionais entre as ações do cliente e os sentimentos que estas evocam, chamando-se a atenção para os possíveis efeitos semelhantes que tais ações produzem nas pessoas que convivem diariamente com o cliente; (4) a valorização das análises funcionais produzidas pelo próprio cliente e de uma postura mais ativa em direção às mudanças desejadas.

Para a formação de novos terapeutas, os proponentes da FAP têm recorrido à publicação de livros, artigos e materiais didáticos que possibilitam ao aprendiz o contato com os pressupostos básicos do modelo, a visualização de exemplos práticos e a realização de exercícios nas quais algumas habilidades terapêuticas são trabalhadas. Um treino mais elaborado envolve a participação dos aprendizes em cursos e workshops com terapeutas mais experientes, nos quais são discutidos casos clínicos e simuladas experiências de atendimento por meio de role-plays, nos quais os aprendizes são convidados a atuar tanto como terapeutas quanto como clientes. Versões mais recentes desses cursos e workshops têm sido ofertadas via internet, com os encontros entre terapeutas experientes e grupos de aprendizes sendo realizados em sessões de videoconferência.

Mas como saber se estamos formando bons terapeutas? Ou, mais especificamente, o que os proponentes da FAP têm feito para validar empiricamente os cursos e workshops ofertados, de forma a poderem afirmar que os aprendizes são capazes de exibir as habilidades terapêuticas necessárias em seus atendimentos clínicos futuros? Eis um grande desafio!

De modo geral, a avaliação da eficácia dos treinamentos ofertados em Psicoterapia Analítica Funcional passa pela utilização de instrumentos padronizados construídos especificamente para medir habilidades consideradas essenciais para o trabalho do terapeuta. Um desses instrumentos é o FAPIS, um questionário de autoavaliação com 46 escalas do tipo likert, no qual o aprendiz responde o quanto concorda ou discorda de determinadas afirmações. Também é comum a utilização de questionários contendo pequenas descrições de casos clínicos, na qual pede-se que o aprendiz responda, de acordo com o que aprendeu no treino, quais seriam suas respostas frente a determinadas situações. Por se pautarem somente no relato verbal dos aprendizes e estarem sujeitas a respostas enviesadas pela expectativa social gerada pelos terapeutas mais experientes, tais medidas acabam limitando a validação empírica dos procedimentos de ensino empregados. Além disso, não permitem avaliar nuances mais específicas da interação terapeuta-cliente, tais como a entonação e o ritmo da fala, bem como a adequação dos feedbacks aos comportamentos do cliente.

Com base nisso, o grupo liderado por Kohlenberg e Tsai propôs um novo instrumento para medir as habilidades terapêuticas exibidas pelos aprendizes submetidos aos cursos e workshops de FAP: a escala de competências (FAPCS). Ao invés de se basear no auto relato dos aprendizes, a FAPCS é uma escala com 12 itens, na qual terapeutas e codificadores treinados podem avaliar de forma simples e objetiva alguns trechos de sessões conduzidas pelos aprendizes (gravados em áudio, vídeo ou transcritos). Cada item abarca algum tipo de habilidade interpessoal, terapêutica ou conceitual esperada na FAP e pode ser pontuado de 0 a 3, sendo 3 referente ao atendimento de todos os requisitos necessários para se dizer que determinada habilidade foi estabelecida.

Os resultados apresentados pelo grupo ainda são preliminares e as vantagens desse novo instrumento ainda precisam ser analisadas em novos estudos. O primeiro estudo realizado apontou que a FAPCS é capaz de produzir medidas que apresentam forte correlação com as produzidas pelos instrumentos mais tradicionais, como o FAPIS e as respostas às descrições de casos clínicos.  Acredita-se que o novo instrumento seja capaz de detectar nuances mais específicas das habilidades avaliadas, dada a impossibilidade de os aprendizes mascararem suas respostas para atingir os critérios esperados.

Quer saber mais?

Maitland, D. W. M., Kanter, J. W., Tsai, M., Kuczynski, A. M., Manbeck, K. E., Kohlenberg, R. J. (2016). Preliminary Findings on the Effects of Online Functional Analytic Psychotherapy Training on Therapist Competency. Psychological Record, 66(4), 627-637. https://doi.org/10.1007/s40732-016-0198-8

Post escrito por Julio Camargo

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Bolsista FAPESP e Membro do Instituto de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE).

Crédito foto: http://www.drjonicewebb.com/

Você pagaria para parar de fumar?

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De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o tabaco mata em torno de 7 milhões de pessoas por ano. Cerca de metade das pessoas que fumam morrem em decorrência desse hábito. Bom, que o cigarro é um veneno todo mundo sabe, mas muitas pessoas têm uma grande dificuldade em largar esse vício. É um tal de larga e volta que só que passa por isso sabe. Será que uma motivação financeira a mais poderia ajudar?

Alguns estudos verificaram a eficácia de um programa de redução de fumo em que o participante deposita um determinado valor em dinheiro e vai recebendo partes desse valor de volta, caso consiga atingir metas de redução de consumo. A maioria desses estudos são antigos, mas as novas possibilidades tecnológicas estão impulsionando novamente essas investigações.

Brantley Jarvis e Jesse Dallery da Universidade da Flórida fizeram uso dessa tecnologia da seguinte forma. Foram convidados a participar dos experimentos pessoas que fumavam mais de 10 cigarros por dia, há pelo menos dois anos. Essas pessoas realizavam um depósito online da quantia dinheiro que eles escolhessem e poderiam receber esse dinheiro de volta conforme fossem atingindo as metas de redução do fumo. Eram no total 28 metas de redução e 10 dias de abstenção. As metas foram estabelecidas individualmente, a partir do consumo costumeiro de cada um, que foi aferido durante 3 ou 5 dias (linha de base). Os participantes tinham acesso, por meio de login e senha, a uma área em que poderiam comunicar e verificar seu consumo de cigarro, assim como acompanhar seus ganhos. Para medir o consumo, duas vezes por dia  os participantes faziam upload de um vídeo em que filmavam a checagem desse consumo. Isso era feito quando eles assopravam perto um aparelho que ganharam dos experimentadores para este fim.

Os resultados mostraram que os participantes atingiram em média 64% das suas metas e que houve uma redução média de 45,1% no consumo nas fases de redução e de 58,4% na fase de abstinência, se comparado com o consumo na linha de base.No segundo experimento, os pesquisadores resolveram dar uma forcinha a mais. O procedimento foi o mesmo, mas o pessoal da universidade dobrava o valor que os participantes depositavam (até uma quantia máxima de 50 dólares). Resultados? Em média 67% das metas foram atingidas e a redução média do consumo foi de 41,2% na fase de redução e 41,6% na fase de abstinência e a variabilidade entre os participantes foi maior do que no Estudo 1. Os resultados são animadores, mas parece que o aumento do valor total do dinheiro não fez tanta diferença. Segundo os autores, esses resultados poderiam ser melhores se, por exemplo, o valor recuperado fosse aumentando conforme as metas fossem atingidas (nos experimentos descritos a quantidade de dinheiro devolvido por meta era sempre a mesma).

