É possível ensinar comportamentos empáticos a crianças autistas?

imagem sabrina campos

Argott, Townsend,  Poulson, autores de um estudo recentemente publicado na revista Behavior Analysis in Practice, discutem que o comportamento empático pode ser descrito como discriminar estímulos emocionais provenientes do comportamento de outras pessoas e responder diferencialmente a eles. Ou seja, responder de acordo com o significado dos estímulos afetivos oriundos do comportamento de um interlocutor. Notem que essa definição adota como foco de análise as relações de controle entre eventos antecedentes e respostas. Dessa forma, favorece a manipulação experimental desse tipo de comportamento e o desenvolvimento de métodos de ensino do mesmo.

        Devido a fatores como déficits na área da linguagem, pouca sensibilidade a reforçadores sociais e/ou dificuldades de discriminar estímulos emocionais provenientes do comportamento de interlocutores, pessoas com Transtornos do Espectro Autista (TEA) podem não emitir ou ter baixa frequência de comportamentos empáticos. Se você acompanha a série “The Big Bang Theory” provavelmente já se deparou com uma situação desse tipo. Embora não haja uma declaração explícita sobre isso na série, é possível identificar no personagem Sheldon Cooper características de uma pessoa com uma condição conhecida como Síndrome de Asperger, uma variação mais leve do espectro autista. Uma dessas características refere-se justamente ao conceito de empatia que estamos discutindo.

Em alguns episódios, Sheldon parece não conseguir identificar pistas sobre os estados emocionais de seus amigos e acaba se comportando de forma indelicada. Em outras situações, quando identifica que um de seus amigos está triste, ele costuma oferecer uma bebida quente ao mesmo. É possível considerar que Sheldon tentou ser empático, visto que ele conseguiu discriminar os estímulos emocionais provenientes do comportamento do seu interlocutor e emitiu uma resposta que, segundo a sua história de aprendizagem, é adequada. Por outro lado, o hábito de “oferecer uma bebida quente” sugere um repertório restrito de respostas para situações como essa.

Diante da dificuldade apresentada por pessoas com TEA em se engajar em comportamentos empáticos e da importância desse repertório comportamental para as interações sociais, um grupo de pesquisadores desenvolveu um procedimento que teve o objetivo de ensinar respostas empáticas complexas para crianças com tal modo de desenvolvimento. O estudo teve quatro participantes com diagnóstico de TEA, com idades entre 10 e 12 anos, alunos de um programa educacional embasado na Análise do Comportamento Aplicada (ABA).

        Os autores construíram um procedimento de ensino de respostas empáticas que deveriam ser emitidas em relação a três categorias afetivas (alegria, frustração e dor), apresentadas no comportamento de outra pessoa com a qual os participantes estivessem interagindo (que no caso da pesquisa era o instrutor). Após o fim da intervenção, era esperado que os mesmos fossem capazes de: a) discriminar estímulos emocionais provenientes do comportamento de seu interlocutor e b) emitir respostas empáticas complexas formadas por quatro componentes: uma declaração verbal proferida, em uma entonação adequada, acompanhada de uma expressão facial e de gestos coerentes com o contexto. Dessa forma, após a ocorrência de uma estimulação afetiva (proveniente do comportamento de um interlocutor), por exemplo,  levantar as mãos acima da cabeça e falar “ Eu consegui montar o cubo mágico!” (na categoria alegria), seria considerado uma resposta empática satisfatória, por exemplo, se a criança, sorrindo e com um tom de voz que indicasse entusiasmo falasses: “Isso é ótimo! Toca aqui! ” ao mesmo tempo em que ergue uma das mãos. A presença dos quatro componentes citados nas respostas empáticas foi considerada importante, pois a falta de um deles poderia fazer com que essas fossem interpretadas como inapropriadas às situações de vida cotidiana. Para entender melhor esse critério, imagine como você se sentira ao ouvir alguém falar “Parabéns!” com uma expressão facial triste ou “Eu sinto muito” em um tom de voz que indicasse entusiasmo.

        Após uma avaliação de linha de base, que visou identificar o repertório de respostas empáticas dos participantes anterior à intervenção, foi iniciado o procedimento de ensino. Nesse procedimento, era realizada uma tarefa em que era apresentado um estímulo emocional pelo instrutor, por exemplo, demonstrar sentir dor após tropeçar em um móvel. Se após cinco segundos, a criança, com o olhar voltado para a direção do instrutor, emitisse uma resposta empática que incluísse os quatro componentes especificados (declaração, entonação, expressão facial e gestos), eram apresentadas consequências potencialmente reforçadoras (elogios e fichas) e, então, iniciada uma nova tentativa com a apresentação de um novo estímulo afetivo. Mas, caso a criança não respondesse ou emitisse uma resposta que não contemplasse os quatro componentes descritos, era iniciada uma sequência de dicas.

        O primeiro nível de dica foi a exibição de um vídeo que apresentava um modelo da situação antecedente (estímulo emocional) e da resposta empática adequada. Na sequência, era apresentado novamente o estímulo emocional (resposta do instrutor). Caso o participante não emitisse a resposta empática esperada, era apresentada a próxima dica, que correspondeu a um modelo da mesma situação, representado ao vivo pelos experimentadores. Se ainda assim o participante não emitisse o comportamento esperado, eram fornecidas instruções verbais e dicas manuais. Quando a criança emitia, de forma independente, uma resposta empática que contemplasse os quatro componentes especificados pelos pesquisadores, eram apresentados elogios e fichas como consequências potencialmente reforçadoras.

        No decorrer do processo de ensino, também eram realizadas tentativas que visavam promover a generalização de respostas em relação a novas pessoas e a novos estímulos afetivos. Eram apresentados estímulos discriminativos novos, que também correspondiam às categorias anteriormente mencionadas, mas com topografias diferentes, por exemplo, se para a categoria frustração o estímulo empregado, na fase de treino, fosse uma situação em que o instrutor relatava não estar conseguindo fazer um brinquedo funcionar, nas tentativas de generalização, poderia ser apresentada uma situação em que o instrutor relatasse não estar conseguindo ler uma palavra ou abrir um recipiente. Além disso, em algumas tentativas, as situações eram apresentadas por um novo instrutor.

A comparação dos resultados referentes às fases teste de linha de base e de treino demonstrou aumento expressivo nas porcentagens de respostas empáticas após o início da intervenção. Além disso, foi observado também que, nas tentativas de generalização de respostas para outras pessoas e estímulos emocionais (situações), os participantes continuaram emitindo as respostas empáticas em porcentagens altas. Desempenho com tendência semelhante também foi observado nas sessões de follow-up, em que a manutenção das respostas empáticas foi avaliada seis semanas após o fim da fase de ensino.

        Em suma, os resultados indicam que é possível ensinar jovens autistas a discriminar diferentes categorias afetivas (alegria, frustração e dor) e emitir respostas empáticas complexas apropriadas a essas situações. Os dados de generalização apontam que o padrão de respostas aprendido na fase do treino foi estendido a outras pessoas e estímulos emocionais componentes das mesmas classes dos estímulos empregados nessa fase. Isso indica que, possivelmente, os participantes foram capazes de discriminar as características em comum das diferentes situações de uma mesma categoria afetiva, como, por exemplo, o sorriso e a entonação elevada, para a alegria, de forma a responder adequadamente aos estímulos com os quais não tinham sido diretamente treinados, mas que também apresentavam algumas dessas características.

A manutenção das respostas empáticas, após o período de seis semanas, também sugere que elas passaram efetivamente a compor um novo repertório comportamental para os participantes. Repertório esse que, possivelmente, poderá favorecer as suas interações cotidianas. A aprendizagem do comportamento empático pode representar um avanço significativo para o desenvolvimento de indivíduos com TEA, visto que colabora para que eles ampliem a sua rede de apoio social com maior autonomia. Se você gostou da pesquisa e quer saber mais, confira o artigo na íntegra!

Argott, P. J., Townsend, D. B., Poulson, C. L. (2017) Acquisition and Generalization of Complex Empathetic Responses Among Children with Autism. Behavior Analysis in Practice, 10(2), 107-117.      

Escrito por:

Sabrina Campos Dias Pedrosa, Mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Fonte da imagem:

http://www.redehumanizasus.net/87960-nao-basta-ser-simpatico-e-preciso-ser-empatico

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Prisão como Punição: Por que o sistema prisional parece não diminuir a violência?

texto josiane

O sistema prisional é alvo de muitas discussões. Uma das questões discutidas é se as medidas adotadas por esse sistema diminuem o número de crimes, já que ele é bastante alto em alguns países e gera custos elevados para o governo.
Tanto nos EUA quanto no Brasil, o número de crimes é enorme. Em 2013, nos Estados Unidos, ocorreram mais de 6 milhões de crimes violentos, incluindo aproximadamente 17.000 assassinatos e 300.000 estupros. No Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2016), em 2016, houve 58.467 mortes violentas intencionais, e, em 2015, 45.460 casos de estupro. O número de pessoas encarceradas também é grande. Nos EUA há 2,2 milhões de pessoas, tendo esse país a maior população carcerária do mundo. Já o Brasil tem a quarta população, com 584.361 pessoas presas em 2016 (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2016).
Alexis B. Apel e James W. Diller, pesquisadores norte-americanos, analisaram os fatores relacionados à prisão nos EUA por meio da perspectiva da Análise do Comportamento.
Eles comentam que na terminologia do sistema legal, o encarceramento é entendido como punição, no sentido de castigo e de diminuir a chance da pessoa se engajar em comportamentos criminosos novamente. Segundo os autores, essa punição tem o objetivo de funcionar como punição operante na definição da Análise do Comportamento. Na punição operante há a apresentação de uma consequência aversiva (por exemplo, encarceramento) após a emissão de uma resposta (por exemplo, um roubo), e, dessa forma, a probabilidade de ocorrência dela é diminuída.
Portanto, ao analisar a prisão como punição operante, a taxa de comportamento criminoso deveria ser baixa, mas não é o que ocorre. Somando-se a isso, há o elevado número de pessoas presas e de reincidências. Dados demonstram que 70% dos presos liberados em 2005, nos EUA, foram reaprisionados por um novo crime dentro de três anos. Porcentagem semelhante é encontrada no Brasil (IPEA, 2015).
Diante desses índices alarmantes, é importante a análise dos fatores relacionados à punição operante no sistema de justiça criminal, para que seja possível a elaboração de medidas mais eficazes para combater o crime. Apel e Diller analisaram os seguintes fatores: reforço, disponibilidade de reforço para respostas alternativas, intensidade, probabilidade e imediaticidade da punição.
O primeiro fator é o reforço, ou seja, é a apresentação de uma consequência que aumenta a probabilidade do mesmo comportamento ocorrer novamente. Exemplos de reforços são o acesso a bens ou dinheiro, bem como o reforço social. Portanto, as pessoas se engajam em comportamentos criminosos porque há reforço para esses comportamentos.
O segundo fator é a disponibilidade de reforços para comportamentos alternativos, em que são reforçados comportamentos que não sejam criminosos (por exemplo, comportamentos pró-sociais). Os autores mencionam que esse fator pode aumentar a efetividade do procedimento de punição. No entanto, no atual sistema de justiça criminal, há falta de desenvolvimento desses comportamentos alternativos, devido às atividades limitadas e fracos laços familiares dentro da prisão.
A intensidade da punição é o fator mais questionado pelos autores. Ele é definido como a duração de tempo das penas. Tanto nos EUA quanto no Brasil, penas de longa duração são relacionadas, supostamente, com a redução da taxa de criminalidade. Mas pesquisas demonstram que sentenças longas não têm impacto significativo na taxa de crimes ou diminuem a taxa de apenas alguns.
O quarto fator é a probabilidade da punição do agressor. Muitas pesquisas indicam uma correlação negativa entre a alta probabilidade de ser preso e a taxa de crime, ou seja, quanto menor a probabilidade dos infratores serem capturados e encarcerados, maiores os números de crimes. O que vemos atualmente são probabilidades baixas de punição, por exemplo, nos EUA, a probabilidade de uma pessoa ser presa por homicídio é de 0.498. Para aumentar essa probabilidade, deve-se aumentar a presença de aplicação da lei, como, por exemplo, a maior presença de policiais nas ruas ou em pontos da cidade em que há maior número de ocorrências de crimes.
Outro fator decisivo para a efetividade da punição é a sua imediaticidade. Os dados na Análise do Comportamento indicam que quanto mais imediata a punição é aplicada ao comportamento, menor a probabilidade desse comportamento ocorrer novamente. No entanto, o tempo entre cometer o crime, ser preso e cumprir a sentença é bastante extenso.
Com base nos fatores citados, há a indicação de que a punição de alta probabilidade combinada com a disponibilidade de acesso ao reforço de comportamentos alternativos seria mais eficaz para reduzir o comportamento criminoso, em comparação com as medidas adotadas atualmente.
Apesar de que nem todas as medidas adotadas pelo sistema de justiça criminal dos EUA e do Brasil sejam baseadas em evidências, há algumas que são, como os programas de reinserção social, que trabalham a transição de pessoas após o encarceramento. Pesquisas demonstram que esses programas têm resultados positivos, porém, poucos prisioneiros podem acessá-los devido ao baixo financiamento e a superpopulação nas prisões.
Essa transição é difícil, pois há diversos fatores que impedem os indivíduos de se reintegrarem à sociedade após serem libertados da prisão, como a dificuldade em obter reforços alternativos (emprego, casa e relações sociais construtivas), discriminação, estigmas, hostilidade das próprias famílias, e a disponibilidade de reforços relacionados ao comportamento criminoso anterior.
A transição pós-encarceramento constitui uma área de potencial intervenção para os analistas do comportamento, e que é pouco explorada pelos mesmos. Ao aplicar as estratégias de treino de habilidades comportamentais, identificação de reforços potenciais, análise funcional, etc., junto a outros profissionais da área da justiça criminal, o analista do comportamento pode ajudar na elaboração e implantação de políticas públicas nesse campo, bem como colaborar para a diminuição da violência em nossa sociedade.

Quer saber mais?
Consulte o texto:
Apel, A. B., & Diller, J. W. (2016). Prison as punishment: A behavior-analytic evaluation of incarceration. The Behavior Analyst, 1-14.

Outras referências:
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. (2016). Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2016. 10. http://www.forumseguranca.org.br/storage/10_anuario_site_18-11-2016-retificado.pdf

Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. 2015. Reincidência criminal no Brasil. http://cnj.jus.br/files/conteudo/destaques/arquivo/2015/07/572bba385357003379ffeb4c9aa1f0d9.pdf.

Fonte da imagem: http://data1.ibtimes.co.in/cache-img-0-450/en/full/627981/1487149805_jail.jpg.

Escrito por Josiane Maria Donadeli, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.
“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

Feminismo e Análise do Comportamento: aproximando e operacionalizando conceitos

natalias biscassi

Questionamentos levantados por movimentos sociais têm sido muito discutidos ultimamente, especialmente fazendo-se uso de plataformas online, como Facebook, Tumblr, web journals e blogs em geral. Os argumentos utilizados, geralmente, já possuem um linguajar próprio criado pela comunidade verbal de quem é adepto aos movimentos, muitas vezes passando longe do nosso behaviorês.

Mas será que a Análise do Comportamento não tem nada a dizer sobre questões sociais? Tem sim, e pode ser uma ferramenta muito útil. A Análise do Comportamento tem um potencial de mudança social que deve ser utilizado, como o próprio Skinner ou James Holland – famoso pelo seu artigo “Servirão os princípios comportamentais aos revolucionários?” -, apontaram. Porém, este potencial não tem sido explorado o suficiente e, como dizem as autoras do artigo comentado no post de hoje, um dos temas sociais em que a colaboração da Análise do Comportamento não tem sido satisfatória é o feminismo.

Traduzindo para o behaviorês, cuja operacionalização facilita nosso entendimento, o termo feminismo refere-se “à tentativa de alterar o papel social da mulher, com base em um programa de ação que explicita práticas culturais responsáveis por um desequilíbrio na distribuição de reforçadores sociais, favorecendo os homens em detrimento das mulheres. ” (Silva & Laurenti, 2016, p. 199)

Mas quem nunca presenciou discussões no Facebook de pessoas de vertentes diferentes do feminismo e, diga-se de passagem, de pessoas que não faziam parte de vertente nenhuma pegando carona, discutindo entre si? Pelo fato de behaviorismo e feminismo serem teorias plurais, com diversos desenvolvimentos, Emanuelle Silva e Carolina Laurenti (2016) decidiram fazer uma aproximação entre as teorias de Skinner e Simone de Beauvoir, por serem autores primordiais em correntes filosóficas importantes de tais áreas de análise.

As autoras, neste trabalho, cumprem muito bem a tarefa de mostrar a consistência entre o modelo de seleção pelas consequências elaborado pelo primeiro autor e a distinção entre sexo e gênero, sistematizada pela segunda autora. As duas teorias são compatíveis em suas bases, a partir do momento em que o Behaviorismo Radical e a teoria de Beauvoir, que mais tarde foi adotada e desenvolvida pelo Feminismo Radical, constroem-se sobre o contextualismo, isto é, consideram a relação entre indivíduo (e suas ações) e seu meio uma relação de interdependência, com mútua influência, sendo tal constatação importante não só para a compreensão das ações humanas, mas também para a transformação de práticas sociais.

Então, o que Beauvoir quis dizer com a afirmação de que sexo é diferente de gênero?  Sexo refere-se a fatores biológicos (natureza), enquanto gênero refere-se a papéis designados socialmente a homens e mulheres, com padrões de comportamento impostos como padrão masculino e padrão feminino. Ao contexto social em que vivemos dá-se o nome de sociedade patriarcal e o patriarcado, sendo operacionalizado, pode ser entendido como “um conjunto de práticas sociais que estabelece uma relação de opressão e subordinação das mulheres em relação aos homens” (Silva & Laurenti, 2016, p. 200).

Em tal contexto, é um instrumento de poder patriarcal ignorar as diferenças entre sexo e gênero, tornando-os equivalentes. Isto é, o patriarcado esconde sua influência na construção social do gênero e apresenta-o como se fosse natural, já que na visão dominante este é determinado biologicamente pelo sexo. Para Beauvoir, ao definir que sexo é diferente de gênero, dá-se margem para a mudança social, posto que, se gênero é construído, o lugar social colocado para a mulher pode igualmente ser transformado socialmente.