É a tecnologia, mais uma vez, sendo usada para ajudar as pessoas a serem mais saudáveis. E você, pagaria para parar de fumar?

Quer saber mais? Leia o artigo: Jarvis, B. P. & Dallery, J. (2016). Internet-based self-tailored deposit contracts to promote smoking reduction and abstinence. Journal of applied behavior analysis, 50, 189–205.

Postado por Natalia Maria Aggio, Pós-doutoranda no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (Bolsista CAPES)

É possível entender a cultura da pichação pela análise do comportamento?

 

Você sabe o que é etnografia? De maneira resumida, etnografia é o estudo descritivo de uma cultura, uma vez que permite produzir conhecimento sobre os costumes, crenças e tradições de um grupo cultural e, mais ainda, compreender como as práticas são transmitidas de geração em geração e como permitem a continuidade de um determinado sistema social. Na antropologia cultural, o etnografar é eleito como procedimento intrínseco desta área de conhecimento.

Na etnografia é importante que o pesquisador observe diariamente os modos de vida, relações sociais, ritos e, principalmente, conviva com a cultura que está inserido. Isso levará ao entendimento pelo olhar dos membros daquela cultura, somente possível por meio da interação entre investigador e a sociedade. Adicionalmente, o pesquisador pode conduzir entrevistas para colher dados adicionais sobre a subjetividade do grupo. Embora não seja apenas o relato verbal eleito como método de análise, mas a interação e observação das práticas sociais. Podemos sintetizar o método etnográfico com a seguinte frase de Urpi Montoya Uriarte, antropólogo da USP campus São Paulo: “um descobrimento fortuito da importância de conviver e ouvir aqueles que pretendemos entender”.

Deste modo, apesar da análise cultural com referencial analítico-comportamental ainda ser um campo tímido, deve-se fomentar estudos possam entender as dinâmicas das culturas e, posteriormente, procedimentos que promovam mudanças culturais. Diante da complexidade do comportamento cultural e sua transmissão entre gerações é necessário desenvolver ferramentas que permitam extrair conhecimento sobre práticas de indivíduos em grupos.

E você? Já pensou se mais pesquisas em análise do comportamento se apropriassem deste método? Pois bem, Lucas Couto, em colaboração com pesquisadores da Oslo and Akershus University College investigaram no Brasil, por meio de uma etnografia, a cultura dos pichadores das cidades de Brasília e Goiânia. Os principais resultados descrevem e identificam propriedades da cultura da pichação que podem sugerir possíveis estratégias de intervenções. Tais intervenções são interessantes por não terem o objetivo de punir ou extinguir a cultura dos membros, mas sim produzir alternativas à pichação por meio de planejamento para ocorrência de comportamentos pró-sociais.

Os autores do artigo discutem tais resultados em duas direções. Em primeiro lugar são discutidas as características dos reforçadores que mantem estas práticas, pois apesar de não prover ganhos materiais, o ato de pichar fornece amplas e poderosas contingências de reforçamento social. Em segundo lugar, a análise funcional das práticas culturais permite possiblidades de intervenções.

Os autores argumentam que ao realizar uma análise funcional das práticas culturais podemos planejar contingências que alterem o ambiente social dos pichadores e, desta forma, existe a possibilidade de produzir novos comportamentos e tornar incompatíveis os atualmente emitidos (não aceitos socialmente), porém sem extinguir a cultura da pichação. Nesta questão, por exemplo, pode-se levar elementos do graffiti a serem incorporados aos pichadores para favorecer contingências que promovam o engajamento com ativismo cultural, mas sem os efeitos prejudiciais à sociedade. Isso poderá promover uma rede de apoio aos pichadores em um contexto de ativismo. Assim, setores que apoiam o ativismo podem favorecer o desenvolvimento de comportamentos socialmente aceitáveis nos pichadores.

Para chegar a estes resultados, somente Lucas entrevistou vários membros dos grupos de pichadores, com os quais conviveu interagindo quase diariamente. Essa convencia direta com o grupo estudado propiciou uma análise da cultura com foco na relação funcional entre variáveis ambientais e práticas culturais.

A cultura da pichação envolve muitas práticas. As mais comuns são a criação de apelidos entre os membros, estilos e formatos de letras característicos de cada grupo (você com certeza já visualizou essas letras em pichações de cidades de grande porte), hierarquia entre os grupos e pichações em ambientes de ampla visualização e de risco, por exemplo, obras públicas. Ao categorizar e analisar essas práticas foram encontrados alguns achados.

Inicialmente, observou-se os subsistemas nos quais são criados apelidos individuais e o nome do grupo dos membros. Isso permite que a identidade do pichador e da facção sejam reforçadas. Por exemplo, quanto o membro picha muros, monumentos e/ou paredes, as letras com os apelidos permitem que pessoas de fora (pichadores ou mídia) apresentem consequências sociais (expor a grafia em redes sociais, noticiários e entre outros pichadores) para o produto do pichador e da sua coligação. É importante dizer que os grupos podem ser fundidos e, consequentemente, aumenta-se o número de membros, propiciando maior visibilidade a relação entre os pichadores.

Também foi observado que a prática cultural da pichação é transmitida para os novos membros. Isso inclui os melhores pontos para picharem, características simbólicas do grupo, uso do melhor material para pichar. Em relação a isto, podemos destacar as características topográficas (formatos) das letras pichadas, pois, em geral, os tipos de grafias são modelados pelos membros mais velhos e experientes que ensinam como será feita a arte para os iniciados. Esses infográficos contêm anagramas, tamanhos e formas variadas, todas reforçadas diferencialmente (letras maiores recebem maiores comentários de outras pessoas, ou seja, maior magnitude de reforçamento). Isso demonstra como a prática cultural é mantida pelos membros que as mantém ao longo das gerações.

Como último ponto de observação foi possível analisar funcionalmente esta cultural. Notou-se uma relação entre o ambiente social da pichação, entre pichadores, os grupos de pichadores e influência de diversas contingências punitivas e de reforçamento providas por terceiros, como: a mídia, as famílias, os ambientes escolares, a polícia e as nossas leis (no Brasil, o ato de pichar é considerado crime ambiental, artigo 65 da Lei 9.605/98).

Um exemplo de como estes fatores estabelecem a relação entre a cultura de pichar e terceiros é a grande mídia. No texto é relatado que um importante monumento de Brasília, o Memorial do Presidente Juscelino Kubitschek, apelidado de Memorial JK, é frequentemente pichado, sendo isso usualmente noticiado em jornais de ampla circulação. Aqui podemos notar que o ato de pichar locais de grande importância social é constantemente reforçado pela mídia, que indiretamente mantém tal prática, que se torna prazerosa aos pichadores e aos grupos, mas fortemente aversiva aos terceiros (membros fora desta cultura, ditos forasteiros).

Em relação à possíveis intervenções, os autores fazem um alerta sobre quem for planejar a mudança cultural se atentar aos reforçadores naturais que selecionam as práticas. Normalmente, quem irá planejar uma mudança de práticas, pode não considerar os reforçadores disponíveis no ambiente de quem pratica a pichação, tal visão tem função apenas de remover a estimulação aversiva dos que estão de fora da cultura da pichação. Dessa forma, a chance de contra controle do grupo é muito alta e será produzido novos comportamentos prejudiciais à sociedade.

O artigo traz um exemplo de mudanças culturais que não funcionaram, ao relatar uma exposição de artes da Alemanha em 2012, na qual foi convidado um grupo de pichadores para participarem de um workshop com o objetivo de reconhecer a pichação como arte. Para este evento, o curador restringiu sobre o que deveria ser apresentado como arte pelos pichadores e somente haveria discussão teórica sobre o assunto em formato de painéis, ou seja, impôs sua visão de como deveria ser exposta e dialogada com a mostra artística. Diante dessa situação, os pichadores subiram ilegalmente a igreja que sediava o evento e deixaram suas marcas no local. Segundo os pichadores, a sua arte é livre, não pode ser restringida, pois a pichação é sempre transgressiva e das ruas. Provavelmente, este tipo de intervenção não funcionou por não considerar os reforçadores naturais como uma poderosa fonte de controle de novos comportamentos. Ao estabelecer consequências arbitrárias, por não ter contato com a cultura do pichador, o planejador com certeza irá favorecer mais comportamentos prejudiciais do que benéficos.

Como no artigo descrito nessa resenha e, na maioria dos estudos sobre planejamentos culturais, os autores nos instigam a fazer a seguinte reflexão: Parece haver uma tendência em relação à noção de planejamento cultural do cientista comportamental em buscar intervenções que levariam a uma mudança da cultura, dentro daquilo que se convenciona como necessário de modificação pelo interventor. Porém, podemos aprender com as ciências antropológicas que devemos entender pela visão dos membros internos a cultura analisada. Por que não pensar em se interessar por simplesmente “entender” certa sociedade? Às vezes, tentativas de “controlar’ as práticas sociais podem levar a caminhos tão desastrosos como o de uma mudança cultural não planejada. É possível que a compreensão do sistema social seja um caminho mais seguro para a mudança do nosso olhar e, quando for planejada a mudança, as intervenções poderão ser mais pontuais e menos totalitárias.

Por fim, podemos pensar na seguinte reflexão enquanto analistas do comportamento: Não devemos limitar nossa metodologia e olhar os fenômenos apenas com modelos tradicionais de nossa ciência. Tal prática pode levar a uma deturpação do que seria um planejamento cultural efetivo, uma vez que para entender uma cultura, o olhar do outro deve prevalecer sobre o nosso e devemos entender as complexas relações de contingências que mantêm as práticas culturais do grupo observado. Temos as ferramentas produzidas pela investigação experimental, mas aplicá-las nas outras culturas requer mudanças em nossas próprias práticas culturais!

Texto escrito por Marlon Alexandre de Oliveira

Doutorando em Psicologia pela UFSCar e pesquisador do INCT-ECCE Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino. Bolsista CAPES.

Quer saber mais?

de Carvalho, L. C., Sandaker, I., & Ree, G. (2017). An ethnographic study of tagging cultures. Behavior and Social Issues, 26, 67.

Uriarte, U. M. (2012). O que é fazer etnografia para os antropólogos. Ponto Urbe. Revista do núcleo de antropologia urbana da USP, (11).

Fonte da imagem: https://kikacastro.files.wordpress.com/2015/07/11231805_1132454836769937_2069011068897199668_n.jpg

É possível ensinar comportamentos empáticos a crianças autistas?

imagem sabrina campos

Argott, Townsend,  Poulson, autores de um estudo recentemente publicado na revista Behavior Analysis in Practice, discutem que o comportamento empático pode ser descrito como discriminar estímulos emocionais provenientes do comportamento de outras pessoas e responder diferencialmente a eles. Ou seja, responder de acordo com o significado dos estímulos afetivos oriundos do comportamento de um interlocutor. Notem que essa definição adota como foco de análise as relações de controle entre eventos antecedentes e respostas. Dessa forma, favorece a manipulação experimental desse tipo de comportamento e o desenvolvimento de métodos de ensino do mesmo.

        Devido a fatores como déficits na área da linguagem, pouca sensibilidade a reforçadores sociais e/ou dificuldades de discriminar estímulos emocionais provenientes do comportamento de interlocutores, pessoas com Transtornos do Espectro Autista (TEA) podem não emitir ou ter baixa frequência de comportamentos empáticos. Se você acompanha a série “The Big Bang Theory” provavelmente já se deparou com uma situação desse tipo. Embora não haja uma declaração explícita sobre isso na série, é possível identificar no personagem Sheldon Cooper características de uma pessoa com uma condição conhecida como Síndrome de Asperger, uma variação mais leve do espectro autista. Uma dessas características refere-se justamente ao conceito de empatia que estamos discutindo.

Em alguns episódios, Sheldon parece não conseguir identificar pistas sobre os estados emocionais de seus amigos e acaba se comportando de forma indelicada. Em outras situações, quando identifica que um de seus amigos está triste, ele costuma oferecer uma bebida quente ao mesmo. É possível considerar que Sheldon tentou ser empático, visto que ele conseguiu discriminar os estímulos emocionais provenientes do comportamento do seu interlocutor e emitiu uma resposta que, segundo a sua história de aprendizagem, é adequada. Por outro lado, o hábito de “oferecer uma bebida quente” sugere um repertório restrito de respostas para situações como essa.

Diante da dificuldade apresentada por pessoas com TEA em se engajar em comportamentos empáticos e da importância desse repertório comportamental para as interações sociais, um grupo de pesquisadores desenvolveu um procedimento que teve o objetivo de ensinar respostas empáticas complexas para crianças com tal modo de desenvolvimento. O estudo teve quatro participantes com diagnóstico de TEA, com idades entre 10 e 12 anos, alunos de um programa educacional embasado na Análise do Comportamento Aplicada (ABA).

        Os autores construíram um procedimento de ensino de respostas empáticas que deveriam ser emitidas em relação a três categorias afetivas (alegria, frustração e dor), apresentadas no comportamento de outra pessoa com a qual os participantes estivessem interagindo (que no caso da pesquisa era o instrutor). Após o fim da intervenção, era esperado que os mesmos fossem capazes de: a) discriminar estímulos emocionais provenientes do comportamento de seu interlocutor e b) emitir respostas empáticas complexas formadas por quatro componentes: uma declaração verbal proferida, em uma entonação adequada, acompanhada de uma expressão facial e de gestos coerentes com o contexto. Dessa forma, após a ocorrência de uma estimulação afetiva (proveniente do comportamento de um interlocutor), por exemplo,  levantar as mãos acima da cabeça e falar “ Eu consegui montar o cubo mágico!” (na categoria alegria), seria considerado uma resposta empática satisfatória, por exemplo, se a criança, sorrindo e com um tom de voz que indicasse entusiasmo falasses: “Isso é ótimo! Toca aqui! ” ao mesmo tempo em que ergue uma das mãos. A presença dos quatro componentes citados nas respostas empáticas foi considerada importante, pois a falta de um deles poderia fazer com que essas fossem interpretadas como inapropriadas às situações de vida cotidiana. Para entender melhor esse critério, imagine como você se sentira ao ouvir alguém falar “Parabéns!” com uma expressão facial triste ou “Eu sinto muito” em um tom de voz que indicasse entusiasmo.