Outro ponto em que as teorias convergem, portanto, está no teor antiessencialista das mesmas. Admitindo-se a influência contextual no que é posto como “natural”, “inato”, através da constatação de práticas culturais que moldam a aprendizagem social, nega-se a crença de que o indivíduo é imutável e determinado por conceitos internos e abstratos, embora apelem muitas vezes para descrições biologizantes. Tanto Simone quanto Skinner teorizaram a favor de uma noção de pessoa e de realidade mutáveis, passíveis de transformação. Os indivíduos são multideterminados.

Tal multideterminação, no Behaviorismo, é explicitada pela diferenciação de três níveis de análise: filogênese, ontogênese e cultura. A filogênese dá conta da seleção de comportamentos da espécie, a ontogênese trata da história comportamental de um indivíduo e a cultura, da história de tradições grupais. Essas três dimensões de análise estão inter-relacionadas, de tal maneira que o organismo que se comporta (filogênese), com sua história individual, é nomeado pessoa (ontogênese), a qual, por sua vez, tem seu comportamento individual, na maior parte das vezes, organizado e mantido por contingências sociais (cultura).

Mas não pensamos sobre isso enquanto agimos a priori, nós só adquirimos consciência do que fazemos/sentimos e porque fazemos/sentimos após entrar em contato com o que a comunidade verbal propaga sobre isso, construindo a noção de self: a cultura, então, é também reflexiva. Segundo o que as autoras ressaltam do que foi escrito por Skinner, os produtos comportamentais desses três níveis de seleção podem ser semelhantes em topografia (leia-se “forma, aparência”), portanto é preciso tomar cuidado em sua análise, especialmente no que se trata sobre confusão entre níveis filogenético e ontogenético/cultural.

Beauvoir segue na mesma linha de análise, nomeando as coisas de forma ligeiramente diferente, dizendo que, para que a mulher exista no mundo, esta precisa de um corpo (filogenêse), porém esse corpo precisa ser considerado e esclarecido na relação com sua história pessoal (ontogênese) e da cultura na qual está inserida. Logo, para Beauvoir, os comportamentos da mulher não são determinados por sua estrutura biológica, mas especialmente influenciados por diferentes dimensões contextuais com histórias evolutivas próprias.

Então, como é ser mulher ou ser feminina remonta a diferentes contingências sociais e individuais. Operacionalizando em termos comportamentais, gênero indica “padrões de comportamento ontogenéticos, considerados típicos de mulheres e de homens no contexto de uma dada cultura. Já a noção de self (construído por reforço social de uma comunidade verbal) elucida a noção de identida­de de gênero, isto é, o modo como o indivíduo se comporta, pensa e sente em relação ao seu próprio gênero”. (Silva & Laurenti, 2016, p. 205).

Finalmente, a virada epistemológica dada por Beauvoir ao fazer a distinção entre sexo e gênero contribui para mostrar que, propositalmente, práticas culturais que favorecem homens estavam (e estão) sendo justificadas por argumentos que tomam questões sociais por questões biológicas e essencialistas, confundindo intencionalmente níveis de análise com o intuito de exercer poder. Epistemologicamente, na Análise do comportamento não há nada que se oponha a essa argumentação, inclusive o rol teórico dessa ciência do comportamento ajuda a reforçá-la.

Ao retirarem a discussão do campo essencialista e unidimensional (que não aceita variação comportamental), Beauvoir e Skinner abrem possibilidades de modificação social, pois propõem encaminhamentos políticos operacionalizados para mudanças de ambientes físicos e culturais. A mulher, ao identificar padrões opressores de controle social, pode exercer o contracontrole, mesmo que as dimensões pessoal (gênero) e reflexiva (identidade de gênero) sejam construídas na relação com o ambiente social, contribuindo para a equalização na distribuição de reforçadores sociais a ambos os gêneros.

Para saber mais:

Silva, E. C. & Laurenti, C. (2016). B. F. Skinner e Simone de Beauvoir: “a mulher” à luz do modelo de seleção pelas consequências. Revista Perspectivas, 7 (2), 197-211.

Link do texto original:

https://www.researchgate.net/profile/Carolina_Laurenti/publication/305993373_B_F_Skinner_e_Simone_de_Beauvoir_a_mulher_a_luz_do_modelo_de_selecao_pelas_consequencias/links/57a8e78e08ae0107eee71664/B-F-Skinner-e-Simone-de-Beauvoir-a-mulher-a-luz-do-modelo-de-selecao-pelas-consequencias.pdf

Outras referências:

Holland, J. G. (1974). Are behavioral principles for revolutionaries? In F. S. Keller, & E. R. Iñesta (Orgs.), Behavior modification: Application to education (pp. 195-208). New York: Academic Press, Inc.

Versão traduzida para o português:

www.usp.br/rbtcc/index.php/RBTCC/article/download/863/474

+ Material para discussão:

Boteco Behaviorista #31: Feminismo e Behaviorismo Radical

https://www.youtube.com/watch?v=Ei4kyhItMd8

Créditos da imagem:

http://asgardproject.com.br/sys/arq/post/18U4P7/02-feminismo-em-uma-imagem.jpg

Texto escrito por Natália Biscassi, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos. É membro do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH) da UFSCar e realiza pesquisas no Laboratório de Psicologia da Aprendizagem (LPA).

Uma forma alternativa de auxiliar na redução e abstinência do uso de cocaína por usuários crônicos

Imagem táhcita

Levando em consideração que, atualmente, não existe nenhum medicamento aprovado e eficaz para o tratamento da adicção de cocaína, abordagens psicossociais se tornam a maneira central no tratamento de pacientes que consomem essa droga cronicamente. Nesse contexto, as intervenções comportamentais surgem como uma alternativa cujos resultados têm mostrado que tais intervenções podem ser uma ferramenta extremamente útil no tratamento de pacientes que desejam cessar o uso dessa e de outras drogas.

Nas pesquisas típicas de intervenções com o manejo de contingências (management contingency interventions), os pacientes cujos resultados das amostras de urina indicam abstinência do uso da droga recebem incentivos em forma de vouchers, os quais podem ser trocados por bens e serviços. Os incentivos se tornam maiores a cada amostra consecutiva de urina que indique a continuidade da abstinência da droga (ou seja, uma amostra “negativa”), mas o resultado de uma única amostra positiva (ou seja, que indica o uso da droga) faz com que o paciente perca o valor máximo de incentivos previamente recebido, e comece a receber novamente o valor mínimo na próxima amostra de urina negativa (isso também ocorre caso o paciente não entregue a amostra requerida), podendo receber mais e mais incentivos a cada nova amostra sucessiva negativa.

As análises da amostra de urina costumam ser realizadas a partir da concentração de um metabólito da cocaína (benzoilecgonina), sendo que valores abaixo de 300 nanogramas (ng.) do metabólito indicam abstinência, ao passo que valores superiores a isso indicam o uso da droga. As coletas costumam acontecer a cada 48 ou 72 horas, uma vez que pesquisas indicam que essa substância pode ser detectada na urina até aproximadamente 48 horas após o uso. Entretanto, outros fatores podem influenciar no tempo de eliminação desse metabólito, como a quantidade de droga ingerida, a via de administração, a quantidade de água consumida e diferenças individuais a respeito do metabolismo e excreção das drogas. Assim, existe a possibilidade de que uma droga utilizada uma única vez não seja excretada após as 48 horas de uso e, que, portanto, medições sucessivas da droga indiquem uso, mesmo que o indivíduo só tenha utilizado a droga uma vez.

Comportamentalmente falando, deixar de consequenciar positivamente um comportamento adequado poderia afetar na manutenção do comportamento-alvo, que é cessar o uso da droga. Alternativamente, reduzir a frequência na qual os exames são feitos poderia resolver esse problema, mas traria outro: a possibilidade de que a testagem menos frequente aumentasse a probabilidade de uso da droga, uma vez que ela poderia ser excretada até a medição seguinte, e isso potencialmente reforçaria o uso indevido da droga.

Pensando em alternativas para essa problemática, pesquisadores pensaram em uma nova forma de medição qualitativa. Com essa nova forma de medição, haveria a verificação da diminuição do metabólito ao longo das horas, em comparação com o valor obtido na medição prévia: se a concentração do metabólito tiver uma redução de 50% ou mais em comparação com a amostra anterior, isso seria um indicativo de que a pessoa esteve em abstinência. Esse índice foi validado em um estudo feito em laboratório, com usuários que recebiam doses controladas da droga.

Com o objetivo de auxiliar no desenvolvimento de procedimentos que permitam consequenciar positivamente de maneira mais acurada a abstinência da cocaína, os pesquisadores August Holtyn e seus colaboradores (2017) analisaram as modificações nas concentrações dos metabólitos de cocaína de 28 participantes, os quais frequentavam um programa de tratamento com metadona. Todos os participantes viviam em situação de pobreza, e 93% tinham dependência em cocaína.