        Após uma avaliação de linha de base, que visou identificar o repertório de respostas empáticas dos participantes anterior à intervenção, foi iniciado o procedimento de ensino. Nesse procedimento, era realizada uma tarefa em que era apresentado um estímulo emocional pelo instrutor, por exemplo, demonstrar sentir dor após tropeçar em um móvel. Se após cinco segundos, a criança, com o olhar voltado para a direção do instrutor, emitisse uma resposta empática que incluísse os quatro componentes especificados (declaração, entonação, expressão facial e gestos), eram apresentadas consequências potencialmente reforçadoras (elogios e fichas) e, então, iniciada uma nova tentativa com a apresentação de um novo estímulo afetivo. Mas, caso a criança não respondesse ou emitisse uma resposta que não contemplasse os quatro componentes descritos, era iniciada uma sequência de dicas.

        O primeiro nível de dica foi a exibição de um vídeo que apresentava um modelo da situação antecedente (estímulo emocional) e da resposta empática adequada. Na sequência, era apresentado novamente o estímulo emocional (resposta do instrutor). Caso o participante não emitisse a resposta empática esperada, era apresentada a próxima dica, que correspondeu a um modelo da mesma situação, representado ao vivo pelos experimentadores. Se ainda assim o participante não emitisse o comportamento esperado, eram fornecidas instruções verbais e dicas manuais. Quando a criança emitia, de forma independente, uma resposta empática que contemplasse os quatro componentes especificados pelos pesquisadores, eram apresentados elogios e fichas como consequências potencialmente reforçadoras.

        No decorrer do processo de ensino, também eram realizadas tentativas que visavam promover a generalização de respostas em relação a novas pessoas e a novos estímulos afetivos. Eram apresentados estímulos discriminativos novos, que também correspondiam às categorias anteriormente mencionadas, mas com topografias diferentes, por exemplo, se para a categoria frustração o estímulo empregado, na fase de treino, fosse uma situação em que o instrutor relatava não estar conseguindo fazer um brinquedo funcionar, nas tentativas de generalização, poderia ser apresentada uma situação em que o instrutor relatasse não estar conseguindo ler uma palavra ou abrir um recipiente. Além disso, em algumas tentativas, as situações eram apresentadas por um novo instrutor.

A comparação dos resultados referentes às fases teste de linha de base e de treino demonstrou aumento expressivo nas porcentagens de respostas empáticas após o início da intervenção. Além disso, foi observado também que, nas tentativas de generalização de respostas para outras pessoas e estímulos emocionais (situações), os participantes continuaram emitindo as respostas empáticas em porcentagens altas. Desempenho com tendência semelhante também foi observado nas sessões de follow-up, em que a manutenção das respostas empáticas foi avaliada seis semanas após o fim da fase de ensino.

        Em suma, os resultados indicam que é possível ensinar jovens autistas a discriminar diferentes categorias afetivas (alegria, frustração e dor) e emitir respostas empáticas complexas apropriadas a essas situações. Os dados de generalização apontam que o padrão de respostas aprendido na fase do treino foi estendido a outras pessoas e estímulos emocionais componentes das mesmas classes dos estímulos empregados nessa fase. Isso indica que, possivelmente, os participantes foram capazes de discriminar as características em comum das diferentes situações de uma mesma categoria afetiva, como, por exemplo, o sorriso e a entonação elevada, para a alegria, de forma a responder adequadamente aos estímulos com os quais não tinham sido diretamente treinados, mas que também apresentavam algumas dessas características.

A manutenção das respostas empáticas, após o período de seis semanas, também sugere que elas passaram efetivamente a compor um novo repertório comportamental para os participantes. Repertório esse que, possivelmente, poderá favorecer as suas interações cotidianas. A aprendizagem do comportamento empático pode representar um avanço significativo para o desenvolvimento de indivíduos com TEA, visto que colabora para que eles ampliem a sua rede de apoio social com maior autonomia. Se você gostou da pesquisa e quer saber mais, confira o artigo na íntegra!

Argott, P. J., Townsend, D. B., Poulson, C. L. (2017) Acquisition and Generalization of Complex Empathetic Responses Among Children with Autism. Behavior Analysis in Practice, 10(2), 107-117.      

Escrito por:

Sabrina Campos Dias Pedrosa, Mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Fonte da imagem:

http://www.redehumanizasus.net/87960-nao-basta-ser-simpatico-e-preciso-ser-empatico

Prisão como Punição: Por que o sistema prisional parece não diminuir a violência?

texto josiane

O sistema prisional é alvo de muitas discussões. Uma das questões discutidas é se as medidas adotadas por esse sistema diminuem o número de crimes, já que ele é bastante alto em alguns países e gera custos elevados para o governo.
Tanto nos EUA quanto no Brasil, o número de crimes é enorme. Em 2013, nos Estados Unidos, ocorreram mais de 6 milhões de crimes violentos, incluindo aproximadamente 17.000 assassinatos e 300.000 estupros. No Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2016), em 2016, houve 58.467 mortes violentas intencionais, e, em 2015, 45.460 casos de estupro. O número de pessoas encarceradas também é grande. Nos EUA há 2,2 milhões de pessoas, tendo esse país a maior população carcerária do mundo. Já o Brasil tem a quarta população, com 584.361 pessoas presas em 2016 (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2016).
Alexis B. Apel e James W. Diller, pesquisadores norte-americanos, analisaram os fatores relacionados à prisão nos EUA por meio da perspectiva da Análise do Comportamento.
Eles comentam que na terminologia do sistema legal, o encarceramento é entendido como punição, no sentido de castigo e de diminuir a chance da pessoa se engajar em comportamentos criminosos novamente. Segundo os autores, essa punição tem o objetivo de funcionar como punição operante na definição da Análise do Comportamento. Na punição operante há a apresentação de uma consequência aversiva (por exemplo, encarceramento) após a emissão de uma resposta (por exemplo, um roubo), e, dessa forma, a probabilidade de ocorrência dela é diminuída.
Portanto, ao analisar a prisão como punição operante, a taxa de comportamento criminoso deveria ser baixa, mas não é o que ocorre. Somando-se a isso, há o elevado número de pessoas presas e de reincidências. Dados demonstram que 70% dos presos liberados em 2005, nos EUA, foram reaprisionados por um novo crime dentro de três anos. Porcentagem semelhante é encontrada no Brasil (IPEA, 2015).
Diante desses índices alarmantes, é importante a análise dos fatores relacionados à punição operante no sistema de justiça criminal, para que seja possível a elaboração de medidas mais eficazes para combater o crime. Apel e Diller analisaram os seguintes fatores: reforço, disponibilidade de reforço para respostas alternativas, intensidade, probabilidade e imediaticidade da punição.
O primeiro fator é o reforço, ou seja, é a apresentação de uma consequência que aumenta a probabilidade do mesmo comportamento ocorrer novamente. Exemplos de reforços são o acesso a bens ou dinheiro, bem como o reforço social. Portanto, as pessoas se engajam em comportamentos criminosos porque há reforço para esses comportamentos.
O segundo fator é a disponibilidade de reforços para comportamentos alternativos, em que são reforçados comportamentos que não sejam criminosos (por exemplo, comportamentos pró-sociais). Os autores mencionam que esse fator pode aumentar a efetividade do procedimento de punição. No entanto, no atual sistema de justiça criminal, há falta de desenvolvimento desses comportamentos alternativos, devido às atividades limitadas e fracos laços familiares dentro da prisão.
A intensidade da punição é o fator mais questionado pelos autores. Ele é definido como a duração de tempo das penas. Tanto nos EUA quanto no Brasil, penas de longa duração são relacionadas, supostamente, com a redução da taxa de criminalidade. Mas pesquisas demonstram que sentenças longas não têm impacto significativo na taxa de crimes ou diminuem a taxa de apenas alguns.
O quarto fator é a probabilidade da punição do agressor. Muitas pesquisas indicam uma correlação negativa entre a alta probabilidade de ser preso e a taxa de crime, ou seja, quanto menor a probabilidade dos infratores serem capturados e encarcerados, maiores os números de crimes. O que vemos atualmente são probabilidades baixas de punição, por exemplo, nos EUA, a probabilidade de uma pessoa ser presa por homicídio é de 0.498. Para aumentar essa probabilidade, deve-se aumentar a presença de aplicação da lei, como, por exemplo, a maior presença de policiais nas ruas ou em pontos da cidade em que há maior número de ocorrências de crimes.
Outro fator decisivo para a efetividade da punição é a sua imediaticidade. Os dados na Análise do Comportamento indicam que quanto mais imediata a punição é aplicada ao comportamento, menor a probabilidade desse comportamento ocorrer novamente. No entanto, o tempo entre cometer o crime, ser preso e cumprir a sentença é bastante extenso.
Com base nos fatores citados, há a indicação de que a punição de alta probabilidade combinada com a disponibilidade de acesso ao reforço de comportamentos alternativos seria mais eficaz para reduzir o comportamento criminoso, em comparação com as medidas adotadas atualmente.
Apesar de que nem todas as medidas adotadas pelo sistema de justiça criminal dos EUA e do Brasil sejam baseadas em evidências, há algumas que são, como os programas de reinserção social, que trabalham a transição de pessoas após o encarceramento. Pesquisas demonstram que esses programas têm resultados positivos, porém, poucos prisioneiros podem acessá-los devido ao baixo financiamento e a superpopulação nas prisões.
Essa transição é difícil, pois há diversos fatores que impedem os indivíduos de se reintegrarem à sociedade após serem libertados da prisão, como a dificuldade em obter reforços alternativos (emprego, casa e relações sociais construtivas), discriminação, estigmas, hostilidade das próprias famílias, e a disponibilidade de reforços relacionados ao comportamento criminoso anterior.
A transição pós-encarceramento constitui uma área de potencial intervenção para os analistas do comportamento, e que é pouco explorada pelos mesmos. Ao aplicar as estratégias de treino de habilidades comportamentais, identificação de reforços potenciais, análise funcional, etc., junto a outros profissionais da área da justiça criminal, o analista do comportamento pode ajudar na elaboração e implantação de políticas públicas nesse campo, bem como colaborar para a diminuição da violência em nossa sociedade.

Quer saber mais?
Consulte o texto:
Apel, A. B., & Diller, J. W. (2016). Prison as punishment: A behavior-analytic evaluation of incarceration. The Behavior Analyst, 1-14.

Outras referências:
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. (2016). Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2016. 10. http://www.forumseguranca.org.br/storage/10_anuario_site_18-11-2016-retificado.pdf

Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. 2015. Reincidência criminal no Brasil. http://cnj.jus.br/files/conteudo/destaques/arquivo/2015/07/572bba385357003379ffeb4c9aa1f0d9.pdf.

Fonte da imagem: http://data1.ibtimes.co.in/cache-img-0-450/en/full/627981/1487149805_jail.jpg.

Escrito por Josiane Maria Donadeli, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.
“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

Feminismo e Análise do Comportamento: aproximando e operacionalizando conceitos

natalias biscassi

Questionamentos levantados por movimentos sociais têm sido muito discutidos ultimamente, especialmente fazendo-se uso de plataformas online, como Facebook, Tumblr, web journals e blogs em geral. Os argumentos utilizados, geralmente, já possuem um linguajar próprio criado pela comunidade verbal de quem é adepto aos movimentos, muitas vezes passando longe do nosso behaviorês.

Mas será que a Análise do Comportamento não tem nada a dizer sobre questões sociais? Tem sim, e pode ser uma ferramenta muito útil. A Análise do Comportamento tem um potencial de mudança social que deve ser utilizado, como o próprio Skinner ou James Holland – famoso pelo seu artigo “Servirão os princípios comportamentais aos revolucionários?” -, apontaram. Porém, este potencial não tem sido explorado o suficiente e, como dizem as autoras do artigo comentado no post de hoje, um dos temas sociais em que a colaboração da Análise do Comportamento não tem sido satisfatória é o feminismo.

Traduzindo para o behaviorês, cuja operacionalização facilita nosso entendimento, o termo feminismo refere-se “à tentativa de alterar o papel social da mulher, com base em um programa de ação que explicita práticas culturais responsáveis por um desequilíbrio na distribuição de reforçadores sociais, favorecendo os homens em detrimento das mulheres. ” (Silva & Laurenti, 2016, p. 199)

Mas quem nunca presenciou discussões no Facebook de pessoas de vertentes diferentes do feminismo e, diga-se de passagem, de pessoas que não faziam parte de vertente nenhuma pegando carona, discutindo entre si? Pelo fato de behaviorismo e feminismo serem teorias plurais, com diversos desenvolvimentos, Emanuelle Silva e Carolina Laurenti (2016) decidiram fazer uma aproximação entre as teorias de Skinner e Simone de Beauvoir, por serem autores primordiais em correntes filosóficas importantes de tais áreas de análise.