Para serem recrutados, os participantes foram submetidos, inicialmente, a uma linha de base na qual participavam de atividades educativas e treinos de habilidades de trabalho durante um mês. Eles trabalhavam quatro horas por dia (durante a semana), em troca do pagamento de oito dólares por hora, além de aproximadamente dois dólares por hora pelos seus desempenhos nas tarefas. Esse pagamento era feito na forma de vouchers que eram trocados por bens e serviços. Três vezes na semana, os pesquisadores coletavam amostras de urina dos participantes e testavam-nas para cocaína. O uso da droga não impedia a participação nas atividades, nem o recebimento dos incentivos. Os sujeitos que participaram das atividades em pelo menos 50% dos dias, obtendo pelo menos dois resultados positivos de cocaína na urina, e que permaneceram no programa de tratamento com metadona, foram recrutados para a pesquisa.

O estudo durou 26 semanas, e os participantes foram alocados aleatoriamente em duas condições: manejo de contingências de abstinência + trabalho, e somente trabalho (mas os resultados reportados na pesquisa foram referentes apenas ao grupo abstinência + trabalho). Os incentivos eram dados aos participantes cuja concentração do metabólito era inferior a 300 ng., ou cuja concentração, em comparação com a última amostra, era, pelo menos, 20% menor que a do dia anterior. A identificação do uso de cocaína por um dos dois métodos era consequenciada pela perda do incentivo de oito dólares, de modo que o participante passava a receber apenas um dólar por hora trabalhada, até que obtivesse uma nova amostra negativa. Os incentivos aumentavam em um dólar por dia, a cada resultado negativo, até chegar ao máximo de oito dólares por hora trabalhada. Para os participantes do grupo sem o manejo de contingências, os ganhos eram sempre de oito dólares por hora, independentemente se os resultados dos participantes indicassem uso da droga.

Os resultados mostraram que, em 32% das amostras coletadas, houve decréscimo da concentração dos metabólitos da droga, o que indica que a identificação de abstinência nesses casos só ocorreu porque havia uma metodologia qualitativa diferente da que é largamente utilizada. O número de dias necessário para que uma amostra positiva se tornasse negativa foi de um a 10 dias (a maioria ocorrendo em sete ou menos dias), o que mostra que a medição a cada 48 ou 72 horas pode, realmente, fazer com que a abstinência não seja consequenciada positivamente.

Uma questão que deve ser respondida nas pesquisas subsequentes diz respeito à menor redução possível da concentração do metabólito que continue a indicar abstinência. Apesar de ser, de fato, uma questão importante a ser respondida, essa pesquisa identificou diferenças nos dois tipos de análises, o que possui implicações importantes: imagine uma pessoa que decide parar de usar cocaína, e entra em um programa semelhante ao relatado no estudo. Além de não ser consequenciada positivamente quando da abstinência, isso poderia auxiliar na manutenção de estereótipos relacionados aos usuários de drogas, como ser um sujeito mentiroso e não confiável. Além disso, se a família desse indivíduo estivesse ciente do funcionamento do programa, essa pessoa poderia ser punida pelos seus familiares com base em uma medição que não foi adequada para a detecção de ausência da droga. Ofensas e desaprovação social poderiam ser exemplos de punição que, por sua vez, poderiam se relacionar com a recaída e a repetição desse ciclo de identificação do uso da droga (agora coerente), que levaria a uma nova punição e aumentaria, portanto, a probabilidade de que a abstinência se torne uma coisa mais e mais distante do indivíduo que é usuário.

Ficou interessadx? Quer saber mais? Acesse o artigo!

Holtyn, A. F., Knealing, T. W., Jarvis, B. P., Subramaniam, S., & Silverman, K. (2017). Monitoring cocaine use and abstinence among cocaine users for contingency management interventions. The Psychological Record, 67, 253-259. doi: 10.1007/s40732-017-0236-1

Fonte da Imagem: http://drugabuse.com/library/the-effects-of-cocaine-use/

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

“As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

O isolamento do analista do comportamento: Mito ou verdade?

imagem tais

Essa semana trataremos de um assunto pouco discutido fora dos laboratórios de psicologia experimental, mas de queixa recorrente entre os analistas do comportamento: o  isolamento da Análise do Comportamento. Os autores do artigo que serviu como base para esse post , Strapasson e Zuge (2017) argumentam que  que, desde a década de 1940, quando houve a instauração do primeiro grupo de analistas do comportamento, a percepção de isolamento é uma queixa dos pesquisadores nesta área, que muitas vezes se sentem incompreendidos por sua linguagem hermética e pela escolha de delineamentos experimentais de sujeito único.

As queixas de isolamento começaram a ter respaldo empírico em 1971, com as análises quantitativas e qualitativas realizadas sobre a comunicação da Análise do Comportamento com as demais áreas da Psicologia, conduzidas por Krantz (1971, 1972) nos Estados Unidos. Os estudos mostraram que havia uma baixa citação de estudos desenvolvidos em Análise do Comportamento por estudos de outras áreas. Além disso, dentro das próprias revistas de análise do comportamento, os números de citações cruzadas eram baixos, combinados com elevadas taxas de autocitação.

No cenário nacional, as investigações realizadas sobre o isolamento da Análise do Comportamento são escassas, porém os resultados obtidos convergem sobre um mesmo fato: a necessidade de modificação de algumas práticas sociais comumente empregadas por analistas do comportamento, e que atravancam a inserção dessa ciência na comunidade científica como um todo. Entre essas práticas sociais tem destaque o papel da comunicação dos achados em análise do comportamento na literatura, que muitas vezes se restringe a um “comportamentês” inacessível às outras áreas da Psicologia e à população em geral, o que já foi tema de reflexão em um post recente aqui no blog.

Com o intuito de analisar a questão da comunicação das pesquisas em Análise do Comportamento com pesquisas das demais abordagens no Brasil, foi realizado um estudo de análise bibliométrica por Strapasson e Zuge (2017).  O trabalho consistiu em consultar as listas de referências de três dos principais periódicos para veiculação de textos de Análise do Comportamento no país: a Revista Brasileira de Análise do Comportamento (REBAC), a revista Perspectivas em Análise do Comportamento (PAC) e a Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva (RBTCC). Como parâmetro de comparação em periódicos generalistas, isto é, que envolvam publicações das mais diversas áreas da Psicologia, foi adotada a revista Psicologia: Reflexão e crítica (PRC), figurada entre os principais periódicos nacionais em Psicologia. O método adotado consistiu em analisar as listas de referências de todos os artigos publicados nos periódicos mencionados, e classificá-los em três categorias: (1) Textos não avaliados, (2) Textos de Análise do Comportamento e (3) Textos de outras áreas do conhecimento. Esta classificação foi realizada por dois pesquisadores, com critérios bem definidos.

Os resultados revelaram que, quando observadas em conjunto, a lista de referências dos periódicos de Análise do Comportamento analisados traziam quantidades muito semelhantes de citações de estudos da própria área (45,4%) e de outras áreas do conhecimento (45,9%). Ao comparar estes três periódicos, porém, este achado não foi replicado. Maiores citações de textos de Análise do Comportamento foram observadas na REBAC e na PAC (53,9% e 54,9%, respectivamente), em detrimento de textos de outras áreas do conhecimento (38,5% e 34,4%, respectivamente). Este padrão foi observado de modo inverso na RBTCC, que apresentou mais referências a textos de outras áreas (53,6%) do que em Análise do Comportamento (37,7%). Os autores explicam que a diferença observada na quantidade das referências de cada área da Psicologia entre as revistas estudadas provavelmente se deve à orientação das políticas editoriais de cada uma delas, já que na REBAC e na PAC é oferecida exclusividade às publicações em Análise do Comportamento.

        A quantificação das referências em Análise do Comportamento na PRC, que foi adotada no estudo como revista generalista, é assustadora: Foram 2,9% contra 89,7% de textos de outras áreas do conhecimento. Análises mais detalhadas permitiram observar ainda que a maior parte das citações em Análise do Comportamento foram realizadas por publicações da mesma área. A autora argumenta que uma possível explicação está, mais uma vez, na política editorial da revista, que é mais abrangente.

        Os achados evidenciaram que as queixas de isolamento dos analistas do comportamento são plausíveis; porém, este fenômeno está acontecendo de modo unilateral. Isto é, enquanto analistas do comportamento apropriam-se de achados de outras áreas e os utilizam em seus estudos, a apropriação dos achados dos estudos em Análise do Comportamento não tem sido realizada com a mesma frequência por pesquisadores de outras áreas do conhecimento. A maior parte dos estudos que fazem referência à achados da Análise do Comportamento são da mesma área.

Tais dados alertam para a necessidade dos analistas do comportamento reverem algumas posturas que podem estar contribuindo para uma diminuição do impacto de seus achados fora do campo. Entre essas posturas, estão o já citado rigor na descrição dos eventos e processos estudados, bem como a baixa publicação em periódicos de outras áreas ou, ainda, a baixa publicação de temas não relacionados à Análise do Comportamento. Se, como analistas do comportamento, desejamos a sobrevivência institucional e científica da nossa área dentro da comunidade científica, talvez seja o momento de analisarmos o nosso próprio comportamento e manipular algumas contingências a nosso favor. E você, tem analisado seu comportamento ultimamente? Como faz pra evitar o “comportamentês” em uma conversa com pessoas de outras áreas? Conta pra gente aqui do blog!