As autoras, neste trabalho, cumprem muito bem a tarefa de mostrar a consistência entre o modelo de seleção pelas consequências elaborado pelo primeiro autor e a distinção entre sexo e gênero, sistematizada pela segunda autora. As duas teorias são compatíveis em suas bases, a partir do momento em que o Behaviorismo Radical e a teoria de Beauvoir, que mais tarde foi adotada e desenvolvida pelo Feminismo Radical, constroem-se sobre o contextualismo, isto é, consideram a relação entre indivíduo (e suas ações) e seu meio uma relação de interdependência, com mútua influência, sendo tal constatação importante não só para a compreensão das ações humanas, mas também para a transformação de práticas sociais.

Então, o que Beauvoir quis dizer com a afirmação de que sexo é diferente de gênero?  Sexo refere-se a fatores biológicos (natureza), enquanto gênero refere-se a papéis designados socialmente a homens e mulheres, com padrões de comportamento impostos como padrão masculino e padrão feminino. Ao contexto social em que vivemos dá-se o nome de sociedade patriarcal e o patriarcado, sendo operacionalizado, pode ser entendido como “um conjunto de práticas sociais que estabelece uma relação de opressão e subordinação das mulheres em relação aos homens” (Silva & Laurenti, 2016, p. 200).

Em tal contexto, é um instrumento de poder patriarcal ignorar as diferenças entre sexo e gênero, tornando-os equivalentes. Isto é, o patriarcado esconde sua influência na construção social do gênero e apresenta-o como se fosse natural, já que na visão dominante este é determinado biologicamente pelo sexo. Para Beauvoir, ao definir que sexo é diferente de gênero, dá-se margem para a mudança social, posto que, se gênero é construído, o lugar social colocado para a mulher pode igualmente ser transformado socialmente.

Outro ponto em que as teorias convergem, portanto, está no teor antiessencialista das mesmas. Admitindo-se a influência contextual no que é posto como “natural”, “inato”, através da constatação de práticas culturais que moldam a aprendizagem social, nega-se a crença de que o indivíduo é imutável e determinado por conceitos internos e abstratos, embora apelem muitas vezes para descrições biologizantes. Tanto Simone quanto Skinner teorizaram a favor de uma noção de pessoa e de realidade mutáveis, passíveis de transformação. Os indivíduos são multideterminados.

Tal multideterminação, no Behaviorismo, é explicitada pela diferenciação de três níveis de análise: filogênese, ontogênese e cultura. A filogênese dá conta da seleção de comportamentos da espécie, a ontogênese trata da história comportamental de um indivíduo e a cultura, da história de tradições grupais. Essas três dimensões de análise estão inter-relacionadas, de tal maneira que o organismo que se comporta (filogênese), com sua história individual, é nomeado pessoa (ontogênese), a qual, por sua vez, tem seu comportamento individual, na maior parte das vezes, organizado e mantido por contingências sociais (cultura).

Mas não pensamos sobre isso enquanto agimos a priori, nós só adquirimos consciência do que fazemos/sentimos e porque fazemos/sentimos após entrar em contato com o que a comunidade verbal propaga sobre isso, construindo a noção de self: a cultura, então, é também reflexiva. Segundo o que as autoras ressaltam do que foi escrito por Skinner, os produtos comportamentais desses três níveis de seleção podem ser semelhantes em topografia (leia-se “forma, aparência”), portanto é preciso tomar cuidado em sua análise, especialmente no que se trata sobre confusão entre níveis filogenético e ontogenético/cultural.

Beauvoir segue na mesma linha de análise, nomeando as coisas de forma ligeiramente diferente, dizendo que, para que a mulher exista no mundo, esta precisa de um corpo (filogenêse), porém esse corpo precisa ser considerado e esclarecido na relação com sua história pessoal (ontogênese) e da cultura na qual está inserida. Logo, para Beauvoir, os comportamentos da mulher não são determinados por sua estrutura biológica, mas especialmente influenciados por diferentes dimensões contextuais com histórias evolutivas próprias.

Então, como é ser mulher ou ser feminina remonta a diferentes contingências sociais e individuais. Operacionalizando em termos comportamentais, gênero indica “padrões de comportamento ontogenéticos, considerados típicos de mulheres e de homens no contexto de uma dada cultura. Já a noção de self (construído por reforço social de uma comunidade verbal) elucida a noção de identida­de de gênero, isto é, o modo como o indivíduo se comporta, pensa e sente em relação ao seu próprio gênero”. (Silva & Laurenti, 2016, p. 205).

Finalmente, a virada epistemológica dada por Beauvoir ao fazer a distinção entre sexo e gênero contribui para mostrar que, propositalmente, práticas culturais que favorecem homens estavam (e estão) sendo justificadas por argumentos que tomam questões sociais por questões biológicas e essencialistas, confundindo intencionalmente níveis de análise com o intuito de exercer poder. Epistemologicamente, na Análise do comportamento não há nada que se oponha a essa argumentação, inclusive o rol teórico dessa ciência do comportamento ajuda a reforçá-la.

Ao retirarem a discussão do campo essencialista e unidimensional (que não aceita variação comportamental), Beauvoir e Skinner abrem possibilidades de modificação social, pois propõem encaminhamentos políticos operacionalizados para mudanças de ambientes físicos e culturais. A mulher, ao identificar padrões opressores de controle social, pode exercer o contracontrole, mesmo que as dimensões pessoal (gênero) e reflexiva (identidade de gênero) sejam construídas na relação com o ambiente social, contribuindo para a equalização na distribuição de reforçadores sociais a ambos os gêneros.

Para saber mais:

Silva, E. C. & Laurenti, C. (2016). B. F. Skinner e Simone de Beauvoir: “a mulher” à luz do modelo de seleção pelas consequências. Revista Perspectivas, 7 (2), 197-211.

Link do texto original:

https://www.researchgate.net/profile/Carolina_Laurenti/publication/305993373_B_F_Skinner_e_Simone_de_Beauvoir_a_mulher_a_luz_do_modelo_de_selecao_pelas_consequencias/links/57a8e78e08ae0107eee71664/B-F-Skinner-e-Simone-de-Beauvoir-a-mulher-a-luz-do-modelo-de-selecao-pelas-consequencias.pdf

Outras referências:

Holland, J. G. (1974). Are behavioral principles for revolutionaries? In F. S. Keller, & E. R. Iñesta (Orgs.), Behavior modification: Application to education (pp. 195-208). New York: Academic Press, Inc.

Versão traduzida para o português:

www.usp.br/rbtcc/index.php/RBTCC/article/download/863/474

+ Material para discussão:

Boteco Behaviorista #31: Feminismo e Behaviorismo Radical

https://www.youtube.com/watch?v=Ei4kyhItMd8

Créditos da imagem:

http://asgardproject.com.br/sys/arq/post/18U4P7/02-feminismo-em-uma-imagem.jpg

Texto escrito por Natália Biscassi, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos. É membro do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH) da UFSCar e realiza pesquisas no Laboratório de Psicologia da Aprendizagem (LPA).