Referência:

Strapasson, B. A. & Zuge, P. R. (2017). O isolamento da Análise do Comportamento no Brasil: Uma análise bibliométrica. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 19(1), 94-114.

Outras referências consultadas:

Krantz, D. L. (1971). The separate worlds of operant and non-operant psychology. Journal of Applied Behavioral Analysis, 4(1), 61-70.

Krantz, D. L. (1972). Schools and systems: The mutual isolation of operant and non-operant psychology as a case study. Journal of the History of the Behavioral Sciences, 8(1), 86-102.

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https://boletimbehaviorista.wordpress.com/2017/06/22/por-que-nao-devemos-falar-em-comportamentes/

Texto escrito por Tais Francine de Rezende, psicóloga e mestranda em Gerontologia pela Universidade Federal de São Carlos. É membro do Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH) da UFSCar e do grupo de pesquisa e extensão Programa Viver Bem a Velhice (ProVive) do Departamento de Gerontologia da UFSCar.

 

Por que (não) devemos falar em comportamentês

texto mariana maca

Eu tenho um grupo de amigos que inclui estudantes de Psicologia (a maioria analistas do comportamento) e estudantes de outras áreas também. Nós, os analistas do comportamento, vez ou outra utilizamos termos da nossa abordagem para nos referirmos às situações do dia a dia, e essa exposição fez com que nossos amigos de outras áreas também passassem a utilizar termos como “reforçador” e “aversivo”, por exemplo, para contar suas histórias. Mas será que essa receptividade acontece com todo mundo? Como será que as pessoas, de forma geral, encaram os termos dessa abordagem super reforçadora? Quais são as variáveis que controlam esse comportamento? É possível manipular essas variáveis em ambiente de laboratório? Ops, acho que exagerei nos termos…

A literatura sugere que, de forma geral, os jargões da Análise do Comportamento (AC) são vistos como abrasivos (duros), ásperos ou severos, e geralmente desagradáveis. Isto pode estar relacionado a alguns termos da AC que já têm uma conotação “negativa” no cotidiano das pessoas como, por exemplo, cadeia (do inglês “chaining”), discriminação (que lembra racismo e outras formas de preconceito), e extinção (que, no senso comum, significa o desaparecimento de uma espécie). Ou seja, já existem pré-associações que fazem com que as pessoas leigas experienciem reações emocionais negativas ao ouvir um termo desses. Imagina dizer para uma mãe que a solução para os problemas de birra de seu filho de 5 anos é colocá-lo em extinção?

Estas reações negativas desencadeadas pela terminologia da área são um grande obstáculo para a AC, em especial para suprir a necessidade de oferecer intervenção analítico-comportamental àqueles que realmente precisam. Na prática clínica, por exemplo, é importantíssimo que a pessoa se sinta socialmente confortável com seu terapeuta, tanto para procurar psicoterapia quanto para seguir as instruções dadas no processo terapêutico. Em termos de pesquisa básica e aplicada, também é fundamental que os leitores de artigos e trabalhos científicos da área possam compreender minimamente a linguagem utilizada.

A literatura sugere que, de forma geral, as pessoas não gostam tanto assim dos termos da AC, mas ao que tudo indica essa questão nunca foi estudada empiricamente. Por isso, Critchfield e seus colaboradores resolveram abordar essa questão em um estudo publicado em janeiro deste ano. Como eles fizeram isso?

Primeiramente eles consultaram uma lista de domínio público com quase 14.000 palavras em inglês, classificadas de acordo com a reação emocional que elas causam. Essa lista foi utilizada em um estudo anterior (Warriner et al. 2013) e foi feita por voluntários estadunidenses por meio de uma plataforma online de coleta de dados chamada mTurk. Foi verificado que esse conjunto de voluntários era representativo da população em questão).

A coleção de Warriner, como foi chamada essa lista de palavras, é classificada pelos voluntários em três dimensões, duas das quais são o alvo do presente estudo. A primeira é uma escala de 1 (infeliz) a 9 (feliz), ou seja, o quanto uma palavra é agradável ou não para o leitor (os resultados, a propósito, usam as palavras agradável e desagradável). A segunda dimensão é uma escala de 1 (calmo) a 9 (animado/empolgado, do inglês “excited”).

Foram selecionados os termos comumente utilizados pelos analistas do comportamento e que estavam disponíveis na coleção de Warriner. Os termos foram divididos em quatro categorias: termos técnicos da Análise do Comportamento (n=39), termos gerais de ciência (n=42), termos de avaliação comportamental (n=34), e termos clínicos gerais (n=35).

Os resultados indicam que – de forma consistente com a distribuição geral das palavras em inglês – em três categorias a maioria das palavras foram consideradas como agradáveis: termos gerais de ciência (67%), termos de avaliação comportamental (67%) e termos clínicos gerais (53%). O mesmo, no entanto, não aconteceu na categoria de termos da AC, na qual 60% dos termos foram classificados como desagradáveis.

O estudo também consultou duas coleções disponíveis de palavras que mostram palavras-alvo, as possíveis palavras associadas a cada alvo, e a frequência com que aparecem. Nesta lista, foram identificadas 6 palavras-alvo que são termos da AC, e o presente estudo mostra quais são as palavras associadas a cada alvo, bem como a classificação dessas palavras associadas nas escalas de 1 a 9. Os resultados sugerem que, de fato, alguns termos da AC podem evocar associações desagradáveis.

Reservadas as limitações do estudo e as condições nas quais ele foi feito (a partir de uma lista de palavras em inglês, por exemplo), os resultados corroboram a hipótese de que os jargões analítico-comportamentais tendem a ser abrasivos, e podem estar relacionados a palavras e significados do cotidiano que as pessoas tendem a considerar como desagradáveis. Isso nos faz pensar que a linguagem utilizada pelos profissionais da Análise do Comportamento é uma variável importante a ser considerada como, por exemplo, nos contextos da clínica e da pesquisa. Em suma, o estudo fomenta a questão: como podemos dialogar sobre Análise do Comportamento sem assustar nossos leitores e/ou ouvintes e sem, ao mesmo tempo, abandonar a função dos nossos termos?

Os autores sugerem que na prática clínica, por exemplo, é interessante evitar alguns desses termos que já são pré-associados com outros significados desagradáveis, ao menos enquanto o terapeuta ainda é um estímulo neutro (ou seja, enquanto a relação terapêutica ainda não se consolidou). Também fica a dica para que continuem sendo feitas pesquisas na área, com o objetivo de entender melhor como se dá a reação dos leitores a determinados jargões da Análise do Comportamento.

Talvez uma forma alternativa de contornar esse problema de comunicação é fazer o que fazemos aqui no blog: discutir sobre artigos científicos como a gente discutiria em uma mesa de bar. Espero que tenha sido agradável e motivador para vocês!

Para saber mais:

Critchfield, T.S., Doepke, K.J., Epting, L.K., Becirevic, A., Reed, D.D., Fienup, D.M., Kremsreiter, J.L., & Ecott, C.L. (2017). Normative Emotional Responses to Behavior Analysis or How Not to Use Words to Win Friends and Influence People. Behavior Analysis Practice, 10(2), pp. 97-106. doi:10.1007/s40617-016-0161-9.

Outra referência consultada:

Warriner, A.B., Kuperman, V., & Brysbeart, M. (2013). Norms of valence, arousal, and dominance for 13,915 English lemmas. Behavior Research Methods, 45, 1191-1207. doi:10.3758/s13428-012-0314-x.

Fonte da imagem: https://www.amazon.com.br/Como-Fazer-Amigos-Influenciar-Pessoas/dp/8504020266

Texto escrito por Mariana Quessada Macca, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos e bolsista Fapesp de iniciação científica no LECH (Laboratório de Estudos do Comportamento Humano – UFSCar).

 As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.

 

É possível modificar o preconceito contra pessoas com transtornos psicológicos?

 

imagem texto julia castro

Pessoas com depressão, TOC, esquizofrenia, dependentes de substâncias psicoativas e outros transtornos psicológicos (TP) há muito têm sido objeto de estudo da psicologia. Porém, o sofrimento envolvido nesses quadros vai além das características que os fazem serem assim rotulados. Pessoas com TP relatam que uma das maiores fontes de sofrimento associado ao seu quadro está no estigma que esses transtornos frequentemente carregam. Estigma é um conceito que abrange estereótipos, preconceito e discriminação. Isso significa dizer que, seja no mercado de trabalho, seja no âmbito das relações íntimas, essas pessoas são vistas e tratadas de uma maneira diferente daqueles que não possuem TP. Esse contexto acaba por impactar em como a pessoa vê a si mesmo, uma autoestigmatização, que pode levar a isolamento, baixa autoestima e baixa autoeficácia. Sim, essa parece ser uma questão com a qual nós psicólogos devemos nos preocupar! A boa notícia é que já há algum tempo alguns pesquisadores têm estudado formas de intervir sobre esse tipo de estigmatização. Hoje vamos falar sobre o artigo de Kenny e Bizumic (2016) sobre este tema.