Uma forma alternativa de auxiliar na redução e abstinência do uso de cocaína por usuários crônicos

Imagem táhcita

Levando em consideração que, atualmente, não existe nenhum medicamento aprovado e eficaz para o tratamento da adicção de cocaína, abordagens psicossociais se tornam a maneira central no tratamento de pacientes que consomem essa droga cronicamente. Nesse contexto, as intervenções comportamentais surgem como uma alternativa cujos resultados têm mostrado que tais intervenções podem ser uma ferramenta extremamente útil no tratamento de pacientes que desejam cessar o uso dessa e de outras drogas.

Nas pesquisas típicas de intervenções com o manejo de contingências (management contingency interventions), os pacientes cujos resultados das amostras de urina indicam abstinência do uso da droga recebem incentivos em forma de vouchers, os quais podem ser trocados por bens e serviços. Os incentivos se tornam maiores a cada amostra consecutiva de urina que indique a continuidade da abstinência da droga (ou seja, uma amostra “negativa”), mas o resultado de uma única amostra positiva (ou seja, que indica o uso da droga) faz com que o paciente perca o valor máximo de incentivos previamente recebido, e comece a receber novamente o valor mínimo na próxima amostra de urina negativa (isso também ocorre caso o paciente não entregue a amostra requerida), podendo receber mais e mais incentivos a cada nova amostra sucessiva negativa.

As análises da amostra de urina costumam ser realizadas a partir da concentração de um metabólito da cocaína (benzoilecgonina), sendo que valores abaixo de 300 nanogramas (ng.) do metabólito indicam abstinência, ao passo que valores superiores a isso indicam o uso da droga. As coletas costumam acontecer a cada 48 ou 72 horas, uma vez que pesquisas indicam que essa substância pode ser detectada na urina até aproximadamente 48 horas após o uso. Entretanto, outros fatores podem influenciar no tempo de eliminação desse metabólito, como a quantidade de droga ingerida, a via de administração, a quantidade de água consumida e diferenças individuais a respeito do metabolismo e excreção das drogas. Assim, existe a possibilidade de que uma droga utilizada uma única vez não seja excretada após as 48 horas de uso e, que, portanto, medições sucessivas da droga indiquem uso, mesmo que o indivíduo só tenha utilizado a droga uma vez.

Comportamentalmente falando, deixar de consequenciar positivamente um comportamento adequado poderia afetar na manutenção do comportamento-alvo, que é cessar o uso da droga. Alternativamente, reduzir a frequência na qual os exames são feitos poderia resolver esse problema, mas traria outro: a possibilidade de que a testagem menos frequente aumentasse a probabilidade de uso da droga, uma vez que ela poderia ser excretada até a medição seguinte, e isso potencialmente reforçaria o uso indevido da droga.

Pensando em alternativas para essa problemática, pesquisadores pensaram em uma nova forma de medição qualitativa. Com essa nova forma de medição, haveria a verificação da diminuição do metabólito ao longo das horas, em comparação com o valor obtido na medição prévia: se a concentração do metabólito tiver uma redução de 50% ou mais em comparação com a amostra anterior, isso seria um indicativo de que a pessoa esteve em abstinência. Esse índice foi validado em um estudo feito em laboratório, com usuários que recebiam doses controladas da droga.

Com o objetivo de auxiliar no desenvolvimento de procedimentos que permitam consequenciar positivamente de maneira mais acurada a abstinência da cocaína, os pesquisadores August Holtyn e seus colaboradores (2017) analisaram as modificações nas concentrações dos metabólitos de cocaína de 28 participantes, os quais frequentavam um programa de tratamento com metadona. Todos os participantes viviam em situação de pobreza, e 93% tinham dependência em cocaína.

Para serem recrutados, os participantes foram submetidos, inicialmente, a uma linha de base na qual participavam de atividades educativas e treinos de habilidades de trabalho durante um mês. Eles trabalhavam quatro horas por dia (durante a semana), em troca do pagamento de oito dólares por hora, além de aproximadamente dois dólares por hora pelos seus desempenhos nas tarefas. Esse pagamento era feito na forma de vouchers que eram trocados por bens e serviços. Três vezes na semana, os pesquisadores coletavam amostras de urina dos participantes e testavam-nas para cocaína. O uso da droga não impedia a participação nas atividades, nem o recebimento dos incentivos. Os sujeitos que participaram das atividades em pelo menos 50% dos dias, obtendo pelo menos dois resultados positivos de cocaína na urina, e que permaneceram no programa de tratamento com metadona, foram recrutados para a pesquisa.

O estudo durou 26 semanas, e os participantes foram alocados aleatoriamente em duas condições: manejo de contingências de abstinência + trabalho, e somente trabalho (mas os resultados reportados na pesquisa foram referentes apenas ao grupo abstinência + trabalho). Os incentivos eram dados aos participantes cuja concentração do metabólito era inferior a 300 ng., ou cuja concentração, em comparação com a última amostra, era, pelo menos, 20% menor que a do dia anterior. A identificação do uso de cocaína por um dos dois métodos era consequenciada pela perda do incentivo de oito dólares, de modo que o participante passava a receber apenas um dólar por hora trabalhada, até que obtivesse uma nova amostra negativa. Os incentivos aumentavam em um dólar por dia, a cada resultado negativo, até chegar ao máximo de oito dólares por hora trabalhada. Para os participantes do grupo sem o manejo de contingências, os ganhos eram sempre de oito dólares por hora, independentemente se os resultados dos participantes indicassem uso da droga.

Os resultados mostraram que, em 32% das amostras coletadas, houve decréscimo da concentração dos metabólitos da droga, o que indica que a identificação de abstinência nesses casos só ocorreu porque havia uma metodologia qualitativa diferente da que é largamente utilizada. O número de dias necessário para que uma amostra positiva se tornasse negativa foi de um a 10 dias (a maioria ocorrendo em sete ou menos dias), o que mostra que a medição a cada 48 ou 72 horas pode, realmente, fazer com que a abstinência não seja consequenciada positivamente.

Uma questão que deve ser respondida nas pesquisas subsequentes diz respeito à menor redução possível da concentração do metabólito que continue a indicar abstinência. Apesar de ser, de fato, uma questão importante a ser respondida, essa pesquisa identificou diferenças nos dois tipos de análises, o que possui implicações importantes: imagine uma pessoa que decide parar de usar cocaína, e entra em um programa semelhante ao relatado no estudo. Além de não ser consequenciada positivamente quando da abstinência, isso poderia auxiliar na manutenção de estereótipos relacionados aos usuários de drogas, como ser um sujeito mentiroso e não confiável. Além disso, se a família desse indivíduo estivesse ciente do funcionamento do programa, essa pessoa poderia ser punida pelos seus familiares com base em uma medição que não foi adequada para a detecção de ausência da droga. Ofensas e desaprovação social poderiam ser exemplos de punição que, por sua vez, poderiam se relacionar com a recaída e a repetição desse ciclo de identificação do uso da droga (agora coerente), que levaria a uma nova punição e aumentaria, portanto, a probabilidade de que a abstinência se torne uma coisa mais e mais distante do indivíduo que é usuário.