Os modelos de intervenção clássicos para este e outros tipos de estigmas são: protesto, contato com as pessoas alvo e educação. No entanto, estudos mostraram que o primeiro aparentemente tem efeito contrário ao desejado, ou seja, aumenta as atitudes negativas em direção àquele grupo. Já o contato com pessoas alvo e informações educativas a respeito delas parecem ser efetivos em algum grau. Educação enfocando em bases biológicas dos TP, no entanto, pode ter efeito reverso e aumentar a estigmatização.

Um modelo mais recente de intervenção é através dos princípios da ACT – Terapia de Aceitação e Compromisso. A ACT, além de ser um modelo de psicoterapia comportamental, serve de base para intervenções mais pontuais, como estas com enfoque em redução de estigmas. Na ACT, metáforas, paradoxos e exercícios são propostos para que o participante possa, através da própria experiência, notar a arbitrariedade da linguagem e tomar um distanciamento de seu conteúdo. Assim, não se trata de dar informações e ser convencido a partir delas, mas de vivenciar algo diferente daquilo que estava no “piloto automático”, neste caso, induzido pelo estigma. Dessa forma, intervenções ACT tem o objetivo de aumentar o padrão comportamental de flexibilidade psicológica, isto é, a tendência a agir de acordo com valores pessoais e contingências diretas, ao invés de ser guiado por sentimentos e pensamentos. Pesquisas anteriores demonstraram uma correlação entre flexibilidade psicológica e redução de estigma, mas essa é a primeira vez que [ALERTA DE SPOILER!] um estudo encontrou uma diferença significativa na mudança de preconceito relativo às TPs, comparando intervenção com ACT versus educação.

Outra novidade desse estudo é a escala usada no pré e no pós-teste, a qual mede unicamente atitudes negativas, e não inclui conhecimento sobre o assunto, como em escalas anteriores. Ou seja, mede-se como o participante se sente e está propenso a agir diante de pessoas com TP, o que é o ponto central no preconceito, independentemente do que ele aprendeu a nível de conteúdo elas. Além disso, a escala apresenta quatro fatores, divididos em sub-escalas, os quais permitem olhar para diferentes dimensões do estigma. Eles são: 1) Medo/evitação, diante dessas pessoas, 2) Autoritarismo, que engloba a tendência a controlar e forçar pessoas a tratamento, 3) Malevolência, que endossa a ideia de que pessoas com TP não merecem assistência e simpatia e 4) Imprevisibilidade, ou a ideia de que elas são imprevisíveis. Cada um desses fatores em separado parece ter implicações distintas na forma como pessoas com TP são tratadas em seu dia-a-dia.

A intervenção ACT foi um workshop que focou em exercícios experienciais. Os participantes se engajaram em exercícios que demonstravam a arbitrariedade, automaticidade e rigidez da linguagem e como isso abarca os estigmas. Foi abordado então como a tentativa de eliminar pensamentos (aqui inclusos pensamentos estigmatizantes), paradoxalmente, parece fazer com que eles se façam ainda mais presentes. Foram trazidos dados sobre a prevalência de TP e os participantes foram encorajados a pensar sobre as questões psicológicas que vivenciavam, como eles próprios reagiam a estas e os efeitos que isso tinha em suas vidas. A ideia aqui era que eles notassem, através de sua própria experiência, como a luta contra pensamentos dolorosos frequentemente traz mais dor e os afasta ter ações em direção ao que valorizam. Visava-se, assim, favorecer também a empatia em relação às pessoas com TP, ao passo que práticas de aceitação e não-julgamento foram encorajadas. Em um exercício de observação, mostrou-se que, embora pensamentos dolorosos sejam inevitáveis, é possível escolher não lutar contra eles em prol de viver uma vida plena. Por fim, discutiu-se sobre valores pessoais e os participantes foram convidados a declararem o que valorizam na vida e quais ações tomar para agir de acordo com esses valores.

Já a intervenção com educação baseou-se em oferecer informações sobre TP e estigma, incluindo a prevalência e os possíveis fatores biológicos e sociais envolvidos. Apresentaram-se dados sobre os estereótipos mais comuns para essas pessoas e evidências que refutam essa visão na grande maioria dos casos. Foram discutidas as implicações da estigmatização, tanto no modelo de instrução pelo experimentador, como em grupos de participantes, incentivados a trazerem suas próprias reflexões.

Resultados do pré-teste e pós-teste revelaram que após a intervenção os participantes demonstraram uma tendência menor a estigmatizarem pessoas com TP! Houve um aumento geral de atitudes positivas após ambas as intervenções, porém aumento significativamente maior após a intervenção ACT. Subescalas de autoritarismo e de imprevisibilidade foram as principais responsáveis por essa diferença global. Na contramão desses resultados positivos, houve também um aumento da Malevolência após ambas as intervenções.

Esses resultados, por um lado animadores, por outro preocupantes, nos fazem pensar o quanto o fenômeno da estigmatização é complexo e ainda há muito a ser estudado. Mãos à obra?!

Para saber mais, acesse:

Kenny, A. & Bizumic, B. (2016). Learn and ACT: Changing prejudice towards people with mental illness using stigma reduction interventions. Journal of Contextual Behavioral Science, Vol 5, Issue 3, p. 178-185.

Créditos da imagem: http://events.snwebcastcenter.com/manulife/GBRS/Prod/WSMH/en/mental-health-in-the-workplace/understanding-mental-health/stigma.html

Escrito por Júlia Castro de C. Freitas, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista CAPES.

A ciência do comportamento na era das máquinas

imagem marcelo

Muitos dos progressos no campo de conhecimento científico sobre os processos comportamentais só foram possíveis graças ao uso de máquinas especialmente construídas para estudá-los. No artigo canônico “A Case History in the Scientific Method”, B. F. Skinner explicitou que a necessidade de estabelecer controle experimental sobre o comportamento de organismos individuais em laboratório e de registrar as alterações nos padrões comportamentais decorrentes de certas manipulações feitas pelo pesquisador estabeleceram ocasião para que as engenhocas formadas por labirintos de corredores e passagens com basculantes evoluíssem e se transformassem no aparato que hoje conhecemos por Caixas de Skinner. Elas possuem barras de metal, alavancas, discos com luzes que piscam, dispositivos que liberam cheiros, gotas de água ou comida. Este conjunto de dispositivos automatizados permitem que o pesquisador “crie” um ambiente rigorosamente controlado para animais modelo (ratos, macacos, abelhas, corvos, pombos, leões marinhos). Deste modo, ele consegue determinar de modo relativamente preciso quais são os efeitos possíveis de certos estímulos sobre um padrão de respostas previamente definido. Efeitos de certos estímulos, como por exemplo os reforçadores, podem ser tão sutis que seria praticamente impossível mensurá-los se estes animais estivessem em seu ambiente natural.

A falta de naturalidade do comportamento animal nestes aparatos mecânicos (pressionar barras, bicar discos, mover alavancas, focinhar telas de computador) pode levar a uma visão de que os Analistas do Comportamentos desprezam o estudo de comportamentos específicos das espécies. Esta diferenciação relativa à “essência” do comportamento animal em ambiente laboratorial e em ambiente natural é um dos grandes equívocos acerca da atitude dos behavioristas frente a seu objeto de estudo. O aparato laboratorial funciona como um microscópio que possibilita mapear as relações funcionais entre a atividade do organismo e o meio ambiente. Não se estuda o comportamento de “pressionar uma barra” – no caso de ratos – ou “o bicar um disco” – no caso de pombos. Mas sim, o quanto estes comportamentos são sensíveis às consequências e em que contextos os estímulos antecedentes passam a controlar a emissão dessas classes de respostas. O behaviorista sabe que o aparato laboratorial não oferece meios para a elaboração de modelos de comportamentos mais complexos e relacionados à sobrevivência do organismo. E dado que os comportamentos relevantes que ocorrem no habitat natural das espécies de organismos também devem ser alvo de pesquisas sistemáticas, uma das inúmeras questões que estes cientistas se colocam é como o comportamento dos animais em ambiente natural deve ser estudado?

A observação naturalística, por exemplo, implica na ida do cientista até o habitat de um tipo de animal. Em muitos casos, esta abordagem é considerada como bastante adequada. Porém, um Analista do Comportamento perguntaria se, e em que medida, os animais passariam a se comportar de modo não-natural em decorrência da presença de um indivíduo da espécie humana em um lugar onde não deveria haver seres humanos. Além disso, considerando esta (e outras) possíveis fontes de vieses, qual seria a validade dos dados obtidos em uma pesquisa que utiliza este tipo de metodologia? Convém enfatizar que esta é uma questão sobre a qualidade do controle experimental estabelecido pelo pesquisador e a maneira como os resultados foram registrados, e não um desprezo puro e simples pelas características do comportamento por ele investigado.

Mais uma vez, os progressos científicos em campos desafiadores do comportamento dos organismos podem estar atrelados à evolução de aparatos mecânicos sofisticados que tornem possível o controle experimental de variáveis consideradas críticas para os comportamentos considerados naturais dos organismos. Esta possibilidade foi demonstrada por Anna Frohnwieser, John C. Murray, Thomas W. Pike e Anna Wilkinson, em um artigo publicado recentemente no Journal of the Experimental Analysis of Behavior.

Graças aos avanços nas áreas da robótica e da inteligência artificial, os pesquisadores são hoje capazes de construir robôs que replicam as características corporais e comportamentais de animais reais. A estrutura corporal de um robô pode ser montada por partes moles, feitas de látex. As partes do corpo do animal (braços, patas, focinho, bico, pele, penas) podem ser recriadas a partir de impressoras em 3D e este aparato pode ser controlado por software de computador. Estas réplicas quase perfeitas são apresentadas como “animal estímulo” para um ou mais animais de uma determinada espécie. Deste modo, comportamentos considerados naturais de uma certa espécie podem ser convenientemente produzidos e mensurados em ambiente laboratorial. É importante destacar que graças a estes robôs tem sido possível estudar certos padrões comportamentais extremamente complexos e que, supostamente, só ocorreriam em ambiente natural. Eis alguns exemplos: o reconhecimento e interações sociais entre animais da mesma espécie (co-específicos), comportamento de acasalamento e cópula, cognição espacial e aprendizagem social.

Pesquisas que utilizam robôs podem ajudar a determinar se, ao observarem seus co-específicos, os animais aprendem a executar padrões comportamentais complexos. Atualmente, os pesquisadores procuram evidências deste tipo de aprendizagem observacional em interações entre co-específicos. Entretanto, as interações entre os animais podem se tornar tão complexas e o comportamento de ambos pode vir a ser afetado por tantas variáveis diferentes que os dados obtidos a partir destes experimentos são relativamente difíceis de serem analisados e interpretados. Já os movimentos executados por robôs, bem como outras fontes de estimulação, poderiam ser controlados por softwares criados pelo próprio experimentador. Deste modo, o experimentador poderá definir um “comportamento alvo” a ser executado pelo robô e determinar se este mesmo padrão comportamental passa a ser imitado por um animal que se encontra nas proximidades.

Frohnwieser e seus colaboradores apresentaram um panorama geral sobre como os experimentadores poderão se beneficiar do uso de robôs para estudar comportamentos característicos das inúmeras espécies de seres vivos em condições adequadas de controle experimental e produzindo dados que possam ser analisados com mais rigor. Ao considerarem que a robótica e a inteligência artificial também são campos de pesquisa bastante frutíferos, é possível que novas técnicas surjam e possam oferecer aos experimentadores a possibilidade de estabelecerem controles progressivamente mais sofisticados das variáveis relevantes para o estudo científico do comportamento animal.

Poderíamos, por exemplo, imaginar um cenário no qual robôs controlados por wi-fi se deslocariam dos laboratórios para ambientes naturais para interagir diretamente com animais reais em seu habitat? Chegaríamos ao ponto de construir máquinas que nos permitam estudar o comportamento de animais em ambientes nos quais os seres humanos não sobreviveriam como o ártico ou os mares profundos? Os avanços mais recentes nas pesquisas parecem indicar que sim! Tudo isso poderá ser possível um dia. E, curiosamente, os progressos nas pesquisas experimentais em análise do comportamento, desde o princípio, foram atrelados à evolução das máquinas. Para conhecer mais sobre outras possibilidades de pesquisa e sobre os prováveis destinos da relação entre cientistas do comportamento e as máquinas, leia o artigo “Using robots to understand animal cognition”.

Referência:
Frohnwieser A., Murray, J. C., Pike, T. W., & Wilkinson, A. (2016). Using robots to understand animal cognition. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 1, 14-22.

Fonte da Imagem: http://www.whokilledbambi.co.uk/public/2011/11/4.gif

Escrito por
Marcelo Vitor Silveira
Pós-doutorando pelo Centro de Matemática, Computação e Cognição da UFABC.
Bolsista FAPESP.

#vaitergrevesim  OU  #dia28vamostrabalhar

texto vivian junho

Dias antes da Greve Geral acontecer, a timeline da minha rede social ficou repleta de argumentos (e hashtags – # -) a favor e contra a greve geral. Enquanto lia as mensagens, percebi que, em ambos os “lados”, os argumentos sobre participar ou não da greve apontavam para as consequências da minha decisão para todos os outros brasileiros, e não somente para mim.  Se meus interesses poderiam estar e entrar em conflito com os interesses de todos, como minha decisão deveria ser pautada na contribuição para a construção de um país melhor e na luta por benefícios para todos?

Trocando em miúdos behavioristas, o fato é que existem ocasiões em que nós nos deparamos com um conflito no qual temos que considerar que a produção de uma consequência cultural pode competir com a produção de consequências individuais. E é sobre isso que vamos falar hoje!

Para alguns pesquisadores da Análise do Comportamento, esse fenômeno, bastante complexo, se relaciona com a emissão de um tipo de comportamento aprendido chamado de autocontrole ético, ou seja, é o comportamento que ocorre quando o conflito entre consequências imediatas e atrasadas está associado a consequências mais favoráveis ​​ao indivíduo ou ao grupo, respectivamente.

Explicando um pouquinho mais, o comportamento chamado de autocontrole ético é aquele que (1) produz ganhos menores para o indivíduo (intensidade menor ou reforços menos preferidos, estímulos aversivos ou um custo de resposta mais elevado) enquanto produz (2) maiores ganhos para o grupo como um todo (evitando estímulos aversivos que afetariam todo o grupo, ou produzindo reforços de maior magnitude).

Interessados nessa questão, Borba, Tourinho e Glenn (2016) realizaram um estudo para investigar a seleção, manutenção e transmissão do comportamento de autocontrole ético em um arranjo semelhante a uma metacontingência. Nas metacontingências as interações repetidas entre mais de uma pessoa (como por exemplo, paralisações para realização de reuniões que discutiam melhorias nas relações de trabalho) tem um efeito gerado por elas (chamado de produto agregado, como por exemplo, reivindicações para serem atendidas) que não poderia ser obtida pelo comportamento isolado de cada indivíduo. O efeito gerado (reivindicações) pode ser critério a partir do qual uma consequência cultural seria produzida (no caso, efetivação das melhorias reivindicadas para todos os trabalhadores).  Essa consequência retroage sobre as interações alterando a probabilidade para que ocorra novamente.

Para isso, Borba, Tourinho e Glenn (2016) solicitaram que 36 estudantes divididos em dois grupos, passassem pelas mesmas condições experimentais, em um delineamento ABAB. O experimento era iniciado com 3 participantes (P1, P2 e P3) e após 20 ciclos, o participante P1 era substituído por um novo participante (P4), e vinte ciclos após a substituição de P1, P2 era substituído por P5, e assim por diante. Haviam, assim, três linhagens e cada conjunto de três participantes constituiu uma geração e uma nova geração foi constituída a cada 20 ciclos.

Os participantes tinham como tarefa escolher uma linha de uma matriz 10 × 10, exibida em uma TV. As linhas eram de cores diferentes, dispostas de forma alternada.  A depender da escolha feita o participante poderia ganhar fichas a serem trocadas por dinheiro ao final da tarefa, a escolha pelas linhas pares resultaria no ganho de 1 ficha e as linhas ímpares 3 fichas.

A condição de escolher linhas e ganhar fichas foi chamada de Condição A, nela apenas contingências operantes estavam em vigor, ou seja, dada a tarefa aos participantes fichas plásticas poderiam ser trocadas por dinheiro.

Uma segunda condição foi estabelecida, Condição B, em que a mesma tarefa era solicitada ao participante, entretanto, o participante poderia ganhar, além das fichas (trocáveis por dinheiro) itens escolares que comporiam um kit para ser doado para uma escola pública, representados por selos. Para ganhar os selos, todos os participantes deveriam escolher linhas pares de cores diferentes, assim, passava a existir uma competição entre a produção de respostas que geravam consequências individuais de maior magnitude (escolher linhas ímpares e ganhar 3 fichas) e respostas que geraram consequências individuais de menor magnitude associadas à produção de consequências culturais (escolher linhas pares e ganhar somente uma ficha e o selo).

O interessante desse experimento é que, conforme apontado pelos autores, a produção da consequência cultural exigia que todas as respostas dos participantes na Condição B produzissem consequências individuais de baixa magnitude. Além disso, a resposta de cada indivíduo tinha que estar sob o controle das respostas dos outros, porque cada participante tinha que escolher uma cor que ainda não havia sido escolhida por outro participante durante o mesmo ciclo.

As consequências culturais dependiam do entrelaçamento (e não das respostas individuais), podendo afetar a cultura como um todo. E esse foi um dos resultados apontados pelos pesquisadores, as consequências culturais foram eficazes na seleção de contingências comportamentais entrelaçadas e seus produtos agregados, mesmo com a presença simultâneas das contingências operantes.

O experimento ofereceu parâmetros possíveis a serem ajustados para um estudo mais aprofundado do autocontrole ético sob a ótica das metacontingências e, consequentemente favorece a compreensão do que acontece com as pessoas quando elas se deparam com ocasiões como a aderência ou não à greve. No experimento, os participantes tinham que renunciar as consequências operantes que eram de maior magnitude para produzir a consequência cultural. Na ocasião da greve as pessoas tinham que renunciar ao “dia de trabalho” e, possivelmente ter perdas salariais para produzir de uma consequência cultural, no caso melhorias para todos.