Ficou interessadx? Quer saber mais? Acesse o artigo!

Holtyn, A. F., Knealing, T. W., Jarvis, B. P., Subramaniam, S., & Silverman, K. (2017). Monitoring cocaine use and abstinence among cocaine users for contingency management interventions. The Psychological Record, 67, 253-259. doi: 10.1007/s40732-017-0236-1

Fonte da Imagem: http://drugabuse.com/library/the-effects-of-cocaine-use/

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

O isolamento do analista do comportamento: Mito ou verdade?

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Essa semana trataremos de um assunto pouco discutido fora dos laboratórios de psicologia experimental, mas de queixa recorrente entre os analistas do comportamento: o  isolamento da Análise do Comportamento. Os autores do artigo que serviu como base para esse post , Strapasson e Zuge (2017) argumentam que  que, desde a década de 1940, quando houve a instauração do primeiro grupo de analistas do comportamento, a percepção de isolamento é uma queixa dos pesquisadores nesta área, que muitas vezes se sentem incompreendidos por sua linguagem hermética e pela escolha de delineamentos experimentais de sujeito único.

As queixas de isolamento começaram a ter respaldo empírico em 1971, com as análises quantitativas e qualitativas realizadas sobre a comunicação da Análise do Comportamento com as demais áreas da Psicologia, conduzidas por Krantz (1971, 1972) nos Estados Unidos. Os estudos mostraram que havia uma baixa citação de estudos desenvolvidos em Análise do Comportamento por estudos de outras áreas. Além disso, dentro das próprias revistas de análise do comportamento, os números de citações cruzadas eram baixos, combinados com elevadas taxas de autocitação.

No cenário nacional, as investigações realizadas sobre o isolamento da Análise do Comportamento são escassas, porém os resultados obtidos convergem sobre um mesmo fato: a necessidade de modificação de algumas práticas sociais comumente empregadas por analistas do comportamento, e que atravancam a inserção dessa ciência na comunidade científica como um todo. Entre essas práticas sociais tem destaque o papel da comunicação dos achados em análise do comportamento na literatura, que muitas vezes se restringe a um “comportamentês” inacessível às outras áreas da Psicologia e à população em geral, o que já foi tema de reflexão em um post recente aqui no blog.

Com o intuito de analisar a questão da comunicação das pesquisas em Análise do Comportamento com pesquisas das demais abordagens no Brasil, foi realizado um estudo de análise bibliométrica por Strapasson e Zuge (2017).  O trabalho consistiu em consultar as listas de referências de três dos principais periódicos para veiculação de textos de Análise do Comportamento no país: a Revista Brasileira de Análise do Comportamento (REBAC), a revista Perspectivas em Análise do Comportamento (PAC) e a Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva (RBTCC). Como parâmetro de comparação em periódicos generalistas, isto é, que envolvam publicações das mais diversas áreas da Psicologia, foi adotada a revista Psicologia: Reflexão e crítica (PRC), figurada entre os principais periódicos nacionais em Psicologia. O método adotado consistiu em analisar as listas de referências de todos os artigos publicados nos periódicos mencionados, e classificá-los em três categorias: (1) Textos não avaliados, (2) Textos de Análise do Comportamento e (3) Textos de outras áreas do conhecimento. Esta classificação foi realizada por dois pesquisadores, com critérios bem definidos.

Os resultados revelaram que, quando observadas em conjunto, a lista de referências dos periódicos de Análise do Comportamento analisados traziam quantidades muito semelhantes de citações de estudos da própria área (45,4%) e de outras áreas do conhecimento (45,9%). Ao comparar estes três periódicos, porém, este achado não foi replicado. Maiores citações de textos de Análise do Comportamento foram observadas na REBAC e na PAC (53,9% e 54,9%, respectivamente), em detrimento de textos de outras áreas do conhecimento (38,5% e 34,4%, respectivamente). Este padrão foi observado de modo inverso na RBTCC, que apresentou mais referências a textos de outras áreas (53,6%) do que em Análise do Comportamento (37,7%). Os autores explicam que a diferença observada na quantidade das referências de cada área da Psicologia entre as revistas estudadas provavelmente se deve à orientação das políticas editoriais de cada uma delas, já que na REBAC e na PAC é oferecida exclusividade às publicações em Análise do Comportamento.

        A quantificação das referências em Análise do Comportamento na PRC, que foi adotada no estudo como revista generalista, é assustadora: Foram 2,9% contra 89,7% de textos de outras áreas do conhecimento. Análises mais detalhadas permitiram observar ainda que a maior parte das citações em Análise do Comportamento foram realizadas por publicações da mesma área. A autora argumenta que uma possível explicação está, mais uma vez, na política editorial da revista, que é mais abrangente.

        Os achados evidenciaram que as queixas de isolamento dos analistas do comportamento são plausíveis; porém, este fenômeno está acontecendo de modo unilateral. Isto é, enquanto analistas do comportamento apropriam-se de achados de outras áreas e os utilizam em seus estudos, a apropriação dos achados dos estudos em Análise do Comportamento não tem sido realizada com a mesma frequência por pesquisadores de outras áreas do conhecimento. A maior parte dos estudos que fazem referência à achados da Análise do Comportamento são da mesma área.

Tais dados alertam para a necessidade dos analistas do comportamento reverem algumas posturas que podem estar contribuindo para uma diminuição do impacto de seus achados fora do campo. Entre essas posturas, estão o já citado rigor na descrição dos eventos e processos estudados, bem como a baixa publicação em periódicos de outras áreas ou, ainda, a baixa publicação de temas não relacionados à Análise do Comportamento. Se, como analistas do comportamento, desejamos a sobrevivência institucional e científica da nossa área dentro da comunidade científica, talvez seja o momento de analisarmos o nosso próprio comportamento e manipular algumas contingências a nosso favor. E você, tem analisado seu comportamento ultimamente? Como faz pra evitar o “comportamentês” em uma conversa com pessoas de outras áreas? Conta pra gente aqui do blog!

Referência:

Strapasson, B. A. & Zuge, P. R. (2017). O isolamento da Análise do Comportamento no Brasil: Uma análise bibliométrica. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 19(1), 94-114.

Outras referências consultadas:

Krantz, D. L. (1971). The separate worlds of operant and non-operant psychology. Journal of Applied Behavioral Analysis, 4(1), 61-70.

Krantz, D. L. (1972). Schools and systems: The mutual isolation of operant and non-operant psychology as a case study. Journal of the History of the Behavioral Sciences, 8(1), 86-102.

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Texto escrito por Tais Francine de Rezende, psicóloga e mestranda em Gerontologia pela Universidade Federal de São Carlos. É membro do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH) da UFSCar e do grupo de pesquisa e extensão Programa Viver Bem a Velhice (ProVive) do Departamento de Gerontologia da UFSCar.