E aí? O que achou? Quer saber mais sobre autocontrole ético, leia o artigo original. Você também pode ler outro texto publicado aqui no Boletim Behaviorista, por João Henrique de Almeida. Acesse: https://boletimbehaviorista.wordpress.com/2015/03/19/autocontrole-etico-estudos-experimentais-podem-traduzir-os-fenomenos-sociais-para-o-laboratorio/

Quer saber mais?

Referência: Borba, A., Tourinho, E.Z. & Glenn, S.S. Psychol Rec (2017). doi:10.1007/s40732-017-0231-6. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.1007/s40732-017-0231-6>

Fonte imagem: http://www.aescotilha.com.br/cronicas/henrique-fendrich/esta-coluna-nao-esta-em-greve/

Outras referências utilizadas: Glenn, S.S. et al (2016) Toward consistent terminology in a behaviorist  approach to cultural analysis. Behavior and Social Issues, 25, 11-27.

Escrito por Vivian Bonani de Souza Girotti, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSCar. Membro do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Docente da Faculdade de Tecnologia, Ciências e Educação – FATECE. E agora, mãe do Theo!

Se organizar direitinho, todo mundo coopera!

texto melina maio

Você que já fez algum trabalho voluntário durante a sua vida, certamente já ouviu aquela clássica pergunta: “Mas porque você está fazendo isso se você não está ganhando nada?”. Todos nós sabemos da importância do trabalho voluntário em nossa sociedade, e que muitas ONGs são capazes de promover modificações reais nas condições de vida de várias pessoas. Como analistas do comportamento, também sabemos que os comportamentos continuam sendo emitidos ao longo do tempo porque são reforçados. Considerando essas coisas, vocês já pararam para pensar o que faz com que os voluntários continuem a exercer suas funções “sem ganhar nada para isso”?

A partir de contribuições da Psicologia Social, sabemos que a presença de trabalhos voluntários aumenta o bem-estar em uma comunidade e que, para o indivíduo voluntário os benefícios são, por exemplo, aumento na satisfação com a vida, diminuição da mortalidade e melhor saúde física e mental. Entretanto, para entender melhor porque alguém se dispõe a trabalhar “sem receber nada em troca”, é preciso fazer uma descrição mais precisa sobre o que mantém este comportamento, “em behaviorês,” uma descrição funcional das variáveis envolvidas no comportamento dos voluntários. Três pesquisadoras da Universidade de começaram a fazer isso e elaboraram uma extensa revisão sobre o assunto sob a perspectiva da análise do comportamento, abordando esses comportamentos cooperativos organizados em trabalhos voluntários, tanto em um nível individual quanto cultural.

O voluntariado é geralmente entendido como uma atividade fora das contingências governamentais, na qual está implicado algum esforço e gasto de tempo. Uma tentativa de definição comportamental do voluntariado sugere que se trata de qualquer comportamento emitido por uma pessoa que seja reforçado pela promoção e/ou aumento das condições reforçadoras para outras pessoas, que não estejam pessoal, profissional ou judicialmente relacionadas a quem o promoveu.

A topografia do comportamento de um voluntário vai depender do contexto no qual esse comportamento ocorre. O comportamento voluntário pode ser um comportamento solitário (como por exemplo, os voluntários do CVV – Centro de Valorização da Vida, que passam horas sozinhos em plantões, aguardando ligações de pessoas que se sentem solitárias e/ou estão pensando em tirar a própria vida), ou pode refletir um padrão de comportamento coletivo (como os voluntários do TETO – uma organização internacional presente na América Latina e Caribe, que trabalha pela defesa dos direitos de pessoas que vivem nas favelas mais precárias; seus voluntários constroem, em conjunto, moradias mais dignas para esta população). Mas, como já sabemos, apenas descrever a topografia de um comportamento não nos auxilia a entender suas relações funcionais.

Em nível individual, o comportamento voluntário pode começar a ser analisado por meio das nossas queridas contingências de três termos. Geralmente, na história de reforçamento dos voluntários, o comportamento colaborativo foi seguido de atenção social. Assim, o operante “colaborar em um trabalho voluntário” pode surgir por meio de operações estabelecedoras bem conhecidas, como a privação de atenção social (neste caso o comportamento seria mantido por reforçamento positivo). Atenção social e reconhecimento público estão entre os principais reforçadores positivos do trabalho voluntário. Entretanto, é possível também que alguém convide uma pessoa a se voluntariar, e que esta pessoa aceite o convite para evitar um mau julgamento por parte da primeira (neste caso o comportamento seria emitido por reforçamento negativo). Uma infinidade de reforçadores positivos e negativos entra em jogo a depender do contexto do trabalho voluntário em si. E ainda, o comportamento de se voluntariar pode ser aprendido por modelação, ao observar outras pessoas sendo voluntárias. Considerando que se trata de um comportamento complexo, é razoável esperar que, quando indivíduos se voluntariam, seus comportamentos não sejam controlados por apenas um reforçador em particular ou por nenhum esquema intermitente isolado.

É preciso ainda considerar que o comportamento verbal tem papel muito importante em comportamentos pró-sociais e cooperativos, como é o de ser voluntário. O indivíduo pode se tornar voluntário ficando sob controle de uma auto-regra: “Ser voluntário é ser uma boa pessoa”, e se comportar em função desta regra. Desta forma, a consequência de ser um voluntário é se considerar uma boa pessoa, o que já é reforçador em si mesmo para a pessoa que elaborou esta auto-regra. Mas como a pessoa em questão pode ter criado esta regra? Podemos imaginar que a palavra “voluntário”, ao longo da vida desta pessoa, tenha assumido uma posição equivalente à palavra “bom”, daí ela achar que sendo voluntária ela está sendo uma boa pessoa. Além disso, nós sabemos que estímulos verbais também podem funcionar como reforçadores em si mesmos, quando certo estímulo é recorrentemente pareado com consequências reforçadoras, como pode ser o caso, novamente, da palavra “bom”. Assim, podemos entender que o comportamento voluntário é multiplamente controlado e mantido por uma combinação de relações verbais e sociais.

Em nível social, o trabalho voluntário pode ser entendido por macrocontingências, que são caracterizadas como a relação entre os comportamentos de todas as pessoas engajadas em uma determinada prática cultural e seu produto agregado (as alterações ambientais produzidas por esta prática). Em termos de macrocontingências, é possível analisar quantos indivíduos estão engajados no mesmo comportamento voluntário, a despeito das diferentes funções e contingências às quais cada um está submetido individualmente. Ao longo do tempo, o efeito do comportamento desses indivíduos pode ser medido e seu impacto social avaliado.

O comportamento de voluntariar-se pode ser entendido também por meio da ideia de cooperação. Sob esta ótica é possível descrevê-lo como um comportamento que traz benefícios coletivos para os indivíduos e para os grupos, emitido quando (para produzir reforçadores, ou remover estímulos aversivos) dois ou mais indivíduos dependem do comportamento de ambos. Partindo do conceito de cooperação, as autoras sugerem que é possível estudar o comportamento cooperativo de maneira empírica, por meio dos procedimentos presentes na literatura sobre cooperação, como os dilemas dos prisioneiros, dos bens públicos, e dos bens comuns, descritos pela Teoria dos Jogos.

Em termos de aplicações práticas, é preciso considerar que, ainda que os voluntários não sejam pagos, as ONGs e demais associações que possuem voluntários gastam vários recursos no recrutamento, treinamento e manutenção dos voluntários. Uma das maiores dificuldades dessas organizações é justamente manter os mesmos voluntários ao longo do tempo e conseguir formar uma equipe de trabalho mais estável e experiente, e, consequentemente, oferecer um serviço mais eficiente para as suas comunidades. É neste ponto que as autoras defendem que se trata de uma oportunidade para os analistas do comportamento aplicarem os princípios básicos da nossa ciência para promoverem o trabalho voluntário nas organizações e criar mudanças positivas, tanto em nível pessoal quanto social, além de relatarem também que este é um campo de estudo muito pouco explorado pelos analistas do comportamento e que trabalhos empíricos sobre o assunto serão muito bem-vindos. Então, partiu começar um grupo de pesquisa sobre isso!?! Algum voluntário? o/

O assunto despertou sua curiosidade? Recomendo muito a leitura do artigo original:

Brayko, C. A., Houmanfar, H. A., & Guezzi, E. L. (2016). Organized cooperation: A behavioral perspective on volunteerism. Behavior and Social Issues, 25, 77-98.

Se você quiser conhecer também as organizações voluntárias citadas no texto, aqui estão seus sites:

http://www.cvv.org.br/

http://www.techo.org/paises/brasil/

Fonte da imagem: http://mbagestaodenegociosivunisul.blogspot.com.br/2010/04/trabalho-em-equipe-espirito-de.html

Escrito por Melina Vaz – Bióloga, Mestra e doutoranda em Psicobiologia, quase psicóloga e voluntária no Projeto de Ensino Interdisciplinar Comunitário/PEIC-USP, no qual participa um grupo de formação pedagógica para que os professores voluntários se capacitem e possam oferecer aulas cada vez melhores para alunos de baixa renda da cidade de Ribeirão Preto.